Foi um dia comprido. As horas se espichavam sobre os ponteiros. Eu aguardava e temia a noite. Caminhei até a beira do rio, deitei no capim, com a cabeça sobre os braços cruzados, e fiquei olhando para o céu.

Um pouco adiante, o carro de seu pai parou, àquela manhã. O tempo que passara, desde então, não podia ser medido em anos. Lembrei do rostinho da garota, os olhos azuis que me haviam fitado, indiferentes. E vi a mesma plenitude dos seus 16 anos.

Lembrei o amor e a tristeza nos olhos azuis. “Vamos ser felizes ao menos uma noite.” Eu queria a vida inteira para ser feliz contigo. E me recusava aceitar que me fosses roubada.

Eu ansiava pela noite. Mas já sentia – dolorosamente – o vazio da manhã seguinte. E de tudo mais.

Voltei para casa. Então me dei conta de que não tinha roupa para o baile. Larguei o corpo na cadeira desanimada. Não bastasse tudo, ainda havia o nada.

Sasha percebeu meu aborrecimento.

- O que há Ymir?

- Não tenho roupa para a festa.

- Não pensamos nisso.

-Eu não pretendia ir ao baile.

- E agora, como vai ser?

- Vou com a mesma roupa de sempre. – Me levantei – Acho que Christa não se importará.

Quando chegou a hora, tive vontade de desmaiar. Apenas de nova, as roupas me embrulhavam e geral já havia me visto com aquelas mesmas peças que eu sempre usava. Não que me importe com isso, mas eu estava ridícula.

Fui buscar a mesma a pé. Naquele tempo, tudo era mais perto. Eu sabia que os rapazes tinham carros para levar suas namoradas. Eu não podia me dar o luxo de alugar um automóvel.

Bati na porta do seu palacete, com mão firme. A governanta atendeu.

- Entre, por favor, Christa não demora.

Conduziu-me até o imenso hall e me deixou só.

A escada de mármore branco prendeu minha atenção. Por ali ela desceria. Fixei meus olhos nela – e o resto perdeu o sentido.

O relógio bateu 11 horas. Não percebi que o pai da mesma entrara na sala. Dirigiu-se a mim. Trocamos um “boa-noite” seco, hostil. Ele me olhava sobre minha cabeça, quando falou:

- Traga Christa cedo. Amanhã, viajamos às 9 horas. Ela não deve ir dormir muito tarde.

Não cheguei a responder. Apareceste no alto da escada e não enxerguei nem ouvi mais nada. Estavas linda. O vestido azul parecia escorrer de seus olhos. Uma tiara de águas-marinhas coroava teus cabelos louros. “Parece mesmo uma rainha” – pensei. Ela parou no meio da escada para que eu a admirasse. Depois, desceste devagar, com os olhos presos nos meus.

A mãe da mesma veio com ela.

- Não esqueça de pôr o xale na volta. À noite, sempre faz frio.

E para mim:

- Você trouxe carro?

Respondeste por mim:

- Nós combinamos de ir a pé.

- O chofer pode leva-las e...

- Não, mãe. Nós preferimos ir andando.

A mãe dela ia insistir. Mas seu pai interrompeu.

- Deixe, será como ela quiser.

Fomos andando de mãos dadas. As flores perfumavam as calçadas e nossa felicidade ficou suspensa na noite. A cauda de seu vestido arrastava um pouco no chão.

Caminhávamos devagar, para encompridar o trajeto. Fiz uma coisa tola:

- Desculpe minha roupa. Não tive tempo de...

Apertaste minha mão.

- Você está muito bem assim.

Continuamos andando de mãos dadas, sem pressa, até aquela esquina onde, hoje, há uma garagem. Então ouvimos o som de uma valsa. O baile começava. A música nos chegava filtrada pela distância e pelo perfume das flores. Ela abriu os braços para mim.

-Vamos dançar aqui!

Eu então apertei os braços da mesma. Erguei o rosto para mim. Sua pele estava luminosa à luz da lua. Senti lágrimas nos teus olhos e, antes de dançar, beijei teus lábios. Foi um beijo de orgulho, humildade e pranto. O pranto de uma “mulher” que se fortalecia mais e mais em mim, prometendo à sua carne, à sua ambição, conquistar o direito de te amar.

Não sei quanto tempo dançamos na esquina. Perceberam sua ausência no baile. Foi quando viram que dançávamos na esquina, em plena rua. Vieram todos ver de perto a afronta: as duas loucas que se abraçavam e se beijavam, entre as flores, ao som da música que cortava a noite fria, como deuses enjaulados, mas livres.

De repente, o carro de seu pai freou, bruscamente, quase em cima da calçada. Ele saltou como um tigre. A voz dele cortou a música.

- Sua vagabunda!

- Pai, nós nos amamos...

- Cale a boca! Chega de me envergonhar. Entre já no carro.

- Pai..

Ele arrastou a mesma pelo braço e jogou-me o último insulto – Sua velha pedófila!

Permaneci parada onde estava. Aos poucos, as pessoas foram se afastando, retomando ao baile. Fiquei sozinha na esquina, com o perfume das flores e a lembrança da valsa que acabava. Caminhei lentamente pela praça. Sentei num banco, e lá vi o dia nascer.

As luzes do seu palacete não se apagaram. Creio que ali ninguém dormiu, apressando os preparativos para a viagem. Mal o dia clareou, os criados começaram a se mexer. Vi quando saíste da casa e entraste no automóvel. Então me aproximei. Por instantes nos olhamos nos olhos. O carro partiu, ainda estava escuro o mundo.

Fui para casa, chutando as pedras do meu desespero mando e doído.

Somos donos de nossos atos, mas não somos donos dos nossos sentimentos... Somos culpados pelo o que fazemos, não pelo o que sentimos.

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