Chegando lá, viram o quão lotado estava, tanto dentro quanto fora. Mas Henrique conhecia os seguranças, e ele conseguiu entrar bem rápido.

A boate estava toda escura, iluminada apenas por alguns feixes de luz coloridos e pessoas sujas de tinta neon e com pulseiras fosforescentes. Tocava eletrônica bem alta. O gênero musical preferido de Camila, pensou Lucas. E lembrou dela. Mas não queria pensar nela, não naquele momento. Então levou Henrique até o bar e pegaram 2 Heineken. Lucas sentou em um dos bancos em frente ao bar e ficou observando as pessoas que dançavam ali perto. E ele estava se divertindo, conversando com Henrique e olhando as pessoas, até que avistou Luiza, sua ex, em altas pegações com um cara avulso. Lucas ficou com muita raiva, e bebeu a garrafa de cerveja dele e a de Henrique, e continuou olhando. Queria ver a cara do desgraçado que estava beijando ela, mas ele estava de costas. Até que eles dois pararam de se beijar e ele viu o rosto do cara. Não acreditou; era seu melhor amigo, Caio. Lucas não conseguiu evitar, e foi até lá. Henrique tentou impedir, mas não conseguiu. Então Lucas empurrou Caio.

—Que merda tá acontecendo aqui? -disse Lucas.

—Lucas? O que você tá fazendo aqui? -disse Caio.

—Eu que te pergunto, filho da puta. Tu tinha dito que ia sair com a Karina. Aí eu te encontro se pegando com essa vadia -disse Lucas.

—Quem você pensa que é pra falar comigo assim? Me respeita garoto, não sou a Camila, ok?-disse Luiza.

Naquele momento, Lucas quis muito dar um tapa na cara de Luiza, mas se conteve.

—Pelo menos a Camila não dá pra qualquer um -disse Lucas.

Luiza ficou com muita raiva e deu um tapa na cara de Lucas, e antes que ele revidasse, Caio apartou a possível briga.

—Vocês podem parar de brigar? Luiza, sai daqui, por favor. Preciso falar com o Lucas, a sós -disse Caio.

—Tá bom, gatinho. Me liga depois, tá? -disse Luiza, mandando um beijo pra ele.

Então ela saiu e deixou eles dois a sós. Mas a boate era barulhenta demais para conversar, então eles saíram e ficaram na calçada.

Na calçada, Lucas socou Caio, e ele caiu no chão.

—Mano, tu tá ficando louco? -disse Caio enquanto limpava o sangue que escorria de seu lábio.

—Eu tô só dando parte do troco que tu merece. Tu ficou com a minha ex e ainda tá traindo uma grande amiga minha.

—Eu não tô traindo ninguém, até porque eu ainda não pedi a Karina em namoro. Foi a última vez que eu fiquei com ela, relaxa.

—ÚLTIMA VEZ? EU VOU ACABAR COM A TUA RAÇA, FILHO DA PUTA.

—Calma cara, foi a última vez. Ela é só uma despedida de solteiro, antes de eu namorar com a Karina.

Lucas estava muito zangado. Ele queria quebrar aquele garoto, que antes ele considerava seu melhor amigo. Mas estava pensando mais na Karina e em como ela precisava saber da verdade.

—Vou contar tudo pra Karina. O que será que ela vai achar disso?

—Você não vai contar.

—Ah, é? Por que eu não contaria?

—Porque eu sou seu melhor amigo. E você sabe que eu sempre estive ao seu lado, e sempre te dei a segurança de que ia estar do teu lado, diferente daquela ridícula da Camila.

—Você respeita a Camila. Ela é mil vezes melhor que você e mil vezes mais amiga.

—É, pode até ser. Mas quem é que te dá a segurança de que essa "garota incrível" vai estar do seu lado? Você mesmo disse que não consegue ter certezas em relação a ela.

—Tá, mas e daí?

—E daí que se você contar pra Karina que eu fiquei com a Luiza, você vai perder a única pessoa que te dá a certeza de que vai sempre estar com você.

Lucas ficou sem palavras. Ele queria acabar com Caio ali mesmo. Mas sabia que eles estava certo. Ele realmente era incerto em relação a Camila e o Caio era melhor amigo dele desde bebê. Lucas então foi atrás de Henrique, mas escutou Caio gritar atrás dele: "Isso, fuja da verdade. Você vai acabar sozinho se confiar nela!".

Achou Henrique conversando com uma galera no meio da boate e puxou ele.

—Vamos embora, agora -disse Lucas.

—Mas, mas... Eu tô me divertindo, cara.

—Sério, vamos sair daqui. Eu acabei de socar o Caio na cara, e se eu não for embora, eu mato ele.

—Tá, tá. Vamos pegar o carro.

Eles voltaram para o estacionamento da livraria, entraram no carro e dirigiram-se para a casa de Henrique.Durante o percurso, conversaram.

—Afinal, o que foi que aconteceu lá, Lucas?

—O que aconteceu foi que eu tenho um melhor amigo filho da puta que tá certo.

—Pera, não entendi. Explica melhor.

—Ele é um filho da puta por ter ficado com a minha ex, que eu ainda amo. Mas ele está certo em relação a Camila.

—O que ele disse sobre a Camila?

—Ele deixou a entender que ela não ia estar sempre na minha vida, como ele esteve.

—Que cara babaca. É óbvio que essa tal de Camila sempre vai estar na tua vida. Até eu tô!

—Ah cara, se fode aí vai -falou Lucas, enquanto ria.

—Mas me fala mais sobre isso de ainda amar a Luiza.

—Ah cara, é aquele velho clichê: eu tinha a mina nas minhas mãos, depois ela me teve nas mãos dela e me largou. Mas a Camila me avisou, eu que não escutei.

—Essa Camila me parece uma pessoa gente boa. Mas cara, sinceramente, tu devia superar essa Luiza. Ela não te merece.

—O problema é que eu amo a Luiza, mas não gosto mais dela.

—Eita, como assim?

—Eu amo a Luiza, mas gosto da Milenna.

—Milenna? A tua colega de sala?

—É. Me apaixonei por ela. Mas eu não quero que a Camila nem a Carol saibam, não agora. A Mila tem mais que se preocupar com a vida amorosa dela, que não anda uma das melhores.

—Olha, só vou te dar um conselho: se tu gosta dessa Milenna, devia contar pra ela.

—Mas e se ela me rejeitar?

—Você prefere morrer com a dúvida ou superar com a verdade?

—Cara, tu foi profundo agora. Passou 4 horas comigo e já tá mitando.

—Sempre fui um mito, você que nunca percebeu isso.

—Humildade tá ligando, viu?

—Tá, rejeito a ligação. Mas fala aí, o que você tem pra gente escutar?

—Tenho Guns, Selvagens, Legião, Engenheiros, Nando Reis...

—Coloca aí Legião.

Então eles passaram o resto do percurso cantando músicas, como "Geração Coca-Cola", "Tempo Perdido" e entre outras.

Chegaram ao prédio de Henrique. O prédio era no centro da cidade, perto da faculdade deles. Os dois passaram pela portaria e foram até as escadas, pois o elevador estava em manutenção. A sorte deles era que Henrique morava no 5 andar de 25, ou eles iam ter um grande problema.

Chegando ao apartamento de Henrique, Lucas se surpreendeu com o que viu. O apartamento era espaçoso, com 5 cômodos e a varanda. O quarto de Henrique parecia um quarto de um garoto de 12 anos, porque tinha caixas de gibis, bonecos de colecionador, pôsteres de gamers e bandas, uma estante com livros e CDs. Fora que o quarto estava uma verdadeira bagunça. Roupa no chão, comida na cabeceira. Tinha até uma casca de banana no teclado do computador. Aquilo estava uma verdadeira zona pós-guerra de duas crianças.

—Henrique, que tornado passou por aqui?

—Ah, cara, desculpa. Eu não tava esperando ninguém hoje, então não arrumei.

—Teu companheiro de apartamento deve ser alguém bem tolerante, porque puta merda.

—Não tenho companheiro de apartamento.

—Como assim? Tu mora sozinho nesse apartamento enorme?

—Moro.

—Caraca, que irado!

—Nem tanto. Passar noites sozinho não é legal.

—Mas a Sara não vem pra cá?

—Vem cara, mas ela não vem todas as noites né? Ela tem que estudar e fazer companhia pra melhor amiga dela, porque elas moram juntas.

—Ah, tô ligado. Enfim, o que tu tem pra gente comer?

—Cara, nada. Mas posso pedir pizza se tu quiser.

—Fechou então.

Lucas e Henrique passaram a noite comendo pizza e conversando ao som de Skank. Lucas contou sobre seu namoro com Luiza e o término. Falou também sobre a Milenna e sobre o que sentia por ela. Mas Henrique não estava tão interessado assim nelas duas. Ele estava interessado em Camila. Afinal, por que Caio havia dito aquilo de Camila? Por que ela não era confiável? Resolveu perguntar.

—Cara, eu tô curioso mesmo pra saber sobre essa tal de Camila.

—O que tu quer saber? Ela é minha melhor amiga. Na verdade ela é praticamente a minha vida.

—Não entendi porque ela é tua vida. Pode explicar?

—É o seguinte: eu era sozinho. Eu só tinha o Caio e mesmo ele me abandonava as vezes. Eu tinha que aguentar tudo sozinho e calado. Isso me deixou emocionalmente instável e eu fiquei com depressão.

—Caraca...

—Mas não para por aí. No dia que eu conheci a Camila, eu tava entrando em uma recaída da doença. E ela puxou assunto comigo sobre o Caio. E meio que eu desabafei um pouco com ela, disse umas coisas. Até que em um momento da conversa, ela disse que eu era "o cara certo". Tu não tem ideia do que isso mudou. Escutar alguém como a Camila, que tem muitos amigos e é bonita, não tem como. Então eu e ela começamos a conversar mais e nos demos muito bem.

—Tá, então ela é tua vida por conseguir te manter longe da depressão?

—Também. Mas o principal motivo dela ser minha vida é ela ter me salvado de mim.

—Como assim?

—Um dia, eu tava em uma crise muito séria. E liguei pra ela. Eu tava tendo pensamentos suicidas e eu me odiava muito no momento. E sim, tinha a ver com a Luiza. E a Camila me fez enxergar a voz da razão. Eu vi que ela tava pior que eu, eu vi que ela tava sofrendo mais por causa do meu sofrimento. E eu não queria que ela sofresse por minha causa. Ela era a coisa mais importante que eu tinha, ela me fez esquecer os pensamentos. Eles perderam a força comparado aos pensamentos positivos que ela me proporcionou, aos sentimentos incríveis.

—Cara... Não sei o que dizer, só sei que quero conhecer ela.

—Ela é a melhor pessoa que eu conheço. Fico feliz dela ser minha vida, e ter resgatado esse idiota aqui.

—Ei, você não é só idiota. É retardado, maluco, estressado...

—Cala a boca, viado.

O resto da noite eles dois ficaram jogando videogame até dormir. Henrique dormiu antes de Lucas, que ficou pensando em Camila. Ele não queria ficar daquele jeito com ela, então resolveu ligar. Não queria pensar no que Caio havia dito.

—Alô?

—Mila?

—Que que cê quer, Lucas?

—Preciso falar com você.

—Fala, tô escutando.

—Primeiro, desculpa. Não foi minha intenção te magoar. Eu realmente preciso conversar com você, minha noite não foi uma das melhores.

—O que aconteceu? Tô preocupada. Cê tá bem?

—Não. Eu vi o Caio e a Luiza se pegando.

—O QUE? Não acredito! Que filho da puta!

—É, eu sei.

—Eu sabia que ele era um sem caráter. Eu quero acabar com ele, quero dar socos e chutes naquela pimba que ele chama de pau.

—Calma, Mila. Eu dei um soco nele já, fiz a boca dele sangrar e acho que quebrei um dente dele. Tá de boa.

—Não, não tá. Eu nunca devia ter te deixado sozinho. Você precisa de mim, e eu tenho que te ajudar.

—Mila, uma hora ou outra eu ia ter que me machucar. Você sabe disso melhor que eu. E você não conseguiria evitar.

—Mas eu podia tentar. Eu faria qualquer coisa pra nunca te ver sofrer. Eu te amo, cê é meu melhor amigo.

—E você é minha vida. Obrigada por existir, de verdade. Você tornou o meu céu mais estrelado.

—Pera, cê tá me quotizando?

—Quando se conhece pessoas tão incríveis assim, é estupidez deixá-las irem sem saberem o quão importantes elas foram na sua vida. Mais estupidez ainda é deixá-las irem. Afinal, um céu sem estrelas não tem graça. Por Camila Mello.

E Lucas ouviu Camila chorar do outro lado da linha. Ele queria estar lá enxugando as lágrimas da garota que havia mudado tudo. Mas não podia.

—Eu te amo, Mila. Você mudou minha vida, e eu sou eternamente grato por isso. Dorme bem, tá? Se cuida e eu te vejo amanhã.

—Tá. Se cuida também. Te amo, idiota.

E Camila desligou. Lucas se sentiu melhor, deitou e dormiu no mesmo instante.