Notas iniciais
TEMPESTADE É O PRIMEIRO LIVRO DE UMA TRILOGIA. O LIVRO ESTÁ COM PREVISÃO DE SER LANÇADO NO PRÓXIMO SEMESTRE.

Dois de Agosto de 2013 – Rio de Janeiro, RJ

Ela está viva.

Essas palavras me assombraram como uma cruz sendo mostrada a um demônio.

Minha sentença de morte estava impregnada nessas letras. Cada pedaço da minha vitalidade parecia presa a elas. Uma profecia clara: se ela estivesse viva, eu estaria morto.

Como uma garota de quatorze anos estúpida, poderia ter condenado a minha alma dessa forma, usando uma única frase? Eu queria destroça-la, parti-la ao meio, fazê-la sentir tanta dor que imploraria pela salvação. Sim, ela até rezaria para isso.

Porém eu não podia fazer nada. Minha cabeça já estava condenada.

Afundei minhas botas pretas de couro na areia. Hoje eu não estava ligando para isso. O crepúsculo aparecia sobre a água do mar, e algo me convidava a apreciar essa visão. Meus olhos estavam marejados, e não tentei esconder meu rosto ou omitir o fato.

--- Phelipe, você já era. – Murmurei para mim mesmo, para minha imagem turva e escura na água do mar. Senti tanto nojo daquele rosto, que fiquei tentado a eu mesmo arrancar toda a pele do meu corpo.

Como um dia eu pude cair na tentação que essa garota representava? Acreditar nas coisas que ela me dizia, confiar meus segredos mais ocultos, fazer de tudo por ela, dando as costas a toda a vida que eu tinha custado a adquirir? Não, eu não podia crer. Eu traí a todos. Infligi dor a minha irmã. Arruinei sua vida. Tornei-a amarga e fria como gelo. Fui responsável pela morte do meu irmão. Tudo por causa de uma garota maldita, que só queria me usar.

Como ela pode estar viva? Estava desaparecida há tanto tempo. Tatiana a vira em um cemitério, debruçada sobre um tumulo. Provavelmente estava seguindo-a.

Eu sabia que me escondiam algo. Tatiana não havia encontrado com ela por acaso.

Porque então Tatiana não me defendia? Ela sabia que eu não tinha nada a ver com o reaparecimento dela. Não a via há anos. Não tinha ideia de como ela poderia estar viva.

Bufei frustrado.“É o fim, Phelipe. Você está eternamente amaldiçoado a sofrer as consequências do seu fracasso.”Disse a mim mesmo.

Fitei o horizonte com tanta concentração que fiquei hesitante que de repente o céu pegasse fogo, por culpa da ira em meus olhos lacrimejantes. Um vento forte varreu a praia. As pessoas estavam indo embora, provavelmente por causa do tempo que devia estar frio. Eu não sentia nada. Se estivesse calor, eu pareceria um ridículo com botas e jaqueta de couro em uma praia. Mas eu não me importava com nada. Arrancaria a cabeça do primeiro que me azucrinasse. Ou a minha própria.

Senti sua presença antes de realmente vê-la. Foi como se alguém tivesse chamado meu nome, e eu me virasse obrigatoriamente para saber quem se referia a mim. Ela estava lá, parada a uns cinco metros de mim. Olhava para o horizonte com a mesma intensidade que eu olhara há segundos atrás. Ela era tão linda quanto à paisagem que nos cercava. O vento soprava-lhe os cabelos castanhos e longos para trás, e fazia com que ela estreitasse seus olhos negros como a noite, e angulasse seu queixo pequeno e arredondado para frente. O colar... Ela ainda usava o colar. Ele brilhava em seu pescoço longo.

Não pude deixar de levar as minhas mãos ao meu pescoço e tocar o lugar onde deveria estar o colar em mim.

Seu corpo ainda era o mesmo. Curvilíneo, magro, alto e esguio. Ela usava camiseta de renda e uma calça jeans com a barra dobrada. Era de se esperar que ainda fosse a coisa mais linda que meus olhos já viram. A última coisa que eles veriam.

--- Não é ela. – uma voz soprou pra mim. Não me sobressaltei. Meus reflexos naturais já tinham me alertado da presença inquietante de Artur.

Lancei a ele um olhar frenético. Ele teria ficado cego?

--- Sei que são parecidas. – ele sacudiu a cabeça, negando meus pensamentos que ele provavelmente acabara de ouvir. – Mas não é ela. Estou afirmando.

Trinquei a mandíbula, disposto a ignorá-lo. Avancei um passo confiante em sua direção. Não deixaria que Artur exercesse nenhum poder sobre mim, ou ela me mataria. E agora, precisava ser o contrário. Meu Deus, eu iria destruí-la. A raiva me consumia. Ela me traíra, e me condenara à morte. Não haveria mais nenhum sentimento bom em relação a ela, meu ego gritava para mim. Minhas mãos imploravam para quebrar-lhe o pescoço.

O vento soprou com força de novo, e esperei seu cheiro preencher meu nariz. Mas algo estava errado. Franzi o cenho. O cheiro que deveria encher as minhas narinas não era esse. Esse era adocicado, feminino. O dela era forte e pungente. Não haveria como mudar o cheiro, haveria?

As roupas também estavam diferentes. Ela não gostava de aparecer tão neutra e simples. Ela usaria vestidos justos e com cores chamativas.

O que mais havia de errado? Ela pestanejou demais enquanto fitava o horizonte. Abraçou-se contra a corrente fria e deu as costas para o mar, seguindo uma caminhada para longe da praia. Não. Ela não era tão fraca, frágil e simples. Ela emanava força, superioridade, sensualidade e invencibilidade. E ela não andava tão lentamente e desajeitadamente.

--- Eu disse que não era ela, Phelipe. – insistiu Artur inconvenientemente ao meu lado. Vi pelo canto do olho que ele sacudiu a cabeça. – Ela é só uma garota normal, de dezessete anos. Posso ouvir os pensamentos dela. Foi ela que Tatiana viu. Eles vão mata-la injustamente.

--- De onde ela é? – perguntei, ligeiramente intrigado.

--- Minas Gerais. Olha, não importa, temos que voltar e arquitetar um plano. Vão destruir a garota errada.

--- E tudo bem, se arrancarem a minha cabeça? Desde que a garota fique a salvo?

Artur respirou fundo. Meus olhos esquadrinharam a garota.

--- Olhe pra ela Phelipe, você terá coragem de aniquilar aquele rosto? – Era uma pergunta retórica.

Sem mais delongas, Artur se afastou, indo embora. Permaneci no mesmo ponto que me encontrava, sem mover sequer um musculo. Os segundos se arrastaram e os meus olhos só tinham um destino. Ela.

Não era ela. Eu soube disso enquanto a acompanhava silenciosamente em uma distância segura, e a ouvia cantar baixinho e melodicamente, com uma voz que não deveria sair desse corpo.

Ela cruzou uma rua e parou de frente a uma casa amarela. Ficou olhando infeliz pra ela, um bom tempo antes de entrar. Saí de trás da sombra da árvore onde me escondera, e me esgueirei tentando espiar pelas janelas. Ela conversou com um homem alto de bigode. Ouvi-a chama-lo de pai. Ela então se virou, e começou a subir as escadas. Dei a volta na casa, tomando o cuidado de ser silencioso. Pude ouvi-la no andar de cima, caminhando com passos lentos e em seguida batendo uma porta. Sei que entrou no ultimo quarto. O único que por sorte, tinha a janela aberta. Não era alto. Ótimo. Escutei outro bater de porta, e depois um leve ruído de chuveiro. Era a minha chance.

Escalar até o quarto foi fácil. Não havia nenhum empecilho. Apenas apoiei meu corpo em uma janela do primeiro andar, e me estiquei até conseguir alcançar o peitoril da janela do quarto dela e puxar com força o resto do meu corpo. Entrei silenciosamente.

O quarto era pequeno. Não tinha nada além de uma cama de tabaco preto embutida em um guarda roupa, e uma escrivaninha de madeira defronte. A cama estava desarrumada, com duas malas imensas abertas sobre ela, e outra jogada no chão. Na escrivaninha estava um notebook prata arranhado e aberto, e um porta-retrato. Uma camiseta vermelha e uma calça de algodão branca estavam dobradas sobre a cadeira da escrivaninha.

Inclinei-me e levei a camiseta ao nariz. Não era o cheirodela, eu já não tinha dúvida alguma. A voz que cantava harmonicamente uma música triste que ecoava pelo banheiro, também não era dela. Era doce demais, fina demais. Mas quem era ela então? Porque eram tão idênticas?

Essa era garota que Tatiana vira. Eu tinha certeza de queelaestava morta. Porém o que faria em relação a ela? Acreditariam que ela era uma cópia?

Não, eles jamais acreditariam em mim. Achariam que eu estava acobertando-a. Só Artur e eu saberíamos que não era ela. Eles nos matariam de qualquer forma. Só havia um jeito.

O chuveiro cessou junto com a música. Arrancaria-lhe o coração, e me salvaria.