Teenage clichê
22 Cervejas geladas e barba
Mikael tinha se levantado cedo naquele dia. Ele havia saído durante a manhã pra buscar seu amigo Kevin no aeroporto. Os dois teriam um longo dia, com direito a tatuagens, piercings e um momento escroto estilo a Culpa É Das Estrelas (só que sem a pegação).
Ele chegou ao aeroporto e viu seu amigo saindo do portão de desembarque. Mikael se aproximou e pegou as malas dele, indo ao junto a ele em direção ao carro. Colocou-as no porta malas, e dirigiu-se para o banco do motorista, saindo logo depois.
Durante o percurso, ambos conversaram bastante ao som de Matanza. Mikael havia ficado um ano sem ver Kevin, porque ele estava fazendo intercâmbio em Dublin. Eles eram melhores amigos de infância: tinham se conhecido no quinto ano, durante o show de talentos, onde Mikael tocou “Welcome to my life”do Simple Plan e Kevin pulou no palco, pegou o outro microfone e começou a cantar absurdamente mal. Naquele momento, Mikael pensou: que merda é essa? esse cara tem algum problema mental; gostei dele. E foi ali que tudo começou.
Costumavam fugir de casa pra andar de skate, beber Sapupara(porque dinheiro de estudante não permite tomar Ciroc) e ainda ficar com meninas. Aprenderam desde cedo que deviam aproveitar bastante a vida e que cada segundo contava, principalmente depois de tudo que havia acontecido com ambos nesses 365 dias que passaram afastados.
—Velho, cê tá diferente, só não sei dizer o que exatamente -disse Mikael.
—Acho que esse tempo fora me fez bem. Tô mais feliz, de boa -disse Kevin.
—Não é isso. Ah, já sei, cê tá mais balofo. E essa tua barba parece pelo de saco escrotal.
—Vai tomar no cu, seu merda -disse Kevin, rindo em seguida.
—Relaxa, olha pelo lado bom: as minas não vai nem dar atenção a isso na hora do sexo. Vão ficar traumatizadas com teu pau pequeno.
—Engraçado, a tua mãe nunca reclamou disso.
—Então…-disse Mikael, antes de ter sua fala cortada pelo barulho do celular tocando.
Era Carol.Ela lembrava ele que ambos iam sair naquela noite pra beber em uma boate que estava inaugurando. Ele tinha se esquecido completamente, além de já ter feito planos com Kevin. Resolveu antecipar um pouco a bebedeira dos dois, para que pudesse levar o amigo para a boate mais tarde e ainda conseguisse passar um tempo com Carol.
—Ei, tá afim de tomar um puta porre de boas vindas?
—Mano, já tava demorando. Topo, mas com uma condição.
—Erva da boa?
—Exatamente.
Mikael mudou o percurso, pegando uma avenida que dava na esquina do The Green Pub. Kevin escolheu uma trilha sonora baseada(entendeu a referência?) em Planet Hemp, dando destaque a música “Queimando tudo”. Eles chegaram até o bar em questão de minutos.
Estava vago, então não tiveram problema para estacionar. Entraram no pub, que era extremamente espaçoso: ambiente aconchegante, com iluminação indireta, sofás grandes e confortáveis. Um balcão de madeira enorme, com vista para chopeiras das mais famosas marcas. Música ao vivo, e naquele dia iria ter SAPDL. Além disso, para aqueles que não resistiam tão bem a bebida, tinha comida até dizer chega.
Os dois sentaram-se ao balcão, do lado de um grupo de garotas que fofocavam sobre os cantores, que afinavam seus instrumentos. Kevin avistou o vocalista, que se chamava Caio, e foi cumprimentá-lo.
—Caio?
—Kevin, cara! Que cê tá fazendo aqui?
—Vocês se conhecem? -disse Mikael, incrédulo.
—Sim, cara, salvei a pele dele quando eles estavam tocando no teatro. Deu um problema com o transporte e o baixo dele acabou não chegando. Ai eu emprestei o meu, porque eu já tava lá por causa de um show com a banda.
—É, ele quebrou um galho pra mim e ainda abriu o show pra gente.
—Caralho, tu tem muita sorte. Só acho que cê devia me apresentar pro Nicholas, porque eu preciso conhecer aquela barba.
—Pera, alguém me chamou? -disse Nicholas, enquanto coçava o queixo.
—Nicolas, esse é o Mikael, meu amigo transgayhomossexobicha.
—Vai se fuder, Kevin.
Os quatro riram. Conversaram sobre algumas coisas, até que Caio e Nicholas voltaram para passarem o som mais uma vez. Kevin e Mikael sentaram ao bar novamente e pediram 2 cervejas, e ficaram aproveitando os riffs que o Rafael e o Gabriel faziam. Em algum ponto da conversa, os dois já haviam bebido mais de 5 garrafas de cerveja enquanto os rapazes tocavam “Guetos Urbanos”.
—E aí velho, cê tá curtindo?
—Tá legal. Eu não podia fazer isso lá no Dublin, a universidade era bem rígida sobre bebida. Então meio que tá sendo bom pra caralho.
—Falando nisso, como foi lá?
—Bem, eu conheci uma Irlanda completamente diferente da que a gente vê nos filmes. Fui pra muitos lugares, conheci muitas pessoas, fiquei com várias garotas e experimentei da melhor erva do universo. Mas, podia ter sido melhor.
—Cara, muita coisa mudou. Pessoas entraram na minha vida, outras saíram. Faculdade fudeu comigo, como sempre. Conheci a Carol, que é uma pessoa única, nos mais diversos sentidos da palavra. Mas, sinceramente, não foi a mesma coisa sem você.
—Cara, há quanto tempo você assumiu? Porque, meu Deus, que gay.
—O cara tenta ser fofo, e só se fode. Oh vida viu.
—Relaxa, o sentimento é mútuo.
—O de saudade ou o de te mandar pra merda?
—Os dois. Enfim, eu queria te falar uma parada -disse o Kevin, já na 7 garrafa de cerveja.
—Pode falar, sabe que eu tô aqui pra tudo.
—É o seguinte: quando eu tava em Dublin, eu passei um tempo doente e tal, aí…
O telefone toca, interrompendo a fala do Kevin, e é Carol ligando.
—Foi mal cara, mas eu preciso atender.
Kevin não curte a ideia, mas deixa mesmo assim.
[LIGAÇÃO]
—Ei, a gente vai ter que adiantar os planos de hoje. Eu tô morrendo de tédio e ansiando umas doses de juízo.
—Tu quer que eu te busque ai ou que a gente se encontre lá? Porque eu tô com um amigo aqui, e quero saber se posso levar.
—Depende. Ele é gato?
—Ele é a minha cara. Tem melhor do que isso?
—Tem, porque um sósia do Tirulipa nunca vai ser Brad Pitt. Mas enfim, me busquem vocês dois.
—Tá, vou só tomar a saideira e já tô a caminho.
[FIM DA LIGAÇÃO]
—Ah, então, sabe os planos de mais tarde? O mais tarde é agora, e a gente tem que ir buscar a Carol lá na casa dela. Então, se cê tem alguma coisa pra me falar que ainda não me falou, fala agora porque depois não vai ter mais chance.
—Não, relaxa. Era só besteira. Bora?
—Bora.
Os dois terminam suas garrafas e foram para o carro. Colocam SAPDL para tocar e dirigiram-se para o famoso Bairro das Laranjeiras.
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