Tell me you love me
1 Tell me you love me
Notas iniciais
Eu a amava desde que a vi pela primeira vez. A líder da equipe, sempre forte, decidida. Perto dela, mesmo estando na guerra, eu podia me sentir seguro, me sentir como se fosse a minha casa, podia ver o azul dela, que me acalmava e me fazia acreditar que tudo ficaria bem.
Apesar de saber o quanto ela era inteligente, forte, corajosa, eu podia ver além disso. Podia ver que ela tentava não sofrer com a morte de seu namorado René, mas que aquilo a afetara de verdade. Vi seu riso se transformar em dor, por apenas uns instantes, antes que sua armadura a protegesse de novo. Essa dor a fazia ter coragem de matar nazistas ou traidores, mas, ao mesmo tempo, esses atos não aliviavam o peso que ela sentia, nem o nervosismo.
Ela já me acalmou quando eu queria ser capaz de esquecer as atrocidades que terei gravadas para sempre em minha memória, devido à sinestesia que mescla todos os meus sentidos e me faz guardar quase tudo. Lembro que ela me pediu para me concentrar nela até me acalmar.
Depois de uma missão, quando o peso e o nervosismo que ela sentia a impediam de agir normalmente, ela me levou a um beco, onde colocou a mão sobre meu coração e eu sobre o dela, até nossos corações baterem no mesmo ritmo, para que ela pudesse recuperar o controle sobre si mesma.
A cada missão, conforme passamos mais tempo juntos, mais aprendo sobre ela. Posso sentir o gosto da voz dela mudar, dependendo da situação. Posso ver sua cor mudar, de acordo com seus sentimentos. Posso sentir quando ela mente. E também posso sentir que ela confia em mim, para dividir sua dor, me mostrar coisas que a faziam feliz, como seu truque de assobiar como um passarinho e me contar memórias sobre René.
Apesar de eu perceber o quanto ela amava René, posso sentir que ela também se importa muito comigo, perguntando como eu me sinto, me ajudando a lidar com a sinestesia, que segundo ela, é um dom, mas que, antes da guerra e antes de conhecê-la, eu considerava uma maldição.
No entanto, agora, com a sinestesia, posso vê-la como ninguém a vê, percebê-la de uma forma única. Posso lembrar de tudo o que passei com ela, para sempre, graças à minha memória que nunca esquece.
Quando fui pego em uma emboscada, vi nos olhos dela que ela não me mataria, apesar das ordens expressas para isso, mesmo sendo a sargento e a líder da equipe. Porque ela me amava. E não suportaria me perder também, não quando ainda não havia superado a morte de René.
Para sobreviver às torturas, me apeguei às minhas memórias sobre ela e não apenas no cinza que me impedia de sentir dor. Ela me dava esperança de que, de algum modo, ela e a equipe me encontrariam de novo.
Ela me dava motivação para continuar vivo e me fez entender o meu valor contra o nazismo. Ela viu que minhas habilidades poderiam ajudar a acabar com a guerra, ela me ajudou a encontrar a minha motivação, a força dentro de mim para eu fazer o meu melhor, a força escondida dentro da minha fraqueza, por trás das minhas dificuldades de lidar com o mundo, com as dolorosas lembranças, com as fusões dos meus sentidos. Ela, com seus cabelos loiros como ouro, como o raiar do dia, representa o nascer de uma nova vida para mim.
Ela me ajudou a suportar tudo isso, apesar de eu senti-la como algo forte demais para mim. Não consigo dizer seu nome em voz alta.
Ela é o azul que me acalma, sua voz tem um gosto doce, que eu nunca vou ser capaz de enjoar, seu toque é gentil, leve, soa como uma nota musical marcante, breve, precisa e bela.
Seu nome representa tudo o que ela é, em sua essência. É o que eu sinto por ela, com todos os meus sentidos. Dizê-lo em voz alta seria sentir tudo o que ela provoca em mim, o que não é pouco, pois eu a amo como nunca amei alguém.
Quando René e eu fomos resgatados, vi como ela ficou quando viu o ex-líder da equipe, o homem que ela tanto admirava e amava, estar com vergonha de vê-la de novo, de ver como a tortura o transformou numa sombra do homem que ele tinha sido um dia.
Para piorar, pouco tempo depois, ela descobriu que ele havia contado sobre todos nós, que ele havia cedido às torturas. E ainda teve que encontrar forças para ela mesma tirar a vida de René, para evitar que ele fosse recapturado pelos nazistas. Mas, se isso já não fosse o bastante, ela tentou carregar sozinha esse segredo, esse fardo terrível, por achar que, como líder da equipe, seu dever era não sentir.
Eu vi que ela carregava uma dor insuportável, achava que ela escondia algo, mas imaginava que ela estava sofrendo por perder René novamente e, dessa vez, definitivamente. Quando eu descobri a verdade, a admirei ainda mais por sua força, mas disse que ela não tinha que carregar isso sozinha, pois ela fazia parte de uma equipe e tínhamos o direito de saber e o dever de ajudá-la a lidar com isso.
E eu sei, que mesmo que ela me ame, parte do coração dela sempre vai pertencer a ele. Por tudo o que ele significou para ela. Pela dor e pela culpa que ela vai carregar o resto de sua vida. Como se não bastasse o peso da responsabilidade que ela tem de nos liderar, tendo que manter a cabeça no lugar e transmitir força, coragem e confiança a toda a equipe.
Todos a pressionam, querendo que ela nos lidere, que ela diga por que não atirou em mim para evitar que eu fosse capturado. Ela não admitiria que é porque me ama. Ela ainda não se sente pronta para dizer a eles. Mas se ela me disser que me ama, será o suficiente para mim.
Sei que não posso consertá-la, curar as feridas que a guerra deixou, mas posso ver um lado dela que ninguém vê, posso ser o apoio dela quando ela precisar e sei que ela me apoiará quando eu precisar, pois ela já tem feito isso desde que nos conhecemos.
Posso entendê-la como ninguém, vendo suas cores, o gosto da sua voz, a música em seus gestos. Posso conhecê-la como ninguém e ainda assim respeitá-la, por ver sua força e sua fraqueza, vendo sua humanidade ainda que ela queira se mostrar forte, resistente, corajosa, mas eu a conheço com seus medos, sem muros que a escondam de mim, que escondam quem ela realmente é.
Sei que quando ela nega que me ama, ela só tenta proteger a si mesma da dor de mais uma possível perda.
Há pouco tempo, tive medo de perdê-la. Ela havia saído para sua missão de se infiltrar na casa de Franz Faber, o nazista que estava de olho em nossa equipe em Paris e para isso resolveu ganhar a confiança da mulher dele, Sabine. Porém, ela se aproximou demais da mulher de Faber e passou a se importar de verdade com ela, tanto que, disfarçada entre as mentiras, ela contou sobre a dor de matar alguém que amava e viu Sabine lhe dizer que seu marido havia feito o mesmo com filho deles, que tinha Síndrome de Down, e seria levado pelos nazistas, o que fez com que se identificassem ainda mais uma com a outra.
Depois dessa troca de confidências, ela saiu com Sabine e não voltou ao ponto de encontro combinado. Confiava que ela voltaria assim que pudesse, mas temia que Faber a visse e a fizesse de refém, como havia acontecido comigo e com René. Como os outros não a viam como eu a via, eles achavam que ela tinha se juntado a Sabine e nos deixado.
Para acabar com essa desconfiança, tive que revelar que ouvi essa conversa entre as duas e contar o fardo que nossa líder carregava até então em segredo, para que eles soubessem o que ela estava passando e ainda assim continuava nos liderando e cumprindo as suas missões. Por isso, eu acreditava que apesar dessa identificação, ela não havia nos abandonado, e sim tido problemas tentando escapar de Faber.
Como eu esperava, ela se juntou a nós em Dieppe e pediu desculpas por ter se atrasado e por não ser a líder que gostaria de ser.
Enquanto todos pensavam se a seguiriam na próxima missão, eu me aproximei dela e falei da minha primeira missão com a equipe, em que o avião fazia muito barulho e ao saltarmos de paraquedas, senti paz. Uma paz que antecede novos riscos. E que, apesar dos riscos que corremos o tempo todo, a liderança dela nos manteve vivos e unidos. Ela se lembrou daquele momento, concordando comigo sobre aquela sensação de paz e completou:
— Estou feliz que esteja aqui, Alfred.
Querendo demonstrar o quanto ela significava para mim, antes de nos arriscarmos novamente, eu reuni todas as minhas forças e enfim disse:
— Eu também, Aurora.
Ela ficou surpresa e afirmou, com um sorriso no rosto:
— Você disse meu nome.
E eu apenas confirmei, ainda tentando lidar com os efeitos de dizê-lo em voz alta, com ela retribuindo dando um rápido sorriso.
Enquanto conversávamos, os outros discutiam sobre a volta dela, a importância dela como líder e ponderavam as explicações dos últimos acontecimentos. Após refletirem, todos acabaram entendendo o que tinha acontecido e ela pediu desculpas por ter agido dessa forma.
Com os problemas entre os membros solucionados, todos resolveram segui-la novamente como sargento e líder da equipe e eu resolvi apoiá-la como puder, já que ela vê que estou melhorando minhas habilidades como espião e aprendendo a lidar melhor com a minha sinestesia.
Depois de tudo o que já passei, descobri que posso realmente ajudá-la e não serei um fardo. Lutarei ao lado dela e a apoiarei quando ela precisar.
Por isso, vou com ela tentar convencer Faber de que ele pode ser nosso aliado, tanto para a própria segurança dele como para a de sua mulher, já que eles nos conhecem. Além disso, por Faber saber que tem que fazer coisas horríveis e, ao mesmo tempo, acabar sofrendo para manter a sua humanidade, a bondade que há nele e a sua relação com Sabine, ele pode acabar nos ajudando.
Enquanto penso sobre tudo isso, trocando nossas roupas para a missão, ela me pede ajuda para fechar o vestido e nós nos colocamos em frente a um espelho, para terminarmos de nos arrumar. Ao mesmo tempo, refletimos sobre a importância de tentar mudar a lealdade de Faber. Ela me pergunta se eu estou com medo do desafio que vamos enfrentar. Digo que não e ela me responde o mesmo, afirmando que as pessoas surpreendem.
De repente, ela se vira lentamente até ficar de frente para mim e, um pouco hesitante, me pergunta:
— Seria passar dos limites perguntar... quando disse meu nome... qual foi a sensação ? — diz ela e nossos olhares se encontram.
Sou pego de surpresa por ela estar pensando nisso durante a missão e percebo que não serei capaz de explicar com palavras, então eu tento fazer com que ela me entenda do meu jeito, sentindo o que eu sinto e possa admitir que sente o mesmo por mim.
Assim, eu me aproximo lentamente, olhando primeiro para os lábios dela e depois a olho nos olhos, tocando o rosto dela levemente.
Me diga que você me ama apenas uma vez
Apenas me dê uma noite
Eu vou ser o segredo em seus lábios
Me deixe ser aquele beijo
Se você cair
Caia em meus braços
Venha e caia
Quebre os seus muros
E
Como ela não se afasta, eu gentilmente a beijo, sentindo como se eu visse um arco íris, sentisse um perfume agradável, ouvisse uma música que me deixa feliz e por fim a vejo azul de novo, sendo a minha segurança, meu lugar seguro.
Ela fecha os olhos lentamente, tentando entender e guardar esse momento.
Quando ela abre os olhos, posso ver como se mil estrelas brilhassem em seu interior, como se elas brilhassem de surpresa e felicidade.
Me diga que você me ama uma vez
Eu posso ver a verdade em seus olhos
Diga que você vai
Esquecer o amanhã e ficar comigo esta noite
Apenas me diga que você me ama uma vez
E que isso não é um adeus
Eu então respondo:
— Alguma coisa assim. E você, o que sentiu agora?
Eu quero ouvir a resposta dela, que ela possa admitir o que sente, que ela passe algum tempo comigo, podendo ser ela mesma, forte e sensível ao mesmo tempo, não precisando se esconder atrás dos muros que ela pôs em si mesma.
Eu sei que não posso pedir para você ficar
Mas eu fiquei acordado
Agora meus olhos estão abertos e eu não vou perder nada
Aqui está o meu coração e eu espero que esteja tudo bem
Você é única
Então, se você cair
Caia em meus braços
Venha e caia
Quebre os seus muros
E
Por isso, eu prossigo dizendo:
— Saiba que eu estarei sempre aqui por você e, apesar de não poder curar a sua dor, eu te ajudarei a suportá-la.
Ela continua olhando para mim, pensando no que me responder e em como fazer isso, refletindo sobre as consequências da sua resposta.
Me diga que você me ama uma vez
Eu posso ver a verdade em seus olhos
Diga que você vai
Esquecer o amanhã e ficar comigo esta noite
Apenas me diga que você me ama uma vez
Enquanto eu esperava a resposta dela, tomo coragem e continuo falando, para mostrar tudo o que realmente sinto:
— Você mudou a minha vida, fez com que eu descobrisse meu valor, visse quem eu posso ser. Todos os meus sentidos dizem que você é especial para mim. Por favor, seja honesta com você mesma. Me diga o que você sente quando estou com você, o que você sente por mim. Não tenha medo.
Depois de ouvir tudo o que eu tinha a dizer, ela respira fundo e começa a responder:
— Alfred eu... Obrigada por me mostrar o quanto eu significo para você. Entendo que isso pode ser demais para você me dizer e fazer, mas obrigada por existir, por ser você. Eu te admiro muito, sei que você pode parecer fraco, mas na verdade só está descobrindo quem você é. — ela faz uma pausa, checando como eu reagia às suas palavras.
Fico grato por ouvi-la dizer o que ela pensa de mim. Dou um sorriso, aceno com a cabeça afirmativamente e deixo que ela prossiga no seu próprio ritmo. Sabia que ela me amava, podia ver em seus olhos, por vê-la como ninguém a vê, por vê-la por trás dessa armadura, por trás dos muros que ela impôs a si mesma para não sofrer mais.
Me diga que você me ama uma vez
Apenas
Me diga que você me ama uma vez
Ela então olha no fundo dos meus olhos e enfim conclui seu pensamento, sorrindo de volta para mim:
— Obrigada por permitir que eu seja eu mesma, a Aurora que poucos veem, mas que ninguém vê como você. Você sabe o que eu sinto. Eu te amo.
Ao dizer isso, ela se aproxima de mim, toca meu rosto carinhosamente e me beija. Sinto o toque dos lábios dela nos meus enquanto a vejo com as cores do arco íris, ouço uma melodia feliz e sinto o perfume agradável até as cores se estabilizarem no azul, sensação que só é quebrada quando paramos para respirar novamente.
Nesse momento, eu coloco uma mecha de seu cabelo loiro atrás de sua orelha, fazendo com que ela continue me olhando atentamente, e digo:
— Eu também te amo, Aurora.
Eu já havia dito o nome dela uma única vez, depois de reencontrá-la após ela escapar de Faber, na minha primeira tentativa de expressar o quanto a amava e estava feliz em revê-la. Dizer o nome dela ainda é demais para mim, mas dessa vez, eu precisava fazer isso, para confirmar que a amava também, já que, ao pronunciar o nome dela, sinto a essência de quem ela é.
E ao refletir sobre isso, penso que gostaria de compartilhar minha vida com ela, não só agora, mas o resto dos meus dias.
E continuo:
— Sabe, eu queria que a guerra acabasse, para podermos ficar juntos, sem que você tenha medo de me perder e eu de te perder.
Ela logo me responde:
— Eu também, Alfred, eu também. — diz ela, me abraçando. — Mas por enquanto, saber que você sente o mesmo que eu sinto, que estamos juntos nisso, me ajuda a ter forças para continuar com o nosso objetivo de derrotar os nazistas e acabar com a guerra.
Fico feliz com a resposta, vendo que ela aceitou o fato de que me amava, mas se manteve realista, focando no nosso propósito, para depois pensar nos seus desejos pessoais, como é típico da personalidade dela. Voltando para o assunto que tínhamos vindo resolver, ela assumiu novamente sua postura de sargento. Por isso, seguindo seu exemplo, passo a focar na missão e pergunto:
— Você já está pronta? Precisamos encontrar Faber e tentar convencê-lo a nos ajudar, ele é a nossa chance de mudar tudo.
Ela então diz:
— Sim, estou. E obrigada por vir comigo para tentarmos isso. Significa muito para mim, ver que você supera suas dificuldades e me ajuda a ser a força e a liderança que eu preciso ser.
Eu por fim concluo:
— Eu sempre vou te seguir e te apoiar. Agora vamos, os outros contam com a gente e torcem para que consigamos convencer Faber.
Assim, vamos para as proximidades da casa de Sabine e Franz Faber, esperando encontrar nele um possível aliado, pois já vimos que ele não é um homem totalmente mau, sádico e sim alguém que tenta cumprir ordens, que tenta não sentir, que tenta proteger sua mulher e manter sua humanidade, o que, no fundo, não o torna muito diferente de nós, espiões, que trabalhamos para ajudar os Aliados a vencerem a guerra e para defender os ideais que acreditamos.
Como no fundo ele não aprova tudo o que há no nazismo, pode acabar se juntando a quem não apoia esse regime, para poder viver em um mundo em que ele não tenha que perder sua humanidade e as pessoas que mais preza no mundo, ou seja, o mesmo que nós, espiões aliados, queremos. Um mundo em que possamos viver em paz com aqueles que amamos.
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