Temperatura

1 1. Diferenças


Notas iniciais
Tema semana 1: A primeira vez que conversamos Have fun!

— Não é minha culpa, eu não escolhi isso e eu não sou obrigada a gostar dele. – Yazze justificou.

— Ninguém disse que você é obrigada. – Agnes suspirou.

Era uma manhã fria nas terras da Academia Chroge¹ e as irmãs se inclinavam sobre a borda de proteção da ponte que cortava o Rio Acaju, olhando os peixes coloridos que nadavam suavemente e os pequenos mamíferos marinhos que se aqueciam nas pedras das bordas.

— É só que… O Seletor de Encaixes não é falho. – Agnes ainda tentou, já que a irmã não disse mais nada. – Se esse garoto combina com você, acho que ao menos uma chance você deve dar.

Yazze mordeu os lábios.

— Como isso pode funcionar? Nós somos totalmente diferentes, em todos os sentidos.

— Vocês são? Como você sabe, se nunca falou com ele? – A garota perguntou.

— Nós…

— São opostos nas sua hereditariedade, têm personalidades divergentes, tudo bem, mas e o que realmente importa?

— Eu não sei o que realmente importa, Agnes.

— Então devia tentar descobrir. – A garota sorriu para a irmã, com carinho. – Eu também queria continuar sendo seu par de combate, mana. Mas é a vida, nos pega de surpresa.

Yazze suspirou. Muitas vezes admirava a forma como sua irmã gêmea parecia ter anos a mais de maturidade.

— Tudo bem, eu vou dar uma chance a ele. Mas se não der certo, culparei você.

Os passos de Yazze eram incertos.

Ela e Marvin poderiam estar em universos de distância.

Diziam os Senhores das Palavras³, quando os nijdones² chegaram, a humanidade se viu em pânico, a sociedade chegou à beira da ruína e todo o tipo de podridão veio à tona. Um dono de uma gigantesca quantidade de terras viu a oportunidade de lucrar com o desespero de seus empregados, os fazendo trabalhar até os seus limites. Com chantagens e falsas promessas, desposou três jovens, ignorando as leis locais. O nome das três nunca deveria ser esquecido: Jaspe, Sodalita e Citrina. Praticamente crianças, em um terrível matrimônio contra sua vontade, viveram anos de tormenta e sofrimento. E no dia que os terríveis nijdones invadiram as terras de seu esposo, as três gritaram pelo socorro do marido, que, covardemente, correu e as deixou para trás, como isca para os monstros. Sem outra alternativa, elas lutaram. E foi com um golpe de um machado que Citrina descobriu que os apavorantes nijdones não eram imortais como todos pensavam: De nada adiantariam balas ou flechas, se a forma de matá-los era arrancando suas cabeças. Então as três se armaram de lâminas e correram salvar todas as pessoas que podiam, mesmo suas famílias, que um dia as venderam para o odioso patrão. E até a beira da morte lutaram, até o quase fim de suas energias. Foi quando ShVolzu⁴, mãe da terra, interferiu. Vendo a ferocidade daquelas três jovens, como seus corações permaneceram bons mesmo depois de todo o sofrimento e caos, a deusa resolveu dar a elas — e a humanidade — uma chance de sobreviver. Assim, ShVolzu tornou as três heroínas, dando a cada uma uma habilidade da natureza. Jaspe, amável e forte, recebeu o dom de manipular as chamas sem se queimar jamais. Sodalita, racional e protetora, recebeu o dom de tornar umidade em gelo sem perecer diante do frio. E, por fim, Citrina, corajosa e entusiasta, recebeu o dom de usar a eletricidade da forma que preferisse, sem nunca danificar seu próprio corpo.

“Protejam a humanidade com seus novos dons, minhas filhas. E passem esses dons a seus futuros filhos, para que eles tracem o mesmo caminho.” ShVolzu disse a elas.

Dessa forma surgiram as três famílias, Brajzen, Prenoar e Fulgur, que até os dias atuais passavam seus dons de pais para filhos.

Yazze Brajzen tinha um longo cabelo rosa queimado, fruto de gerações de casamentos arranjados entre membros da família e pessoas de cabelos avermelhados, numa tentativa de deixar óbvio quem eram. A linhagem principal se orgulhava de terem o sangue de Jaspe, colocando a si mesmos como superiores aos demais humanos e até mesmo aos membros das outras duas famílias. Yazze pertencia à uma parte da família quase esquecida, a parte pobre, que vivia do lado de fora de suas mansões e eventos nobres. Ainda assim, era uma Brajzen e se a parte mais importante da família soubesse que ela tinha uma forte conexão de alma com um Prenoar, haveria uma grande comoção, picuinhas e olhares tortos. Como se fosse culpa dela, como ela tivesse escolhido. Ah, a vida vinha mesmo sendo injusta com ela.

A moça parou, com uma mão apoiada na parede, olhando para o rapaz sentado ao longe. Marvin Prenoar lia um livro, sentado numa mureta de pedra. Seu cabelo loiro brilhava ao sol, suas feições bonitas demonstravam concentração. Ele se vestia como um nerd, camisa por dentro da calça e óculos grandes demais para seu rosto, de forma que mal parecia que era um guerreiro forte e com grande potencial.

Os dois nunca tinham trocado mais do que uma dúzia de palavras, mesmo depois do dia que o Seletor de Encaixes os combinou, mas a moça sabia que eram diferentes. Ela tinha ouvido que a criação da família Prenoar era rígida, talvez por isso Marvin vivesse com a cara nos livros e afastado dos colegas. Yazze, por sua vez, não dava importância à parte teorica dos estudos. Era da equipe especial, uma criadora de fogo poderosa e habilidosa com lâminas. Ela gostava de não ser de grande valor para o lado nobre da família, tendo a liberdade de ser uma rebelde sempre que lhe desse na telha. Talvez fosse o que que mais pesava na sua ideia de que eram diferentes, mais do que serem gelo e fogo, mas serem “a criança perfeita” e “a má influência”.

Mas se Agnes, a voz da razão, disse que Yazze deveria tentar falar com o rapaz, ela devia mesmo tentar.

Com passos hesitantes, a ruiva se aproximou do rapaz.

Quando a sombra da moça cobriu a luz do sol, ele levantou os olhos para ela. E se surpreendeu ao ver quem era.

— Boa tarde. – Ela começou.

— Olá. – Marvin respondeu timidamente.

— Eu estava pensando… – em conversarmos um pouco, ela pretendia terminar, mas sua coragem se foi. – Em treinarmos combate juntos. Vamos ter que trabalhar juntos, então… Pareceu uma boa ideia.

A garota não sabia que tipo de resposta ouviria. O constante silêncio e isolamento de Marvin pareciam com arrogância para ela.

Mas ele imediatamente marcou a página do livro e o fechou.

— É uma ótima ideia! Vamos treinar sim.

Foi a frase mais longa que ela já tinha ouvido vindo dele.

E os dois foram juntos treinar.

Yazze reparou, enquanto ela mesma usava ataques sem forma e agressivos, Marvin buscava atacar estrategicamente, usando as habilidades de gelo para criar objetos e obstáculos. Talvez por isso os dois foram combinados, enquanto ele claramente hesitava no ataque, ela não tinha qualquer habilidade defensiva.

Ao final de uma hora, ambos estavam sem fôlego e suados. O chão estava lamacento, graças a todo o gelo que derreteu durante o treino, mas Yazze não se importou e sentou no chão mesmo assim. Marvin se aproximou e sentou calculadamente num pedaço sem barro.

— Eu não imaginei que você me convidaria para um treino. Achei que me evitaria para sempre ou coisa assim. – Marvin falou timidamente.

— Por que você achou isso? – A garota perguntou, se sentindo mal. Afinal, se não fosse Agnes, teria mesmo ignorado Marvin para sempre. Nesse momento ela podia enxergar que era besteira.

— Nós somos diferentes. – Ele pareceu envergonhado. Ela também. – E também… Me desculpe tocar no assunto… Acho que sua família não gosta muito de se enturmar.

— Eu não tenho nada a ver com isso! – Ela respondeu depressa. – Eu nem conheço direito essa parte da família. Eu não acho que eu sou melhor que ninguém. Não vou mentir, eu não estava animada para falar com você, pelas nossas diferenças, mas eu nunca me acharia superior.

— Tudo bem. – Ele sorriu. – É um alívio então.

Os dois ficaram num silêncio constrangedor, até que ela respirou fundo.

— Olha, eu…

— Não somos tão diferentes assim. – Marvin interrompeu. – Já prestou atenção? Por exemplo, o que você faz aqui?

— O que?

— O que você veio fazer na Academia Chroge?

A moça pensou um pouco.

— Treinar para matar sanguessugas. É um dever de quem tem um dos três dons, usar isso para proteger as pessoas. – Ela respondeu.

— Eu vim fazer exatamente a mesma coisa, tenho exatamente o mesmo objetivo e pensamento. – Marvin abraçou os joelhos e sorriu. – Somos iguais nisso.

Por algum motivo inexplicável, a garota sentiu seu peito se aquecer, como se ela tivesse criado uma bola de fogo dentro do próprio coração.

— Ah… Você tem toda razão.

— Eu também gosto muito das mesmas músicas que você gosta. – Marvin olhou para frente e esticou as pernas. – Eu vi que você desenhou o símbolo dos Duques Manobristas na capa do seu livro e pensei… Você tem bom gosto.

— Você gosta dos Duques? – Ela falou mais alto do que pretendia. – Não posso acreditar! Você não tem cara de quem gosta de música legal!

— Vou levar isso como ofensa.

— Ah! – Yazze percebeu o que tinha dito. – Eu… Desculpa, não foi o que eu quis dizer.

Mas Marvin sorria.

— É brincadeira. Tudo bem. Se serve de consolo, eu não puxei assunto com você sobre a banda porque você parece louca.

— Outch! Onde está o garoto bonzinho de um minuto atrás?

Marvin riu. E Yazze também, com seu coração querendo pular para fora do peito.

— Eu pensei: Melhor nem falar com essa garota, ela vai me matar se eu tentar.

— Isso é cruel! Volte a não falar comigo!

— Tarde demais.

Os dois continuaram rindo. E brincando. E conversando.

E Yazze só conseguia pensar no quanto precisava agradecer à sua irmã, mais tarde, por ter insistindo para que fosse falar com Marvin.

Notas finais
1- Academia Chroge: Um colégio interno onde se formam combatentes de nijdones, O de nível mais alto da nação. 2- Nijdones/sanguessugas: Monstros que se alimentam da energia humana, sendo assim um perigo para a humanidade. Não se sabe de onde eles vêm e se existe uma vaga noção de como se reproduzem. 3- Senhores das Palavras: São sacerdotes, muitas vezes sábios, que passaram a vida a estudar e pregando sobre as histórias do povos e dos deuses. 4- ShVolzu: Deusa criadora de toda forma orgânica de vida, chamada de Mãe, chegando a ser considerada a única deusa verdadeira em algumas regiões. Observação: Embora os Senhores das Palavras contem a historia dos três dons, não há qualquer comprovação histórica e que seja verídica. Os mais céticos constantemente duvidam que as histórias sejam como são contadas. Então, espero que tenham gostado do primeiro capítulo. Aah, fazia tempo que eu não escrevia alguma coisa com mais de um capítulo. Hsausahusa Espero que comentem, dizendo o que acharam! Abreijos!