Tem sido uma longa estrada.
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Perrie começa a estagiar com pediatria já no segundo semestre da faculdade. Ela cursa uma Universidade pequena em Londres, e trabalha algumas horas por semana em um hospital carente.
Ela sorri tão brilhante em seus cabelos platinas e pisca aqueles cílios tantas vezes para as crianças que poderia começar um vendaval qualquer dia.
A moça sempre é questionada pela paixão que sente pelos pequenos. Algumas pessoas chamam de instinto materno, outras apenas falam que ela tem dom.
Perrie só sacode os ombros, e diz que gosta da pureza e da simplicidade de crianças. Elas não são cruéis no coração, e sem a interferência da maldade do mundo em suas escolhas.
Porque ela está cansada da maldade do mundo.
[eu já tive demais do mundo, e dos jogos cruéis das pessoas].
XXX
Selena pode até mesmo ter um dom com os lápis de cor, e com a maneira como ela desenha o mundo. Mas isso não paga as contas de casa, nem compra os remédios de epilepsia do seu irmão mais novo.
Ela trabalha mais horas na loja de roupas que a maioria das vendedoras, e ganha quase nada apenas por ser muito nova, e por ter desistido da faculdade.
Mas ela desenha o que vê.
E nem sempre o que ela vê é bonito.
[em um mundo que eu acho tão difícil, você acha tão bonito].
XXX
Perrie está em plantão há quase 36 horas. Ela jogou uma salada goela abaixo, e um suco de laranjas no começo da manhã.
Quando ela se senta em uma cadeira de plástico, no meio do corredor do hospital, trazendo consigo uma pasta cheia de fichas de pacientes que atendeu, ela consegue ouvir seu nome em urgência no alto-falante. Ela se levanta, e corre em passos largos até a entrada.
É um pequeno garoto, com uma crise epilética, e isso parte o coração de Perrie.
Ela fala ordens para as enfermeiras em voz alta, e se recusa a deixar qualquer pessoa ficar parada olhando enquanto aquela criança se debate e se machuca.
XXX
Selena literalmente se joga por entre a entrada do hospital, falando rápido e ofegante pra moça da recepção. Ela tem os cabelos molhados de suor, a respiração rápida, e o coração exaltado por culpa da preocupação.
“Olá, eu vim ver meu irmão.” Ela diz e depois repete o nome do irmão pelo menos três vezes antes que uma médica venha falar com ela.
Selena tenta fazer o coração parar de bater tão depressa, mas quando vê o cabelo loiro platinado com as pontas rosas em um tom fraco, e um olhar tão cansado, ela acha que fazer o coração parar de bater rápido é impossível.
XXX
Perrie observa o garoto de cabelos pretos deitado na cama totalmente branca, os olhos abertos bem grandes, e um sorriso por ver a irmã mais velha.
“No fim da tarde você já pode levá-lo.” Perrie se encosta na parede, um pouco de sono e cansaço caindo sendo demostrado pelos seus ombros. “Mais uma bateria de exames, e pronto, o bonitão já pode voltar pra casa.” Os dois dão risada e Perrie se ajeita, pronta pra sair da sala.
“Será que posso falar com a senhora lá fora?” Selena pergunta, e o irmão dela lhe dá um olhar acusatório.
“Sel, ela não é tão velha.” Perrie sorri, e balança a cabeça.
“Pode me chamar de você. E sim, vamos conversar lá fora.” Selena e ela saem da sala, e o ar da moça fica mais pesado e mais triste.
“Não temos dinheiro pra pagar a consulta.” Perrie quase tem vontade de abraçá-la quando ela diz as palavras, encolhendo os ombros e se diminuindo.
“Tudo bem, eu resolvo isso.” Não seria a primeira vez que ela paga a consulta de uma criança. Com o que mais ela vai se preocupar? Não tem ninguém, além dos seus amigos, esses que ela quase nunca vê em decorrência dos plantões.
E quando Selena sorri pra ela, Perrie acredita que esse seja o pagamento que ela mais goste.
[um sorriso de dez milhões de dólares].
XXX
Selena usa as horas vagas entre o trabalho e ajudar o irmão em casa pra desenhar. Nos últimos dias tudo que ela consegue transmitir pro papel é um cabelo loiro cacheado, e lábios vermelhos.
Ela desenha Perrie sorrindo em quase todos os papéis, e decide então abraçar a necessidade de passar a moça pro carbono.
Selena gasta a duas próximas madrugadas desenhando, e pintando. Tendo um pouco mais de uma hora de sono entre esses dias.
Quando ela termina, sabe que valeu a pena.
Então ela coloca o cabelo pra cima em um rabo de cavalo, passa um antigo batom rosa, e espera na recepção do hospital com um papel A3.
Ela finalmente desenha algo bonito.
[coisas bonitas, eu quero que elas fiquem].
XXX
Perrie está no quarto café, e seu coração está elétrico. Quando ela passa na recepção ela vê Selena, a moça bonita com cabelos pretos, sentada.
“Está tudo bem com o seu irmão?” Ela pergunta assim que se aproxima. Selena sorri pra ela, e se levanta.
“Está sim, apenas vim te deixar uma coisa.” Perrie olha pro chão, envergonhada. Não é a primeira vez que ganha um presente, mas, mesmo assim, ela não aprendeu a reagir quanto a isso.
“Não precisa, juro.” Mas mesmo assim, um papel pardo é empurrado pra suas mãos, e ela se olha em dúvida.
“Eu tenho a mania de desenhar coisas que me marcam, ou coisas que ficam na minha cabeça por dias.” Selena sorri. “Você no caso é as duas coisas.”
No papel é Perrie, com os cabelos soltos, os olhos vivos, e sorrindo com os lábios tingidos de vermelho.
[É a coisa mais doce a cruzar pelos meus olhos].
Perrie quando volta pra casa naquela noite, compra uma moldura do tamanho do desenho, e o coloca na parede da casa onde mora.
XXX
Selena consegue uma bolsa em uma faculdade de artes, e os horários encaixam em seu trabalho. E não há ninguém a qual ela mais gostaria de contar, do que Perrie.
Ela fica novamente na recepção, esperando a médica aparecer.
Quando um cabelo loiro cruza a sala, ela se levanta rapidamente e vai ao seu alcance.
“Olá.” Ela diz, e a médica sorri de volta. “Quando termina seu turno?” Perrie dá uma risada baixa, e segura com as pontas dos dedos o pulso de Selena.
“Em meia hora.”
“Ótimo, quero te levar pra sair.”
[É bom saber que você é toda minha, agora me leve, tão longe daqui].
XXX
Perrie e Selena se beijam de frente a um jardim iluminado com estrelas, e com a Lua. Seu cabelo loiro se tornando mais claro, e os lábios de Selena vermelhos fortes.
[No meu pescoço, a sensação dos lábios suaves, iluminados pelas luzes].
XXX
Selena está na cozinha, preparando o café, enquanto do seu lado está Perrie corta algumas fatias de pão.
“Meus pais querem te conhecer.” Perrie fala tão rápido que Selena quase perde o tempo.
Ela segura a mão da médica, e sorri pra ela.
“Está tudo bem, estamos prontas pra isso.”
XXX
Perrie pede Selena em casamento no carro, quando elas estão voltando da casa dos pais da garota loira.
Tudo que Selena pode fazer é chorar, e beijar ela.
[E é todo o meu coração, queimado, mas não enterrado dessa vez].
XXX
Quando elas se casam, um lindo casamento de jardim, com as duas vestindo branco, as pessoas aplaudem e diz que coisas bonitas ocorrem a quem você menos espera.
XXX
[elas tem vivido um longo, longo, e bonito sonho].
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