Tempest

1 Oneshot


Notas iniciais
Yooo!
Aqui estamos em mais uma porta ao mundo yaoi. Na verdade tive a ideia dessa fanfic enquanto ouvia uma música do Teen Top (não sei se alguém conhece, mas enfim). O MV é tão lindo e fiquei pensando em um yaoi muito louco (por mais que a fic não tenha muito a ver com o MV).
Bom, espero que gostem e se divirtam.
Boa leitura!

-Naruto... Naruto... –Eu chamava pela milésima vez, sem resposta.

Devia estar parado em frente à porta do apartamento do loiro há três minutos, batendo insistentemente. Comecei a ficar estranhamente nervoso, sentindo o som da minha pulsação nos ouvidos, abafando o barulho do corredor do prédio. Aquele idiota deve ter feito alguma coisa estúpida, só para variar. Me abaixei e virei o tapete azul que havia na entrada da porta, tirando a chave reserva que estava embaixo. Naruto ainda escondia as chaves de casa embaixo daquele tapete que compramos há muito tempo, velhos hábitos não mudam. Coloquei as chaves na fechadura com dificuldade, minhas mãos tremiam. Rapidamente, destranquei a porta e adentrei o apartamento. A escuridão pairava, só cortada pela luz atrás de mim. O lugar fedia a algo que não sabia identificar. Acostumados à escuridão parcial, meus olhos começaram a vagar pelo cenário a minha volta, agora irreconhecível. O sofá estava virado, a tevê caída, com a tela possivelmente quebrada, e a estante onde ficava estava apoiada na parede para não cair. A mesinha que se encontrava antes entre a tevê e o sofá estava agora despedaçada num canto; certamente havia sido arremessada com força contra a parede. Caminhei pelo apartamento, temendo o que poderia encontrar. Fui mais ao fundo, onde ficava a cama e o banheiro, tirando roupas jogadas e porta-retratos quebrados do caminho. Fiquei estático quando reconheci uma figura encolhida no chão, como se espremida contra a parede. Agachei e toquei-o de leve. Seus cabelos estavam tão macios como sempre, ele estava virado de costas para mim, suas mãos quentes envolvendo o próprio corpo.

-Naruto. –Chamei, com uma ternura que só ele consegue ter de mim.

Ele se mexeu, mostrando as orbes azuis que brilhavam mesmo na escuridão do apartamento. Fixou seus olhos nos meus, sem uma real surpresa, mesmo que eu tivesse invadido seu lar.

-Sasuke. O que faz aqui? –A voz dele estava rouca, quase como um sussurro.

-Faz cinco dias que você não sai do apartamento. Sua vizinha me ligou achando que tinha acontecido alguma coisa.

Levantei-me e abri a janela ao lado da cama, fazendo um pouco da luz de fora entrar. Não que um céu prestes a chorar fosse animar muito as cores do apartamento. As paredes estavam pintadas em apenas alguns pontos. Devia ser ela que o estimulava a pintar. Com Hinata morta, essa era a última coisa que Naruto iria fazer.

Ouvi um rosnado. Ele se encolheu ainda mais, colocando as mãos sobre o rosto para que a claridade não se chocasse contra seus olhos agora desacostumados com a luz.

-Sasuke, fecha isso. –A voz saiu manhosa, como ele costumava falar comigo quando o provocava.

-Há quanto tempo você não abre esse lugar? Vamos, levanta daí, vou fazer alguma coisa para você comer. –Fui em direção a cozinha, abrindo outra janela. Ao conseguir enxergar com clareza todo o ambiente, percebi várias garrafas de bebidas sobre os balcões, todas vazias. –Se é que tem algo aqui para comer.

-Não estou com fome. –Ele apenas disse, agora com o tom de voz indiferente.

Suspirei, já paciência. Abri alguns armários até encontrar um daqueles bolos instantâneos. Coloquei-o no microondas e peguei um resto de suco da geladeira, o servindo em um copo e o colocando em uma bandeja.

-Acredito que já saiba, mas ficar ai jogado no chão não vai resolver nada.

Esperava que ele fizesse algum comentário agressivo, ou que me jogasse algum objeto perigoso. Ao contrário, ele apenas continuou deitado, encarando a parede pintada até a metade a sua frente. O microondas apitou, fazendo com que eu tirasse meus olhos daquela visão que fazia meu coração se estilhaçar. Coloquei o bolo na bandeja junto ao suco e levei a refeição ao loiro. Me sentei a sua frente e o peguei pelos ombros, fazendo com que se sentasse escorado na parede. Peguei um pedaço do bolo e coloquei entre seus dedos.

-Parece aquela vez que ficou com pneumonia e tive que ficar cuidando de você. Droga, parece uma criança. Você ao menos ouviu o que eu disse?

Naruto mordeu o bolo devagar, como se fosse a primeira vez que comia aquilo. Com a outra mão, pegou o copo de suco com dificuldade e tomou um gole. Depois de acabada a refeição, levei a bandeja e o copo para a cozinha e comecei a organizar aquela bagunça. Coloquei as garrafas numa sacola separada, arrumei a estante da sala e coloquei a tevê destruída perto da porta para poder levá-la para o lixo lá fora. Arrumei o sofá e coloquei a agora destruída mesinha da sala junto à tevê quebrada.

-Por que está arrumando o apartamento? –O olhar emaranhado dele pairava sobre mim, confuso, como se aquilo fosse um pesadelo longo demais.

-Porque isso está um caos, e eu duvido que você vá arrumar.

-Ela costumava arrumar as minhas bagunças.

Naruto olhava fixamente para as próprias pernas, imóvel, como se alguém o tivesse enfeitiçado. Passei as mãos pelos meus cabelos negros, com uma vontade mais do que irresistível de arrancá-los. Achei que depois de duas semanas as coisas teriam ficado um pouco mais fáceis, mas ele parecia tão destruído quanto no velório. Andei até ele e sentei a sua frente novamente, suspirando.

-Já faz duas semanas. –Eu disse.

Ele moveu a cabeça em afirmativo.

-Então não acha que devia ao menos tentar levantar?

Ele moveu a cabeça em negativa.

Apoiei as mãos no chão, olhando o teto. Quando tive conhecimento sobre Hinata, quis matá-la. Segundo os boatos, os dois eram colegas na faculdade e começaram a sair. Ela era doce e ingênua e ele um idiota completo, achei que o relacionamento nunca daria certo. Mas os dias viraram semanas, e depois de seis meses estavam namorando. Queria então matar os dois. Mais um ano e meio e já estavam morando juntos no apartamento dele. Ela já tinha se formado e Naruto, mesmo tendo largado os estudos, estava trabalhando em uma loja de artigos esportivos por ai. Era só uma questão de tempo até ele fazer o pedido e iriam se casar. Há exatas duas semanas algum bêbado acabou atropelando-a. Hinata morreu a caminho do hospital.

-Sei que deve ser difícil, mas vai acabar adoecendo se continuar assim.

-Não me importo. –O tom de voz agora era mais agressivo, óbvio que esse era um assunto do qual ele não queria falar agora.

-Eu me importo. E aposto que ela também.

-Cale a boca Sasuke. Não sabe do que está falando. –Ele fechou os olhos, apertando-os.

-Acha que alguma coisa vai mudar se ficar aqui. Que vai acordar um dia e ela vai surgir assim, do nada.

-Disse para calar a boca. –Ele cerrou os punhos.

-Droga Naruto, se você acha mesmo que as coisas vão voltar...

-Não vão! –O grito ecoou pelo apartamento. Agora eu finalmente percebia vida em seus olhos, mesmo que isso significasse ódio naquele momento. -Se está aqui para me consolar, pode ir embora. Já recebi dezenas de pessoas vindo aqui para me dizer que sabem como me sinto e que sentem muito. Quer saber de uma coisa, elas não tem a mínima idéia de como estou me sentindo agora. E se veio aqui para me dizer que ela morreu, ótimo, porque eu já sei.

-Então quero que explique esse comportamento ridículo. –Eu sei que estava sendo terrivelmente maldoso com ele, mas precisava fazer com que reagisse a isso de alguma forma, mesmo que fosse para me odiar.

-Me deixe em paz, eu ainda decido o que faço com a minha vida. Se quiser ficar aqui deitado para sempre, eu tenho essa escolha.

-Essa desculpa não me convenceu. –Eu o encarava, implacável.

Naruto perdeu a fala, voltou a recostar-se na parede e colocou as mãos na cabeça, puxando os cabelos loiros. A voz saia mais fina, era sempre assim quando ele não sabia mais o que fazer, para onde ir. Estava perdido.

-O que quer que eu faça? Que eu vá lá fora caminhar e sorrir para os vizinhos só para fingir que estou bem, que superei? Quer que eu faça compras normalmente, que eu vá ao trabalho como sempre, que eu limpe meu apartamento como de costume? Não posso fazer isso. Não superei a morte dela. Não sei se vou superar.

A voz ficava mais fina, a respiração quase desesperada. Os cabelos desgrenhados entre os dedos sendo puxados com força. A cena já começava a fazer minha respiração pesar, meu coração bater mais forte.

-Não consigo mais fazer nada. Tento acordar de manha como sempre fiz, mas sinto um peso tão grande dentro de mim que parece que se eu levantar vou morrer. Passo os olhos pelos retratos e tudo me parece tão errado, como se isso não pudesse ser real. Fico nesse apartamento e consigo ouvir a voz dela, vejo essa maldita parede e lembro que não terminamos de pintar porque algum filho da puta atropelou minha noiva... Eu tinha comprado as alianças, ia fazer o pedido na praça em que tiramos a primeira foto juntos, já tinha planos para a viagem que faríamos. E eu perdi tudo em um segundo. Como isso foi acontecer? O que eu faço agora? O que eu...

Não deixei que dissesse mais uma palavra. Por deus, se ele dissesse, eu o mataria. Por puro impulso, o empurrei para o lado, puxando seus braços. Agora estava em cima dele. As orbes azuis me olhavam espantadas, pequenas lagrimas já formadas nos cantos dos olhos. Eu o encarava, irritado. Como uma garota tão estúpida poderia tê-lo feito ficar assim? Como uma garota tão estúpida poderia ter destruído o garoto que eu amo tanto.

-Gostaria que parasse de mentir.

Aproximei meus lábios dos dele devagar, por mais que minha vontade fosse de roubá-los a força, se preciso. O beijo foi calmo no início, e depois desesperado de ambos os lados. Eu sentia tanto a falta daquilo, de poder tocar sua pele e seus cabelos, de poder sentir o corpo dele perto do meu. O cheiro dele me embriagava, os lábios dele me faziam querer tê-lo por inteiro.

Em um segundo de fôlego, no instante da separação dos meus lábios dos dele, sua mão acertou meu rosto. O estalo do tapa ecoou pelo espaço, parecendo fazer as paredes tremerem. Nem precisava olhá-lo para saber que estava visivelmente corado e que a expressão se contraia em raiva. Raiva talvez de si mesmo por ter retribuído o beijo.

-Não estou mentindo. Eu realmente ia casar com ela.

-Já disse para parar de mentir.

-Já disse que não estou mentindo! –Ele gritou, querendo me matar com os olhos.

-Então não é verdade que começou a namorar aquela garota porque precisava de uma desculpa para ficar longe de mim? Não é verdade que só chamou ela para morar com você porque não queria que eu viesse te ver?

Naquele momento eu sabia que tinha passado dos limites. Isso era evidente pelas lagrimas que agora saiam descontroladas dos olhos azuis do garoto a minha frente. Mas já estava farto daquelas mentiras, de todas elas. Sentei-me escorando na parede meia pintada. Meu humor estava tão ruim quanto a tempestade que se formava lá fora. Passei a mão pelos cabelos, tentando controlar a respiração pesada.

-Talvez tenha razão, talvez eu esteja mentindo. –Naruto começou a sussurrar, ainda deitado no chão frio, as mãos no rosto numa tentativa fracassada de esconder as lágrimas. –Depois que nós terminamos, comecei a sair com ela porque não queria mais ver você e me sentir como me sentia. Queria substituí-lo. No começo deu certo. Ela me distraia, eu nem ao menos pensava em você. Mas quando apareceu no meu apartamento naquele dia estragou tudo, foi como se nada do que eu tinha feito tivesse adiantado. Então disse que queria que ela viesse morar comigo para que você soubesse que eu estava mesmo com outra pessoa, e então você sumiria. Mas você continuava aparecendo, mesmo quando eu não estava em casa, até colocou na frente do meu apartamento um tapete azul igual ao que compramos durante aquele inverno. Eu ia casar com ela para acabar logo com isso. Começar uma vida com ela seria encerrar de uma vez por todas com a nossa. Mas ai isso aconteceu. E por culpa minha.

-Onde isso pode ser culpa sua? –Minha voz saiu fraca, meu olhar sobre sua figura agora quase distorcida.

-É claro que é culpa minha. –Naruto se levantou devagar. De pé, os olhos agora vermelhos pelo choro me encararam não com raiva, mas com sinceridade. Devia ser a primeira vez em muito tempo que ele não era sincero com outra pessoa e consigo mesmo. –Se nunca tivesse enganado-a talvez nada disso tivesse acontecido. É por isso que estou aqui, acabando comigo mesmo agora. Mas também porque não importa o que eu faça ou o que aconteça, você sempre aparece, sempre volta, e eu nunca consigo fugir, e nunca consigo tirar isso que sinto só de te ver.

-Acha que eu teria vindo te ver todas essas vezes se não me importasse com você? Eu não consigo sem você, Naruto. Você sabe que é a coisa mais importante que existe para mim. –Eu agora o olhava desesperado, minha voz em um tom de súplica. Queria abraçá-lo, tê-lo comigo e fazer com que essa dor que parecia me destruir por dentro desaparecesse.

-Eu sei disso. –As lágrimas voltaram a cair, mais lentamente sobre o rosto dele agora. –Mas nós terminamos há bastante tempo, Sasuke. E eu não cometo um erro duas vezes.

Naruto andou até o banheiro, trancando a porta. Conseguia ouvir os soluços dele como se estivesse ao seu lado. Levantei-me devagar e fui até o primeiro objeto que vi. Agradeci a tempestade que começou lá fora porque os trovões abafavam o som das coisas que eu jogava contra a parede se quebrando em pedaços e meus gritos de fúria. Depois de perceber que já havia acabado com tudo o que podia ali, apenas me deixei cair no chão do apartamento. Aquele apartamento de tantas lembranças que agora fedia a culpa e desespero. O céu lá fora ainda chorava, assim como o loiro trancado no banheiro. E também eu, mesmo que fosse uma lágrima teimosa que caia devagar.

-Maldita garota estúpida, se não tivesse nascido, nada disso teria acontecido.

Notas finais
Bom, é isso ai por agora.
A fic ficou um pouco depressiva, eu sei, mas o MV também é então tudo bem. Pode ter ficado um pouco confuso, por isso qualquer duvida é só chamar.
Beijos, sweet honeys, até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!