Teenage clichê
16 Os dois drinks
Depois de mais ou menos uma hora, o treino e troca de faixa de Carlos aconteceram, e os dois foram liberados. Carol havia passado boa parte do tempo gritando pelo seu irmão durante seus “combates”(sei merda nenhuma sobre karatê, então se eu fosse descrever seria algo bem Karatê Kid). Eles foram até a calçada da academia e viram Mikael encostado no carro, fumando. Carol percebeu que era um baseado.
—QUAL O SEU PROBLEMA, MIKAEL? -disse ela, arrancando o baseado da mão dele e jogando no chão.
—Porque cê fez isso, Carol? Era o último -protestou Mikael.
Carol deu um tapa na cara do Mikael. Carlos protestou.
—Carol, para com isso! Ele só tava fumando um cigarro de cheiro estranho. Papai também fumava o mesmo -disse Carlos, puxando a irmã.
—VOCÊ NÃO PODE FUMAR UM CIGARRO DE MACONHA NA FRENTE DO MEU IRMÃO DE 12 ANOS, É ISSO -disse Carol, enquanto tapava as orelhas de Carlos.
—Ah, entendi. Então a dona Carol é careta, afinal de contas -disse Mikael, com um sorriso meio provocante.
—Vai se foder, Mikael -disse Carol, chamando um táxi em seguida.
—O que cê tá fazendo?
—Indo pra casa.
—Deixa de ser idiota, Carol, eu dou carona -disse Mikael, pegando a mão dela.
—Eu não quero nada de você. Me solta. Agora -disse Carol, puxando o braço e se afastando dele.
Carol realmente queria enterrar as unhas no pescoço de Mikael por ele ter sido tão babaca. Mikael queria gritar com Carol, por ela ser tão dramática(ele ODIAVA drama mais que tudo). Carlos, infelizmente, ficou no meio daquele fogo cruzado. Mas, como é de se esperar, queria que os dois ficassem bem.
—Carol, por que a gente não vai com ele? -disse Carlos, desviando o olhar pro Mikael.
—Tu é louco? Tu tem noção do perigo que ele é pra você? -disse Carol, abraçando o irmão.
—Tudo bem, eu sei me cuidar. E ainda tenho o canivete do papai no bolso, caso a gente precise — sussurrou Carlos no ouvido da irmã.
Carol riu, porque obviamente achou que o irmão estava brincando(pior é que não tava; era um canivete enferrujado de 1900 e lá vem pedrada). Mas resolveu uma trégua com Mikael pelo menos para ir pra casa sem ter que ficar naquele clima estranho dentro de um táxi. Mas, a trégua dela foi dar um puta gelo nele.
—E então, como foi?-perguntou Mikael.
—Eu consegui a faixa roxa! Ganhei do babaca do Ezequiel. Agora ele vai ter que ficar na faixa amarela por mais um mês –falou Carlos, super orgulhoso.
—Eu realmente queria ter ficado e visto aquilo, mas não deu, desculpa –disse Mikael.
—Tudo bem. Na próxima tu vai –disse Carlos
—Enfim, Mikael, pra onde vamos agora? –perguntou Carol.
—Pra onde vocês querem ir? –disse Mikael.
—Eu quero ir praquele restaurante que tu disse que ia levar a gente depois daqui –disse Carlos.
—Ah sim, já tinha esquecido disso. Então, vamos? –disse Mikael, abrindo a porta dianteira para Carol.
—Pera, eu quero ir pra casa. Carlos, papai tá esperando a gente pro jantar -disse Carol.
—Mas eu quero ir lanchar com o Mikael! Por favor! -disse Carlos, num gesto de súplica.
Carol nunca soube dizer não pro irmão. Amava-o demais, sentia-se quase como mãe dele. Por isso se arrependia de ter apresentado alguém tão má influência pra ele(hipocrisia dela, que bebia feito um gambá), mas agora era sem volta. Ele pediu com tanto jeitinho que ela cedeu.
—Tudo bem, vamos –disse Carol, enquanto entrava no carro e fechava a porta.
Os três puseram o cinto de segurança(povo consciente mesmo) e saíram. Mikael e Carlos conversavam sobre videogame, e Carol escutava música e trocava mensagens de texto com Henrique: Lucas e ele já estavam de volta, e não viam a hora de vê-la. Mas Carol sabia que Lucas só queria saber de Camila. Então, ela marcou um dia de sair com Henrique e pediu para ele dizer à Lucas que ela estava doente demais para vê-lo hoje. Henrique não protestou em mentir para o amigo: afinal, ele entendia o lado de Carol. Mikael espiava enquanto Carol trocava mensagens.
—Quem é que tá tomando toda a tua atenção de mim? –perguntou Mikael, com uma pontinha de ciúmes.
—Não que seja da sua conta, mas tô falando com um amigo.
—Ah, legal –disse Mikael
—Ela tá falando com o Henrique! -disse Carlos, que havia olhado a tela do celular da irmã- Ele sempre mandava cartas pra Carol. Um dia ele mandou um pacote com 3 jogos de videogame muito fodas pra mim–disse Carlos.
—A Carol nunca me falou nada sobre ele –disse Mikael, olhando para Carol.
—Ué, nunca falei porque minha vida não te diz respeito –disse ela, asperamente.
Mikael ficou quieto. Não iria perder a calma, não com Carlos vendo.
—A gente já tá chegando? Tô com fome pra caramba –disse Carol.
—Sim, é logo aqui na esquina –disse Mikael, estacionando o carro.
Os três desceram em uma lanchonete perto da praia. O lugar era bonito, com um tema bem vintage: poltronas que eram os bancos traseiros de um carro(tipo Cadillac), cadeiras vermelhas e mesas redondas de madeira envernizada. Paredes turquesa, teto com muitas luzes e neon, e um balcão enorme com acabamento de granito preto. Estava lotado então eles pegaram a primeira mesa disponível que encontraram.
Carol pediu uma porção de batata frita e milk-shake de morango, Mikael e Carlos pediram hambúrgeres e refrigerante. Os meninos comeram, enquanto discutiam filmes que iam lançar na semana seguinte e tentavam entrar em um consenso sobre qual iriam assistir. Terminaram seus lanches, Mikael pagou(Carol discutiu um pouco com ele, porque queria rachar a conta, mas ele insistiu) e eles foram pra casa da Carol. Chegando lá, eles deixaram Carlos, que entrou correndo pra dentro de casa porque não queria perder um novo episódio de um seriado que ia passar na TV. Quando Carol se preparava para sair, Mikael trancou as portas e acelerou, levando a garota para mais um passeio.
—O que tu tá fazendo? –perguntou ela, com uma cara de brava.
—Sei lá, deu vontade de te levar pra passear.
—Como refém? Porque tô me sentindo uma. Agora deixa de ser idiota e me deixa ir pra casa.
—Relaxa, tu vai curtir o lugar.
—Você é mesmo um cara bem convencido e babaca, ainda por cima.
—Não é ser convencido se é verdade.
—Eu quero a minha casa. Agora.
—Acho que isso não vai ser possível. Não agora, pelo menos -disse Mikael, com malícia em seus olhos.
Carol perdeu a calma. Não a ponto de gritar com ele ou estapeá-lo, mas a ponto de querer machucar muito ele. Ela socou o saco dele. Mikael gritou, freando o carro, e deixando escorrer uma lágrima.
—QUAL O SEU PROBLEMA? NÃO SE FAZ ISSO COM UM CARA, MUITO MENOS COM UM QUE TÁ ATRÁS DO VOLANTE -disse Mikael, segurando os pulsos dela com força.
—ME SOLTA, A-G-O-R-A. -disse Carol, tentando soltar-se, causando apenas mais dor em seus pulsos.
Mikael soltou os pulsos dela, mas não antes de deixar duas marcas meio roxas em cada um. Ela esfregou os pulsos e virou a cara.
—Quero minha casa. -disse Carol.
—Acredite, eu também não te quero aqui.
—Então porque não me leva de volta?
—Porque isso estragaria a surpresa que eu ia fazer hoje.
—Que surpresa? -disse ela, com um pouco de curiosidade.
—Não vou contar né. Mas vou te levar até lá, se tiver de boa. Prometo que te levo pra casa depois.
—Sua palavra provavelmente deve valer o mesmo que você, um tolete de bosta. Mas já que já estamos aqui, por que não?
Mikael voltou a dirigir e eles chegaram em frente a um prédio enorme. Carol achava que fosse a casa de Mikael, mas ele a levou até a porta que havia do lado do edifício, abrindo-a com uma pedrada na maçaneta. Jogou a pedra no chão e forçou a porta, que revelava uma escadaria para o subsolo. Estava bem escuro e cheio de fumaça, mas ele segurou a mão dela e a guiou pelos degraus.
A escadaria terminava em uma sala mal iluminada. Parecia um bar daqueles de velho oeste, mas tinha um palco onde havia uma garota cantando um blues bem antigo, mas que a galera parecia curtir. Mikael levou Carol até uma mesa próxima ao palco e pediu para ela esperar. Ela sentou-se e assistiu às apresentações enquanto o esperava. Uma garçonete chegou perto com um par de doses de whisky.
—Você é a Carol?
—Desculpa, mas quem é você?
—Eu sou Brenda, amiga do Mikael. Ele pediu para eu te entregar esses drinks e esse bilhete –disse a garçonete enquanto pegava um pedaço de papel do bolso de seu avental.
Carol pegou o bilhete e o leu. Dizia: dois drinks pra tolerar um porre maior ainda. Carol não entendeu, até que as luzes do bar se apagara. Acenderam-se holofotes que apontavam para o palco, e ela viu Mikael. Ele estava ao lado de Daniel que estava com uma guitarra, Mikael com um violão e microfone. Ela ficou bem surpresa: não sabia que ele tocava guitarra, muito menos que cantava, mas achou incrível, obviamente.
—Quero dedicar essa música a uma amiga de ressaca, que eu espero que venha a ser mais que isso em futuro próximo. Carol, que tenhamos bastante juízo hoje e durante o tempo que tivermos ao nosso favor –disse Mikael ao microfone.
Ela ruborizou. Não conseguiu evitar um sorriso, porque ela nunca havia se sentido tão especial. Mas a maior surpresa do dia foi com a música: The Only Exception – Paramore. Era sua música preferida, e só quem conhecia era Camila que, convenientemente, apareceu e sentou ao lado dela, segurando sua mão em seguida.
A voz de Mikael era incrivelmente linda. E o jeito com que ele olhava pra ela enquanto cantava a fazia se sentir extremamente feliz por ter dado a louca na festa e ter conhecido aquele garoto estranhamente impressionante. Ela conseguiu manter a calma durante a maior parte da música, mas desabou quando ele cantou esse exato trecho: “I’ve got a tight gap on reality/ But I can’t / Let go of what’s in front of me here/ I know you’re leaving in the morning, when you wake up/ Leave me with some kind of proof it’s not a dream…”
Ela chorou. Chorou porque estava feliz, porque não conseguia acreditar na sorte que tinha de ter conhecido aquele garoto estupidamente fofo e babaca. E viu nele um grande amigo, talvez o maior de sua vida. Soltou a mão de Camila para limpar as lágrimas que escorriam de seu rosto e caiam na sua roupa. Esperou até o final da música para ir abraçá-lo.
—Não acredito que tu fez isso. Você é um idiota, sabia disso?
—Sou um idiota que te fez chorar. Ponto pra mim.
—Bem, idiota, obrigada, de verdade. Ninguém nunca tinha feito algo tão aleatório e fofo pra mim.
—Relaxa, ainda vão ter muitos momentos assim, de amor incondicional seu por mim.
Carol deu um soquinho no ombro dele. Camila a chamou para irem ao banheiro limpar o rosto e Mikael ficou conversando com Daniel.
—Cara, foi foda o que tu fez hoje. Venceu o medo de palco e ainda fez a Carol chorar –disse Daniel.
—Ela merece muito mais que isso, e eu pretendo dar.
—Mas tu mal conhece a guria. Nem sabe se vai dar certo entre vocês.
—Um dia, minha mãe me disse uma coisa que eu levo pra vida desde então: que seja eterno enquanto dure, e que dure para sempre. Mesmo que não dê certo no final, eu quero a chance de poder ter uma eternidade breve ao lado dessa pequena.
—Como o que? A Carol não é do tipo que se apaixona.
—Eu não tô pensando nisso. Eu quero ser pra ela o que ninguém nunca foi. O que tu é pra Camila.
—Cara, tu é um mito.
—Eu sei. Cê também não fica pra trás não.
Eles pararam de conversar quando as meninas retornaram. Os quatro foram para a mesa, beberam algumas doses e resolveram ir para a casa de Camila, onde iria ter jantar. Carol foi em um carro com Mikael, e Camila em outro com Daniel.
Carol e Mikael conversavam bastante: mais pareciam melhores amigos de infância que parceiros de bebedeira. Ela contava pra ele histórias idiotas e constrangedoras de quando ela era mais nova, e ele falava das furadas que ele se metia quase todo dia. Riam, sorriam e viviam ali, felizes. Então chegaram à casa de Camila. Os quatro desceram dos carros e andaram até a casa, em altas risadas e folga da Camila(Daniel a carregava nas costas, e reclamava do peso da amiga, levando tapas). Carol pegou a chave que estava dentro de um vaso de plantas perto da entrada, mas viu que a porta já estava aberta, o que não era possível, porque a mãe de Camila e sua irmã Emily, estavam viajando. Camila desceu das costas de Daniel, e Mikael fez um sinal para eles ficarem atrás dele. Ele entrou primeiro na casa, e segundos depois, ouviram um grito, e todos entraram. Camila ligou as luzes e se deparou com algo que lhe deixou mais branca que papel e Carol boquiaberta: Mikael fazendo um mata-leão em Lucas. Lucas, a metade de Camila e a última pessoa que Carol queria ver naquele momento e em todos os outros.
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