Teenage clichê
10 A cabana
Notas iniciais
Carol acordou no meio da noite ensopada. Havia tido mais um pesadelo, dessa vez sobre Camila. Ela sonhou que atirava em sua melhor amiga e assistia enquanto a vida se esvaia dos olhos dela. Esse pensamento a fez chorar, muito mais do que durante o sono. Mas ela falou para si mesma que só tinha sido coisa da imaginação dela, e que Camila estava e iria ficar bem. Ela levantou-se, pegou seu celular e foi ao banheiro. Enxugou as lágrimas e lavou o rosto. Resolveu ligar para Camila, para ter certeza de que ela estava bem.
—Alô?
—Mila? Te acordei?
—Não... Eu tava só estudando pro exame sobre TOC.
—Ah sim. Liguei só pra saber se você tá bem.
—Tô sim, sempre tô.
—E alguma noticia do Lucas?
—Nenhuma, Carolina.
—O que foi?
—O que foi o que?
—Só eu mencionar o Lucas e tu fica séria.
—É porque eu não quero falar sobre ele.
—Mais cedo ou mais tarde você vai ter que falar.
—Se for assim, prefiro mais tarde. Enfim, vou estudar. Tchau, Carol.
—Tá bem. Amo você, alw-
Camila desligou antes que Carol pudesse terminar de falar. Carol se entristeceu com a tristeza de Camila, porque ela faria de tudo para ver a amiga bem, mas não podia se meter entre ela e Lucas. Mas então teve uma ideia maluca e resolveu executa-lá na manhã seguinte, quando fosse na casa de Camila. Resolveu passar o resto da madrugada assistindo Netflix e comendo chocolate.
Umas 8 horas da manhã, Carol se levantou , tomou banho e se arrumou às pressas; ela não precisava perder muito tempo se arrumando, era linda naturalmente; tinha uma pele bronzeada e coradinha, que combinava com seus olhos verdes e cabelos castanho-claros. Ela tinha apenas colocado um short de cintura alta, uma regata cavada e seus Vans para ir até a casa de Camila: tinha resolvido levar a amiga pra à praia. Lembrou de Camila e colocou a mão sob a costela que tinha sua metade da frase(a outra metade estava na costela de Camila). Pegou seu skate, uma bolsa cheia de coisas e as chaves do carro e foi direto para a casa de Camila.
Chegou na casa de Camila, e a viu pela janela, ainda usando pijama e comendo sorvete. Resolveu dar um pequeno susto nela, então foi até a porta dos fundos e entrou de fininho, batendo a porta com um estrondo e se escondendo na despensa. Camila ouviu o barulho e foi até a cozinha, ver o que tinha causado aquela zuada. Carol nem pensou duas vezes; pegou uma caixa de leite, abriu e derramou na cabeça de Camila quando ela estava de costas. E, como era de se esperar, Camila deu um grito e saiu correndo atrás de Carol, até que as duas se cansaram e foram para o quarto de Camila.
Lá, enquanto Camila tomava banho para tirar o leite do cabelo, elas ficaram conversando.
—Sua kenga, não acredito que você desperdiçou o meu leite.
—Eu já disse, não chore pelo leite derramado; valeu a pena, porque ele tirou sua acidez.
—Legal, trocadilhos de conhecimento de mundo e química; você sabe mesmo como fazer alguém rir, Carol.
—Eu sei, sou top. Mas enfim, porque cê ainda não tinha tomado banho? –disse Carol enquanto fuçava as coisas de Camila atrás de alguma roupa legal.
—Porque meu grande plano era ficar em casa, com minha netflix e sorvete. Mas enfim, o que cê tá fazendo aqui uma hora dessas e sem avisar? Foi só pra me dar um mini ataque cardíaco?
—Não, eu vim te arrastar pra sair. Você anda antissocial desde que eu virei amiga do André.
—Não, eu tô normal. Eu só tô tendo matéria demais.
—Camila, essa não cola. Fala a verdade pra si mesma ou eu mesma farei isso.
—Tá, você quer que eu diga o que? Que eu morro de ciúmes da amizade de vocês? Que me deixa puta o fato de vocês terem segredinhos? Que eu me sinto mal quando cê sai com ele ao invés de vir aqui? Que eu não consigo parar de ser paranoica sobre te perder e isso me assusta?
—Só me diz como tu se sente, poxa. Desde sempre tu colocou ele em um patamar, e isso me deixa bolada. A gente é irmã, entenda: seus problemas são meus problemas, e os meus são seus. Para de se esconder atrás dessa parede idiota e seja sincera comigo.
—Desculpa.
—Desculpa não resolve, Camila. Não é a primeira vez que eu peço por um pouco de consideração. Eu te amo, baka; apenas aceite que eu sou a única que nunca vai embora, e me deixa fazer parte.
—Tá bom, desculpa mesmo, Carol. É que é difícil pra mim, mas você tá certa. Eu fui idiota por esse tempo todo por nunca ter confiado em você. Te amo, Always.
—Always, Mila.
E as duas se abraçaram entre lágrimas. Camila, mesmo de toalha, ainda estava bastante molhada, e acabou molhando Carol, mas nenhuma delas se importou. Elas estavam felizes por estarem juntas. Definitivamente era a melhor decisão que ambas haviam tomado, mas nenhuma sabia disso ainda. Então as duas deixaram de viadagem(que escritora fofa), e Carol entregou pra Camila a roupa que ela havia escolhido: um short detonado, com uma blusa de manga longa e o tão adorado coturno de Mila.
—Carol, pra onde a gente vai?
—Bem, eu pensei em te levar à praia. Mas aí tive a ideia de te levar ao parque. Então decidi te levar para um lugar que eu considero muito especial.
—E o que eu preciso levar?
—Só boa disposição, coragem e felicidade. Mentira, tem que levar muita coisa; mas não esquenta, eu te ajudo.
—Posso pelo menos saber pra onde vamos?
—No caminho você descobre.
Então as duas arrumaram uma pequena mala e colocaram as coisas que precisariam. Carol desceu a mala e colocou no porta-malas do carro. Camila fez um mini assalto à geladeira, pra ter um suporte(vida de gorda é assim mesmo) e as duas colocaram o pé na estrada.
Carol havia levado uma coletânea de músicas extremamente divertidas e que ambas amavam. Demorou apenas 1 hora para elas chegarem ao seu destino: um chalé em meio à uma floresta. Camila lembrava dessa cabana; era do avô de Carol: as duas costumavam passar fins de semana lá, indo tomar banho no lago e tomando chocolate quente com direito a marshmallows e historias divertidas.
Camila ficou emocionada. Ela passara pelo menos uns 5 anos sem visitar aquele lugar. Estar de volta era como reviver sua infância.
—Carol, não acredito que cê me trouxe pra cá...
—Ué, não gostou?
—Gostar? Isso foi a melhor coisa que alguém já fez por mim em um bom tempo.
—Então pera que não acaba por aqui –disse Carol enquanto andava até a porta do chalé e a abria, revelando a surpresa que este abrigava.
Ela abriu a porta e Camila teve um susto: lá estavam Carol, Bianca e Daniel, seus melhores amigos. Ela não conseguiu se controlar e começou a chorar. Os três foram abraçar ela, enquanto zoavam com a cara dela.
—Meu Deus, não acredito que vocês estão aqui –disse Mila
—Pois acredite, queridinha, a gente não ia deixar vocês sozinhas tendo toda a diversão nesse chalézão. A gente merece uma folga depois da negação que foram esses exames finais. Fora que eu tive que vir com esse louco do Daniel a 80 por hora pra chegar mais rápido que vocês. –disse Bianca
—Exatamente. Além disso, eu serei o barman dessa budega porque eu fui o único que lembrou de trazer bebida. A Bianca tava ocupada demais escolhendo jogos idiotas –disse Daniel
—Isso me lembra que eu preciso procurar a polaroid e os filmes pra tirar fotos lindas aqui, porque a iluminação é fodinha – disse Carol
—Pera, então vocês tão me dizendo que eu vou passar um fim de semana todo só bebendo, jogando, tirando foto, vendo filme e morgando? –disse Camila
—Não se esqueça de que iremos comer muito durante esse período, porque pessoas como eu merecem comida de sobra. –disse Bianca
Todos riram, e começaram a conversar enquanto pegavam as coisas que estava no carro de Carol para levar para dentro do chalé. Carol foi a última a entrar, parando na porta e olhando para toda aquela vegetação e pensando em como Deus era incrível por permitir aquelas amizades florescerem como uma rosa em plena primavera. Viu uma margarida e a colheu; era a flor preferida de Camila. Resolveu guardá-la. Entrou no chalé, fechando a porta atrás de si.
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