Tekken no Kimochi
3 O Retorno
Notas iniciais
A brisa fresca fazia as folhas soltas rodopiarem ao vento, agitando os cabelos rebeldes do garoto. O cheiro de lámen recém-feito impregnava o ar quando Teuchi pousou as duas tigelas no balcão. O loirinho e seu acompanhante sorriram de orelha a orelha, juntando as mãos em forma de prece e murmurando “Itadakimasu!” antes de comer. Iruka observava Naruto soprar o lámen, sorrindo para o mais jovem.
—Desculpe por ter demorado tanto tempo pra sair com você, Naruto. As coisas têm sido complicadas na academia. E você, como você está? Você e o seu time estão se dando bem?
O Uzumaki fitou o sensei, engolindo o macarrão antes de falar.
—Não tem problema, Iruka-sensei. Eu tô bem. – Ele estreitou os olhos quando o professor perguntou sobre o time. – Sakura-chan e Kakashi-sensei são ótimos, o problema é o idiota do Sasuke. Ele se acha o maioral. Mal posso esperar pra quebrar aquela banca toda dele, -ttebayo. – Iruka riu. Como esperado, ele e Sasuke ainda tinham suas diferenças. Um mês e meio de trabalho de equipe não seria o suficiente para mudar a mente de dois turrões como eles.
—E pensar que já faz quase dois meses, não é? – Iruka tocou o próprio hayate, com um sorriso nostálgico nos lábios. – Eu soube que vocês tiveram outra missão fora da vila. Como foi?
A expressão de Naruto mudou, tornando-se pensativa enquanto comia. Ele discretamente levou a mão à testa, o ponto onde fora beijado.
—Nós tínhamos que escoltar uma velha senhora até a casa do daimyo. Até aí tudo bem, mas só que uns caras maus nos atacaram. No meio da briga, a senhora virou uma moça muito bonita. Ela disse que estava disfarçada porque sabia que eles estavam na cola dela, e se a matassem, aquilo ia virar uma guerra enorme. Nós chutamos a bunda deles e concluímos a missão. – Ele narrou o acontecido com sua própria versão dos fatos, gesticulando e mudando a expressão enquanto falava. Teuchi já havia se aproximado para escutar também, e tanto ele quanto Iruka já estavam empoleirados na bancada, ouvindo atentamente a história do loiro.
—É mesmo? E como era a moça? – O cozinheiro perguntou. Naruto olhou para cima, tentando se lembrar dos detalhes.
—Ela tinha um cabelo longo e vermelho que cobria metade do rosto. O sorriso era muito bonito. – Ele corou ligeiramente, se lembrando do último momento com a mulher. Levantou o antebraço esquerdo para ajudar na visualização enquanto contava. – O braço dela era de metal e ela tinha uma tekko-kagi bem maneira, -ttebayo! Kakashi-sensei disse que era filha do Yondaime. Isso é bem legal! – A última informação fez Iruka e Teuchi se encararem em silêncio e antes que o rapaz percebesse, eles voltaram a sorrir.
—Ah, você deve estar falando da Haruka-san.
—Sim, ela mesma. Você a conhece?
—Só de relance. Ela acabou salvando a minha vida.
—Eh? – O loirinho piscou. – E como foi isso?
O semblante de Iruka ficou mais sério. Ele se inclinou pra frente, remexendo o lámen em sua tigela.
—Isso foi durante o ataque da Kyuubi. Quando ela estava atacando, a polícia começou a remover os civis e crianças pequenas das ruas, levando-os para os túneis que davam pra fora da vila. Eu fui separado de meus pais e forçado a seguir o grupo. Haruka-san era um dos ninjas que estava supervisionando os cidadãos nos túneis. Ela tinha quase a minha idade, mas já era chuunin. Eu nunca havia visto uma criança tão focada em seu dever. Parecia uma adulta, com um olhar afiado e pragmático. – O olhar do professor se perdeu em suas lembranças. – Durante a evacuação, a terra tremeu e o túnel começou a desabar. Haruka-san ativou um jutsu que segurou as pedras enquanto as pessoas corriam. Nós já estávamos perto da saída, então só precisávamos aguentar mais um pouco. Porém, a última pessoa a sair foi uma menininha. Ela havia esquecido sua boneca e voltou pra pegar, mas o túnel finalmente entrou em colapso. Nós tentamos remover as pedras da passagem pra liberar o caminho pra Haruka-san e a menina, mas não conseguimos. Então a pedra foi explodida de dentro. Nós vimos as duas, mas o antebraço esquerdo de Haruka-san se fora. Ela estava muito pálida e sangrava muito. Isso foi quando os ninjas do fronte conseguiram prender a Kyuubi. E Haruka-san não esperou para cuidarem de seus ferimentos. Ela saiu correndo em direção à barreira. Por ter salvo os cidadãos naquele deslizamento, ela foi reconhecida como uma heroína. – Iruka franziu o cenho. – A última vez que a vi foi no funeral. Depois ela saiu da vila e nunca mais voltou.
Naruto engoliu em seco enquanto Iruka contava aquela história, tendo um pensamento passando por sua mente. Tanto a perda do braço quanto a morte do pai dela foram causadas pela Kyuubi. A mesma que estava selada nele. Seria normal se Haruka o odiasse, assim como o resto das pessoas. Mas a reação dela foi totalmente oposta. Naruto deu um sorrisinho triste.
—É, isso é realmente estranho.
…
A visão da vila a perturbava.
Ela estava parada no monte que cercava os campos de arroz, sendo capaz de distinguir a silhueta majestosa de Konoha no horizonte. Os cabelos muito vermelhos dançavam ao vento, constantemente empurrando o capuz para baixo e revelando os traços finos, herdados do pai. Ela tinha o braço esquerdo apoiado a uma árvore, sentindo a dor que tinha no peito formar um nó na garganta. Era problemático voltar àquele lugar, assim como fora problemático convencer o daimyo a deixá-la ir. Continuaria desempenhando suas funções de embaixadora, mas também retornaria à atividade ninja, mesmo que não lhe restasse muito tempo. Seria mais simples permanecer com o daimyo. Seria mais simples não pisar mais naquele lugar e desempenhar o papel de uma protetora distante.
Distância era o seu nome. Foi o significado que incorporou em seu ser.
Ela cogitou voltar. Cogitou passar o resto de sua vida lá. Mas os rostos do passado que passaram anos lhe atormentando jamais a deixariam em paz. Ela achou que com o tempo, a memória se transformaria em lembrança. Ela não queria lembrar. Ela queria seguir em frente sem aquela dor. Ainda lá, parada, as memórias daquela noite passavam como um filme em seus olhos. Ela não queria voltar.
Konoha era nada mais que um inferno de lembranças ruins e memórias felizes de um tempo que não podia mais voltar. Ainda assim, ela nunca conseguiu se desligar do lugar, protegendo-o com as melhores armas que tinha à distância: diplomacia, influência e, é claro, o fio de suas lâminas. Aquele era o legado de seu pai, o motivo pelo qual ele e sua mãe morreram. Ela estaria insultando a memória de todos que amava se abandonasse a vila a própria sorte.
Mas agora era diferente. Ela tinha algo pelo qual voltar. O rosto de uma criança que conhecera era tão nítido em seu olho quanto a própria paisagem da estrada. Aquele rosto que era um dos que a assombravam, a consolidação da ideia que ela havia nutrido em sua mente. Haruka sempre se perguntara como ele se pareceria quando mais velho. Se tivesse tido uma chance...
E ele teve. Ele vivera aquele tempo todo sozinho, com o fardo de ser um jinchuuriki em seus ombros. O ódio de toda a aldeia direcionado para uma única criança.
Uzumaki Naruto.
Como ela fora tão cega? Por que não voltara antes? Se ela tivesse retornado, descobriria e verdade. Descobriria que ele estava vivo. A única pessoa viva que carregava seu sangue. Aquele que ela tinha ansiado tanto para conhecer, que tinha feito planos, esperando tanto pelo dia em que ele viria ao mundo.
Seu amado irmãozinho.
Enquanto a raiva, a alegria e a culpa esfriavam, ela teve tempo para refletir sobre aquilo tudo nas últimas semanas. Não precisava ser uma gênia para descobrir o sentido de tudo aquilo. O porquê a verdade fora escondida dela.
—Aquele bastardo... – Haruka praguejou entre dentes, cruzando os portões da vila. Era quase uma visão de sua infância tomando vida. Os cheiros, o vai e vem dos transeuntes, os sons que indicavam a vida em um lugar daquele tamanho, tudo era nostálgico. Aquilo seria um novo começo. Mas como Naruto reagiria? Será que ficaria com raiva? Será que ele a perdoaria?
O capuz ocultava sua identidade enquanto ela andava até a mansão do Hokage. Precisava comunicar Sarutobi de sua chegada. Os guardas da mansão a interceptaram nos portões, bloqueando o caminho.
—Quem vem lá? – Bradou um deles. Assim que a moça retirou o capuz, os fios vermelhos que eram a prova do sangue Uzumaki em suas veias brilharam contra o sol, causando o reconhecimento imediato por parte dos guardas, dois dos membros da guarda pessoal de seu pai. – Por Kami... Haruka-sama?!
—É bom vê-los novamente. Estou entrando, preciso ter uma conversinha com o Sandaime. – Os guardas se retiraram de seu caminho, abrindo passagem para a ruiva. Sarutobi encarava o morro das estátuas por sua janela, com as mãos entrelaçadas atrás das costas. A porta foi aberta com um violento estrondo de metal estilhaçando madeira, fazendo-o virar-se rapidamente. A primeira coisa que viu foi a carranca da ruiva o encarando, o olho muito azul faiscando de raiva. – Sarutobi-sama... O que significa isso?!
—Fico feliz que tenha retornado, Haruka. Você cresceu bastante. – Sarutobi a encarou calmamente, puxando um trago de seu cachimbo. – Do que você está falando?
—Não se faça de besta. Do Naruto, é claro! – Ela se aproximou, com os punhos cerrados e o olho lívido de fúria.
—Ah, sim. O que tem ele?
—O fato de que você nunca comentou sobre ele em nenhuma de suas cartas? O fato de que eu não sabia que meu irmão estava vivo? – O punho esquerdo avançou com tudo contra a madeira da escrivaninha do velho, fazendo a madeira fragmentar-se perante sua força. O braço ficou entalado num buraco perfeito, no formato da mão metálica da kunoichi. A expressão de Sarutobi se iluminou de compreensão. Então era por isso que ela havia saído da vila. Mesmo que fosse ligada a ela pelo juramento de um ninja e tivesse desempenhado seu papel com maestria nas fronteiras e nas mesas de discussão, Haruka se desligara daquele lugar. Ele sempre quisera saber por que Haruka deixara Naruto para trás. Agora ele entendia.
—Entendo. Me desculpe, Haruka, mas eu não tinha ideia que você não sabia. Sim, após o selamento da Kyuubi, Naruto ficou em um estado muito grave por dois dias. O coma era tão sério que julgamos que ele tinha rejeitado a bijuu em seu corpo. Mas ele sobreviveu. E você já havia ido embora. – A esclera do olho da Namikaze ficou avermelhada, sinal das lágrimas que começaram a cair por seu rosto em profusão. Ela abaixou a cabeça e seus lábios tremeram levemente, tentando conter os soluços. A ruiva levou um tempo para se acalmar.
—Eu achei que ele tinha morrido junto com eles... Ele era... Ele era tão pequeno... Não merecia nada disso... Nenhum deles mereceu nada disso...
—Eu sei. Minato e Kushina eram realmente boas pessoas. Naruto também. A vida dele foi bem difícil. Mesmo que tenhamos proibido os adultos de contarem às crianças sobre ele, ainda assim eles afastavam seus filhos e o discriminavam. Mas ele nunca desistiu. É uma boa criança.
—Eu falhei com ele. Okaa-sama me pediu para cuidar do Naruto. Eles me confiaram essa tarefa, e eu... – Ela virou o rosto. Sarutobi pousou as mãos nos ombros da moça, olhando fixamente no olho muito azul.
—Chorar pelo que aconteceu não adianta nada. Temos que seguir em frente. Essa é uma ótima chance para você se redimir com ele, Haruka. Você é muito forte. Vai conseguir.
—Hai... Desculpe, Saru no Jiji. – Ela estufou as bochechas. Sarutobi riu, ouvindo o apelido que a moça lhe dera quando era criança. Ele havia sentido a falta dela. Tanto Naruto quanto Haruka eram boas crianças. Ela secou as lágrimas com as costas dos dedos. – Tenho estado muito emotiva ultimamente. De qualquer forma, me aproximarei dele e cuidarei dele daqui em diante.
—Bem, sobre isso... – Sarutobi alisou o cavanhaque, tragando profundamente de seu cachimbo antes de continuar. – A questão é que as pessoas não sabem quem o Naruto é. Se você sair contando aos quatro ventos que é irmã dele, logicamente o associarão a imagem de seu pai. Isso mancharia a imagem de Minato, pois ele selou a Kyuubi dentro do próprio filho.
Haruka franziu o cenho, a raiva retornando ao orbe azul.
—E por causa disso meu irmãozinho precisa continuar no escuro, sem ideia de quem ele é ou de onde veio? Como se ter aquele monstro horrendo dentro dele e ser tratado como lixo não fosse castigo o suficiente?! – Ela sibilou, o tom de voz se elevando a cada palavra proferida. Sarutobi assentiu.
—Eu concordo que ele deva saber. Mas faça isso devagar. A paz ainda é muito estável, e qualquer burburinho pode se tornar um problema. – A Uzumaki ergueu o queixo, retirando bruscamente seu punho da escrivaninha e marchando a passos pesados até a porta destroçada. A força do punho da Uzumaki era a principal razão pela qual seu apelido era Tekken.
—Eu vou mudar a forma como eles vêm meu irmão, Saru no Jiji. E pode apostar que eu vou destruir qualquer um que resolva encostar em um fio de cabelo dele. – Ela proferiu com um tom perigoso e determinado, sem se virar para encará-lo, e marchou pelo corredor. – E caso não tenha sido clara, eu vou me retomar minhas atividades ninja! A residência agora é permanente! – A ruiva rugiu, usando toda a potência vocal que tinha herdado de sua mãe. Sarutobi sorriu levemente. Parecia que as coisas iam melhorar, ou ficar mais interessantes, daquele momento em diante.
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