Tempestade
2 Dois - A primeira garoa
Oito da manhã. Rafael saía apressado do prédio, ainda terminando de abotoar uma camiseta que parecia um tipo de farda. Os cabelos castanhos bem escuros estavam consideravelmente grandes, tomando forma de cachos lisos e bagunçados. Quem o via passar correndo, arregalava os olhos e procurava pelo motivo que levava o tal garoto a fugir. Diferente dele, que disparava sem nem querer procurar saber quem estava pela frente.
O ponto de ônibus não tinha muita gente quando ele chegou ofegante e com o coração na boca palpitando feito um louco. Sua respiração estava tão ofegante que ele quase se tornou um cosplay-de-cachorro-qualquer , quase com a língua vacilante do lado de fora da boca. Percebeu que sua aparência devia estar no mínimo de anormal quando notou que duas garotas olhavam para ele com cara de desprezo.
–Olá para vocês também... – sussurrou ele sem finalidade que as garotas realmente escutassem.
O tempo passava e Rafael ficava olhando para o relógio no pulso, sussurrando “Vamos, vamos” repetidas vezes. Os dedos enrolavam e desenrolavam no colar que tinha no pescoço, o qual possuía uma conta laranja curiosa e um pingente vacilante em forma de sol.
O ônibus chegou e antes que as garotas pudessem entrar no mesmo transporte que ele, este as ultrapassou fazendo-as murmurar coisas que provavelmente não classificavam a Sra. Dalmarco de forma positiva.
***
O sino da porta soou baixo indicando a entrada de Rafael no restaurante não muito distante onde o ônibus o havia deixado. O local tinha poucas pessoas que ainda aproveitavam o horário de Café da Manhã. Respirou fundo antes de começar a dar passos apressados, para não chamar a atenção das figuras ali sentadas, em direção à cozinha. Procurou desesperado por alguma coisa batendo nas laterais da calça e se aliviou quando enfim tirou um cartão do bolso esquerdo.
O objeto deslizou em uma maquina pequena presa na parede da cozinha que fez um bip depois de lê-lo. Achando que as coisas estavam resolvidas, Rafael se virou com uma cara mais relaxada, porem mudou imediatamente para um tom esbranquiçado quando se se encontrou com o Sr. Carvalho.
–Poderia me dizer as horas, Dalmarco? – disse o homem já na casa-dos-cinquenta que se encontrava com os braços grandes cruzados na frente do garoto que engoliu em seco.
O Sr. Carvalho era um homem rígido. Poucas foram às vezes que Rafael o viu sorrir. “Poucas” do tipo “nenhuma”... Os cabelos grisalhos tinham uma enorme falha que o deixava careca na frente, tornando a testa comicamente enorme. Possuía olhos castanhos neutros, sem nenhuma emoção, os quais deixavam todos sem palavras ao sofrerem a sua temida e conhecida Fitada-No-Estilo-Carvalho. E ali estava Rafael, tendo a sua primeira experiência, com aquelas íris profundas observando-o de uma forma que nem mesmo Orion conseguia amedronta-lo mais (Mentira).
–Oito e vinte cinco, Senhor... – disse o garoto baixando o braço do relógio e cruzando atrás das costas.
–E qual o seu horário de ponto? – perguntou o homem de volta.
Rafael já o tinha visto varias vezes fazer aquele jogo de manter perguntas para que o outro tenha que responder em prova do seu erro. Achava que devia ser uma coisa irritante e humilhante. Agora não só “achava”...
–Er... – pigarreou Rafael quando viu Lucas olhando para ele, de trás de um balcão com varias coisas de cozinha penduradas, balançando a cabeça negativamente e rindo – Sete?...
–Seis e cinquenta e cinco... – corrigiu Sr. Carvalho, um homem nem um pouco chato quando o assunto é relógio. – Ande, antes que eu te dispense sem nem ter terminado o seu meio-período.
Rafael confirmou com a cabeça agilmente e foi em direção a Lucas Cavalcante que agora ria sem dar mais atenção à discussão dos dois.
–Bom dia gente... – disse Rafael sem graça quando passou pelo pessoal que trabalhava naquela área – Não teve graça... – completou batendo no garoto de cabelos castanhos e arrumados com um pano branco que estava ali perto. – Eu só perdi o horário... Não tenho culpa se ele é todo amargo. Deve ser por causa do nome dele...
–Cara, deixa o nome do Sr. Carvalho em paz, dessa forma vai perder o emprego que te arranjei. – disse Lucas tirando o pano da mão de Rafael e colocando em um cesto ali perto com outros panos sujos. Ainda rindo da situação.
–Isso com certeza não pode acontecer. Nem o salario do primeiro mês eu recebi ainda... Eu preciso de dinheiro próprio urgente, cara. Nem que eu tenha que trocar de nome com o Sr. Carvalho só para agrada-lo. – disse ele vestindo um colete vermelho que os atendentes usavam. – Carganel não é tão ruim assim como ele acha, é?
–Não sei pra que você quer dinheiro nessa temporada do ano... Esqueceu do compromisso desse mês? – disse Lucas arrumando a placa com o nome dele no bolso do colete. Ele era garçom, mas se vestia igual a Rafael, que ficava no caixa.
–Nem me fale do acampamento... – disse Rafael pensativo, lembrando-se da ultima vez que havia saído do refugio de semideuses na companhia de Alice, Matheus e Luana.
–Você já está melhor? Com... Você sabe... – disse Lucas pausadamente sem jeito para completar a frase – Camilla.
–Não vamos falar disso... Sério mesmo. – disse ele como resposta, deixando um vazio no meio da conversa. – Mas e a Ivy? Veio tomar café hoje também?
–Veio sim, mas foi embora já faz um tempo, já que o horário do Café da Manha começa as sete, né?...
–Seis e cinquenta e cinco – disse Rafael franzindo a cara e tentando uma imitação exagerada da voz do Sr. Carvalho, fazendo Lucas rir mais um pouco e seguindo para o balcão que o esperava. As outras duas caixas registradoras já estavam ocupadas por Marta e Júlio, que administravam os dois dos três caixas que tinham na bancada.
***
–Eu não aguento mais isso!
A voz ecoava no corredor da casa e Matheus conseguia ouvir nitidamente o jeito calmo e supertranquilo que sua mãe se expressava de onde quer que ela estivesse no recinto. Os passos indicavam que ela vinha até seu quarto e o garoto simplesmente colocou o travesseiro na cara, se preparando para ouvir o que ela tinha para falar.
–Matheus! – gritou ela ainda abrindo a porta e entrando como se ele já estivesse acordado – Quantas vezes eu já avisei que, antes de dormir, tem que checar se a porta da cozinha está realmente fechada?!
–Talvez umas mil, mãe. – disse ele com a voz abafada debaixo do travesseiro.
–Meu filho, tá tendo chuva todo santo dia! – disse ela abrindo as cortinas e arrumando tudo que via pela frente – Quando menos espera... Chó... E ai tudo molha.
Matheus levou um tempo para interpretar que “chó” seria, provavelmente, o som da chuva caindo forte.
–Eu não aguento mais todo dia acordar com uma possa enorme na porta da cozinha. Não aguento. Você está entendendo?!
–Sim mãe... – disse Matheus tirando o travesseiro da cara – Você não aguenta.
–E você não arruma nada. Olha pra isso! – disse ela pegando as coisas espalhadas pelo quarto, como se aquele assunto tivesse alguma ligação com o anterior– Eu não sei mais o que fazer com você...
–Traz o café. – disse ele se virando de bruços na cama.
–Olha para isso! Quanta moeda espalhada pelo quarto... – disse ela catando o dinheiro que via pela frente, sem dar atenção à resposta do filho. – Diz pra mim que não é roubado...
–Não é roubado.
–Verdade?
–Não.
–Olha para isso! Eu realmente não sei mais o que fazer, não seeei!
Ela se dirigiu a porta, fechando nas suas costas, e ainda assim continuou a falar do lado de fora, sem parar.
Matheus se levantou respirando fundo. Pegou o celular e viu que tinha uma mensagem de Alice. Estranho, já que celular é um dos objetos que menos combina com um semideus, sendo um tipo de radar que atrai monstros. Alice sempre foi cautelosa quanto a essas regras de segurança (ela quebrou um celular de Matheus no ano passado em um tipo de chilique) e a única coisa que a faz quebrar essas regras é quando não se existe mais a tal da segurança.
“Tentei falar com o Rafa, mas não consegui. Fiquem alertas, tá tendo fiscalização geral.
Agora começou. Oficialmente.”
Matheus se lembrou de que Rafael pegava o horário da manha e do meio-dia no restaurante, e concluiu que não deveria ter olhado o celular ainda, mas sobre a informação que Alice trazia, não sabia ao certo o que queria dizer. Quem estava fiscalizando o que? E o que tinha começado oficialmente?
Deslizou o dedo para ligar. O numero chamou umas quatro vezes até a voz responder do outro lado.
–Sim... Eu estou vendo! –disse Alice como se Matheus já estivesse conversando com ela e acabado de fazer uma pergunta.
–Vendo o que? – respondeu ele – Alice, sou eu, Matheus... O que exatamente você queria...
–Olhe na janela. Corra e veja o céu. – disse ela interrompendo a fala dele.
Matheus franziu o cenho antes de se dirigir para a janela do quarto e notar uma atividade estranha acontecendo no meio das nuvens que se tornavam cinzas.
O céu abria como se fosse um tornado e do meio da abertura entre as nuvens, rajadas de ventos disparavam em direção à superfície terrestre. Matheus semicerrou os olhos para analisar um pouco mais quando uma das correntes de ar aterrissou ali perto. Não eram correntes de ar comuns, os ventos tomavam formas de criaturas.
–Alice, o que ao certo isso quer dizer? – perguntou Matheus quando observou a coisa olhar para os lados e voltar a disparar como uma simples ventania, a procura de alguém ou algo.
–Estamos em uma pré-ditadura. – foi a resposta da garota.
–Mãe! – gritou Matheus colocando a mão no celular para que Alice não escutasse. – Fecha a porta da cozinha... Lá vem mais uma tempestade.
***
O sino tocou indicando a entrada de um cliente. Rafael se preparou para atender, já que os outros caixas estavam ocupados no momento. Uma figura encapuzada entrou no recinto toda molhada, fazendo Rafael notar que estava chovendo lá fora. “Quando ao certo havia começado a chover?” ele se perguntou quando observou pelos vidros das janelas os fortes pingou baterem como se fossem pequenas pedras.
Ele voltou à atenção para o cliente que entrara. O formato do corpo indicava que era uma mulher, mas o estranho era que mesmo dentro do local, protegida dos pingos de chuva, a tal figura continuava a manter sua identidade escondida debaixo do capuz do casaco preto. Rafael checou discretamente o teto ao seu redor, se certificando que as câmeras de segurança pegariam as imagens se algo acontecesse ali.
Ao chegar mais perto, ele tentou agir naturalmente perguntando o que ela gostaria.
A mulher se manteve calada, fitando ele por debaixo do casaco. Rafael dirigiu o olhar fixo para ela e se surpreendeu quando a identificou.
–O que? – foi o que ele perguntou, mais reciproco do que pra ela. – Não entendo – completou agora sussurrando – O que leva voc... Quer dizer... A senhora a vir aqui?
A figura levantou a mão suavemente, posicionando o capuz um pouco para trás, mostrando mais o rosto.
–Eu... Eu preciso... Eles estão a minha procura. – a mulher falou com a mesma voz neutra a qual ele a havia escutado falar a alguns meses atrás, porém notava que sua fisionomia parecia mais jovem, como se estivesse infantilizando, ao invés de envelhecendo (mesmo que envelhecer não fosse da natureza dela e dos outros).
–Mas o que posso fazer? Eu estou trabalhando... – sussurrou Rafael olhando para os lados, procurando por Carganel e se certificando que Júlio e Marta não estivessem percebendo nada de errado ali.
–Garoto. As coisas não estão fáceis, desde os últimos fatos. Zeus está enlouquecendo por ter ocorrido uma anomalia nos campos de sua responsabilidade. – disse a jovem de cabelos castanhos claros em uma trança que caia para fora do capuz – Ele está ficando cego, preferindo descontar no Olimpo inteiro e se recusando a acreditar em uma força maior agindo por trás de tudo.
–Não me diga que Zeus acha que foi um de vocês. – disse Rafael escrevendo em um bloquinho, fingindo anotar o pedido da cliente. O silencio o fez parar de agitar a caneta e observar com mais atenção os olhos cinza e lunares da mulher. – Diz que não.
–Uma certa necessidade de mostrar poder sob todos está crescendo no deus dos céus. Ele vem implantando ordens para que todos foquem em sua supremacia e vem buscando culpados pelos seus inaceitáveis erros. – disse ela olhando para trás, na direção da porta como se esperasse a entrada de alguém indesejável.
–E o que trás você até mim? – perguntou Rafael olhando também para a porta do sino, sem saber ao certo o que esperar. – O que trás a deusa da Lua até um restaurante como este?
Ártemis o olhou vagarosamente e em seguida suspirou.
–Ele acha que eu sou a culpada pela descida de Orion. Ele acredita que ninguém mais é responsável sem ser a “doente e apaixonada”. – ela disse a ultima parte fazendo Rafael concluir que foram as palavras exatas que o deus deveria ter usado para defini-la.
–Mas isso é um absurdo! – disse Rafael em um tom de voz um pouco alto, chamando a atenção dos outros clientes. – A senhora não deveria recusar assim a oferta de sobremesa! Pode acreditar em mim que você não ira se decepcionar! – disse ele com um sorriso forçado, tentando convencer aos outros que desviaram o olhar, voltando ao que estavam fazendo anteriormente.
– Isso não vem ao caso! – interrompeu ela, ainda sussurrando – Eu não tenho muito tempo, e eles vão estar aqui a minha procura a qualquer momento. Preciso que você saiba Rafael, que grandes mudanças estão para acontecer a partir de agora. Zeus não está nada satisfeito e os acampamentos serão um dos primeiros locais a sofrer consequências.
–E o que quer que eu faça? – perguntou Rafael, ainda sem compreender aonde a deusa queria chegar.
–Você vai precisar abrir os olhos da garota a qual Zeus nomeou como...
Todos os vidros do restaurante estouraram em uma chuva de estilhaços, fazendo todos gritarem de pânico com o susto. Rafael voltou o olhar a procura da deusa para perguntar o que tinha a garota, mas a figura havia desaparecido no vácuo, sem deixar rastros de sua presença.
Das aberturas onde anteriormente eram janelas, correntes fortes de vento entraram fazendo as mesas capotarem pelo salão de jantar. Os gritos dos clientes soavam abafados, ocultos pelo barulho da chuva do lado de fora. Mais correntes de vento entraram no local, porem estas tomaram formas humanoides, fazendo as coisas ao seu redor rodopiarem ou flutuarem para longe de seus corpos.
–Procurem pela deusa! – disse a voz sinistra e indescritível de uma das três figuras feitas de vento que ali pairavam, causando pânico para todos do local. Rafael se perguntava o que a nevoa ao certo transparecia para os mortais, pois, claro, aquilo tudo tinha que ser relacionado ao Olimpo.
–Rafael! – gritou Lucas de dentro da cozinha.
Na área de preparação dos pratos, ao qual não havia sofrido quase nada com a entrada das criaturas-furacões, Rafael se surpreendeu quando viu Lucas tirar o violino da mochila que ele sempre trazia para o trabalho.
–O que eles são? – perguntou Rafael, observando Lucas posicionar o violino no ombro.
–Ventis. – disse em resposta quando enfim encontrou o arco do instrumento. – O que é surreal. Eles não costumam frequentar essa área do planeta...
–Estão sobre comando de Zeus. – disse Rafael quase que aleatoriamente.
Lucas correu em direção ao salão de jantar saltando o balcão de atendimento e caindo ajoelhado sequenciando notas que soavam da mesma maneira magica e serena de sempre. Rafael já havia visto Lucas e Ivy usarem a magia através de musica uma vez, e o Toque de Imobilização foi uma das técnicas usadas por eles na batalha contra os aliados de Orion no ano passado, e Rafael reconheceu no mesmo instante quando os Ventis começaram a perder o movimento dos “membros”.
–Ajude todos a saírem daqui! – disse Lucas continuando a tocar, se levantando lentamente.
Rafael começou a guiar as pessoas para fora do restaurante, passando pelo Sr. Cavalcante que resmungava alto querendo saber o que “diabos” aquilo tudo significava.
–É um plano para sair mais cedo do trabalho! Não está vendo?! – gritou Rafael que pela primeira vez viu o Carganel confuso. Preferia não acreditar que ele tivesse levado a serio o seu sarcasmo, mas concluiu que de qualquer forma estava demitido.
As pessoas aos poucos começaram a evacuar do local. Quando enfim só restava Lucas lá dentro, sustentando um ritmo de notas para manter o feitiço ativo, ele saiu correndo, para não presenciar o acordar das criaturas, encontrando Rafael do lado de fora, tomando chuva com todos os outros, se dirigindo para a cobertura que tinha ali perto.
–Eu preciso avisar a Matheus e a Alice de alguma forma. – disse Rafael, para Lucas enquanto esperavam algum sinal vir de dentro do local “abandonado”.
–Use o celular. – disse Lucas ignorando a cara de oposição que Rafael havia feito. – Qual é? Os monstros já estão aqui... Que diferença isso faria?
Rafael olhou na direção do restaurante que ainda não dava sinal de atividade-monstro dentro dele. Pensou um pouco mais e pegou no celular que estava no bolso. Foi para debaixo da cobertura a qual todos se dirigiam perto do estacionamento e percebeu que não havia ligado o aparelho desde que acordara. Três ligações de Alice. Uma recente de Matheus. Retornou rápido, clicando no nome do amigo, que tinha sido a ultima ligação não atendida. Não demorou muito a atender.
–Rafael! – gritou Matheus do outro lado.
Antes que Rafael pudesse responder, o teto do seu trabalho estourou em uma abertura por onde correntes quase que invisíveis de vento subiram aos céus que inexplicavelmente voltou a ser azul limpo, como se nenhuma chuva tivesse caído a alguns segundos atrás.
–Rafael, o que foi isso? Você está ai?
–Cara... – disse Rafael ainda observando fixamente o ponto onde os Ventis haviam desaparecido no céu. – Você não vai acreditar.
Em um suspiro meio que de alivio do outro lado Matheus respondeu:
–Experimente.
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