Teenage clichê
2 Che Guevara
—Ahm, oi Mila.
—Oi André.—Eu queria falar contigo sobre aquela mensagem que você me mandou outro dia.—Que mensagem?—Aquela que você dizia que ainda me amava e queria voltar comigo. Olha, encurtando a conversa, não quero tomar mais tempo da tua aula.—Não, de boa. Pode falar, não tô com pressa.—Eu só ia te dizer o que eu já tinha te dito. Tu sabe que eu ainda te amo como amiga e tal, e que ainda é muito importante pra mim...—Chega, André. Vamos esclarecer uma coisa: eu já sei que acabou, ok? Aquela mensagem foi só uma brincadeira, fruto de uma vodka com fanta laranja.—Mas você disse que...—Eu me lembro do que eu disse, e eu tava brincando. Não acredito que você levou a sério. Realmente, tu tá se sentindo demais, não acha?—É, talvez... Enfim, vou pra aula, ou o Moraes me mata. Se cuida, Mila.—Tchau, André.E André caminhou até a ala leste e desapareceu. Enquanto ele ia embora, Camila lutava contra as lágrimas, que queriam cair. Depois que ele se foi, ela correu até o banheiro e chorou. Chorou até que resolveu que ele não merecia mais nenhuma lágrima dela. Então foi até o espelho, ajeitou a maquiagem e disse pra si mesma que ela era melhor que isso. Então, foi pra aula. Na aula, o professor explicava sobre Período Helenístico, mas ela não conseguia focar. A única coisa que vinha na cabeça dela era a cara do André quando ela disse tudo aquilo. Se sentiu mal por ter sido tão filha da puta. Mas ele mereceu. Ele tinha sido um grande babaca com ela, tinha feito ela sofrer no fim do namoro e depois. Mas ela não podia pensar nele, não queria dar esse gostinho a ele, mesmo que ele não fosse saber. Então, enquanto o professor debatia com uma outra aluna, Camila começou a escrever no seu caderno. Ela tinha essa mania de escrever sobre o que sentia, pra tentar organizar no papel, já que na cabeça era impossível. E enquanto escrevia, parecia que tudo ficava mais claro, e ela conseguia pensar. Percebeu que aquele amor que ela pensava ser a vida dela já estava bem mais fraco. Ela queria gritar de tão feliz que estava. Ela gritou. Mas não de felicidade e sim de susto. O professor pegou o caderno dela, e começou a folhear.—Senhorita Mello, então é isso que vem fazendo em minha aula?—Professor, não é nada de mais. São só alguns rascunhos. Poderia me devolver, por favor? Prometo de dedinho prestar mais atenção.—Se não é nada de mais, então não se importa se eu ler para a classe toda.—Ah, não acho isso uma boa ideia. Sério, seria só tomar o tempo da sua aula.—Ah, mas iria ser um prazer termos algum texto sobre a aula.Camila congelou. Ela não queria que ele lesse aquele texto em frente a sala. Ela ia aparentar fraca, e ela odiava se sentir fraca e vulnerável. Mas não podia fazer nada, apenas torcer pra que algo acontecesse logo.E, por uma sorte do caralho, aconteceu. Ouviu-se um estilhaço, e segundos depois uma lâmpada caiu no chão. O professou mandou todos os alunos sairem da sala, pra não inalarem o gás da lâmpada. Camila teve seu caderno de volta, e decidiu nunca mais escrever na aula daquele professor. Então, a coordenação mandou eles trocarem de sala. Enquanto dirigia-se para a nova sala, Camila sentiu alguem cutucar-lhe as costas. Era um menino,moreno alto e bonito. Usava óculos, aparelho e estava trajando uma blusa do Che Guevara.—Ah, queria pedir desculpa por ter te feito trocar de sala.—Foi você que quebrou a lâmpada?—Foi sim.—Cara, obrigado, sério. Cê quebrou um galho pra mim.—Eu só fiz o que eu achei certo fazer. Ele costuma ser um cuzão com todo mundo.—Sério, obrigada. Aliás, sou a Camila, mas pode me chamar de Mila.—Ah, eu sou o Henrique. E eu sei quem você é. A ex do André, né?—É. Enfim, preciso ir. Aula de Sociologia Geral. A gente se fala depois. Aliás, blusa legal.Então, Camila saiu e deixou Henrique só e foi pra aula. Ela não entendeu porque tinha sido tão hostil com o garoto, afinal, ele tinha a ajudado mais cedo. Mas ela resolveu não pensar muito nisso, porque realmente precisava estudar pra prova da semana seguinte.Depois da aula de Sociologia Geral, ainda teve aula de Antropologia Cultural. Camila realmente tentou focar, mas ela só conseguia pensar em como ela tinha ficado na defensiva quando o tal de Henrique se referiu a ela como "ex do André". Então, às 10 horas da noite finalmente as aulas tinham acabado e Camila estava livre. Ela tinha resolvido sair pra jantar com sua mãe e Jullia e estava esperando virem lhe buscar. Mas aí Lucas apareceu, com uma cara de "onde você tava o dia todo?" e começou dando um cagaço em Camila pela bebedeira da sexta a noite.—Mila, tu tem que parar com essas bebedeiras pós-André. Já se passaram 5 meses cara, supera.—Não bebo por causa daquele babaca, eu bebo pra me divertir.—Ah, tá. Beleza. Enfim, deixando esse assunto de lado, como foi a aula?—Foi um tédio né. O professor quase lê um texto meu na aula.—Por que quase? O que aconteceu?—Um tal de Henrique quebrou uma lâmpada e a gente teve que trocar de sala. Aí o professor me devolveu meu caderno e eu guardei pra não dar merda.
—Pera, Henrique de quê?—Sei lá.—Tu não sabe o sobrenome do cara?—Claro que não. Estamos no século XXI e em uma capital, não precisa disso de sobrenome.—Nossa, que merda hein.—Acontece nas melhores famílias.—Tá, que seja. Tá afim de ir lá em casa?—Não posso. Jantar com a mãe e com a tia Ju.—Ah, que paia. Quer uma carona?—Pode ser.Então, os dois dirigiram-se para o carro de Lucas, e de lá foram para a casa de Camila.Durante o percurso, Camila explicou o que tinha acontecido na noite de sexta. Os dois riram muito das merdas que ela fez e relembraram momentos constrangedores deles.—Mila, lembra quando a gente foi pra Orlando pela Lafu? Cara, aquela viagem foi massa pra caralho.—Eu lembro! Uns caras avulsos te pediram maconha no outlet, porque cê parecia um traficante com aquele gorro!—Ei, mas eu tava estiloso com aquele gorro, admite.—Não mesmo. Quem foi que te deu aquele gorro mesmo? Foi o André, né?—É, foi ele mesmo. Falando nele, como tu tá?—Não entendi a tua pergunta.—Eu quis perguntar como tu tá em relação a ele.—Tô mega bem, óbvio. André e eu são águas passadas.—Mila, não mente pra mim. Não vou te julgar, te juro.Camila realmente não queria contar pro Lucas o que ela estava sentindo. Mas quando ela olhava naqueles olhos castanhos, era quase impossível mentir. Ela não queria parecer vulnerável, não queria que Lucas a conhecesse 100%, pois achava que talvez ele perdesse o interesse. Se foi assim com muitas outras pessoas, ela não acreditava que seria diferente dessa. Era apenas uma questão de confiança.—Lucas, cê sabe que eu não minto pra ti. Eu já superei o André, juro.—Você diz isso, mas não te vejo apaixonada por nenhum outro cara.—O que cê tá querendo dizer com isso?—Cara, tu é a Mila.—Deixa de ser idiota, e explica.—Tipo, tu tem a mania de conhecer um carinha qualquer e já imaginar teu futuro com ele.—Não tenho não.—Tem sim. Foi assim com o André, e com muitos outros.—Tipo quem?—Aquele teu vizinho, o Pedro. Também teve o Murilo, Guilherme, Gabriel, Rafael...—Tá bom, chega. Já entendi seu ponto.—Então, quem é o "príncipe encantado" dessa vez?—Ninguém, já disse.—Ah, vamos Mila. Sou teu melhor amigo, cê sabe que pode me falar qualquer coisa.Camila queria sair de lá. Queria abrir a porta do carro e pular. Mas sabia que não teria coragem pra fazer aquilo. Normalmente ela não tinha coragem pra muita coisa. Então ela resolveu enrolar Lucas. Ela não tinha certeza dos seus sentimentos em relação ao André, e não estava nem um pouco afim de levar um sermão do seu melhor amigo.—Ah, tô afim de um carinha acolá...—Quem? Eu conheço?—Ah, conhece sim. É aquele teu amigo, o David.—O David?! Como assim cara? Tu nunca falou com ele, ele é mó geek.—Ué, acho ele fofo. E quem disse que eu nunca falei com ele?—Tu, ué. Tu vivia dizendo que não sabia como ele tinha amigos!—Bem, eu estava errada. Ele é bem charmoso até. Enfim, ainda vai demorar muito pra gente chegar em casa?—Não vai demorar, relaxa. Em 5 minutos a gente chega.—Ok. Tu vai ficar pra jantar com a gente? Minha mãe fez torta de chocolate.—Claro, seria uma boa. Mas tu sabe que vai ter que me explicar essa história do David depois, né?—Tá, eu sei. Mas vamos esquecer isso um pouco, ok? Vamos escutar Selvagens!Camila então ligou o rádio e colocou o CD para tocar. E ali estavam eles, cantando ao som de Selvagens. Parecia que tinham voltado ao tempo em que tinham 16 anos, e estavam no meio da aula cantando "Brasileiro". Ela se sentia bem com Lucas, era como se ele lesse o pensamento dela antes dela falar alguma coisa. Eram melhores amigos desde o colégio, conheciam um ao outro tão bem. Eles pareciam mais namorados ao invés de melhores amigos, claro que sem a parte da pegação. Lucas era como irmão para Camila(e para a mãe dela!). As melhores memórias dela era com ele e com Carol. Como ela queria que Carol estivesse, para ela conversar sobre sentimentos. Mas deixou isso para lá, afinal, era bom ficar com Lucas.Finalmente eles tinham chegado a casa de Camila. E como era de praxe, sua mãe estava na porta, esperando por ela. Então os dois dirigiram-se para a porta, e abraçaram a mãe de Camila.—Luquinhas, filho! Que surpresa agradável. -disse a mãe de Camila.—Mãezona mais linda do mundo! Tava com saudade da senhora! Como você está? -disse Lucas—Ah, estou muito bem, obrigada por perguntar. Só estou com uma dor nas costas, mas nada de mais.—Andou pegando em peso de novo, não foi?—Ah, foi só uma caixa que eu tive que mudar de lugar.—Ahm, pessoal? Eu não queria interromper esse encontro "mãe e filho", mas eu tô morrendo de fome. Podemos entrar, por favor? -disse Camila—Claro, filha! Entrem, por favor.Então entraram na casa e dirigiram-se para a sala. Na sala, estava Jullia, sua vizinha, juntamente com Isaac, que brincava com a irmã de Camila, Emily. Lucas foi ajudar a mãe de Camila na cozinha, então Camila sentou no chão da sala ao lado de Emily e lhe deu um beijo na testa. Ficou brincando com sua irmã e Isaac até que Jullia os chamou para jantarem.Todos sentaram à mesa e ficaram conversando sobre diversos assuntos. Lucas falava sobre como a faculdade de Direito ficava cada vez mais puxada, Camila contava os momentos constrangedores da sua semana, Isaac e Emily ficavam conversando sobre algum programa de TV. Jullia, mãe de Isaac, falava em férias com a Jaqueline.Então, depois do jantar, a mãe de Camila tentou convencer Lucas a dormir lá, afinal, há um bom tempo ele não fazia mais isso.—Mas Luquinhas, durma aqui em casa hoje. Ainda tenho guardadas as suas coisas aqui.—Não mãe, tudo bem. — disse Lucas—Por favor, faça esse favor pra sua velha mãe. O quarto da Camila ainda tem uma cama a mais. Durma lá, como nos velhos tempos.—Deixa mãe. Aparentemente o Lucas tá grandinho demais pra dormir no meu quarto. -disse Camila—Ai é, né? Beleza. Eu fico, mas só por causa da mãe. -disse LucasEntão, Lucas e Camila dirigiram-se pro segundo andar da casa, onde era o quarto de Camila.
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