Teenage clichê
21 A cueca dupla face
—Puta merda, não acredito que tô presa com esse babaca aqui -disse Carol, revirando os olhos.
—E eu tô com cara de quem quer ficar aqui? Sorte sua eu não ter algo afiado -disse Lucas.
—Se isso for fazer eu não ter que olhar mais pra sua cara escrota, eu te arranjo em um instante.
Seguiu-se um silêncio gutural. Ambos viraram a cara e ficaram lá, imersos em pensamentos e ignorando a existência do outro. Carol não conseguiu evitar se irritar com a situação, porque tudo que passava em sua cabeça era como ela estava com ódio do Lucas pelo simples fato de ele ter voltado e por ainda ter feito as merdas que fez e ter saído impune. Ela ficava realmente puta com isso, porque ele cagava o pau e ainda era recompensado por isso.
—Quer saber? Eu quero que você SE FODA, seu merda -disse Carol, em um tom meio alterado.
—Olha, a não ser que você queira bater a cabeça na porta até que uma das duas abra, a gente vai ter que se entender -disse Lucas, calmamente.
—Se entender é o caralho. Eu tô cansada de ver você sendo um escroto e ainda ter todo mundo passando a mão na sua cabeça. Tu devia é ir embora, isso facilitaria a vida de todo mundo.
—Sinto te avisar, mas cê tomou no cu: eu vim pra ficar. Todos merecem uma segunda chance, você mesma sempre disse isso.
—Eu concordo com isso da chance, mas você já teve zilhonésimas delas. Parece até que tu é assim de propósito -disse ela, olhando-o com desprezo de cima a baixo.
—Isso tudo é medinho de perder o cargo pra mim agora que eu voltei?
Carol ficou em pé, e andou em direção a Lucas. Deu-lhe um chute no saco, que o fez gritar de dor e cair de joelhos no chão.
—SUA PUTA! VAGABUNDA! QUAL O TEU PROBLEMA?
—Você é o meu maldito problema! Tudo era muito mais simples quando VOCÊ não tava aqui.
—Cê já parou pra pensar que o único motivo de a gente estar preso aqui é essa tua cisma idiota em me culpar por todas as merdas que acontecem no planeta? Agora, se o Estado Islâmico vier parar aqui, foi porque EU fiquei puto com a derrota do Palmeiras?
—Eu não te culpo por tudo que acontece na minha vida. Mas ultimamente, tem sido sua culpa sim.
—Voce tem que parar com essa mania ridícula de me culpar por tudo, parar com isso de achar que eu voltei só pra te infernizar e “roubar” a Mila. Eu voltei pelas duas. As duas são minhas melhores amigas, pro que der e vier.
—Mentira sua. Eu sempre fui uma observadora na grande história de Lucas e Camila. Voce so me aguentava porque eu era melhor amiga da dela -disse Carol, com um tom meio triste.
—Carol, claro que eu me importo com você. Eu nunca me aproximei mais porque pensei que voce não precisasse de mim. Desde pequena, voce sempre foi forte e independente, fazia amigos com facilidade e curtia ficar sozinha. Já a Mila era seu oposto, ela precisava de alguém constantemente pra cuidar dela.
—Entenda: só porque uma garota não demonstra, não quer dizer que não esteja lá. Uma garota calada é a mesma coisa de uma pistola com silenciador.
Lucas soltou uma gargalhada muito alta, o que deixou Carol brava, por conta da suposta seriedade do assunto.
—Eu to falando sério, Lucas -disse ela em um tom sério.
—Eu sei, mas é que tuas comparacões são muito boas, não tem como -disse ele, voltando a rir.
—Não dá pra ter uma conversa franca contigo por muito tempo, cê acaba avacalhando.
—Tá, foi mal. Eu sei que não tenho o direito de pedir que cê confie em mim, muito menos que me dê uma chance remota de fazer alguma coisa. Hoje eu entendo que errei, que devia ter tentado. E eu realmente torço pra que a gente consiga pelo menos ser amigos depois de tudo que aconteceu.
Carol ficou desconfiada, porque sabia que nada com o Lucas era garantido. Mas por algum motivo, ela queria confiar. Apesar de tudo, ela não podia ignorar o passado deles. Fora que ela iria ter que aturar ele de uma maneira ou de outra, porque a Camila foi trouxa o bastante pra perdoar ele.
—Eu nunca quis ser a número um. Nunca pedi e nem pedirei pra estar em um pedestal. Eu só queria que vocês me notassem, que me deixassem fazer parte do mundinho de vocês. Eu queria poder ter sido a primeira opção de vocês em algum momento. Queria ter tido momentos incríveis, piadas internas e sentimentos compartilhados. Eu só queria… -Carol pos as mãos no rosto e começou a chorar.
Lucas não conseguiu se conter e correu para abraçá-la. Os dois ficaram sentados na cama: ela, chorando no ombro dele e ele acariciando os cabelos dela.
—Eu lembro do dia em que o teu gatinho morreu. A gente ficou sentado uma tarde inteira do lado do buraco em que ele tava enterrado. Tu chorou a ponto do teu nariz escorrer pencas. Aí, eu lembrei que uma vizinha minha que tinha uns filhotes pra doar e corri até em casa pra pegar um e te dar de presente.
—Pera, foi você que deixou aquele gatinho lindo na minha cama? Achei que ele tinha ido parar lá pela porta da frente.
—Fui eu. Não suportei te ver triste daquele jeito, porque eu sabia o quanto você amava aquele gato anitpático.
—Tá, isso foi fofo. Agora já pode parar, porque eu tô afim de jogar cartas, topa?
—Pensei que cê nunca fosse chamar.
Os dois pegaram um baralho que estava em uma das gavetas e começaram a jogar. Em algum momento, Camila subiu e abriu a porta, com um estrondo muito alto. Henrique e Camila estavam do outro lado, ambos com uma expressão confusa.
—Minha filha, cê faz porta? -disse Carol.
—Que eu me lembre, a casa é minha e eu faço o que eu quiser -disse Camila.
—Gente, sem brigas; tem lugar no strip poker pra todo mundo -disse Lucas.
Camila pegou um sapato e jogou na cabeça de Lucas.
—Ai. Muito cedo, né? -disse Lucas olhando para Carol.
—Só um pouquinho, cara -concordou Carol.
—Ei, a gente vai jogar mesmo né? -disse Henrique, com um semblante inocente.
—Não é uma boa ideia -disse Carol, com um tom meio triste.
—Por que? — perguntaram os três em uníssono.
—Porque a Mila e o Lucas já jogaram sem a gente, Rique.
—Além disso, nem teria graça porque ela ainda deve tá com a mesma calcinha de mais cedo. -disse Lucas.
—ECA! Claro que não, eu troco minhas roupas, ok? -disse Camila.
—Pera, vocês só usam cada calcinha uma vez?
—ÓBVIO! A gente tem higiene, cara. -disse Carol.
—Porra, eu uso as cuecas umas duas vezes, pelo menos -disse Lucas.
—Qual o teu problema? -disse Henrique.
—Pô, até tu, cara? -disse Lucas.
—Como é tu faz, tipo, tu bota ao avesso pra usar duas vezes? -perguntou Camila.
Carol e Henrique riram pra caramba, enquanto o Lucas ficou meio vermelho, mas deu um sorriso.
—Cês são muito idiotas, sério -disse Camila, dando um sorrisinho antes de sair do quarto.
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