Tempestade de Raios.
1 a luz e o som.
Notas iniciais
Tempestade de Raios.
sua cor não se percebe.
suas pétalas não se abrem.
seu nome não está nos livros.
é feia, mas é realmente uma flor.
carlos drummond de andrade.
A chuva bate contra as paredes de pedra pura do castelo e você conta (sim, você conta) o som que elas fazem. Um, dois, três. Cada punhado de gotas que caem ao mesmo tempo é um número e você se distrai. Dezessete, dezoito, dezenove. Você tem só alguns anos de vida — quantos dias de seu nome já passaram? Onze, doze? Treze? — e parece que mal se passaram dois dias desde que você chegou em Winterfell. Você ainda sente o cheiro de sal e de mar impregnado em cada pequeno pedaço de você, e tem certeza que nem mil anos poderiam arrancar isso da tua pele.
Aquele lugar é uma gaiola. As paredes são prisão.
Mas mesmo assim...
— Theon?
O garotinho ruivo está parado na porta do quarto, esfregando os olhos com as mãozinhas que — você sabe — são macias. Ele é pequeno, menor que você, e tem os olhos claros cheios de uma inocência infantil que não te pertence mais. A ingenuidade... Se foi. Você não pertence a lugar nenhum.
— Robb... Vá para a cama. Sua mãe não vai gostar de saber que você está aqui.
— Mamãe não precisa saber. — ele responde, sorrindo daquele jeito contido e discreto, que é uma característica de todas as coisas que ele faz.
— Mas o que é que você está fazendo aqui?
— Achei que você não estava conseguindo dormir. — sua expressão parecia dizer algo como te peguei.
Ele entra, os olhos azulados brilhando, e anda até sua cama. Você pensa — só por um instante — que ele é como um anjo doce, uma criatura celestial que você não tem permissão de tocar. Mas ele se deita do seu lado na cama e o encanto se quebra.
(Quebra mesmo?)
— Você teve pesadelos, Theon? — ele diz, a voz cheia de um medo bobo, e você sorri.
— Não, eu só...
— Você está com saudades da sua casa antes dessa?
— Estou. — ele tem um jeito triste de quem é rejeitado, então você aperta seus dedos entre os dele, de forma meio desajeitada. — Aqui é muito frio.
— E não tem mar.
— Não, não tem.
— Como é o mar, Theon?
— É... Grande. E molhado. Eu acho.
— Molhado. — ele repete, sem propósito. — E é difícil de ficar por perto?
— Às vezes, sim. — Robb sorri.
— Então é como você! O mar é orgulhoso.
— Sim, eu acho que é, então.
— Vamos dormir, Theon. Eu fico aqui, com você.
— Até que eu durma?
— Não.
— Não?
— Para sempre. Eu fico aqui, para sempre.
É momentâneo, é um encanto, mas você quase acha, enquanto sente o calor da mão de Robb contra a sua, que vermelho e neve tem sabor de casa.
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