Notas iniciais
Oi, apenas um aviso, sempre deixarei aqui nas notas uma frase (Minha, ou de outra autoria) de acordo com o capítulo e no que acontecerá nele. "Houve uma tempestade antes de tudo e após a calmaria e enquanto vagava naquele mar perguntou-se muitas vezes se ainda havia esperança de chegar à terra firme, suas esperanças se perderam em mais uma tempestade, mas logo renasceu com a terra que avistara." - Antonia Bianca.

Sebastian tomou um gole do café quente e amargo que estava na mesa, de duas cadeiras de madeira, esperando que aquele gole quente o esquentasse por dentro; que o confortasse, mesmo que por alguns instantes. A cabeça estava um caos e seu único pensamento era Summer. Um pensamento que ia se repetindo... Se repetindo até entrar no furacão que estava sua mente.

Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias, 8 765, 81277 horas, 525 948, 766 minutos e 31 556 926 segundos, esperando apenas uma ligação, uma bendita ligação de um alguém qualquer, disposto a ajudar a ele e a sua filha.

Summer tinha cinco anos de idade quando foi diagnosticada com a doença, a rara doença genética Síndrome de Allagile afetou seu fígado e coração gravemente. Como foi descoberta tardiamente, não se pôde fazer muita coisa, além de tratamentos com bases de remédios cardíacos e para pele enquanto esperavam por uma doação de fígado urgentemente.

Neste exato momento a garota está internada. Deitada em uma cama hospitalar há mais de dois anos, dispensou as brincadeiras e sua infância. Sente a respiração faltar e toda vez que faz algum movimento brusco ou mesmo simples a nuca dói. Espera o pai, ansiosamente segurando um pequeno pedaço de papel escrito com duas linhas. Summer Hooper acabou de perder todas as suas esperanças.

Tomou mais um gole de café e, levando-se da mesa, seguiu pela porta. Estava indo para o hospital onde Summer estava internada. Ficava a setenta quilômetros dali, levava quarenta minutos de sua casa em Toronto até o hospital em Charlottetown. Onde eles moravam não havia muitos hospitais, apenas um, e ainda sim, não era pediátrico. Então, ele pagava um com todo seu salário de professor de matemática.

Fazia sempre o mesmo caminho todas as manhãs de domingo. Passava pelas fileiras de casas, sendo que a sua era a vigésima sexta da fileira da direita; a avenida com pequenas vendas e a lanchonete onde passava a semana se alimentando — Exceto os finais de semana, que era quando passava o dia e a noite inteira no hospital.

Depois de alguns minutos fazendo esse trajeto, pegava o metrô da linha quatro. Entrava e sentava na oitava cadeira da segunda fileira. Essa era basicamente sua vida há, pelo menos, cinco anos desde que descobriu que Summer estava doente.

Pensava na vida todos os dias, mas onde mais pensava era no trem quase vazio da linha quatro naquela hora da manhã, sentado na mesma poltrona todos os domingos, era lá que escrevia seus melhores telegramas. Sempre ao lado de um velho que nunca olhava na cara e de uma mulher ruiva. Sempre lá no mesmo lugar, vendo mil pensamentos e problemas de pessoas variadas se acumularem no ar, inclusive os seus.

Pegou o bloco de notas pequeno com folhas coloridas e arrancou uma folha cor azul céu e a caneta preta simples, escreveu:

“Querida Summer,

Eu plantei uma esperança aqui dentro e não consigo parar de regá-la.”

– Sebastian

As últimas semanas foram tão cansativas, aliás, todos os anos tinham sido assim, mas o impacto e a certeza da perda estavam batendo à porta e ele estava completamente desesperado; não queria abrir. Quanto a ela, o peso caía em seus ombros e sua esperança já estava corroída, como poderia reacendê-la? Dobrou o papel e colocou no bolso da jaqueta desgastada, olhou para o velho que sentava ao lado pela primeira vez, a expressão dele era triste, aquele tipo de expressão que jamais muda, mas que se permitiu mudar uma vez, e essa mudança foi hoje. Ele era calvo e os cabelos eram grisalhos, olhos escuros e usava um terno azul escuro, nas mãos carregava uma bolsa carteira de couro preta. O velho olhou para Sebastian, este desviou olhar.

— Você se parece com meu filho — Resmungou enquanto abria a bolsa, cuidadosamente — Se parece muito.

Sebastian não disse nada, apenas assentiu e fitou a janela.

— Ele tinha um pequeno distúrbio na cabeça, ou melhor, um grande. Algumas vezes se lembrava de pessoas que passaram por sua vida, ele se lembrava de mim, tanto que não gostava dessa lembrança — Comentou. Subiu-lhe um pouco de curiosidade. Sebastian e aquele velho com quem cujo nunca olhou na cara ou se interessou em ter uma conversa tinham algo em comum e não era o fato de terem filhos e nem que eles estavam internados; carregavam o peso de alguém que amavam e que talvez nem os amassem de volta.

— O que aconteceu com seu filho? — Perguntou finalmente. Os olhos vidrados nas mãos, tentando não olhar para o anônimo, quase tendo certeza da resposta que ele lhe daria.

O calvo olhou para ele, Sebastian olhou de volta. Os olhos estavam contornados de vermelho e inchados, as rugas na testa estavam mais expressivas, cansado e triste. Sorriu com esforço antes de responder.

— Loise morreu.

Foi tudo o que disse.

Sentiu um gelo na alma ao ouvir a resposta, pensou em Summer e de como ela poderia estar naquele momento, olhou para janela e para o relógio para ver quanto tempo ainda faltava para chegar, depois encarou o homem novamente. Estava segurando a fotografia do filho, de certo modo Loise se parecia sim. Os cabelos desembrenhados escuros e com as pontas cacheadas, o rosto pequeno e redondo, olhos igualmente redondos e azuis, muito azuis. A diferença era que Loise aparentava ter vinte anos e Sebastian já tinha seus trinta.

— Sinto muito, muito mesmo. — Falou em um gesto de solidariedade.

Ficaram em silêncio novamente.

Não entendia por que sorria e se entristecia ao mesmo tempo, era melancólico demais, perguntou-se se a morte do filho não lhe trouxe certa doença ou um tipo de melancolia estranha.

— Por que parece triste, mas no fundo se mostra feliz?

— Estou triste porque a vida dele acabou por fora, estou feliz porque a dor dele acabou por dentro. — Disse, levantando e descendo na terceira estação, Sebastian descia na quarta. Ainda quis questionar o que ele quis dizer com aquilo, mas depois de um tempo, entendeu perfeitamente.

Aquele que acabara de levantar chamava-se Parry Watson, sessenta anos de idade, indo direto ao enterro do filho. Segundo parente perdido, sua mulher morrera há sete anos, desde então tentava levar uma vida normal com seu filho Loise Watson, algo que acabou falindo depois de um acidente que tirou boa parte da memória de Loise e o deixou vegetando em cima de uma cama de hospital entre a vida e a morte. Na manhã de sábado, acabou cedendo à morte, deixando Perry mais uma vez vagar em um mar de solidão e feridas. Ele poderia ter contado sua vida inteira para aquele estranho que lhe lembrava de tanto alguém que amava, mas não valeria à pena, pois seria a última vez que o veria.

Seguiu a viagem com a poltrona vermelha ao seu lado vazia. Faltavam 20 minutos para que descesse, olhou para o lado e avistou a mulher ruiva. Seus cabelos iam até a cintura, eram cacheados. Seus olhos eram bem azuis e sua pele branquíssima, estava ouvindo música, bem distraída. Usava uma sapatilha de balé desgastada, o sobretudo preto escondia a roupa delicada do Balé. Não sabia em que ponto ela descia, sempre descia antes.

O trem parou e ele desceu, a estação estava pouco lotada. Tinha algumas pessoas pegando o trem para a linha sete e seis, e algumas pessoas que trabalhavam se apresentado em público, como um violinista e uma estatua humana, um de cada lado da estação.

Direcionou para as escadas, agora até o hospital faltava pouco, só ficava a duas quadras dali depois de subir as escadas. Virou para a esquerda, estava andando um pouco depressa e distraído, quando esbarrou em um entregador de panfletos.

— Desculpe.

— Tudo bem, filho — Falou o senhor moreno de barbas grisalhas — A pressa não lhe faz apreciar o dia.

A noção de apreciar alguma coisa do dia estava em Summer, esperava a semana inteira para estar com ela e apreciar também não fazia muito o seu gênero, quando olhava em volta não sentia nenhum prazer e não via algo que realmente o fizesse admirar.

— É.

Respondeu, sem muita convicção.

Ele sorriu e disse:

— Não sou nenhum poeta, longe disso, mas sei que se você enxerga tudo ao seu redor em preto e branco, então deve olhar para o céu e o azul lhe mostrará as cores — Falou, pegando uns dos panfletos e entregando — Tome. Tenha um bom dia.

— Obrigado, para o senhor também. — Agradeceu pegando o panfleto e andando, estava escrito em letras grandes em amarelo:

O MUNDO NOS PERMITE MUDAR.

O panfleto de cor azul claro, continha algumas nuvens e palavras em branco, eram de um centro para o recomeço de pessoas depressivas, um grupo de apoio, o papel mostrava o nome e endereço do lugar. Não ficava muito longe dali, talvez, ele precisasse algum dia, mas naquele momento tudo que fez foi jogar o panfleto na lixeira mais próxima que encontrou.

Ao atravessar a rua, já podia ver o prédio de muitos andares de cor amarelo sem graça. Aproximando-se mais, a trilha de paralelepípedos levava-o até a entrada, o jardim de flores laranja e amarelas ao lado, dava um ar triste e melancólico para o lugar. Entrou pela porta giratória e pôde ver Aanya Smith, a secretária atendendo a uma ligação. Os cabelos pretos estavam presos em um coque com alguns fios soltos, os olhos castanhos atenciosamente anotavam algo. Aproximou-se.

— Só um minuto Sebastian. — Falou, logo que o viu.

Esperou pouco, logo a morena colocou o telefone no gancho e se direcionou para ele.

— Oi — Falou sorridente — Pode subir, aqui está o seu cartão de visitante. Bem, é melhor ir depressa, Summer não está nada bem desde ontem.

Sebastian deu um suspiro triste. Havia duas semanas que a filha estava assim, lamentava-se e ficava furiosa por qualquer coisa. Mais uma vez a perda batia à porta e ele continuava a segurar a trinca, a se esconder debaixo da cama.

Aanya colocou sua mão em cima da dele como em um gesto de solidariedade, ele assentiu dando um sorriso de canto e se direcionando para o elevador. O quarto onde Summer passava todos os dias era o segundo do terceiro andar. O elevador estava ocupado. Esperou dois minutos e entrou. Mesmo a visitando todos os domingos, ele ainda não estava acostumado a andar de elevador, odiava aquele cubículo com pouco ar, pouco espaço; quando subia, a sensação era de que sua cabeça iria explodir, os pés se perdiam no chão e a tontura o consumia.

Em lentos três minutos estava no andar que queria. Andou rapidamente e um pouco tonto para o quarto e a viu: a cabeça ajeitada cuidadosamente em uma pilha de travesseiros confortáveis – Sabia que sentia muitas dores ultimamente – Olhos vidrados em um pedaço de papel, soube logo que era um telegrama. A pele estava mais amarela e as secreções mais vermelhas, o olhar provavelmente estaria contornado de vermelho e a boca, fina, seca arroxeada.

Entrou sem bater e devagar. Ela quase nem sentiu ele se aproximar. Sentou-se na beirada da cama e viu como a filha havia piorado. Sentiu uma súbita vontade de chorar, que controlou quando Summer o olhou e sorriu.

— Está tudo bem? — Perguntou, uma pergunta meio sem sentido, mas queria preencher aquele espaço, queria preenchê-lo com palavras.

Summer franziu a boca um pouco para o canto e ele pôde reparar que uma nova ferida havia nascido bem no canto, como uma bolha.

— Estou, acho. Na verdade, não sei — E ficou em silêncio, brincando com o papel na mão.

— Não fique assim, por favor. — Suplicou. Nessas mesmas duas semanas já não falava mais com sua filha como antes. Summer estava retendo toda a sua dor física e emocional, recusava-se a falar, não queria fazer o pai sofrer.

— Só que... — Olhou para o teto segurando as lágrimas, com a voz embargada continuou — Não suporto mais. Parece que vou morrer a qualquer momento, não aguento mais essas dores de cabeça ou fato de minha pele coçar cada vez mais, minha vida se esvai a cada minuto. Não tenho mais esperanças de um doador... — Parou quando percebeu que Sebastian estava chorando — Desculpe, desculpe.

Tentou ir até a ponta da cama para abraçá-lo, mas não conseguiu. A coluna se expeliu em uma dor aguda.

Sebastian compreendia, mas o que poderia fazer pela filha? Enquanto a garota falava, jogando a avalanche de duas semanas em silêncio em seus ombros, sua única reação foi chorar, porque sentia uma dor terrível. Aproximou-se para abraçá-la, colocou os braços largos cuidadosamente em volta dos ombros miúdos e magricelas, sentando na beirada da cama, deixando suas lágrimas quentes molhar o cabelo loiro desgrenhado.

— Sinto muito querida, eu colocaria todas as suas cicatrizes, todas as suas dores, eu pegaria isso para mim, só para vê-la feliz. Mas não posso, sou incapaz. Eu sei que dói, que essa situação é insuportável, mas, por favor, não fale mais assim. — E beijou o topo de sua cabeça.

Por um bom tempo, os dois ficaram ali se abraçando, ouvindo o som dos pássaros que cantavam às 09h18, sentindo aquela tristeza no ar, até que Summer respirou fundo e disse:

— Tome — Transferiu o pedaço de papel para as mãos dele — Não leia agora e nem quando chegar a casa, apenas se acontecer o pior. — O que era o mais provável.

— O que é? Uma despedida?

— Não. Um recomeço, acho. Pelo menos era a intenção. — Sorriu de canto.

— Tudo bem. — Disse, guardando o papelzinho no bolso do casaco e tirando o que escreveu, depois entregou a ela e a mesma pegou o pedaço azul e desdobrou cuidadosamente como um presente pequeno, sem ansiedade para saber do que se tratava.

Em bom tom leu:

“Querida Summer,

Eu plantei uma esperança aqui dentro e não consigo parar de regá-la.

– Sebastian.”

Sorriu e apertou o braço do pai em um abraço desajeitado.

— Às vezes parece que sabe o que se passa comigo, mas não tenho mais esperança.

— Eu posso ter esperança por nós dois.

Seguiu um longo silêncio novamente, até que a doutora Campbell – Alicia Campbell – Entrou no quarto. Uma negra muito bonita, alta, com olhos claros e cabelos amarrados em um coque muito bem feito. Era a médica de Summer desde o começo, sempre passiva e compreensível, paciente e gentil. Estava com um sorriso no rosto quando entrou.

— Boas notícias, boas não, ótimas! — Declarou. Aproximando-se, continuou — Não sei como dar a noticia de forma espontânea, então vou direto ao ponto: Summer você conseguiu um doador.

O pai e a filha se entreolharam quase desacreditados, o choque da notícia não os deixou formar nenhuma frase além de:

— O quê?!

Notas finais
Espero que gostem do capítulo. ^^ Caso tenha lhe agradado, comente.