Tempestade

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Um anagrama para depressão.

Eu queria ter sobrevivido à tempestade.

Eu queria ter fincado meus pés tão forte contra o solo úmido que meu peso seria igual ao do centro da terra; assim a água não me levaria em seu abraço gelado. Ela molhou o meu cabelo longo, encharcou meus ombros estreitos e inundou meu peito. Precisei quebrar meu maxilar para respirar e meu ar correu pelo meu pescoço como um bastão feito das farpas.

Não dá para respirar quando as algas se enroscam nos seus pulmões e cobrem seu coração com camadas espessas de fungos verdes e azuis. Estou morta por dentro, mesmo que meus lábios entreabertos e rosados não revelem a verdade dessa triste constatação. Meus olhos piscam e repiscam, mas nada vejo. Não há nada interessante para ver quando a chuva te leva como um tronco.

E há algo para sentir? Mesmo que os dedos não façam calor?

As pessoas lá de cima se inclinam sobre seus joelhos e dilatam suas pupilas.

Há, garota. Há terra lá. Nade como os outros nadaram. Incline sua cabeça e puxe o ar como eles puxaram. Como você puxou quando deixou as entranhas da sua mãe. Criança, há vida. Lá existe um lugar com sol e campos e flores.

Mas as algas sugam meu ventre. Elas se enroscam na minha espinha. Eu chuto e empurro. Eu puxo e solto. Estou dentro, estou fora. É inútil. Estou chorando lágrimas que não podem ser vistas, pois lágrimas são água e água é tudo o que há aqui.

As pessoas lá de cima me reprovam e mergulham suas cabeças em regadores que cobrem seus narizes. Estão me provando que podem fazer o que eu não faço.

Está tudo bem, agora.

Eu queria ter sobrevivido à tempestade.

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