Notas iniciais
Normalmente espero até meia-noite para postar, mas, dessa vez, estou postando algumas horas mais cedo :3 Falarei sobre o capítulo apenas no final para não dar spoiler hohoho espero que gostem n_n

Quando enfim volto às aulas, Mikasa havia uma excursão para um museu com sua turma, e como ela diz que dormiria na casa de Annie após voltar, ela deixa seu carro comigo. Fico dividido entre a felicidade de poder dirigir e mais uma oportunidade perdida de falar com ela. No final de semana meu pai estava em casa e não me deixou sair do quarto, então não pudemos conversar. E, nos outros dias, ela sempre chegava tarde da escola e no momento em que eu estava falando com Levi, então não nos falamos.

Parecia que alguma coisa não queria que conversássemos.

Após a aula, vou para minha conversa com Hanji, passando por Levi e o cumprimentando com um sorriso. Ele sorri de leve de volta para mim. A conversa não dura muito, Hanji apenas me pergunta sobre a briga e eu a conto alguns detalhes, sem querer voltar no assunto. Quando saio de sua sala, Levi não estava mais na secretaria e seu computador estava desligado; provavelmente saiu um pouco mais cedo.

Vou procurar Armin na biblioteca e tenho que esperar alguns minutos enquanto ele termina de explicar um conteúdo para Jean. Não fico muito perto dos dois, mas consigo observar que eles mais brincam do que estudam. Jean parecia doce com ele, o completo contrário do que havia visto. Sinto inveja do que eles têm, era bonito.

Quando Armin enfim vem comigo, uma chuva forte começa do lado de fora. Levo alguns segundos para processar o que esse temporal significava, primeiramente preocupado em dirigir na chuva. Mas logo penso em Levi, esperando seu ônibus no ponto. Será que ele estava lá ainda? Imagino-o ensopado, e meu estomago dói.

“Armin...” O puxo pela manga de seu casaco, antes que seguíssemos para fora da escola.

“O que houve?” Ele me encara, preocupado. “Está com medo de dirigir na chuva?”

“Não é isso...” Mordo o lábio inferior. Acho que poderia dizer minha preocupação. “É que o Levi pega ônibus, e, essa chuva...”

Armin concorda com a cabeça antes que eu terminasse, entendendo.

“Você quer levar ele em casa?”

“Será que o Jean pode te dar uma carona?” Respondo com minha própria pergunta, ansioso. “Posso te levar primeiro, também—“

“Não, Eren, vá.” Armin me corta, calmo. “O Jean havia me oferecido uma carona mesmo, só não aceitei porque já é tradicional que voltássemos juntos. Mas pode ir.”

Queria abraçar o Armin nesse momento, mas apenas passo por ele correndo. Corro para o estacionamento, faço às pressas a manobra para sair da vaga, quase batendo no carro de trás, e acelero até o ponto de ônibus a algumas quadras de distância.

Levi estava lá, tentando manter-se bem no centro do ponto de ônibus que quase não o protegia da chuva lateral. Ele estava ensopado, seu cabelo preto todo cobrindo seu rosto. Por um segundo associo sua imagem a um gato molhado.

“Entra ai!” Desço o vidro, encostando o carro em frente ao ponto de ônibus.

Levi me encara por alguns segundos com uma expressão confusa.

“Não sabia que tinha um carro.” É o que ele me diz.

“É o da minha irmã. Entra logo, você ‘tá ensopado.”

“O ônibus vai chegar a qualquer minuto, Jaegar.”

“Eu te levo.”

“Eu moro muito longe.”

“Eu não me importo.”

“Eu vou molhar o banco, sua irmã vai ficar irritada.”

“Eu não ligo!”

“Eu não tenho seguro de vida.”

“Anda logo!”

Ele rola os olhos e, meio hesitante, corre para entrar no banco passageiro do carro.

“Merda.” Ele suspira ao fechar a porta. “Começou a chover no momento que sai da escola, isso porque sai mais cedo para evitar a chuva. Tenho uma sorte...”

Apenas rio, começando a dirigir.

“Você não precisa me levar até em casa, pode me deixar na estação de metrô. Pelo menos não preciso esperar o metrô na rua...”

“Eu quero te levar. Só me diga o caminho.”

Levi suspira fundo.

“É muito longe, sério.”

“Tenho gasolina o suficiente.”

“Você ‘tá querendo se mostrar pra mim?”

Suas palavras quase me fazem engasgar. Olho para o lado e o encontro com um sorriso cínico.

“Não é o suficiente para me impressionar, Jaegar. Vai ter que fazer mais que isso.” Ele ri. “Siga em frente e vire à direita.”

“Mesmo molhado você é malvado comigo.” Estalo a língua, rindo junto.

“Desculpe.” Ele continua com sua risada; eu gostava do som dela. Baixa, controlada, como se ele não quisesse rir, mas não conseguisse segurar. Ficava curioso em como seria uma gargalhada sua. “Acho que não sei lidar com gentilezas.”

“Apenas agradeça, é melhor.”

“Obrigado, então.”

Não digo mais nada. Levi eventualmente me dá mais instruções sobre o caminho, e levamos quase meia hora para chegar lá. Havia trânsito em algumas avenidas, e, tentando evitá-lo, peguei caminhos alternativos que quase fizeram que nos perdêssemos. Mas enfim chegamos a seu bairro bastante humilde. Nunca vinha para esses lados da cidade, então não sabia direito como era.

O prédio em que ele morava era bastante velho, pude ver como a pintura estava descascando em vários pontos. Quase parecia abandonado.

“Quer entrar?” Ele pergunta assim que eu estaciono.

“Não quero incomodá-lo...”

“O que mais me incomodaria é saber que dirigiu isso tudo para me trazer aqui e eu nem te convidei para entrar. Além de que poderia esperar um pouco para o trânsito diminuir, você vai pegar mil engarrafamentos na volta.”

“Eu... não sei...”

“Entra comigo. Vou esquentar um chá, e talvez até empreste aquele CD do Extreme que prometi mas nunca levei pra você.”

“Sério?“ Viro para ele, surpreso. “Achei que era sua preciosidade...”

“Hm.” Ele olha para cima. “Talvez não, talvez eu só permita que você escute aqui comigo. Mas vamos logo, estou molhado e congelando.”

Minha mente não registra direito o trajeto até seu apartamento, como se eu caminhasse em modo automático. Estava tão nervoso que sentia toda a minha barriga contrair.

Em certo ponto das escadarias noto uma goteira, e percebo quanto o prédio era velho do lado de dentro também. Levi morava no quinto andar, e creio que era pela falta de um elevador que ele se mantinha tão magro.

“Não vou pedir que não se importe com a bagunça porque nunca deixo nada bagunçado.” Ele diz, destrancando sua porta. “Então não faça bagunça também.”

“Ok.” Quase me engasgo.

Seu apartamento era como outro universo comparado com o resto do prédio. Suas paredes estavam pintadas em um tom suave de vermelho, e todos os móveis combinavam entre si como se pensados cuidadosamente. Tudo estava organizado, limpo, e era muito aconchegante.

“Você pode sentar no sofá enquanto eu me troco.” Ele aponta para o sofá preto simples, no canto da pequena sala. “Eu volto em um minuto.”

Ele entra no pequeno corredor e abre a primeira porta a esquerda, que acredito ser seu quarto. Respiro fundo, procurando me acalmar, e sigo para o sofá, sentando cautelosamente. Atrás de sua televisão reparo em alguns pôsteres colados na parede, desde bandas que já havíamos conversado sobre até cantoras divas do pop como Christina Aguilera. Ainda não havia entrado na minha cabeça que ele também escutava pop, mesmo já tendo o visto curtir páginas e postar algumas músicas no Facebook. Acho que era principalmente devido ao fato de que só conversávamos sobre rock e ele sempre estava usando lápis preto nos olhos.

“Ok, voltei. Você quer chá, certo?”

Viro-me para o lado e o encontro diante do sofá, com os braços cruzados, vestindo uma camiseta larga que escapava de um de seus ombros e um jeans tão justo que me pergunto como ele coube dentro deles. Céus.

“Sim, pode ser...” Concordo com a cabeça, tentando disfarçar minha surpresa ao vê-lo.

“Ok, espere um pouco.”

Ele se vira para seguir até a cozinha e eu observo suas costas pequenas por debaixo daquela camiseta larga até que ele saia de meu campo de visão. Ele ficava tão, mas tão sexy fora daquelas camisas e calças sociais. E... o que eram aqueles jeans, contornando sua bunda tão perfeitamente daquela forma? Algo como aquilo devia ser proibido, poderia causar ataques cardíacos. Em mim, pelo menos. De repente me arrependo de ter entrado, temendo não conseguir me controlar por muito tempo. Esperaria meia hora e iria embora, isso. Creio que nesse tempo conseguiria me controlar.

Levi logo volta, segurando uma chaleira vermelha e duas xícaras vermelhas. Ele realmente gostava de vermelho.

“Você bebe com açúcar provavelmente.” Ele põe tudo sobre a mesa de centro e volta para a cozinha, buscando um pequeno açucareiro.

“Você bebe amargo?” Observo enquanto ele nos serve, agora ajoelhado diante da pequena mesa.

“Sim, acabei me acostumando.” Ele termina, põe duas pequenas colheres de açúcar em um e me entrega a xícara. “Vê se ficou bom.”

Tomo a xícara em minhas mãos, meus dedos levemente tocando os seus na troca, e experimento o liquido. Chá de camomila.

“Está perfeito.” Confirmo com a cabeça.

“Que bom.” Ele diz, bebericando o seu. “Ah, sim, deixe-me colocar o CD para tocar enquanto isso…”

Ele se levanta rapidamente e abre uma gaveta do armário onde ficava sua televisão, buscando pelo CD correto. Em seguida, ele liga seu DVD junto à televisão, colocando o CD dentro e vindo ao sofá para sentar ao meu lado.

“Não tenho aparelho de som, então vai no DVD mesmo.” Ele diz, entregando-me a caixa plástica do CD e apertando play no controle remoto.

O CD era uma coletânea Best of da banda Extreme, a qual ele dizia ser sua favorita. Só conhecia uma musica deles, a More than words, e gostei de algumas outras que Levi havia me enviado pelo Facebook.

Deixamos o CD tocando enquanto bebemos o chá e conversamos. Levi coloca os pés para cima do sofá e senta de frente para mim, e eu reflito sua posição para que possamos nos ver enquanto falamos.

“Nossa, já está na faixa oito. O tempo voou.” Levi comenta rindo, deixando sua xícara vazia sobre a mesa.

More than words começava. Sabia a letra dessa musica inteira e achava a melodia muito bonita, assim sempre acabava viajando quando a ouvia tocando.

Saying ‘I love you’ is not the words I want to hear from you…” Levi cantarola, e, ao notar que eu o encaro, começa a rir. “Não me julgue. Eu amo essa música.”

“Eu também.” Sorrio, deixando minha xícara vazia sobre a mesa junto à dele e debruçando minha cabeça sobre o encosto do sofá. “Pode cantarolar, eu quero ouvir.”

Timidamente ele continua, e acabo me juntando a ele no refrão. E antes que eu perceba, eu me debruço em sua direção, interrompendo suas palavras, e o beijo. Na verdade, só encosto nossos lábios juntos. Acho que foi a música, a chuva lá fora, e minha ansiedade.

Ele não se move, nem para sair e nem para tornar aquilo um beijo propriamente dito. Mantenho meus lábios encostados aos seus por alguns segundos, até voltar para minha posição original.

Queria morrer quando ele me encara com um olhar de espanto.

“O que foi isso?” Ele pergunta, confuso e evitando me olhar.

“Desculpa.” Peço, quase trêmulo. “Eu só queria tanto te beijar.”

Ele me olha, ainda um tanto espantado. Nunca imaginava o ver com tal expressão.

“Você está bem?”

“Não sei.” Ele balança a cabeça, envolvendo-se com seus braços. “Não devia ter deixado isso acontecer.”

“Por quê?”

“Você tem dezessete anos, Eren.”

Sinto vontade de rir, não acreditando que sua preocupação era nossa diferença de idade.

“Isso não importa.”

“Droga.” Ele põe a mão sobre sua boca. “Eren… Será que você poderia ir embora?”

Não, não, ele não estava me pedindo isso.

“Acho que devíamos conversar—“

“Não agora. Eu não consigo agora.” Ele enfim se levanta do sofá, contornando a mesa. “É coisa demais para mim.”

O observo encostar suas costas na parede perto da janela, fechando os olhos. Queria abraçá-lo, perguntar por que havia ficado tão nervoso. Era mesmo somente pela nossa diferença de idade? Nem era tanta assim. Isso não fazia sentido.

“Vamos conversar depois?” Pergunto. Queria ter certeza que tudo não estava acabado ali.

“Depois.” Ele concorda com a cabeça.

Lentamente me levanto e saio de seu apartamento. Fecho a porta atrás de mim e quero desabar em lágrimas.

~*~

Quando chego em casa, checo meu celular e encontro uma mensagem de Mikasa perguntando se cheguei em segurança. Respondo rapidamente que sim, e a pergunto se já estava na casa de Annie. Ela leva quase uma hora para me responder, e apenas manda um curto “sim”. Ela nunca me respondia dessa forma.

Papai não estava em casa, então aqueço comidas congeladas e assisto televisão na sala. Paro em um filme qualquer mas não consigo me concentrar nele de forma alguma; meus pensamentos eram todos sobre Levi. Eu gostava muito dele, e de forma alguma queria perdê-lo agora. Queria tanto conversar com Mikasa sobre isso, mesmo tendo um pouco de medo de sua reação. Nunca contei a ela que poderia ser gay, na verdade, eu mesmo nunca pensei no assunto. Mas considerando que ela apoiou Armin e até o ajudou, creio que ela não teria problemas comigo.

Talvez eu devesse conversar com o Armin, já que foi muito estranho ele ter me incentivado a ir levar Levi mais cedo. Era como se ele desconfiasse de algo.

Pego meu celular e digito seu número. Tenho que esperar que ele toque algumas vezes até que ele atenda.

“Oi, Eren.” Ele diz, sua voz soando um pouco trêmula.

“Está tudo bem?”

“Uh—claro!”

“Você pode conversar agora?”

“Oh...” Ele hesita. “Será que não poderia ser amanhã?”

“Você está ocupado, certo?” Desanimo, e deixo meu sentimento bem claro em minhas palavras.

“Desculpa.” Ele diz, culpado. “É que estou na casa do Jean. Ele me chamou pra vir aqui quando pedi a carona...”

Acabei por me sentir mal por tê-lo feito se sentir culpado. Imagino como seria se ele me ligasse dessa forma enquanto eu estivesse com Levi.

“Eu que peço desculpas...” Digo, arrependido. “Depois conversamos, então.”

“Está bravo?”

“Não, não se preocupe.”

“Ok. Boa noite.”

“Boa noite.”

Encerro a ligação e fico olhando para a tela de meu celular. Sinto vontade de ligar para Levi, mas não era a coisa certa a se fazer. Tinha que dar um tempo para que ele pensasse.

Já que não prestava atenção no filme, desligo a televisão e vou para o meu quarto. Apenas me atiro em minha cama e me forço a dormir.

Notas finais
Finalmente alguma coisa, né? *-*~ Fiquei dias pensando sobre essa cena dos dois na casa do Levi, espero que eu tenha conseguido descrever bem a fofura que imaginei. O CD do Extreme citado é o "An Accidental Collision Of Atoms", que é uma coletânea best of da banda. Recomendadíssimo :3 Parte das ideias para os gostos musicais do Levi veio de conversas com minha irmã sobre bandas que ela curtia na adolescência (a outra parte é divas do pop porque não consigo visualizar o Levi não curtindo também). Ok vou parar de falar aqui hahah espero que tenham gostado n_n Até sábado!