Tempestade
2 Break The Ice
Quatro anos antes...
Eu estava indo para a confraternização da emissora em que eu estava trabalhando, seria uma festa privada em um karaokê. Lembro como se fosse ontem de quando fui chamada para o teste de um novo seriado, foi uma surpresa para mim e para a minha tia.
Minha tia... Acho que ela acreditou mais em mim que eu mesma. Ela sempre insistia para que eu não desistisse que eu deveria valorizar meu talento para musica. Minha tia sempre procurava agências de talento para mim e quando consegui o papel ela vibrou, enquanto eu era tomada por inseguranças e medos.
O fato é que ser atriz nunca foi uma alternativa e nem um objetivo no meu "caderno de sonhos e metas", eu sempre preferi o canto, a musica sempre me acalmou.
No começo, minha personagem faria uma participação pequena, de quatro episódios no máximo, mas eu consegui agradar o público e os executivos, então acabei ganhando participação regular.
— Chegamos.
O motorista parou o carro e em seguida abriu a porta para que eu pudesse descer. Agradeci e segui para a entrada, onde eu tinha que posar para os fotógrafos que estavam ali para cobrir o evento e dar entrevistas. O flash das câmeras quase me deixava cega e por ainda ser uma menina tímida, eu me sentia desconfortável ao ter que posar para fotos, mas sempre tentava ser mais educada possível. Depois disso, tive que dar entrevista para alguns repórteres que na maioria das vezes faziam perguntas bobas, mas eu respondia com o maior prazer.
Finalmente entrei na festa e estava cheia, tratei de me sentar com o resto do elenco.
O que eu sempre gostei no cast de Undercover é que desde o inicio sempre nos entendemos bem. Era como se fossemos uma grande família e me ajudaram bastante quando começaram as gravações. No primeiro dia, eu me atrapalhava bastante em decorar os textos e falar, principalmente por causa do nervosismo. Quando chegou o intervalo, eu fiquei triste com meu desempenho e acabei me isolando do resto das pessoas. Então Dorothy, a atriz que interpreta a protagonista na série, me explicou que era normal que eu estivesse nervosa e errando, mas que o importante era que eu estava me esforçando. Aquelas palavras agiram como um incentivo para mim e passei a me esforçar mais para que meu trabalho fosse bom, também comecei a fazer aulas de atuação. Acredito que Dorothy foi uma das principais responsáveis pela minha personagem ter se sobressaído a ponto de continuar na série por mais tempo.
O elenco comemorava o sucesso da série, que seria renovada para a segunda temporada. Além do sucesso de audiência, havia sido um sucesso na crítica. Os críticos especializados destacavam o desempenho de Dorothy e Peter, que faziam um belo casal de protagonista e também destacavam a mim e Henry, meu colega de elenco e par no seriado, como revelações do ano.
Quando eu aceitei o papel, não esperava ser indicada a prêmios ou ser importante na série a ponto de ser considerada revelação, então as criticas vieram como uma surpresa para mim.
— Barbara, você não quer cantar? Vai ser divertido.
Henry sentou ao meu lado e sorriu.
— Eu não sei, não sei cantar muito bem.
Era mentira, obvio. A voz eu tinha, mas a coragem de cantar na frente de tantas pessoas ainda não tinha aparecido.
— Você mente muito mal, Bárbara. Acha que eu não te escuto cantarolando entre os intervalos das cenas, dentro do seu trailer?
— Bom saber que você é um stalker que fica com o ouvido colado na porta do meu trailer.
Ele riu.
— Bem, é que eu fico pensando se deveria te chamar para sair e quando penso em bater na porta, a coragem vai embora.
Olhei confusa para ele.
— E por que você nu...
— Vem!
Ele pegou minha mão e me conduziu até a parte de karaokê.
— Escolhe uma música.
— Eu não sei...
Ele chegou perto do meu ouvido e sussurrou:
— Se você cantar, eu te chamo para sair.
— Isso era para ser considerado um prêmio?
— Você é medrosa!
— O quê?
— Isso mesmo que você ouviu.
Ele piscou para mim e eu revirei os olhos como resposta.
— Vamos acabar logo com isso.
Comecei a escolher a musica e optei por Against All Odds, do Phill Collins. Aquela música não teria aparecido por coincidência, era uma das minhas músicas favoritas.
Era um sinal.
A musica começou e eu senti que meu coração sairia pela boca. "Você já cantou essa musica milhões de vezes no seu quarto, é só fingir que não tem ninguém te vendo."
"How can I just let you walk away, just let you leave without a trace? (...)"
Optei por cantar a primeira parte da musica calmamente, como se eu apenas sussurrasse. A musica começou mesmo na segunda parte, quando eu comecei a canta-la num tom mais alto. Eu conhecia a musica, conhecia a melhor forma de cantar ela e sabia dos meus limites.
"And you coming back to me is against all odds it's the chance I've got to take...
Eu odiava encher as musicas de gritos, mas era Against All Odds, minha musica favorita, então cantei o mais alto que podia, dentro do meu limite. Pude escutar as pessoas gritarem e baterem palmas e não consegui evitar de sorrir.
Quando terminei e olhei de verdade para as pessoas, me surpreendi ao vê-las de pé. Senti meu rosto queimar de vergonha e ri de nervosismo.
Henry veio ao meu encontro e eu enterrei meu rosto em seu ombro, enquanto ele me abraçava.
— Sinto que vou morrer de vergonha.
— Por quê? Você mandou bem, melhor do que eu esperava. Estou te devendo um jantar. Vem, vamos sentar.
Quando voltamos para a mesa, os outros atores perguntavam onde eu tinha aprendido a cantar e porque eu nunca tinha tentado a carreira na musica, eu respondi que apenas não achava que cantava tão bem assim e que era apenas um hobby.
No final da festa, Henry se ofereceu para me levar em casa, então nos despedimos de todos e fomos no carro dele. A história de ele nunca ter tido coragem de me chamar para sair dava varias voltas na minha cabeça. Eu gostava de Henry, mas eu não queria misturar as coisas, então nunca tentei levar isso adiante.
— Posso perguntar algo?
— O que você quiser.
— Por que você nunca me convidou para sair?
Ele parou o carro, já havíamos chegado na minha casa. Ele suspirou.
— Quer conversar?
— Claro, mas pode ser fora do carro? Eu gosto desse vento da noite.
Ele assentiu. Saímos do carro e nos encostamos no capô.
— Então, aquilo que você falou na festa...
— Eu trabalho desde que eu tinha seis anos de idade. Eu aprendi a ser profissional e a não misturar os sentimentos do personagem com os meus e eu estava conseguindo fazer isso, até que você apareceu. Você me fez sentir algo que eu nunca senti antes com outras atrizes, mas eu ainda tinha que ser profissional, por isso nunca te chamei para sair.
Ele entrelaçou sua mão na minha e ficamos em silencio por um tempo.
— O que vamos fazer agora que eu sei do seu segredo?
— Podemos esquecer o que eu falei.
— Ou a gente pode fazer isso.
Então eu aproximei meu rosto e o beijei. Enrolei meus braços em seu pescoço e ele passou a mão em minha cintura. Ele beijava bem, mas eu sentia que estava faltando algo.
Quando nos separamos, eu me despedi dele e entrei em casa com cuidado, pois minha tia e meus primos já deveriam estar dormindo. Tirei os sapatos e subi as escadas sem fazer muito barulho até o meu quarto. Fechei a porta e deixei meu corpo cair até o chão. Eu não sentia borboletas no estômago e nem frio na barriga, minhas pernas não se estremeceram quando ele me tocou. Eu não tinha sentido nada, tinha sido apenas um beijo.
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