Tempestade Azul
8 Antes Mal Acompanhado que Sozinho
Notas iniciais
Riley Daniels retirava cuidadosamente as roupas e outros pertences de sua mala, colocando-os em algum lugar do roupeiro logo em seguida. Sua calça jeans preta era um tanto larga, lembrando as calças de uma marginal nas quais muita coisa poderia ser escondida, usava uma blusa bege com zíper fechado que impedia de ver a cor de sua camiseta caso ele usasse uma. Seus cabelos arrepiados chegavam em algum lugar entre os ombros e o meio das costas, estavam presos em um rabo de cavalo, a cor escura contrastava com o verde claro de seus olhos.
Pegou uma calça ainda dobrada, não muito diferente da que usava, e a colocou sobre uma das prateleiras. Ele era organizado, uma qualidade pela qual Adrian agradecia enquanto observava o novo colega de quarto tomando seu espaço no local designado a eles dois e a mais um certo alguém.
Riley havia chegado no início da tarde do último dia de férias, no domingo que antecedia sua primeira aula. Adrian prontamente o cumprimentou assim que o conheceu, procurando estabelecer novas relações com pessoas não tão Browen, por assim dizer. O loiro da natação já lhe causara uma péssima primeira impressão e, se possível, gostaria de evitar vê-lo por um longo tempo, como, por exemplo, o resto do ano letivo. Riley fora diferente, a imagem que passava a Adrian era de um cara relaxado, sem preocupações, ou, em palavras mais negativas, a imagem de um preguiçoso. Riley era mais folgado do que uma pessoa normal, parecia que nada poderia incomodá-lo, por um lado isso era bom, ele não representava ameaça e, por outro, Adrian se perguntava como poderia levar tal pessoa a sério.
Talvez até mesmo estivesse metido com coisas mais pesadas que o álcool, assim como Nate às vezes usava, apesar de não ser tão pesado.
Não... Ainda era muito cedo para tirar conclusões precipitadas e, mesmo que usasse, para ele não teria problema. Porém, talvez fosse muita falta de educação compará-lo a alguém, mesmo que fosse só em sua mente.
E, por fim, ali estava ele: Luke Evans. Adrian teve o prazer/desprazer de conhecê-lo no fim da tarde anterior. Dany e ele passaram a tarde toda juntos, caminhando e andando pelo colégio para que o Signor pudesse conhecê-lo melhor. O tour valera a pena, era uma escola encantadora e mal podia esperar para desfrutar dos prazeres que ela tinha a oferecer. E, por causa desse mesmo tour, se despedira do albino apenas quando o sol estava se pondo no céu alaranjado. Fora aí que voltou ao seu quarto e deparou-se com Luke.
Assim como Riley, Luke também possuía cabelos amarrados em um rabo de cavalo e um belo par de olhos verdes. Porém, era aí que as semelhanças acabavam. Os olhos de Luke possuíam um tom azulado misturado ao verde, enquanto seus cabelos deviam chegar até os ombros quando soltos, pois seu rabo de cavalo era consideravelmente mais curto, e os cabelos eram de um loiro mais claro que os cabelos de Adrian, seu sorriso tão despojado e provocante quanto o dele.
E Adrian lutava para não achar mais semelhanças com ele, não queria gostar de alguém que mexia com Dany, segundo o que ele mesmo dissera. Mas, estaria sendo injusto com ele? Tendo uma opinião já formada sobre o garoto sem ao menos lhe dar uma chance? E ele merecia mesmo uma chance? Eram perguntas que não paravam de lhe vir à mente, invadindo-a como as ondas do mar invadiam a praia durante a maré alta. E, tão incontrolável quanto o mar, assim eram seus pensamentos no momento. Incontroláveis, profundos, envolventes e extremamente perigosos.
A roupa de Luke tampouco revelava algo suspeito: calça jeans escura como a de Riley e uma camiseta manga curta também preta tão curta que deixaria sua barriga à mostra se não fosse pela camiseta violeta que usava por baixo. Adrian tinha que admitir, era uma combinação estranha de roupas, porém, não seria ele a criticar, se o garoto se sentia bem assim, então que assim se vestisse.
E, do mesmo modo que ele observava Riley, Adrian sentia sobre si os olhos de Luke. Um observando o outro, analisando-se. Adrian não aguentava mais tanto silêncio ensurdecedor que, de certa forma, chegava a ser opressor. Queria falar algo e quebrar aquela mudez entre os três, porém, alguém foi mais rápido que ele:
— Faz tempo que vocês chegaram aqui? — perguntou Riley.
Luke e Adrian trocaram um olhar, indagando em silêncio quem responderia primeiro. Obviamente, Luke estava ali havia mais tempo que ele.
— Cheguei faz um mês — respondeu o garoto, deitando-se em sua cama em seguida com os braços cruzados atrás da cabeça em uma postura completamente despojada. — Gosto mais daqui do que minha casa, então todo ano prefiro chegar cedo aqui.
O colégio estava aberto durante o ano inteiro? Era possível chegar cedo? E mais importante, por mais que o lugar fosse praticamente perfeito, Adrian não conseguia se ver ali durante tanto tempo e todos esses meses, pois era só questão de tempo até que a saudade de sua família, ao menos mãe e irmã, e de seus amigos finalmente chegasse.
— E eu cheguei faz duas noites, ontem passei a tarde andando pelo campus para conhecer o colégio.
— Interessante — respondeu calmamente, guardando uma bermuda sobre a pilha de calças. — Eu gosto de ficar em casa, não é ruim. Estou aqui mais porque meu pai me convenceu, mas eu não teria problema nenhum em frequentar um colégio normal, menos... menos tudo isso aqui.
Enfim um gancho de assunto ao qual Adrian poderia se agarrar, algo que podia usar para adentrar na conversa.
A maioria dos jovens de família rica que conhecera eram sim um bando de mimados e egocêntricos que faziam merda e não pensavam direito nas consequências, saindo por aí prejudicando quem bem entendessem, sempre se livrando de apuros graças ao dinheiro dos pais. Exatamente por causa disso que o garoto se considerava sortudo por ter conhecido Nate e Shanola. Claro, muitas vezes os três se metiam em confusão e faziam coisas sem pensar, o que não era nada além do esperado de adolescentes inconsequentes. Porém, Adrian tentava ao máximo fazer qualquer coisa que soubesse que prejudicaria outra pessoa de qualquer modo que fosse, por mais que muitas vezes não fosse capaz de avaliar direito as consequências de suas ações.
Odiava adolescentes ricos, mimados e fúteis. Os odiava especialmente porque já fora assim um dia. E, por mais que doesse admitir, ainda tinha certos momentos seus em que essas características vinham à tona e foram Nate e Shanola que muito o ajudaram a melhorar, a se tornar uma pessoa melhor, por mais que ainda estivesse longe da pessoa que almejava ser, mesmo que ainda não soubesse quem era essa pessoa.
Só que ali era diferente. Ali ele não tinha Nate e muito menos Shanola, o casal não estava com ele naquele colégio. Adrian não negaria que, se tivesse a companhia deles ali, sua estadia sem dúvidas não seria tão tortuosa e solitária. Por mais que fosse egoísta, desejou que os dois houvessem vindo com ele. E tampouco seria ruim dividirem o mesmo quarto. Já considerava aqueles dois como irmãos, viver como tal abriria espaço para muita diversão. Infelizmente, Shanola acabaria em outro dormitório.
— Para mim foi o contrário — confessou Adrian, aos poucos ficava mais fácil conversar sobre o assunto, não que fosse algum segredo. — Meu pai me forçou a vir estudar nesse colégio, eu estava louco da vida por causa disso porque não foi uma decisão minha. Agora... eu até que gostei do lugar, quem sabe não seja tão ruim ficar por aqui.
Luke elevou seu torso, sentando sobre o colchão. Apoiou o cotovelo no joelho e o rosto na mão em uma pose ainda mais despojada.
— Adrian — chamou a atenção do outro loiro —, você não é daqui, é?
— Não — respondeu simplesmente.
Ainda não se sentia confortável o bastante para tentar ter uma amizade com Luke após o que escutara de Dany, mas como ele mesmo dissera, poderiam ser amigos. Não sabia se isso era uma boa ideia, pois por mais que não se importasse com certas bobagens, odiava pessoas que se aproveitavam de outras e, se o que o albino dissera era verdade, então Luke Evans definitivamente se encaixava nessa categoria. Por outro lado... não era porque podiam ser amigos que Adrian seria obrigado a apoiar e a concordar com todas as suas atitudes. Fora que eram colegas de quarto, então seria melhor terem uma boa relação, pelo bem de ambos.
— Eu sou dos Estados Unidos. — Pensando melhor, deu uma resposta mais elaborada. Não faria mal construir alguns vínculos.
— Faz sentido, você tem um sotaque bem forte.
— Sério? — Duvidou das palavras do outro. Notava o forte sotaque inglês em praticamente todos ao seu redor, mas não percebia nada demais em sua própria fala. Era como se tudo que saísse de sua boca saísse neutro. — Não me parece.
— Geralmente as pessoas não notam o próprio sotaque a menos que conheçam os outros — disse Riley, voltando à conversa e enfim fechando o guarda-roupa, colocando a mala em um espaço dentro dele reservado especialmente para essa ação. — Vou ser sincero contigo, vai ser difícil alguém não notar a diferença, mas relaxa que em alguns meses isso vai melhorar.
— Não sei se quero que “melhore”. — Usou propositalmente a palavra que o colega escolhera. Luke pegou o celular, se afastando um pouco da conversa. — Gosto do meu modo de falar, é diferente daqui.
— É bonito. Diferente, mas bonito.
— Obrigado — agradeceu. Os dedos do outro loiro ficaram ainda mais rápidos sobre o teclado do celular, digitando rapidamente o que sem dúvidas era uma, ou várias, mensagem de texto realmente longa. — Também acho o sotaque inglês bonito.
Luke voltou ao mundo, colocando o celular no bolso e batendo duas palmas leves para chamar a atenção dos dois colegas de quarto.
— Se os pombinhos já terminaram com os elogios — disse naturalmente e agora Adrian percebera melhor o sotaque que ele também, sem surpresa nenhuma, exalava —, gostaria de pedir se estão a fim de fazer uma coisa diferente. Que tal uma pequena diversão na nossa última noite antes das aulas?
Os dentes do loiro brilharam em um sorriso e Adrian sentiu um arrepio lhe percorrer até a alma. Aquele sorriso lhe causou um pavor, medo das ideias que poderiam estar rondando a mente do garoto para o qual olhava no momento. No que exatamente ele estaria pensando? Uma diversão diferente?
Logo uma ideia lhe passou pela cabeça. Não... Não poderia ser. Ele não estava planejando fazer nada com Dany, estava? Se estivesse, com certeza essa seria sua última ação em vida. Mas claro, não poderia agir sem ter certeza se era essa mesmo a questão. Para mais, teria que descobrir mais sobre sua maldita ideia.
O que lhe ameaçava agora era aquele sorriso. Aquele maldito sorriso. Era belo como um oásis em meio ao deserto, reluzindo em frescor e esperança para os viajantes. Mas sorrateiro como uma cobra venenosa, escondendo a mais maliciosa das intenções... E aquele sorriso não era bom presságio, não indicava nada bom, era a cobra espreitando no oásis, esperando a hora certa de matar. E Adrian sabia disso, pois conhecia bem aquele sorriso. Era o sorriso de Nate, o mesmo que ele dava quando tinha ideias que quase sempre acabavam em merda.
— O que você tem em mente? — perguntou Riley em nome dos dois. Adrian se dividia entre querer e não querer saber a resposta.
O sorriso de Luke aumentou, fazendo o arrependimento do garoto de olhos azuis crescer rápido. A vontade de sair correndo antes que pudesse ouvi-lo lhe pareceu bem atraente por um momento. Mas se Luke estava planejando fazer mal a Dany, Adrian tinha de saber para impedir.
— O que acham de um pequeno jogo de Verdade ou Consequência? — Fixou os olhos nos dois, não se importando com nenhum outro objeto na sala.
Verdade ou Consequência? Sério? Aquela não era uma ideia um pouco infantil considerando o nível do local onde estavam? Adrian sempre pensou que jovem rico fazia merda, porém considerava mais coisas como fazer pouco caso de pessoas menos privilegiadas e beber até cair em festas, nunca lhe passou pela cabeça um jogo de Verdade ou Consequência. Essa era nova até para ele, pois mal se conheciam e as únicas vezes em que ele jogara esse jogo, estava entre amigos.
— Apenas nós três? — indagou Riley.
— Não, nem pensar — desdenhou. — Conheço uma galera, e podemos convidar a nossa turma também. Quanto mais gente melhor.
Ótimo, aí estava a sua chance. Talvez fosse sua única chance de saber como Luke realmente era, pois a ponte acabara de ser firmada, era sua oportunidade. E o melhor: precisaria de apenas um ou dois comentários.
— Nesse caso, tem alguém que eu quero convidar.
Seus colegas sorriram e trocaram um olhar safado.
— Ui, ui, ui — debochou Luke em meios às risadas, não sabendo se a provocação iria enfurecer ou deixar o outro sem-graça.
— Não, seu retardado, é só um amigo.
— Quem é? — O de cabelos negros perguntou, curioso. — Estudamos aqui há mais tempo que você, talvez nós o conheçamos.
Riley Daniels... realmente, um garoto que Adrian não conseguia decifrar por completo. A única coisa que poderia dizer dele era que provavelmente era preguiçoso, mas considerando que estava em um colégio de elite, melhor que diversas universidades, a afirmação não poderia ser verdadeira. Pelo menos, em momento algum seu nome foi citado por Dany como sendo um de seus bullyings.
— Não sei se vocês conhecem, ele não é muito sociável. O nome dele é Dany.
Dois pares de olhos verdes se arregalaram quando o nome do albino foi pronunciado. Um com pura curiosidade, como se não acreditasse que alguém teria se aproximado de Dany e, o outro, com curiosidade mesclada a deboche, uma combinação não muito sutil de sentimentos.
— Dany? — Luke foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Dany Zanotti?
— Fico surpreso. — Riley também comentou. Então ele também era outra pessoa que perturbava Dany? Era só o que faltava: dividir o quarto com pessoas assim. A cada minuto que ficava ali, só piorava. — Eu sempre o via por aí, sempre sozinho... achei que não tivesse nenhum amigo.
— E não é para menos, ele é estranho. — Os punhos de Adrian agarraram com força a roupa de cama ao escutar tais palavras. Tudo bem, Dany podia mesmo ser um pouco estranho, ele não negaria, mas isso não era motivo para isolá-lo ou dele suportar o que passava. — Jura que é amigo dele?
— Sim. — Adrian tentou se conter, mas algo deve ter escapado por sua voz, pois Luke assumiu uma postura de defesa.
— Tudo bem. — Levantou os braços em sinal de rendição. — O nerd pode jogar. Mais alguém que vocês queiram convidar?
Adrian e Riley trocaram olhares, ambos sem nada a dizer.
— Não? — perguntou Luke ao que ambos confirmaram. — Ótimo! Adrian, vem comigo. Preciso da sua ajuda para preparar tudo para jogarmos. Que é basicamente conseguir a bebida.
— Quer dizer comprar bebida? — Adrian se levantou, imitando o movimento do outro que se movia em direção à porta.
— Não, eu quis dizer “conseguir” mesmo.
Adrian estranhou o uso da expressão, mas não contestou. Em vez disso, quando Luke deixou o quarto, ele se virou para Riley e pediu que convidasse Dany para o jogo em seu nome, dando uma descrição rápida do menino e dizendo qual era seu quarto.
— É o que? — perguntou, a informação demorando a ser processada. Aquilo só podia ser brincadeira. — Nem pensar!
— Está com medo? — Luke o provocou com humor. Não encarava o colega de quarto, mas sim o observava logo à frente de dele. Os garotos analisavam o estabelecimento, um com interesse e outro com descrença, enquanto a sombra de uma árvore os protegia do sol. — Umas quatro garrafas de vodca e duas de energético está bom.
E era para isso que Luke Evans o havia trazido até ali com ele: para roubar um bar. Roubar era algo que Adrian jamais fizera antes em sua vida. Bom, pelo menos nada além de doces e balas quando era criança, mas depois que crescera jamais voltara a repetir o ato.
— Não tenho nada para carregar as garrafas. — Procurou apelar para a lógica contra aquele pedido idiota e sem sentido. Afinal, realmente não conseguiria carregar seis garrafas por si só até o dormitório. — Então parece que não vou poder pegar as bebidas.
Pela primeira vez desde que deixaram o dormitório, Luke o encarou nos olhos, como se previsse aquela estratégia e estivesse preparado para ela.
— Não se preocupe, não sou louco de mandar você sozinho — disse ele. — Uma amiga vai se encontrar contigo logo e vai trazer uma mochila com ela, não precisa se preocupar, a única coisa que você realmente precisa fazer é invadir. Agora é sua melhor chance, antes que o movimento por aqui aumente.
Ouvindo aquilo, tudo parecia bem simples e prático, tudo fora, ao que os fatos indicavam, premeditado. Horário com menos movimento? Luke planejara aquilo. Mas por que ele? Por que Adrian? Certamente conhecia Riley havia mais tempo e, nesse caso, não faria mais sentido perguntar a ele? Seria alguma espécie de teste?
Será que valia mesmo apenas fazer isso? Roubar um bar? Se bem que tecnicamente não estaria prejudicando ninguém, ao menos não ao ponto em que fizesse diferença para a pessoa, afinal, considerando o nível financeiro de tudo ali, o dono do bar deveria ter dinheiro o suficiente para se manter. Apesar de pequeno, era um bar de qualidade, não aqueles que se via caindo aos pedaços.
Então a possibilidade de concordar com aquilo existia? O que havia se tornado? Mas, se aquilo o ajudasse a fazer amigos, seria assim uma coisa tão ruim? E seria apenas uma vez, não é como se o ato fosse se tornar parte de sua rotina.
— Não consegue? — disse Luke, provocando-o. — Achei que você fosse um cara divertido, mas parece que eu me enganei.
Adrian revirou os olhos. Não precisava ser amigo de Luke, porém seria bom ter amigos além de Dany e, ao que lhe parecia, o loiro que ali estava conhecia muitas pessoas. Ele poderia introduzi-lo a um grupo.
— Eu vou. — Não esperou uma resposta e deixou a sombra da árvore. Atrás de si, ouviu passos apressados. — Quando sua amiga chega?
— Logo.
— E você? Vai ficar só olhando?
— Até parece. — Sorriu, mudando a sua rota para o lado da frente do bar. — Eu vou distrair o cara.
Nenhum dos dois perguntou mais nada, em vez disso se afastaram, cada um no próprio caminho, Luke para o atendimento do bar e Adrian para os fundos. Teria que confiar nele agora e sentia suas dúvidas quanto a isso, o garoto parecia duvidável. Só esperava que ele não o entregasse e conseguisse distrair quem estivesse lá por tempo o suficiente.
Nos fundos havia uma porta. Adrian se apoiou de costas na parede despojadamente e observou ao redor, certificando-se de que não havia ninguém por perto, ninguém para vê-lo entrando no lugar às espreitas, de um modo que não parecesse suspeito. Havia pouco movimento, ninguém o notaria ali. Sem se demorar mais, pôs a mão na maçaneta. Considerou seriamente ter de arrombar a porta, sem saber como fazer isso discretamente, pois não discutira com Luke como entraria. No entanto, nada disso foi necessário, a porta estava aberta.
Adrian se viu em uma adega enorme, abafada e malcuidada. Não haviam janelas, as paredes não possuíam pintura e deixavam o cinza emputrefado do cimento à mostra, todas cheias das bebidas alcoólicas mais consumidas, enquanto o chão estava tão cheio que mal havia espaço para andar. O chão, tão cinzento e morto quanto as paredes, estava abarrotado de caixas que também continham bebidas. Adrian não demorou muito para localizar as vodcas na parede e os energéticos nas caixas.
Primeiramente, o garoto se aproximou das garrafas de vodca que, por acaso, ficavam perto de uma segunda porta que certamente levava ao balcão do bar. Tentou resistir à tentação, porém ela foi mais forte e Adrian perdeu a luta interna. Com temor, aproximou o ouvido da porta, tomando o máximo de cuidado possível para não fazê-la ranger. O lado bom? Luke estava fazendo seu trabalho.
— Moço, não tem como fazer mais barato? Eu tenho pouco dinheiro.
— Infelizmente, não posso abaixar mais o preço — disse outra voz masculina.
Silêncio.
— E se eu prometer trazer um grupo aqui, você pode ver de um desconto maior?
Okay, Luke estava seguindo o combinado. E não estava se saindo nada mau, porém era só uma questão de tempo até que ficasse sem assunto, Adrian tinha de se apressar.
Pegou as garrafas e as levou até perto da porta, largando-as de pé em uma posição estratégica para que pudesse sair e transportá-las para uma curta distância sem ter maiores problemas. Depois, correu na ponta dos pés até as caixas com os energéticos, colocando duas garrafas junto às garrafas. Ainda não havia sinais de aproximação vindos da segunda porta. Tudo estava indo bem até então.
Sem querer passar mais tempo ali dentro, Adrian abriu a porta, pronto para sair. Mas houve um pequeno imprevisto. Havia alguém na porta, pronta para abri-la. Uma garota de cabelos negros lisos na altura do pescoço, em seu corpo um vestido vermelho que deixava os braços à mostra, a pele de aparência lisa livre para o vento e o sol, carregava uma mochila negra nas costas.
Seu coração parou por um instante e ele não soube como reagir, podia sentir a cor deixando seu rosto.
— Olá, tudo bem? — Não aja de forma suspeita, Adrian, se controle.
— Tudo. — A garota, muito mais do que bonita, não lhe abriu nenhum sorriso, nada que indicasse algo amigável. — O que está fazendo aqui?
O que ele estava fazendo ali? Era uma boa pergunta. “Eu? Bom, vim aqui para roubar bebida alcóolica para uma brincadeira de adolescentes. E você?” seria a resposta mais sincera, mas ele não podia dá-la.
— Me pediram para pegar algumas garrafas de bebida.
— Então isso quer dizer que não estava roubando?
Outra parada cardíaca. Onde estava Luke quando ele precisava? Será que tinha como piorar? Era claro que tinha, sempre tinha e, se ele não se apressasse, isso logo aconteceria, Luke não distrairia o cara para sempre.
— Roubando? Até parece.
Um sorriso finalmente brotou no rosto da garota. Isso significava que ela comprara sua história?
— Pode parar de fingir agora, Adrian. — Ela retirou a mochila das costas e a abriu para um Adrian completamente confuso. Não havia nada nela. — Sou amiga de Luke, agora anda logo e coloca as bebidas aqui.
Aos poucos, seu corpo foi se recuperando da sensação de perigo, aliviado em saber que a pessoa que o pegara roubando era, na verdade, sua aliada. Mas o alívio não durou muito, pois lembrou-se de que precisavam se apressar antes que o assunto de Luke se esgotasse. Portanto, foi rápido ao pegar os seis recipientes e colocá-los na mochila larga que parecia estar prestes a estourar. Não queria nem saber como a garota, que sorria divertida até mesmo com os olhos negros, conseguia carregar aquilo.
Por sorte, haviam poucas pessoas passando por ali, mesmo sendo meio de tarde, a rua de cima estava completamente vazia.
— Aonde você está indo? — perguntou ao vê-la contornar o bar.
— Buscar Luke, ele pediu para avisá-lo quando acabássemos de pegar as bebidas.
Os dois se aproximaram lado a lado da entrada do bar. Luke ainda estava lá, enrolando um senhor gorducho de cabelos escuros, o mais velho parecia seriamente irritado com sua insistência.
— Luke! — Ela chamou, o loiro se voltou para os dois que o aguardavam. — Já acabamos. Podemos ir agora?
— Claro! — respondeu, em seguida se virando para o homem. — Desculpe, são meus amigos, preciso ir agora.
O rosto do senhor expressou uma mistura de gratidão pelo garoto insistente ter ido embora e raiva pelo garoto insistente ter ido embora sem comprar nada depois de ficar por lá durante tanto tempo, enquanto que Luke parecia ser o mais inocente possível, pelo menos até se virar e abrir um sorriso sacana que, mais uma vez, Adrian associou a Nate.
— Conseguiram? — perguntou assim que se afastaram o suficiente do bar.
— Mas é claro. — Confiante e orgulhosa, a garota apontou para a mochila em suas costas.
— Ótimo! — comemorou Luke. — Agora temos tudo o que precisamos para o jogo.
Claro, o jogo... E por falar em jogo, ainda havia uma dúvida na mente de Adrian que não se calava:
— A propósito, só por curiosidade, qual é seu nome? — perguntou Adrian a ela.
Virando-se seriamente para seu questionador, ela ajeita uma mecha de cabelo atrás da orelha antes de responder:
— Sasha Orlins.
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