Teenage clichê
17 A estrela cadente
—Que merda tu tá fazendo aqui? –perguntou Camila, de modo frio e indiferente (mesmo parte dela querendo abraça-lo e a outra, matar ele).
—Puta merda, tinha que ser você a estragar minha noite-disse Carol.
—Pera, você conhecem ele? –disse Mikael, ainda segurando Lucas pelo pescoço.
—Sim, é o Lucas, aquele de quem eu te falei. Pode soltar ele-disse Carol.
Mikael não soltou Lucas, e sim apertou o pescoço dele com mais força. Daniel teve que afastar os dois, levando um chute de Mikael no processo.
—MIKAEL, PUTA QUE PARIU, TU QUER MATAR O MENINO? -disse Carol, com uma voz extremamente revoltada com Mikael.
—Achei que ele merecia. Ainda acho, na verdade — disse Mikael, com toda a calma do mundo.
—VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DA DECISÃO DISSO-disse Camila, com uma voz que era uma mistura de sentimentos.
—Foda-se –disse Mikael, enquanto procurava alguma coisa pra beber.
—Qual o problema desse cara? –perguntou Lucas, enquanto esfregava a mão no pescoço.
—Todos, mas isso não vem ao caso agora. Eu quero saber que merda tu tá fazendo na casa da Mila a essa hora -disse Carol.
—Ah, nem um “Oi, Lucas, é bom te ver. Você tá bem? Desculpa pelo comportamento assassino do meu namorado” –disse Lucas, com muito sarcasmo.
—Vai a merda, Lucas. Eu tô cagando e andando pros seus sentimentos –disse Carol, secamente.
Lucas não reconhecia a amiga. Há meses, ela vibraria para vê-lo, e vê-lo junto a Camila. Por que ela estava sendo tão fria?
—Carol, eu fiz algo de errado? –perguntou Lucas, delicadamente.
— Sim, você apareceu em nossas vidas. Estávamos muito bem nesses 4 meses sem a sua presença merda e todo o drama que cê traz junto. –disse Carol, fuzilando-o com o olhar.
—Carol, pare. Lucas, o que você tá fazendo aqui? –perguntou Camila, ainda chocada.
—Eu voltei, por você, Cheeks. Senti saudades, precisava te ver—disse ele, aproximando-se dela.
Por instinto, ela deu um passo para trás, ficando atrás de Daniel e segurando sua mão. Lucas, certamente, ficou de coração partido.
—Ah, entendo. Acho que eu vim em má hora, as duas devem estar ocupadas com seus namorados—disse Lucas, indo em direção à porta.
—Não que seja da sua conta, mas eles não são nossos namorados—disse Carol.
—Então quem são? Peguetes? Primos? –disse Lucas, com os olhos marejados.
—São nossos melhores amigos—disse Camila, ainda bem neutra.
Lucas foi até Camila e abraçou-a fortemente. Ele chorou dentro de seu abraço, porque aquilo havia feito falta a ele. Ela sentiu pena e retribuiu o abraço. Eles ficaram lá, abraçados por mais alguns minutos, até que ela o soltou.
—Acho que já tá na hora de você ir. Não tô com cabeça pra tolerar qualquer merda que você venha a fazer nesses cinco segundos seguintes—disse Carol.
—Mas... Eu quero ficar. Por favor, Mila, deixa. –disse Lucas.
—Lucas, vai embora, por favor—disse Camila, com carinho.
—Ok, eu vou só porque é você pedindo. Mas amanhã eu te ligo tá, Mila? –disse Lucas.
—Tudo bem. –disse Camila
Então Lucas saiu. Daniel disse que achava melhor ir embora, mas Camila pediu para ele ficar e lhe fazer companhia. Eles subiram pro quarto da Mila, deixando Carol e Mikael sozinhos na sala.
—Então aquele era o famoso Lucas. Agora eu entendo como cê se sentia. Aquele cara giro em torno da Camila, e isso faz mal a ela. –disse Mikael, enquanto buscava um cigarro no bolso da sua jaqueta.
—Ele é um babaca. Não acredito que ele teve coragem de vir aqui e fazer essa ceninha idiota, esperando que a Mila caísse feito um patinho-disse Carol, pegando o cigarro aceso e tragando-o. Era de maconha, pensou ela. Mas não se importou. Queria chutar o pau da barraca mesmo.
—Talvez a Mila não tenha superado ele e queira dar uma segunda chance-disse Mikael, enquanto buscava por algum tipo de álcool.
—Conhecendo ela como eu conheço, não dou uma semana pra ela perdoar ele e tudo voltar a ser como era antes. Coitado do Daniel, ele não merece isso. –disse Carol.
—Não tire conclusões precipitadas; a Camila certamente mudou nesses quatro meses em que ele esteve fora. E eu tenho quase certeza que entre o Lucas e o Daniel, ela escolhe o das exatas sem pensar duas vezes. –disse Mikael, enquanto fazia um drink avulso de vodka, energético e suco de limão.
—Enfim, foda-se Lucas, foda-se Camila. Eu quero álcool. Mas, antes, quero um banho de piscina. –disse Carol, tirando toda a roupa até ficar de roupas intimas.
Mikael olhou-a, admirando sua fisionomia por um tempo. Ela certamente não era a “típica garota brasileira”, com um bundão e peitos enormes. Ela era magra, com seios pequenos e quadris estreitos. Mas, para ele, ela era perfeita em cada traço e cicatriz. Seus grandes olhos cor-de-mel o encaravam com uma expressão confusa.
—O que você tanto olha em mim? –disse ela, pegando a garrafa de vodka da mesa e bebendo um gole.
—Não, eu tava só vendo suas tatuagens. Não me lembro de cê ter me falado dessa no interior do cotovelo-disse Mikael, apontando.
—Ah, eu fiz um dia desses. –disse Carol, mostrando a tatuagem que dizia: Scars are memories that never fade.
—Por que escolheu logo essa frase?
—Ah, sei lá. Acho que porque me lembra de onde eu vim e como eu fui parar aqui.
—Como assim?
—Bem, cê sabe que é só eu, meu pai e meu irmão lá em casa. Minha mãe abandonou meu pai quando eu tinha 10 anos. Passou-se três anos até que eu desistisse da volta dela. Então foi aí que eu comecei a me cortar. Foi uma fase bem dark da minha vida-disse Carol, forçando uma risadinha para não deixar o clima estranho.
—Ah, desculpa ter perguntado. Não te queria entristecer-disse Mikael, baixando a cabeça.
—Deixa de besteira. Já passou tô de boa. Enfim, vou tomar banho de piscina. Se quiser se juntar a mim, é bem vindo-disse Carol, dando um beijo na bochecha do amigo e saindo para os fundos da casa.
Mikael ficou lá um momento tentando processar o que tinha acontecido: Carol ficara praticamente sem roupa na sua frente, e não parecia importar-se com isso. Sim, ele sabe que devia ficar mais chocado com ela ter contado sobre a automutilação, mas cara, ele é homem. Obvio que ele vai focar no pseudostriptease. Mas enfim, ele pensou: caralho, essa menina não existe. Quando eu juro que eu a entendo, ou a conheço, ela me surpreende. E pensou em como sua vida ia ser diferente com Carol ao seu lado. Ela era seu noigandres, sua salvação da vida que levava e de si mesmo. Só que nenhum deles sabia disso, ainda. Ele tirou a roupa, ficou só de cueca e foi até a piscina.
Encontrou Carol boiando na água, olhando para o céu estrelado, e a garrafa vazia de vodka na beira da piscina. Era uma visão linda, tão linda que ele precisou tirar uma foto para registrar. "A estrela cadente" o pensou. Então ele pulou na piscina, assustando Carol e fazendo-a jogar água na cara dele. Os dois apostaram corrida, brincaram de dar cambalhotas, competiram sobre quem aguenta mais tempo debaixo d’água. Mas, no final, ficaram boiando de mãos dadas, olhando para as estrelas, querendo tocá-las. Ela adormeceu, e ele a tirou da água antes que seus dedos ficassem enrugados. Subiu as escadas com uma Carol dorminhoca e molhada, enxugando-a quando chegou ao quarto da irmã de Camila, o supôs. Ele a cobriu com um lençol e deixou-a sozinha. Desceu as escadas, vestiu-se e foi para casa.
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