Tempestade

1 Capítulo Único - Tempestade


Notas iniciais
Dando continuidade a revisão dos meus trabalhos antigos, essa é a segunda fic que estou repostando do ciclo Tempo. Na verdade, essa foi a primeira fic do ciclo que escrevi.

Mais notas no final, espero que gostem!

Boa leitura.

Tempestade

Por Andréia Kennen

Capítulo Único

A chuva desabava torrencialmente sobre o Santuário. O jovem de longos e volumosos cabelos azuis corria desesperadamente, ofegante, fugindo dos pingos grossos e das pedras de granizo que começavam a cair e atingiam-lhe o rosto e o corpo causando hematomas.

Cessou a corrida ao alcançar uma ruína que ainda ostentava um teto. Passou os dedos pelo rosto e sentiu aquele líquido quente e rusguento contrastando com o gelado da chuva, ele provinha de um ferimento que se abrira na testa.

Trouxe os dedos diante dos olhos e admirou o tom carmesim brilhante. Esfregou os dedos uns nos outros e achou agradável a textura. Foi então dominado por aquele estranho e adverso desejo: o de provar o gosto que o seu próprio sangue teria. Sem nenhuma pretensão de lutar contra aquele instinto bizarro, elevou os dedos sujos até a boca e os lambeu. O sangue tinha um sabor peculiar, todavia, não era ruim. Sorriu.

Precisava de mais um tempo para recuperar o fôlego perdido na corrida, por isso recostou-se na pilastra que sustentava a ruína e seus olhos curiosos se moveram procurando por algo que não podia ser visualizado de onde estava. Era óbvio. O topo não podia ser visto de tão baixo.

Sentiu uma pontada latente na cabeça e seus ombros pesaram de repente. Sacudiu-a ligeiro, tentando se livrar do desconforto daquele sentimento chamado culpa. Não podia se arrepender de suas decisões, menos ainda do castigo que empregara à ele, que era seu próprio sangue.

Fitou os pés quase descalços. A corrida arrancara lascas das sandálias e podia sentir a viscosidade da lama que corria com a enxurrada vinda de cima. Sim, a água cristalina que caía torrencialmente dos céus lavava a montanha logo acima, o templo de Athena em seu topo, o salão do Grande Mestre, as Doze Casas, purificando tudo, deixando-os limpos e reluzentes novamente.

Enquanto toda sujeira que escoava seguia direto para onde ela deveria ficar: na sarjeta.

A dor de cabeça aumentou, passou a sentir uma forte vertigem. Talvez fosse devido aos excessos daqueles últimos dias. Seu corpo estava no limite devido aos treinos exaustivos e sua mente em frangalhos devido ao irmão.

Nunca suas vestes estiveram tão imundas, nunca se sentira tão sujo. Sua túnica de treino antes branca estava recoberta por respingos de lama e do sangue que escorria dos seus ferimentos.

A tontura ficou mais forte.

“Será que é esse ferimento na cabeça?”, perguntou-se confuso.

Trovões e relâmpagos orquestraram no céu coberto por nuvens cinzentas.

— A fúria dos deuses...

Sentia que um dia seria punido pelo que fizera à ele e até mesmo pelo que ainda estava prestes a fazer.

Sentiu uma forte dor, seu peito se comprimiu.

— Idiota...

Arregalou os olhos, ao ouvir novamente aquela voz que o perseguia para onde quer que fosse e parecia falar diretamente dentro da sua cabeça.

Você é muito fraco, humano! Fraco! Se continuar fraquejando jamais alcançará seu objetivo! Não tenha medo de assumir um lugar digno no topo onde é o seu lugar! Ou é aqui que deseja viver? Em meio a essa lama podre, a sujeira e a imundice?! Não é preferível estar lá em cima? Sendo glorificado como o deus que és?!

— Por quê? Por que meu irmão não pode continuar comigo? Por que ele precisou ser sacrificado em nome da minha ascensão?

— Patético! É claro que para imperar sobre um reino você não pode partilhar da mesma face que outro humano. Livrar-se dos inconvenientes é o primeiro passo para subir a escada da glória!

O cavaleiro elevou as mãos à cabeça e a apertou.

— “Inconvenientes?” — indagou-se, irritado. — Está falando que o meu irmão, sangue do meu sangue, é um inconveniente? Isso é um absurdo! Eu não posso deixá-lo morrer naquele lugar. O que eu fiz é errado... Saia da minha cabeça agora, seu maldito! Pare de me dar ordens! Pare de me atormentar! Eu preciso voltar e libertá-lo! Eu ainda tenho tempo!

Saiu correndo, abafando os ouvidos com ambas as mãos, como se com aquele gesto fosse capaz de abafar a voz em sua mente.

As pedras de granizo voltaram a açoitar seu corpo. Precisava voltar aonde aprisionara o irmão. Alcançar o Cabo Sunion. Precisava libertá-lo. Era a determinação que combatia com a voz que gritava e zombava em sua mente.

— Fraco! Fracooooo! Patético! Ser humano fraco e patético! Se não vencer essa natureza humana jamais alcançará o lugar divino dentre os deuses!

— Cale-se, maldito! Eu não quero ser um deus!

— Agora diz que não quer depois de tudo que fez?!

— Eu não fiz nada!

— Você matou seu próprio irmão. Você matou o próprio irmão em nome da sua ganância! Você o matou!

— Ele ainda não está morto! — rebateu.

— Ele está morto sim! Tudo que conseguirá resgatar é um corpo afogado e sem vida! Corra humano, patético! Vá conferir com seus próprios olhos a desgraça que cometeu! Não tem como voltar atrás! Não tem como remediar desse pecado! Hihihihihehehehahahahahahahaha!

— Não... Ele não está...

Saga era seu nome, em grego significava “duplo”. Era irônico. O destino o batizara com o nome que conduziria sua personalidade durante sua existência.

Continuou correndo, desesperadamente. Enquanto corria sem rumo não sentia dores e nem remorsos. Queria correr até não sentir mais suas pernas, até o chão desaparecer, até seus olhos verdes se enuviarem, perderem a visão. Não pararia, não pararia até por um fim aquela dualidade que o regia para o fundo do poço.

...

Não muito distante dali alguém assistia preocupado aquela estranha cena de fim de tarde e início de noite. Seus olhos verdes, ágeis e atentos acompanhavam a corrida desenfreada e sem rumo do seu companheiro de tropa.

— Aquele rapaz? — estreitou os olhos na direção que o colega corria, tentando identificar quem era. — Não é Gêmeos?

Aioros sobressaltou ao sentir uma mão pequena e quente agarrar-se a sua, virou-se rapidamente e observou o pequeno que esfregava os olhos, ainda sonolento.

— Aioria? Por que está de pé? — perguntou, agachando-se para ficar da altura do irmão caçula.

— O barulho dos trovões — ele explicou, timidamente. Sentindo receio de ser repreendido pelo mais velho por ainda ter medo dos trovões. — Não consigo dormir.

Aioros sorriu e afagou carinhosamente os cabelos ondulados e mais bagunçados do sono do irmão caçula. Estavam na casa de treino que ficava na parte baixa do Santuário. Depois que a chuva começou preferiram esperar passar antes de se recolherem ao conforto da Casa de Sagitário onde viviam.

— Tente dormir, Aioria. Acho que não vamos conseguir voltar para casa por agora. E o seu irmão precisa sair para fazer a ronda.

Os olhos do pequeno Aioria dobraram de tamanho em surpresa.

— Vai sair com esse tempo, irmão? — o questionou preocupado.

— Você não se esqueceu de que seu irmão é o poderoso cavaleiro de ouro de Sagitário, não é? — O mais velho piscou um dos olhos e levantou-se. — Agora volte a descansar, logo essa tempestade vai passar.

O pequeno encheu-se de admiração e orgulhoso diante da imponência do mais velho. Ainda seria como irmão, por isso, precisava começar vencendo aquele medo infantil de trovões. Apertou os pequenos punhos e sorriu.

— Certo, irmão! Eu vou ficar bem sozinho, eu prometo!

— Assim que se fala, Aioria. — O mais velho falou e bagunçou os cabelos do mais novo naquele gesto de carinho, em seguida, saiu para fazer a ronda.

...

O cavaleiro de gêmeos sentia a cabeça girando. Não conseguia mais discernir para onde estava indo e o que queria fazer. A risada que antes o perseguia causando ecos revoltantes havia diminuído. O corpo estava ficando pesado.

— Gêmeos?!

Ouviu um grito ao longe, apesar de ter quase certeza que estava alucinando. A voz lhe pareceu conhecida. A vertigem aumentou e não foi mais capaz de manter o equilíbrio, tropeçou e o corpo foi de encontro ao chão. Mas não se chocou com o solo, fora amparado em braços firmes. A voz que antes parecia longínqua fazia-lhe perguntas. Tentou abrir os olhos e enxergou quem era o homem que se preocupava tanto com ele. Uma face gentil, amigável.

— O que houve, Gêmeos?

— Eu não sei... — respondeu fraco.

— Eu vou levá-lo para sua casa.

— Por favor... não. Eu não quero ir para lá agora — conseguiu pronunciar sua decisão com uma voz ainda mais cansada. A única coisa que Saga não desejava naquele momento era voltar para casa que o encheria de lembranças do irmão gêmeo e daquilo que fizera com ele. — Me leve para qualquer lugar, menos para lá.

Aioros assentiu. Seu peito palpitando com aquele pedido. O cavaleiro morador do terceiro templo estava ferido, pálido, frágil, não parecia em nada o guerreiro imponente que recebera a honra de se tornar o guardião de gêmeos.

— Está bem — concordou. Aioros não entendia o que estava acontecendo, mas resolveu acatar o pedido. Apanhou o companheiro de tropas quase desfalecido em seus braços e seguiu rumo a casa de sagitário. — O que te deixou nesse estado tão degradante, Gêmeos? Você é considerado um dos cavaleiros mais fortes dessa geração e está parecendo um frágil um humano normal.

— Um humano normal... — balbuciou com um sorriso.

Não eram humanos afinal de contas?

...

Adentrou arfante sua casa e seguiu direto para os aposentos onde depositou o amigo sobre seu leito.

— Vou tirar essas roupas geladas — informou-o, mesmo notando que o amigo não dispunha de muita consciência para respondê-lo.

Contudo, Aioros se deteve, tentando compreender aquele vendaval de sensações novas que o apossava. “O que é isso que estou sentindo agora, droga? Mexa-se, Aioros!”, determinou-se e, em seguida, apertou os olhos, segurou com força o tecido das vestes sujas de sangue e de lama e as rasgou, até deixar Saga completamente despido.

Mas bastou abrir os olhos e visualizar o corpo de Saga e seus longos cabelos azuis espalhados abaixo dele para imaginar que estava ficando louco. Seu coração disparara de uma forma que não imaginava que ele seria capaz de bater ao contemplar outro homem. Balançou a cabeça, procurando afastar tais pensamentos que nem sabia ao certo o que eram.

Saga não parecia tão ferido quanto imaginava, seu corpo tinha apenas alguns arranhões e vergões, mas ele estava muito pálido. Encostou o ouvido rente aos lábios dele e num primeiro momento teve a impressão que Gêmeos não respirava.

— Que diabos houve com você afinal, Saga?

Não o conhecia muito bem. Saga sempre fora afastado, contemplativo e misterioso. Mas ouvira rumores entre os moradores de Rodório e os guardas. Rumores que o endeusavam por sua bela aparência, pela expressão gentil e a força. Por esses motivos, sabia que Saga era um dos grandes favoritos ao cargo de substituto do Grande Mestre, assim como ele, Aioros, também era, por motivos diferentes, obviamente.

Porém, se fosse pensar daquela forma, eram rivais.

— Ei, acorde, Saga — pediu, cruzando as duas mãos sobre o peito nu do jovem e pressionando-o uma, duas, três vezes. — Volte a respirar, por favor! Se você morrer aqui na minha casa terei grandes problemas para me explicar — pediu, e em seguida sua boca sobrepôs a boca dele e soprou para dentro do corpo desacordado seu ar, sua vida.

Saga tossiu e Aioros finalmente sorriu aliviado O peito do cavaleiro voltara a subir e descer rapidamente, seus pulmões haviam recuperado o ritmo normal.

— Graças a Atena — clamou, deitando a face esquerda em cima do peito do outro, tendo certeza de que os batimentos cardíacos estavam regulares, ou um pouco acima disso, pois as batidas estavam em um ritmo tão frenético tal quanto as batidas em seu peito.

— O que pensa que está fazendo, Sagitário? — ouviu a voz enfraquecida ralhar-se com certo tom de arrogância.

Aioros ergueu o rosto e seus olhos se encontraram com dois orbes verdes claros lindíssimos de Gêmeos. Sentiu sua face arder de vergonha ao notar que estava praticamente deitado sobre o corpo dele.

— Desculpe-me — pediu apenas, mas não deu tempo de se afastar, pois as mãos de Gêmeos seguraram seu rosto, impedindo-o de fazer qualquer movimento.

— Por quê? — ele quis saber, totalmente desperto.

— Por que eu o tirei da chuva? — tentou entender aquela pergunta, fazendo uma outra.

Aioros sentiu-se um tanto perturbado, Saga desacordado para o Saga acordado havia uma diferença surreal. Seu rosto angelical antes pálido ganhara o tom da vida novamente e estavam afogueados nas bochechas. Os olhos antes crispados agora exibiam-se arregalados em aquela cor verde-água vibrante, pareciam cheios de brilho, determinação. Os lábios frios e arroxeados que sobrepusera há pouco ganharam um tom rosado e estavam úmidos, estranhamente convidativos. Saga e ele deveriam ter quase a mesma idade, entre dezessete e dezoitos anos, ambos ainda eram muito jovens, inexperientes por terem vivido confinados ali dentro, dedicando-se apenas aos treinamentos e a missão de proteger Athena.

— Isso — afirmou Saga. — Por que foi atrás de mim?

— Porque somos companheiros, ora! — respondeu avidamente. — Sei que quase não nos falamos, mas do nada eu o vi correndo na chuva, parecia tão desesperado e sem rumo. Meu corpo apenas se moveu. Eu não deveria me meter nos seus assuntos, mas... você parecia estar sentindo tanta dor, parecia que estava fugindo de algo, de alguém, parecia que precisava de ajuda, então eu apenas fui ao seu socorro — explicou-se e sentiu o rosto arder da vergonha ao terminar.

Saga analisava Aioros atentamente, analisou cuidadosamente cada palavra que saiu de sua boca. Eram rivais. Isso não era segredo para ninguém e, por mais que não tivesse motivo para odiá-lo, não o tinha para serem amigos também. Aioros, assim como ele, era um dos fortes candidatos ao cargo de Grande Mestre. Se não, o favorito. Ouvira muito sobre sua bravura e fidelidade. Tanto que já o fizera invejá-lo e evitar uma maior aproximação. Agora, por ironia do destino estavam ali, tão próximos que conseguia sentia o hálito quente dele roçando sua face. Aquilo causou um sentimento fervoroso em suas entranhas.

— Sabe, Sagitário... — lambeu os lábios ao senti-los ressecar.

— Me chame de “Aioros”, por favor.

— Aioros... — Saga sussurrou, experimentando a sonoridade boa daquele nome imponente em seus lábios, então seus olhos ficaram mortiços, sua expressão contemplativa. — Sabe... Nós seres humanos somos dotados de inteligência, vontade própria, temos a capacidade de discernir entre o bem e o mal, de fazer escolhas, certas ou erradas... Porém, nem sempre essas escolhas serão as mais acertivas.

— O que está querendo dizer?

— Que irá se arrepender.

Os olhos de Aioros se arregalaram, incrédulos.

— Por que eu me arrependeria de salvar uma vida, Saga? — perguntou ríspido, ofendido. — Ainda mais de um companheiro?

Mas ao invés de uma resposta, Aioros recebeu lágrimas. Os olhos do cavaleiro de gêmeos se encheram de lágrimas repentinamente e estas transbordaram pelos cantos dos seus olhos. Sentiu o peito apertar com aquela cena e engoliu em seco, respirou fundo e abraçou o colega.

— Eu não sei o que está te perturbando ao ponto de fazê-lo desejar a morte. Mas não peça para que um amigo compartilhe dessa sua vontade, Saga. Nosso dever como cavaleiros não é somente para com Athena, mas é para uns com os outros também. Precisamos amar a nós mesmos, ao próximo, para conseguirmos dedicarmos um amor puro à nossa deusa.

Saga sentiu o peso de cada uma das palavras ditas por Aioros. Acabou sorrindo em meio as lágrimas. Aioros era mesmo o mais indicado ao cargo de Grande Mestre, ele era verdadeiramente puro de coração, não era como ele, um ser corrompido que fingia ser puro. Sentiu o corpo de Aioros pesar sobre o seu. Ele nem fazia ideia de que podia ser contaminado. Na verdade, sentiu ainda mais inveja do que ele era, e tentado a corrompê-lo.

Envolveu os braços ao redor do corpo dele, afastou as pernas e sentiu o encaixe acontecer entre o ventre dele e o seu.

Aioros quis recuar, apoiando as mãos na cama e tentando se levantar, mas Saga manteve os braços firmes onde estavam, recobrado completamente da energia.

O cavaleiro de Sagitário encarou o rosto de Saga abaixo dele e estranhou sua expressão, ele estava diferente.

— O que está fazendo?

— Estou tentando nos aquecer. Eu quero entender melhor esses sentimentos, principalmente o amor...

— Espera, Saga, não era a isso que eu estava me referindo...

— Está com medo?

Aioros sentiu uma pontada atingir-lhe a boca do estômago. Arregalou os olhos diante da pergunta e da feição desafiadora de Saga. Não acreditava que alguém com uma expressão tão pura, com olhos tão límpidos, pudesse fazê-lo se arrepender por tê-lo salvo. Se ele se referia ao fato de serem rivais, iria prová-lo que aquilo não era mais importante que a amizade. Elevou as pontas dos seus dedos e escorregou-as pela face branca diante de si, tateou os ferimentos feitos pelas pedras de gelos com cuidado. O corpo nu abaixo do seu estava trêmulo, conseguia senti-lo facilmente.

— A única coisa que tenho medo, Saga, é de me arrepender de não fazer o que devo, de não dar o meu melhor todos os dias — confessou, retirando os fios azuis que estavam grudados em partes da bochecha, do queixo.

Saga desviou seus olhos dos de Aioros e encarou a para parede, soltou do corpo dele, desamarrou as pernas entorno da cintura dele e suspirou fundo. A cada palavra que saía da boca de Aioros, sentia-se mais a maçã podre do cesto.

— Saga?

Aioros o chamou com uma voz suave, sussurrada, que causava-lhe arrepios. Crispou os punhos e manteve-se firme.

— Saia de cima de mim — pediu. — Eu vou embora.

— Fale olhando nos meus olhos.

Saga suspirou fundo e voltou a encarar os olhos verdes de Sagitário. Ele ainda estava vestido. Os cabelos úmidos. Sentia seu corpo sobreaquecendo com o calor do dele. Aioros parecia estar pedindo por aquilo, então determinou-se novamente e voltou a envolver o pescoço dele com suas mãos, mantendo-as cruzadas na nuca dele.

— Aproxime-se um pouco mais então — pediu em um sussurro.

Aioros vacilou ao sentir o coração bronqueando consigo, ele batia louco, desesperado. Não entendia porque aquele toque em sua nuca fizera seu corpo todo responder de um jeito estranho. Mas decidiu atender aquele pedido, aproximou os seus lábios aos de Saga e sentiu sua boca secar. Sede. Umedeceu os lábios, engoliu em seco. O corpo nu abaixo do seu estremeceu ainda mais. Saga abriu um pouco mais as pernas, fazendo com que seu corpo se resfolegasse ao dele. Notou-o umedecer os lábios também. Na verdade, não conseguia desgrudar os olhos da boca dele. O sagitariano parou de respirar.

— O que quer me...

Não houve tempo de continuar o questionamento, sequer protestar, Saga havia erguido minimamente sua cabeça e os lábios dos dois se encontraram.

Beijo. Estava sendo beijado.

Não entendeu o que motivou Saga aquele gesto, mas Aioros entendia que era aquilo que também desejava. Precisava corresponder ao beijo, mesmo que não soubesse exatamente como fazê-lo. Mas tentou imitar o gesto do geminiano e passou a mover sua boca sobre a dele enquanto respirava pelo nariz. Sentiu que boca de Gêmeos era macia, doce, úmida, excitante. Levou ambas as mãos ao rosto dele e impôs mais segurança no beijo, aumentando a força e o ritmo gradativamente. Sentiu a língua dele se movimentando sobre seus lábios, então decidiu entreabrir a boca e quando o fez a língua de Saga adentrou e tocou a sua própria língua. Em uma resposta instintiva prendeu a língua dele e a sugou.

Ambos os corpos responderam aquele estímulo quase que instantâneos. Sentiram seus sexos endurecerem como ferro e suas mãos ganharam vidas atrás de novos estímulos.

Raios e trovões estrondaram enraivecidos no céu do lado de fora. A chuva torrencial recomeçava. Podiam ouvir o vento soprando, a fúria da tempestade batendo contra as paredes, fazendo a janela de maneira se debater. Aioros começou a desfazer-se de suas peças molhadas. A temperatura com atrito das peles havia aumentado desesperadamente.

Os dedos de Saga fecharam-se nos fios castanhos amarelados de Aioros, puxando-os cada vez mais para si. Aioros perdera suas mãos no mar de fios azuis que eram os cabelos de Saga. As bocas deixaram os lábios para explorarem novas partes do corpo. A cada novo toque novos arrepios.

Aioros estava embevecido, nunca imaginara que a sensação de tocar o corpo de outra pessoa daquela forma tão íntima fosse tão deliciosa.

Os lábios do cavaleiro de sagitário beijaram o pescoço de gêmeos, desceu para o peito onde encontrou os mamilos que estavam eriçados e passou a abusar deles com a ponta da língua. Saga gemia, se contorcia, murmurava palavras de incentivo.

— Isso, assim. Ah, mais para baixo, mais para baixo — pedia já em desespero.

Aioros obediente desceu os beijos e as lambidas, depositando-os na barriga, na virilha, foi quando chegou àquela região que admirou-se ao ver o sexo do outro homem tão ereto, vibrando e pulsando a cada toque seu. Tocou aquela parte sensível com a ponta da sua língua e sentiu raiva pelo o gemido alto de Saga ter sido abafado pelo som ensurdecedor de uma sequência de trovões.

O coração dos dois pareciam que deixariam seus corpos, tão grande e tão acelerada era a pulsação.

Saga fechou o tecido que encobria o leito em suas mãos ao sentir a boca de Aioros engolfar sua ereção. Quis gritar, tão boa fora aquela sensação, mas conteve-se.

“Libidinoso. Luxurioso. Vagabundo sem pudor. Vai mesmo deixar ser devorado e dominado por esse lixo, seu oponente, inimigo, um reles mortal? Eu disse que você era fraco! Você é mesmo um puto de um fraco! É isso mesmo que você quer, ser a puta de um verme?”

Saga sorriu.

“Sim, é o que eu quero”, respondeu a voz em sua mente.

“Então abra bem essas pernas, sua putinha de merda, por que para receber toda a força da lança sagitariana nesse seu buraquinho estreito tem que ser muito homem para aguentar! E se você se borrar eu juro que irei gargalhar durante dias na sua cabeça! Hihihihihehehahahaha!”

— Faça como quiser...

— Falou comigo?

— Estou dizendo que não aguento mais.

— Quer que eu pare?

— Não! — gritou desesperado com aquela possibilidade. — Se parar agora eu te mato! Eu quero que vá mais além. Eu quero que me possua, Aioros. Entre em mim. Por favor, faça isso. Faça agora. Com toda a força que conseguir.

Aioros arregalou os olhos. Observou seu próprio corpo e admirou-se de como seu sexo estava tão endurecido que conseguia enxergar as veias saltadas. Ele queria tanto quanto Saga aquilo, mas sentiu certo receio ao notar que só tinha um lugar onde poderia entrar e o quanto era pequeno.

— Tem certeza? — quis confirmar.

— Bem mais do que tenho vontade de viver — confirmou com um sorriso.

Aioros retribuiu aquele sorriso, apesar de não ter gostado da comparação feita. Estava trêmulo, mas haviam chegado aquele ponto, não podia voltar atrás. Afinal, ele mesmo alegara ser do tipo de pessoa que se arrependeria de não ter feito algo e não de ter medo de fazer. Então, ergueu as pernas de Saga e posicionou-se entre elas, direcionando seu sexo duro, excitado, na pequena entrada. Após o primeiro movimento, ao notar a expressão de dor que se formou no rosto de Gêmeos, Aioros debruçou-se sobre o corpo dele, alcançou os lábios dele e, antes de beijá-lo, olhando em seus olhos, prometeu:

— Serei gentil.

Saga assentiu e, como Aioros prometeu, tentou ser gentil. Penetrou Saga com sutileza, movimentando-se dentro dele devagar, fazendo-o se acostumar com a invasão e o embalo do seu corpo. Até se habituarem um ao outro. Foi paciente. Beijava-o e acariciava sua face. Os corpos aqueceram-se mais e mais com os movimentos, respondendo e aumentando o compasso por eles próprios. Quando dera por si, Aioros cavalgava dentro de Saga e este pedia para ir mais rápido e mais forte.

— Mais, mais rápido, mais, está vindo, está vindo!

Saga abraçou-se ao corpo de Aioros e retesou-se ao sentir suas paredes internas se contraindo, fora a vez do Sagitariano fazer uma careta de dor ao sentir seu sexo ser exprimido dentro do companheiro e sem mais suportar, o orgasmo veio, fazendo seu sêmen esporrar com força para dentro do canal contraído de Saga.

Ambos soltaram um grito de alívio quase que ao mesmo tempo e segundos depois o Sagitariano caiu ofegante sobre o Geminiano. Ficaram naquela posição por um bom tempo, enquanto aproveitavam, trêmulos e ofegantes, as vibrações e os espasmos que seus corpos ainda davam. Por último, sorriram um para o outro.

— Aioros?

— Hm?

— Você tem certeza?

— Do que, Saga?

— Que não irá se arrepender?

— Você quer que eu prometa? Eu prometo. Saga, por Athena, eu jamais vou me arrepender de ter salvo sua vida nessa noite. Era isso que queria ouvir?

— Sim, obrigado — Saga sussurrou, e os dois se beijaram, seus corpos relaxaram e o sono os tomaram.

Assim como eles, a tempestade também se acalmou, cessou, adormeceu.

...

Segurou a adaga com suas próprias mãos, o sangue gotejou no rosto criança adormecida fazendo-a acordar chorando.

— Mestre?! O que pensa que está fazendo?! Essa criança é a divina deusa Athena que nasce de tempos em tempos para defender a Terra de todo o mal.

— Aioros, seu verme inútil! O que você pensa que está fazendo? Vindo me atrapalhar! Eu vou matar Athena! Vou mandá-la para o inferno junto com você!

O mestre avançou sobre o cavaleiro de ouro Sagitário. Aioros defendeu-se e o golpeou fazendo a adaga e a máscara irem pelos ares. Enquanto o homem tentava encontrar a máscara, Aioros retirou a pequena Athena do berço. Voltou-se para o mestre que tentava encobrir seu rosto com as mãos, mas bastou um entortar de cabeça para que o reconhecesse. O choque fora imediato.

— V- você...

Sentiu arrepios. Depois de tanto tempo, finalmente, a conversa daquela noite tempestuosa fizera sentido. Lambeu os lábios e engoliu em seco, sentindo uma dor latente se alojar em seu peito, da mesma forma que as lágrimas queriam vir, mas esforçou-se para se segurar, para manter tudo em seu devido lugar. O que estava feito, estava feito. E, como havia prometido naquela noite, não iria se arrepender.

— Saga — o som do nome saiu quase inaudível.

— Maldito, Aioros! Você irá morrer!

— Então, você tomou o lugar do Grande Mestre?

— Guardas! Guardas! — gritou o Grande Mestre. — Chamem todos os cavaleiros de ouro! Tentaram matar a deusa Athena! Aioros tentou matar Athena! Traidor! Ele é um traidor!

Não tinha muito o que fazer. Agora era assumir as consequências dos seus atos, custe o que custasse. Pulou para o beiral da janela e antes de fugir salvando a vida da pequena Athena, deu uma última olhada para o homem no quarto e garantiu.

— No fundo tem algo que me consola. A certeza que essas atitudes não condizem com as do homem que eu amei aquela noite. Apenas peço, Saga, se estiver me ouvindo, em algum lugar ai dentro, quando voltar a si, não sofra por mim ou pelo que tiver acontecido comigo. Apenas continue com a certeza que eu mantive minha promessa e eu nunca me arrependi ou irei me arrepender de ter salvo sua vida.

Aioros saltou da janela do alto do templo de Athena com o coração partido e a deusa que também era representante do amor em seus braços. Fechou os olhos, respirou fundo e deixou-se ser preenchido pela energia boa e renovadora que emanava daquele ser tão especial. Sentiu suas forças se renovando e invocou a armadura de Sagitário que revestiu seu corpo rapidamente. As grandes asas douradas se abriram e o ajudaram a plainar naquela noite escura de céu limpo e estrelado. Logo se tornaria um ponto dourado que seria perseguido por vários outros.

O restante da história vocês já conhecem.

Fim.

Primeira Postagem: 27/10/2008.

Notas finais
Essa fanfic foi escrita originalmente para presentear as meninas da Saint Seiya 4 Girls no extinto Orkut há exatamente seis anos atrás.

Ela faz parte do ciclo Tempo. As fanfics desse ciclo contemplam momentos de romances, quase todos picantes (ou seja, com lemon) entre casais de dourados, antes do início da Guerra Santa, ou, antes da morte dos mesmos. Tem como base somente o Anime.

As combinações de casais para essas fics surgiram durante os bate-papos calorosos das integrantes da extinta Saint Seiya 4 Girls no Orkut. Eu não sou uma entusiasta dos Gold Saints, por isso não tenho bem casais de dourados favoritos. Só tenho cavaleiros de ouro preferidos. São eles: Saga, Afrodite e o Máscara da Morte. Mas sou muito mais os Garotos de Bronze do que os de ouros.

Então, para mim, as fanfics com os rapazes dourados sempre nascem em uma tentativa de divertir ou presentear amigos, como foi o caso desta na época.

Tempestade: Saga x Aioros. Tratou do momento após a prisão de Kanon. Saga está quase indo a loucura e é salvo por Aioros, que tratou de consolá-lo. E o fez muito bem. Mas não o impediu de colocar seu plano maligno em prática e acusar aquele que o salvou de traição.

Alvorecer: Aioria x Mu. Foi um presente de aniversário para o meu leitor e amigo o Victor e ela foi originalmente escrita e postada no FanfictionNet em 03.04.2009. Na época eu fiz a fic de acordo com pedido dele, por isso não pude fazer grandes alterações no enredo; visto que ainda é o presente dele. Apenas revisei e melhorei alguns trechos.

Vendaval: Saga x Kanon (twincest). É a última fic que fiz desse ciclo. E ela irá narrar um pouco do passado dos gêmeos, da forte ligação entre os dois, do plano maligno de um deles e o desfecho com a prisão de Kanon no Cabo Sunion. Na verdade, Vendaval, antecede Tempestade. Porque vocês devem ter percebido que Saga estava quase enlouquecendo aqui em Tempestade depois de aprisionar o irmão.

Sim. Todas essas fics tem alguma conexão umas com as outras, por se tratar dos dourados e do passado deles. Apesar de poderem ser lidas individualmente.

Se tenho alguma intenção de dar continuidade ao ciclo?

Sinceramente, eu não sei.

Eu travei completamente na quarta fic que tinha o nome provisório de Estiagem e seria Aioria x Shaka, ela estava sendo escrita para minha amiga Grazie. Mas o Shaka é extremamente complicado de se trabalhar, tanto que ele acabou não concordando com nada na história, muito menos com o parceiro. Então, eu desisti. xD Não quero caçar confusão com um dos cavaleiros mais poderosos de Athena, né? Tenho dó do meu pescoço.

É isso aí, meu beijo coletivo para todos!

Comentem!
Boa semana! o/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!