Telecinético

4 Capítulo 4 - No Hospital


“Olha os batimentos dele.” — disse André apontando para a tela com os batimentos que só aumentavam.

Eder se aproximou da tela, observou Ian, sua respiração estava acelerada. Os sons do aparelho cada vez mais rápidos. Eder começou a ficar nervoso, sabia o que ia acontecer. Ele se afastou de Ian e puxou André para junto dele, encostados na parede oposta à cama. Ele pegou o celular e ligou para Diego e pediu onde ele estava.

“Já estou chegando.” ele respondeu rápido. Ian abriu os olhos do nada, eles brilhavam em branco.

“Tarde demais.” disse Eder e desligou.

Ian tirou os aparelhos que estavam ligados a ele e sentou na cama virado para as janelas que mostravam um céu escuro.

“Temos que sair daqui, agora.” Eder cochichou para André que observava Ian paralisado.

Eder fez sinal para que André fosse primeiro. Quando chegaram devagar e furtivamente até porta foram atirados através do quarto. Eles atravessaram a janela que se estilhaçou. André gritou ao ver que cairia de quatro andares. Eder o agarrou com uma das mãos antes mesmo de eles começarem a cair. André não pode nem mesmo sentir completamente o terror de sua situação. Eder e ele sumiram no ar, deixando um rastro um tanto incandescente de suas próprias imagens. Eles depois apareceram no estacionamento, onde cairiam. Era como se houvessem pegado um atalho até o chão. Apareceram a um metro do chão e desceram deixando o mesmo rastro de suas imagens que logo desapareceu. Doeu cair no concreto, mas foi melhor que cair daquela altura. O grito de André parou lá no alto e continuou perto do chão.

“como você fez isso?” perguntou andré, com a cara grudada ao concreto gelado.

Éder se levantou e ajudou André a se levantar. Eles bateram em suas roupas. O homem mostrou ao garoto sua mão esquerda, no dedo do meio havia um anel prateado, com uma faixa transparente no meio. Eder explicou que lhe dava o poder de teletransportar-se.

Eles ouviram gritos, olharam imediatamente para cima. Uma mulher atravessou a janela do quarto onde Ian estava. Éder sumiu com um som macio, André olhou intrigado para a imagem incandescente de do homem que sumia lentamente. Foi rápido, quando André olhou de volta para o alto só havia o rastro de Éder e de uma mulher. Os dois apareceram ao lado do menino. Éder soltou a mulher, era uma enfermeira, e estava branca como papel. Ela respirava profundamente como se o ar fugisse dela. Seus pés trêmulos encontraram o chão, o corpo todo chacoalhava. Ela estava extremamente assustada, e se gostaria de falar alguma coisa, não conseguiria.

O carro de Diego adentrou o estacionamento do Hospital. Ele parou o carro de qualquer jeito e desceu, ele correu até as únicas três pessoas que estavam no meio do estacionamento.

“Avise os seguranças, diga para evacuarem aquele andar.” Éder disse a enfermeira, para que ela os deixasse sozinhos. A jovem morena saiu sem dizer nada.

“o que faremos agora?” perguntou Éder.

“ele já sabe?” Diego perguntou apontando com a cabeça para André.

“Já”

“devemos entrar e fazer algo.” disse Diego, ele parecia preocupado.

“Isto seria arriscado demais.” disse uma voz grave, todos olharam para trás, André tomou um susto. Um homem alto, vestindo jeans e um casaco preto com capuz estava parado ali.

“de onde tu veio?” André não estava entendendo o que aquele homem fazia ali.

“Eu estava aqui o tempo todo. Só não deixava vocês me verem.” ele explicou com um leve sorriso.

“Sean?” Diego perguntou, suas sobancelhas franzidas.

“Pois não?” ele disse tirando o capuz, seus cabelos ruivos se revelaram.

“O que tu quer aqui?” Diego pareceu um tanto ríspido.

“Não se faça de desentendido, vim buscar Ian.

Diego pensou em mandá-lo embora, dizer que nunca deixaria Ian ir com ele. Mas ele voltaria eventualmente, e a ajuda dele poderia salvar Ian neste momento.

“O que devemos fazer então? Pode ajudá-lo” Diego cedeu, embora isso o deixasse incomodado.

“Posso tentar.” Sean disse com a expressão séria, via-se preocupação em seus olhos.

Jaqueline Silva, morena de meia idade, já era enfermeira a treze anos no Hospital dos Pinheiros, e nunca vira nada parecido com o que acabara de acontecer.

No quarto 412, Ian estava sentado na cama, de cabeça baixa e olhos fechados. Suas mãos trêmulas agarravam os lençóis, o cérebro a mil. Ele levantou a cabeça, abriu os olhos e observou a janela quebrada, desacreditando no que havia feito. Sentiu uma forte pontada na testa, apertou os olhos e revirou os lençóis com as mãos. Quando Ian abriu os olhos, estes não eram mais os seus, eles brilhavam em um intenso branco. Ele soltou os lençóis e levantou. Saiu pela porta do quarto e parou próximo a ela.

O elevador se abriu, três enfermeiros estavam prontos para sair. Ian apontou uma das mãos para o elevador e as portas se fecharam. Ele o segurava no mesmo andar. Lá dentro os três enfermeiros não entendiam nada, apertavam o botão para que as portas se abrissem, nada acontecia. Nem mesmo os botões dos outros andares obedeciam. Eles tentavam se manter calmos.

As portas dos quartos e a passagem para as escadas foram bloqueadas por uma ondulação branca, como se fosse um vidro fosco brilhante. Impedia que saíssem dos quartos ou chegassem até Ian pelos outros andares. Ian piscou e o brilho desapareceu.

“Socorro! Alguém me ajude!” Ian escutou a voz de uma mulher, vinha do quarto ao lado do seu. Ele andou até a porta, uma mulher abatida e desesperada batia na barreira. Ian podia ouvir o som do aparelho em um ritmo arrastado.

Ian não entendera o que estava acontecendo, mas ele quis fazer algo pela mulher. Colocou as mãos na ondulação alva, arrastou-as como se tentasse rasgá-la. A barreira sumiu como se tivesse sido sugada pelas extremidades da porta. O elevador desceu pois os enfermeiros apertaram vários botões. Outras pessoas apareceram pela escada para ajudar os pacientes do andar. Atrás delas, policiais da Brigada Militar. Estavam acompanhados da enfermeira que Ian atirara pela janela. Ela parecia tentar se esconder atrás de um dos policiais e apontava para o garoto: “Foi aquele ali ó.”

“Mas ele é só um guri.” disse um dos policiais observando Ian, a arma apontada para ele.

Ian sentiu uma dor gigante em sua cabeça, caiu sobre o joelho esquerdo e levou as mãos a cabeça. A mulher no quarto não sabia o que fazer, as pessoas que vieram para ajudar entraram em outros quartos. Ela estava desesperada, seu pai corria perigo. E este garoto estranho, o que fora aquilo? A expressão de Ian era de pura dor. Os policiais se apressaram para tentar ajudá-lo. De sua testa começou a emanar uma luz branca fraca. Ela tomou o formato da estrela de seis pontas que Ian vira em sua mente, em seu outro eu. A luz brilhou mais forte, ela vinha de algo como um pequeno retângulo de pontas afinadas Na parte de cima, um feixe subia, engrossava no meio e afinava na ponta. Dos dois lados deste feixe, mais dois faziam o mesmo, exceto que estes se enrolavam para fora, como ganchos. Abaixo do feixe central o mesmo acontecia, só que de tamanho menor. Isso ardia no centro da testa de Ian, parecia que sua cabeça iria explodir.

Ian soltou um grito retumbante, os policiais não conseguiram o alcançar. Eles voaram para longe, como se uma explosão invisível houvesse ocorrido. Alguns dos homens bateram nas paredes, outros atravessaram a passagem para as escadas e bateram suas cabeças no teto. Talvez tivessem quebrado o pescoço, de qualquer forma estavam mortos, de suas bocas vazava sangue. Um dos policiais que batera na parede ainda estava vivo, seu coração a mil, suas costas doiam como o homem nunca sentira antes. Ele caíra no chão logo de pois do impacto, fez um enorme esforço para se levantar e caminhou até as escadas. Seu colega estava de olhos arregalados, a enfermeira cobria a boca com as mãos. Ele desceu os degraus e fez um sinal para que os dois saíssem. Eles desceram até o saguão e pediram reforços.

Uma onda de energia invadiu o andar, saíra do símbolo na testa de Ian. As paredes e o teto racharam, os vidros se quebraram. As cadeiras juntas aos corredores se desprenderam. Pesssoas gritaram sem saber o estava a acontecer. Com dificuldades Ian abriu os olhos em meio a dor. Ele se levantou e olhou em volta, uma das mãos na cabeça. Virou-se para trás. O coração acelerado. No quarto, a mulher se levantava do chão, atordoada. Ian podia ouvir o som conínuo do aparelho, havia sangue escorrendo pela boca do senhor na cama. A mulher o fitava incrédula. Um sentimento de pena se instalou em Ian. A moça começou a chorar. Ian queria pedir para ela se acalmar, queria se aproximar, ajudar. Ele deu um passo. A mulher gritou, um misto de sofrimento, raiva e medo. Ela correu para a porta e a bateu. Ian ficou a encarar o amarelo-queimado dela. Foi você.

Ian, Ian...

Ian ouvia uma voz que ecoava em sua mente, ela chamava seu nome.

“não” ele murmurou, sua cabeça doía mais ainda.

Os olhos de Ian voltaram a brilhar. Ele tirou a mão da cabeça, sua expressão ficou neutra. Seus pés deixaram o chão, ele estava flutuando. Foi para perto do elevador, levantou sua mão direita e a apontou para ele. Um jorro de energia branca saiu de sua mão e arrancou as portas do elevador, elas desceram pelo buraco até atingirem a cabine que estava parada em algum andar.

Ian... Eu posso ajudar...

Ian entrou no espaço usado pelo elevador, e foi subindo lentamente. Por onde passava, as portas fixas dos elevadores eram arremessadas para fora, destruindo o que encontrassem. Quando ele foi chegando perto do fim, ergueu os braços. Mais energia saiu de suas mãos, destruindo o concreto acimade sua cabeça. No momento seguinte, Ian estava fora do prédio, flutuando sobre o teto de concreto na noite escura e gélida. Ele desceu, os pés descalsos encontraram o concreto frio.

Ian sentiu seus pés já congelados pouco depois. Os olhos pararam de brilhar e ele percebeu onde estava, o símbolo ainda brilhando em sua testa.

Eu vou ajudá-lo...

Sean tentava a minutos entrar na mente de Ian, mas sempre era impedido.

ME AJUDE...

Quando Ian retomou o controle, Sean conseguiu entrar em sua mente. André, Éder e Diego olhavam para o topo do prédio do hospital, sem saber o que se passava. Mais viaturas da polícia chegavam, e ambulâncias também. Para levarem os pacientes mais graves para outros hospitais. Sean não deixava que os policiais os vissem. No teto, Ian continuava de pé, a expressão distante, sem poder descrever o que se passava em sua mente.