Teenage clichê
14 O menino da blusa cor de céu
Chegaram na festa atrasados por conta do trânsito, mas ficaram embasbacados com o lugar. Era um buffet com uma estrutura enorme, parecia a casa de um milionário. Os quatro amigos tiveram que subir uma rampinha, que dava para uma porta enorme de madeira com detalhes de um metal extremamente brilhante. Logo na entrada, havia uma tapeçaria estilo medieval, com cadeiras de madeira(que tinham assentos vermelhos de algodão), mesas entalhadas em madeira nobre(com as pernas semelhantes à muitos galhos retorcidos) e um local para as formandas tirarem foto.
Mais adentro do recinto, haviam paredes de folhas que se estendiam até o final, formando um corredor: davam a impressão de estar em um episódio de Lost. Passando pelo corredor, revelava-se mais um ambiente, onde o tamanho e a decoração eram extraordinários. Decoração do tipo provençal, com lustres, móveis torneados e espelhos emoldurados. As paredes de folhas se mantinham bem marcantes no ambiente, causando um belo contraste com as inúmeras mesas e cadeiras pretas e seus arranjos enormes de rosas brancas e folhas. No centro de uma das paredes, tinha um palco enorme, com um telão em cada lado. Em cada mesa, havia uma estante com prateleiras que continham lembrancinhas diversas, como doces, sandálias, máscaras e etc. Havia garrafas de bebida deixadas pelos primos de Linda em suas mesas(cada formando tinha direito a 3 mesas). O buffet era liberado(importante ressaltar isso), e havia um bar ao lado do palco, onde os bartenders faziam drinks incríveis e desafiavam os convidados a tomarem "juízo".
Carol ficou impressionada com o ambiente: já queria altas fotos nas paredes de folhas, tomar "juízo" e comer muita coxinha. Chamou Bianca para se divertir, porém a amiga já estava com planos de ficar com alguém naquele momento. Carol não queria ficar morgando, então foi até o bar.
Chegando lá, viu 3 garotas em frente a uma bandeja com 3 shots coloridos com fogo. Um dos bartenders apitou e as 3 tomaram os shots com canudinhos, e uma delas caiu no chão(já estava bem bêbada). Carol perguntou para um dos rapazes do bar o que tinha no shot. Um deles respondeu que era licor de morango e vodka. Ela pediu para virar 3.
—Pera, guria, você tem certeza disso? Não é um shot como qualquer outro; é forte.
—Tenho. Pode mandar, eu dou conta do recado.
E, assim, Carol tomou os 3 shots, ficando meio zonza depois. Virou-se procurando Bianca e a viu conversando com um grupo de meninas perto do buffet. Pensou em ir até ela, mas sabia que ia ficar excluída no meio do grupo, pois não conhecia ninguém. E ficar com Linda e Gregório não era uma opção, porque ela já tinha sido vela demais na vida dela.Então Carol ligou o foda-se e tomou doses de juízo até enjoar do gosto(o que demorou um pouco).
Por algumas horas, Carol fez o máximo da noite: dançou altos funks e forrós com pessoas aleatórias que estavam bêbadas demais para raciocinar; bebeu bastante álcool(e água, para não ficar bêbada tão fácil). Presenciou altos pegas de pessoas, brigas, sonecas avulsas e momentos de felicidade. Se sentia desconfortável lá, porque não conseguia interagir com aquelas esferas sociais: estava neutra, por assim dizer. Enquanto todos esbanjavam felicidade e animação, ela só pensava em contar sobre as pérolas daquela festa para Camila. Merda, eu tenho que parar com isso, pensou Carol. Então censurou qualquer pensamento relacionado a Camila e Lucas, e foi andando pelo buffet.
Vários garotas a olhavam da cabeça aos pés e faziam comentários maldosos com as amigas sobre a roupa dela, talvez. Garotos a abordavam tentando roubar-lhe um beijo, e ela se livrava de todos. Até que um velho conhecido veio ao seu encontro. Quem? Ninguém mais, ninguém menos que André, ex de Camila.
—André? O que tu tá fazendo aqui? –disse Carol com um sorriso no rosto, abraçando o amigo em seguida.
—Ah, é formatura de um amigo meu. Ele me convidou e eu tava sem o que fazer hoje, então...
—Ah, entendi. Enfim, como você tá?
—Tô bem, melhor agora que você tá aqui.
—O que tu quer dizer com isso? –perguntou Carol entre um sorriso meio falso
—Ah Carol, é meio óbvio, não?
—Não, não é.
—Tá, vou te explicar então: eu já saquei os teus sinais.
—Que sinais, cara?
—Os sinais de que tu tá caidinha por mim.
—Eu? Caidinha por você? – Carol não se conteve e riu bem alto
—Claro; porque mais você iria conversar com o ex da sua melhor amiga?
—Pra ser educada?
—Sem essa. Eu já saquei, você não quer admitir; tudo bem, não precisa, mas só tira essa vontade louca de te beijar de mim –disse André, enquanto puxava Carol pela cintura.
Ele conseguiu beijá-la antes que ela o empurrasse, ele cambaleasse e caísse no chão. Todos pararam para assistir ao “espetáculo”.
—Qual o seu problema, seu merda? –disse Carol, enquanto limpava a boca com as costas da mão
—Nem vem dizer que não gostou, porque eu sei que sim – disse André ao se levantar e ajeitar o paletó.
—Vai tomar no cu, André –disse ela, dando um tapa de novela mexicana na cara dele, e saindo logo em seguida.
Carol estava bastante zangada: não conseguia acreditar no que havia acontecido lá dentro. Condenou a si mesma por ter causado aquela maldita impressão e lembrou de momentos onde isso acontecera(um tinha sido com Lucas, infelizmente). Saiu do buffet, e ficou no jardim da propriedade, que assemelhava-se a partes do Éden: altas árvores com folhas coloridas, flores das mais variadas espécies e perfumes. Uma vasta grama verde, com arbustos volumosos e bancos de madeira. Em um desses assentos, Carol viu uma figura masculina sentada. Aproximou-se e notou que o rapaz estava usando uma blusa social de uma azul igual ao céu , o paletó(um tamanho maior que ele, talvez) estava dobrado sobre o banco. De costas, ela percebeu que ele possuía cabelos volumosos cacheados de comprimento mediano e estava bebendo uma garrafa de whisky. Ela virou-se e voltou andando “silenciosamente” para a festa, mas tropeçou em um galho que havia no chão. O rapaz virou-se.
—Quem é?
—Ninguém.
—Ah, nossa, que ótimo jeito de evitar alguém.
—Desculpe, não queria incomodar –disse Carol, virando para ver a face do rapaz;
Olhos cor de mel e cabelos pretos. Nariz com sardas e o lábio inferior com um piercing. Orelhas com alargadores e mais piercings e linha do queixo bem definida. Ele não era um gato, mas tinha detalhes faciais muito atraentes.
—Sem problema. Pode se juntar a mim se quiser, tem bastante pra dividir –disse o moço, levantando a garrafa.
Carol aproximou-se e sentou ao lado dele. Ele entregou a garrafa, e Carol a virou em sua boca. O líquido tinha gosto de nozes, pensou.
—Então, ninguém , você tem um nome?
— Carol, e você?
—Mikael. Então, você faz algo mais da vida além de tropeçar em galhos?
—Depende.
—Do que?
—Se tiver água por perto, eu normalmente me molho.
Mikael riu. Carol achou o sorriso dele charmoso, por mais desalinhados fossem seus dentes.
—E você, faz o que?
—Depende também.
—Cê também é desastrado?
—Não. Depende do meu nível de sobriedade, que nunca chega a zero.
—Nossa, esse é um jeito diferente de encarar a vida.
—Na verdade, é o melhor. Por que chorar quando se pode ficar bodado?
—Então você afoga suas dores no álcool?
—Não exatamente. Eu lido com a dor de um modo diferente. A bebida serve para as frustrações.
—Frustrações de que?
—Relacionamentos, em um geral –disse Mikael, tomando um gole do whisky logo depois
—Ah, entendo. Não que eu faça isso, mas minha melhor amiga é uma grande adepta disso.
—Vocês são próximas?
—Sim –respondeu fria e rapidamente
—Essa resposta não colou, sinto muito.
—Não tenho obrigação de te convencer de nada. Eu e ela somos uma só pessoa, irmãs e melhores amigas. Ela depende de mim e eu dela.
—Isso foi pra me convencer ou te convencer? Porque eu acho que nenhuma das duas funcionou.
Carol ficou frustrada: como aquele garoto poderia saber de algo sobre ela antes dela mesma? Pegou a garrafa e tomou 3 goles.
—Relaxa, Carol, eu não vou julgar. Pode desabafar
—Eu não quero sua pena.
—E não terá; é um sentimento desprezível que eu não sinto.
—Ok, vou dar uma explicação geral: sempre fui eu, Lucas e Camila. Mesmo que eu passasse mais tempo com ela quando éramos mais novas, o Lucas sempre foi o prêmio principal. Eles sempre tiveram piadas internas que eu não entendia, planos dos quais eu não fazia parte. Mas eu nunca dei bola, sabe? Eu era feliz por ter dois melhores amigos extraordinários e por eles me considerarem assim. Mas, de uns tempos pra cá, eu mudei.
—E o que aconteceu para você mudar?
—Começou com o Lucas indo pra Campinas e ficando lá por mais tempo que o previsto. Fora que ele deixou de falar com a Mila por esse tempo, e ficou com a namorada. Isso arrasou a Mila, e sobrou pra mim. Não tô reclamando, pelo contrário: foi incrível. Ela me contou tanta coisa, escutou muito. Saímos bastante, nos divertimos. Mas isso tudo foi sem a presença do Lucas na vida dela. E agora ele tá voltando pra cá. Amanhã, mais especificamente –disse Carol, bebendo mais alguns goles do líquido marrom.
—Mas isso não tem que mudar a sua amizade com a Camila. Você mesma disse que são como irmãs.
—Não exatamente. Eu nunca pus a Mila em um pedestal como o Lucas fez. Eu sempre quis algo igual para ambas. Mas é algo do ser humano querer se sentir especial, e o Lucas consegue isso perfeitamente: ele e a Mila são “um só”. E eu sou a idiota que fica esperando pela sua chance.
—Carol, honestamente? Eu não te conheço, isso é indiscutível. Talvez eu nunca tenha essa oportunidade, mas eu acredito que amigos assim não merecem essa tua dedicação. Você precisa se permitir conhecer outras pessoas, permitir que elas façam parte. A comodidade é uma fraqueza humana, e você precisa vencê-la. Tenta viver um pouco mais, vai ser melhor pra ti.
—Foi justamente por isso que eu vim pra cá, pra me divertir com meus amigos.
—E onde estão eles enquanto você fala com um desconhecido?
—Fazendo coisas mais interessantes -disse Carol com desgosto, bebendo o resto do whisky e jogando a garrafa para longe.
—Bem, eles não sabem o que tão perdendo -disse Mikael, sorrindo.
—Cê não tá pensando em dar em cima de mim justamente agora né? Péssimo jeito de interessar uma garota.
—Não, não quero te pegar.
—Isso deveria fazer eu me sentir aliviada ou ofendida?
—Provavelmente aliviada, porque eu sou um puta babaca.
—Até que é mesmo, mas cê se mostrou um bom amigo.
—A maior parte do tempo e só com algumas pessoas.
—Tá, se você tá dizendo. Agora me diz, porque cê não quer me pegar? -disse Carol, já meio bêbada.
—Porque você é diferente.
—Isso é bom ou ruim?
—É perfeito.
—Af, eu não tô com saco pra desvendar o significado disso. Eu tô com frio.
—Toma meu paletó -disse Mikael, colocando o paletó sob os ombros delicados de Carol.
Ele é um cara estranho, pensou Carol. Ela já estava meio zonza por conta do 'juízo' e do whiskey. Ficou bolada consigo mesma por ter bebido demais, e se arrependeu amargamente da ressaca que teria. Pegou o celular, olhou o horário: 3 horas da manhã. Camila já havia ligado e mandado várias mensagens, querendo saber onde a amiga estava. Carol não se importou, e resolveu ir para casa, pois já estava cansada.
—Então, a conversa foi ótima, mas eu preciso ir agora -disse Carol, enquanto levantava do banco.
Ela quase despencou de tão bêbada, mas Mikael a segurou.
—Deixa que eu te levo pra casa.
—Não, meus amigos tão lá dentro.
—Por favor, eu insisto; você não estaria nesse estado se não tivesse bebido comigo.
—Tudo bem. Deixa só eu mandar mensagem.
Carol avisou a Bianca que já tinha ido pra casa, pra evitar ser impedida pela amiga. Guardou o celular e saiu do buffet descalça e de braços dados com Mikael, para não cair. Os dois andaram até o carro dele, que Carol só conseguiu entrar porque ele a ajudou. Ele entrou, ligou o carro e colocou uma música dos Beatles, que foi a última coisa que Carol lembrou daquela noite.
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