Tela Monomaniaca
1 Capítulo único
Notas iniciais
Surgi das cinzas.
Primeiro conto postado aqui.
Possuo uma fanfic sobre Death note, porém, está paralisada por tempo indeterminado.
Sou escritora de longa data e segue meu perfil do Wattpad para quem estiver interessado em minha obra.
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Primeiro conto postado aqui.
Possuo uma fanfic sobre Death note, porém, está paralisada por tempo indeterminado.
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Desde pequena, Paola soube que jamais seria feliz e sempre esteve convicta do pensamento de nunca haver pedido para nascer e que estaria melhor morta. É algo forte, porém, a pura verdade. Em vida conseguiu muitos trunfos. Uma estilista e poetisa famosa, cheia de dinheiro, reconhecimento e, o mais louvável, talento. Contudo, não bastava. Não era uma menina mimada, apenas sentia-se cada vez mais vazia conforme o passar dos dias.
Constantemente se lembrava da mãe e de suas intermináveis brigas. Quando as coisas esquentavam, a jovem tratava de revidar com a realidade que mais á atormentava e a mãe nunca sucumbiria.— Eu nunca quis nascer! Você foi burra de ter me dado a luz, é por isso que a odeio tanto!O avançar dos anos cessou as brigas. Paola foi para a faculdade, ganhou destaque, realizou cursos, se tornou uma pessoa dedicada e centrada no mundo da moda e o início de seu ápice se deu com o primeiro desfile de inverno de sua marca — Grunge Paô.As roupas rasgadas, as peças xadrez de flanela, o ar que exalava “dane-se”, o jeito rebelde e o apreço pelo simples econômico chamava a atenção de Paola no grunge; o que a instigou a montar a marca e confeccionar peças exclusivas para o movimento. Seu preconceito para com o Neo-Grunge, a fez parar no tempo, o que estranhamente fez sucesso e milhares de pessoas retrocederam aos anos noventa, ao Grunge não sofisticado, como deveria ser.As poesias eram escritas com paixão, na mão antes do digital. Tudo o que a jovem fazia precisava ter um pouco de amor. Entretanto, a fama, o talento e o dinheiro não a preenchiam por dentro e todos os dias ela se perguntava se já não estava bom, se não havia feito o suficiente para por fim descansar. Um dia, selado por tais pensamentos, marcou a aparição de Gustavo — um pintor de olhos cinza e cabelos loiros compridos na altura da cintura —, este se encantou de imediato pela garota solitária, de cabelos negros feito o breu e pele bronzeada para combinar com sedutores lábios rubros, bebendo vinho branco na mesa de seu bar favorito. — Uma garota bonita bebendo sozinha desta forma. Que escândalo. Os homens irão achar que é uma presa fácil —brincou, parado em pé á frente da mesa de Paôla, ela sorriu e embarcou na encenação. Algo nos olhos brilhantes daquele rapaz a fez se esquecer de seus próprios pensamentos negativos.— E o que me faria pensar que você é diferente deles? — perguntou, fazendo sinal para que ele se sentasse, logo uma das atendentes do bar trouxe um segundo copo e ele se serviu do vinho— Nada. Eu não sou diferente. Sou igual á todos os homens imprestáveis! — para a surpresa dele, Paola respondeu de uma forma inesperada vinda de uma mulher— Não acredito nessa história de homens serem iguais. Nenhuma pessoa é igual. Nós aprendemos e evoluímos, nossas experiências são diferentes e por isso somos diferentes. Homens não são iguais, mulheres também não. E você também me parece bem solitário, loirinho— Mesmo? E posso saber por que acha isso?— Seus olhos. — O que tem eles?— Inocentes demais para alguém que não liga mais para ter ou não companhiaEle abriu um largo sorriso e as pupilas se dilataram, estava diante de alguém que o entenderia e vice-versa, sem erros.As telas de Gustavo contemplavam animais em suas atividades, o que incluía o ser humano. Constantemente fotografava moradores de rua e reproduzia em telas o que havia sido retratado digitalmente, dando á imagem um ar poético, mais humano, distante da frieza com a qual uma máquina capta a vida, deixando-a um tanto mais próxima da realidade até. Mas, o que Gustavo tomou como paixão para sua arte, desde o dia no bar com Paôla, fora justamente a estilista, logo qualquer pessoa não o interessava mais para a pintura e ele a tornou a obra de sua vida.A noite no bar terminou com cada um em sua casa. Paôla possuía um quê misterioso de insensatez. As orbes de avelã chamuscavam ambição quando falava de seu ateliê e como começou seu trabalho de modelista logo cedo, almejando o mundo; a boca umedecia desejo ao recitar suas próprias poesias sensuais. Gustavo, levando em conta o ponto de vista da morena, era obvio e previsível, ficava claro que pintava por ser bom com o visual e mais claro ainda que amava a vida boemia e ganhar o mínimo para sustentar esta, sem se importar com a forma utilizada para vender suas telas — fosse um museu ou na avenida paulista, ganhando o pouco para o aluguel e a cerveja, estava ótimo.O mundo é um quebra cabeças interminável e cada peça precisa se encaixar. Como parte deste quebra cabeças, Gustavo e Paôla completavam um ao outro e isto fez o namoro ascender e, após pouquíssimos meses, resultar num anel de casamento.Gustavo foi descoberto como pintor e ingressou no mundo no qual a arte é feita por profissionais, tornando-se reconhecido e endinheirado. A felicidade girava ao seu redor, no entanto, deixava a esposa de lado. Por mais que o pintor tentasse, sua doce poetisa e ambiciosa estilista permanecia na angústia de não aceitar a benção de simplesmente estar viva.
Estranhamente, a angústia da amada o fascinava. A deixava mais bela, mais romântica, envolvia-a numa teia de perfeição que prendia Gustavo como prenderia uma mosca. Cada dia de angústia, para Gustavo significava o inferno, Paôla sucumbindo á tristeza tirava seu chão, simultaneamente vivia no paraíso, transpassando toda aquela angústia em pinceladas de óleo e aquarela. Cada lágrima dele, uma pincelada. Cada lágrima dela, uma dor no coração dele.— Você não entende — Paôla disse certa vez, anos de casamento depois, sentada no sofá presente na sacada do seu quarto de sua mansão, comprada meses antes a cerimônia. — Não mesmo! Meu amor, não percebe como é ótimo viver? O que mais quer? Tem todo o dinheiro que uma mulher poderia desejar, um marido e o reconhecimento que muitos morrem sem conquistar. Aparece todos os dias nos jornais, nas revistas, suas coleções bombardeiam os comerciais. E, ainda mais, é linda! — ele largou o pincel e este caiu no chão. Gustavo ajoelhou e deitou a cabeça no colo da mulher que tanto amava, apertando as cochas como quem jamais irá desgrudar — O que eu fiz? Não te amei o suficiente?— Sei que me ama. Eu te amo tanto que você não pode imaginar. Mas, querido, já conquistei tanto, como você mesmo diz, será que não está na hora de descansar? Todas as noites, fecho os olhos pensando em tomar doses e mais doses de tarjas pretas, então desisto quando sinto seu abraço, porém, na manhã seguinte, quando você não está por perto, o mesmo desejo me consome por dentro.— Não vou permitir que faça uma besteira dessas! Você ainda pode fazer mais, criar mais, escrever mais—Para que?— Por mim. Se me ama, faça essas coisas, crie e escreva, costure, tire fagulhas das máquinas de costura e mande em suas lojas como a dona que é, faça o que ama se me ama, para me fazer feliz. Não vou aguentar caso parta pelas próprias mãos E assim ela fez. Fez tudo, como mandava a rotina conhecida. Não adiantou.Gustavo prosseguia vendendo telas retratando toda a obscuridade da mulher. Um dia, ali estava, prostrada no hall de entrada da mansão, uma tela de quinhentos metros de comprimento e três de altura. — O que é isto? — Paôla perguntou pela manhã, boquiaberta, o marido olhando-a como um alucinado extasiado pela felicidade— Isto é aquilo! — o loiro de longas madeixas apontou para uma mesa feita de mogno, virada de frente para tela, uma poltrona de couro atrás, papéis brancos e uma máquina de costura em cima. Uma mesa de trabalho — Quero que trabalhe ali. Quero vê-la criar e retratar!— Não seria mais fácil tirar uma foto em meu escritório que fica lá em cima, querido?!— Este é o ponto. Seria uma fotografia paralisada, quero você pulsando empolgação e concentração em tempo real— Isso levará séculos!— Não. Mais precisamente demorarei dois anos para terminar, se pintar todos os dias— Isso significa que precisarei trabalhar todos os dias— E?— Você é louco— Louco por você — o casal riu. Paôla riu como nunca, abraçou e beijou o marido. Começaram a obra no mesmo instante.A tela se encontrava pela metade. Para agradar o marido, Paôla continuava produzindo o que há muito não mais queria. As poesias tomaram um gosto amargo, os tecidos, uma textura melada. Muitas vezes desabava aos prantos sobre a mesa. Gustavo precisando interromper suas pinceladas para acudi-la com abraços e afagos.— Falta pouco — dizia esperançoso. Mas não faltava, não, não faltava pouco. A tela estava pela metade, muito ainda faltava o que dar cor! E então chegou o dia. Gustavo embarcou na verdadeira dor de ver a mulher de sua vida definhando e postou-se entre a cruz e a espada. Sua tela inacabada, a mulher infeliz.Ela adormecera chorando, após o calmante fazer efeito. Gustavo á olhou e uma lágrima percorreu até seu queixo. Desceu á cozinha e apanhou um copo d'agua, voltou e o bebeu, de pé perante a grande cama de casal. Descansou o copo sob o criado-mudo e depositou um beijo na testa de Paôla, que se remexeu um pouco.— Descanse meu anjo, eu te amo.Do cós da calça de moletom, exibiu no ar a lâmina da faca. Viva e tristonha, ela acabava com seu coração e desmoronava sua arte. A lamina daria á ela toda a liberdade que sempre sonhou e preencheria a casa com a angústia que finalizaria aquela tela, infelizmente, isto se faria sozinho. A lâmina perfurou o diafragma e estômago de Paôla. Faleceu dormindo, mas soltou um suspiro, como se de alívio, no momento.Em seguida, Gustavo voltou a arma branca para o próprio coração. A tristeza daquele amor trataria a tela como Deus que pinta as flores sem precisar toca-las. Gustavo de tudo fez por Paôla. Se não era feliz em vida, juntos ambos seriam em morte. Ele faleceu sorrindo.
Notas finais
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