Teen Paradise
9 Bianca
2, 4 e 6.
Respira.
8, 10, 12.
O método que Bianca tinha de controlar sua respiração – seus pensamentos, seu corpo, tudo— mostrava-se total ineficácia no momento.
— Números pares... núme... – sentou-se na tampa da privada e fechou os olhos. Suas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o celular e o teste de gravidez. Era o décimo em quatro dias. Todos diziam a mesma coisa. — 14, 16, 18... 20.
Suas linhas traçavam seu futuro agora. Duas linhas a tirou da ignorância e a arremessou para a dura, cruel e incerta verdade. Seu corpo, magro e pálido, agora tinha a função de conceber um filho. E, de repente, todo seu futuro ia para o ralo, todos seus planos, todas as suas oportunidades. Sua mãe a odiaria. Seu irmão, Nico... ficaria surpreso, sem dúvidas, assim como provavelmente toda a escola, que sempre acreditou que ela era lésbica.
Um riso doentio escapou dos finos e rosados lábios da garota.
Jogou o teste na parede, que logo foi ao chão com toda a sua aparência – e resultado – intimidador.
— O que eu vou fazer? O que eu vou fazer? – ela se levantou, começando a rodar a si mesma dentro do espaço mínimo que era o banheiro de sua casa. Parou em frente a pia e observou por longos minutos o reflexo no espelho. Os olhos castanhos escuros demonstravam um cansaço preocupante; dias sem dormir, sem nenhum motivo aparente a não ser seu próprio corpo se voltando contra ela. Os fios negros e oleosos do cabelo caiam sobre o rosto. — 54, 56, 58 – respirou fundo, mais uma vez, e mais uma vez. Sua contagem chegou até o número 100.
Iria ficar feia! Gorda!
Seus peitos iriam cair.
A gordura de sua barriga iria aumentar, seus quadris iam se alongar, suas coxas ficariam horrorosas.
Tudo, tudo pioraria. Tudo, tudo ficaria pior do que já estava.
E então, ninguém mais iria quere-la, ninguém iria querer ser amigo dela. E se ela tinha qualquer sonho de tentar uma carreira no mundo da moda, o atestado de óbito havia acabado de ser assinado.
Pegou sua escova de dente, alisando a extensão do cabo com os dedos. Mais uma olhada no espelho e foi suficiente. Não aguentava mais. Ao menos, havia sido seu recorde: oito dias e vinte horas sem ela.
Se ajoelhou diante o vaso, levantando sua tampa, e enfiou o copo da escova em sua garganta. Sentiu seu estomago, já muito maltratado, protestar; mas ele, ao longo dos anos, já havia aprendido que era melhor ceder. Não mais lutava para manter nada ali dentro. As vezes, nem precisava de um auxilio. Constantemente Bianca tinha que sair correndo para vomitar, mesmo não sendo da sua vontade (embora, é claro, ela apreciasse isso. Seu corpo estava cooperando.)
Sua contagem, então, chegou até os 200 e ainda não fazia ideia do que fazer.
Quando ouviu uma porta se abrir ao longe, decidiu que era hora de sair dali. Deu descarga, limpou sua escova e jogou água no rosto. Estava bem melhor. Forçou um sorriso gentil, para caso fosse sua mãe, e um sorriso sarcástico, para caso fosse seu irmão.
Então saiu do banheiro.
Nico estava no topo da escada, digitando no celular. Ele passou por ela, sem lhe dar atenção. Ele parecia abalado.
Bianca sentiu seu olho arder, ameaçando encher-se d’água. Ela sabia o que tinha que fazer. Por isso, antes que Nico entrasse em seu quarto, ela se virou, respirou fundo, reunindo toda a coragem que tinha.
— Sinto muito por ontem — desculpou-se, sua voz saiu um pouco desesperada.
— Não é comigo que você tem que se desculpar. Já estou acostumado com seu jeito cretino — ele se virou para sua irmã, e ela percebeu a sombra em seu olhar. Todavia, o motivo não era ela. Afinal, ele não se importava com ela de maneira que qualquer picuinha boba entre eles fosse afeta-lo.
— Irei falar com ela... — tudo que ela conseguiu balbuciar foi isso. Queria dizer mais, queria dizer que estava muito feliz por ele ter terminado com Annabeth, e que apesar de não gostar da situação, gostava de que ele estivesse com Thalia. E temia ao mesmo tempo. Claro que ela reagiria daquela forma ao saber do relacionamento dele. Thalia estava com Luke! E ele não era uma pessoa que Bianca escolheria para brincar. — E Luke?
Apesar do tom cauteloso, Nico não havia dado trégua e seu rosto se endureceu.
— Ele foi embora. Hoje de manhã. Thalia tentou conversar com ele sem sucesso, Annabeth praticamente implorou para que ele não fosse, Percy também tentou conversar. Ele não quis nem olhar na minha cara, ele não se despediu. Percy foi preso por culpa dele, e ele apenas mandou um capanga ir pagar a fiança. E foi isso, anos de amizade jogados em um monte de bosta! E como se não bastasse a culpa de talvez ser o motivo de ele ter saído daqui, ainda tenho que aguentar minha irmã lésbica problemática e idiota me enchendo o saco a cada respiro que dou nessa casa!
Sua voz se elevava um tom cada vez mais, e no fim do tudo, Bianca tinha certeza de que poderia se ouvir seus gritos do outro lado da rua. Ele olhou para Bianca, puro desgosto em seu olhar, misturado com dor e remorso. 2, 6, 8. Ele se virou, entrando em seu quarto e fechando a porta com força.
Bianca fechou os olhos, se apoio na parede, pois sua visão estava zonza. Cambaleou até seu quarto, e tropeçou, caindo de joelhos em seu carpete, onde vomitou. Tudo que saiu foi suco gástrico; sua garganta estava arranhada, seu estomago em frangalhos. Ela nem conseguia mais chorar. Desde que descobrira que estava grávida era tudo que fazia.
E pensar que ela estava supondo que aquilo acabaria com as aulas escolares.
Grande engano.
Não mais voltaria para casa chorando, após a sessão gratuita de ódio e bullying pelos corredores (os terríveis boatos de que ela era lésbica, um golpe irônico do carma após ela ter espalhar para toda escola que seu irmão era gay).
Era aquilo, o carma. Ele, sem dúvidas, é uma vadia.
Mas diferente de seu irmão, Bianca não era legal. Bianca não gostava de conversas sem motivos. Bianca não fazia amizades facilmente. Bianca não era entrosada. Bianca era apenas uma vadia solitária que passava de cabeça baixa pelos corredores, com os cabelos negros e compridos cobrindo a vergonha em seu rosto.
Diferente de seu irmão, as implicâncias com Bianca chegavam a um nível descomunal.
Não podia ir ao banheiro, pois todas as garotas saiam, ou a trancavam na cabine, jogando papel higiênico molhado por cima da porta. Sentava-se sozinha na mesa no almoço, ou melhor, não almoçava. Pois todos faziam questão de sempre lembra-la do quanto era ridícula, patética, infeliz. Ela era a assombração oficial da escola, vencendo o título numa democrática votação, com certa de 85% dos votos.
Não fazia ideia do quanto de tempo estava no quarto, mas foi desperta de seus pensamentos com uma batida urgente em sua porta. Não apenas urgente, como desesperada.
— Bianca? Bianca?! – era sua mãe gritando, o desespero muito mais evidente em seu tom de voz do que seus constantes murros na porta. — Deus, meu pai, proteja-me nesse momento, senão eu arrombo essa porta! Ah, se eu arrombo! Anda, Bianca, abra essa porta agora!
Sua mãe estava alterada, e foi como um balde de água fria no torpor de Bianca. A garota se levantou, as pernas fraquejando; desviou se seu vômito e foi até a porta, parando a mão na chave. Ouviu passos e logo a voz de Nico se juntou àquela cacofonia.
— O que está acontecendo? – Bianca o ouviu perguntar, parecia mais controlado.
— O que está acontecendo? — repetiu Maria, gritando, totalmente descontrolada. — Sua irmã! Sua maldita irmã está grávida! Você sabia disso? Grávida! Provavelmente de um moleque idiota que não sabe nem lavar as próprias cuecas!
— Grávida? Como assim? De quem?
O mundo todo girou, atingindo tamanha velocidade que a visão de Bianca não se passava de um borrão. Colocou ambas as mãos na boca, prendendo o soluço e o choro silencioso. Como havia sido burra! Esqueceu de pegar o teste no banheiro após jogá-lo na parede.
Nico e Maria, do outro lado da porta, começaram a discutir. Mas Bianca não ouvia mais nada. Pegou sua mochila, jogando algumas poucas peças de roupas dentro e algumas notas, e foi para a janela. Foi difícil abri-la, mas assim que a fez ela passou uma perna pelo peitoril sem pensar duas vezes. Segurando o batente, analisou suas possibilidades. Calculou um jeito seguro de descer. E então, ela correu. Correu mais que suas pernas aguentavam, pois ela só queria fugir.
***
Parada em frente a porta de uma casa de subúrbio, Bianca chorava. Era uma daquelas casas que eram iguais a todas as outras da rua. Era patético, ridículo, careta. Mas ostentava uma condição invejável. Uma condição de vida que certamente não era para Bianca.
Tocou a campainha.
200, 202, 204, 206...
Uma mulher alta e esbelta, com curtos cabelos alaranjados apareceu na porta com uma criança de um ano no colo, com um sorriso sutil que logo desapareceu completamente ao olhar para a garota. A maquiagem borrada pelo choro constante, as roupas surradas por ter ficado no chão, o suor escorrendo pela testa e pescoço.
— Eu posso te ajudar? – a mulher tentou ser educada, mas sua voz denunciava medo.
Bianca olhou para a mulher, linda, magra, com um corpo perfeito, olhos azuis encantadores, cabelos brilhantes... Ela era perfeita. E a criança em seu colo era quase um anjo. Bianca observou por alguns segundos o quadro perfeito que ela jamais seria. Ela nunca poderia ser aquilo para ele, para o pai de seu filho. Ele já tinha tudo que precisava afinal. Não precisava de Bianca. Não precisava de uma adolescente estúpida carregando um filho seu, manchando sua imagem e destruindo seu lar perfeito, sua família perfeita, sua estúpida casa perfeita.
— N-não... foi engano, me desculpe – Bianca deu meia volta e saiu correndo.
***
Era quase noite; havia comido um cachorro-quente no local mais barato que havia encontrado e até então estava sentada na praça da cidade. Nico havia tentado ligar para ela, milhares de vezes, e havia mandado mensagens pedindo para se encontrar com ele, que ele a ajudaria, que eles dariam um jeito.
Bianca sabia que na primeira oportunidade ele jogaria tudo aquilo na cara dela e faria da vida dela um inferno. Porque é isso que ela merecia. Ela merecia o pior desse mundo, tudo de ruim.
Enquanto mexia no celular, encontrou fotos dela com Thalia e Annabeth, meses atrás em uma festa das garotas. Elas eram tão amigas antes... e Bianca havia arruinado tudo com aquilo também. Por que sempre tinha a paranoia de achar que era excluída? Por que sempre sentiu inveja do corpo perfeito de suas amigas? Por que tal inveja ficou insuportável a ponto de não conseguir nem olhar para elas? Por que tudo isso sendo que o único problema era ela própria?
A situação de Thalia e Annabeth com Nico apenas se encaixou perfeitamente para mascarar o real problema. Mas, como fugir agora, após a verdade ser jogada em sua cara?
Bianca se levantou e foi para o último lugar que imaginava que iria.
***
— Bi-bianca? – ao ouvir a voz incerta, Bianca descobriu que seu segredo já havia voado até a casa de Thalia Grace. — Entre.
A morena passou por Thalia de cabeça baixa, limpando a área embaixo dos olhos. Seguiu silenciosa a garota subir as escadas, e ao entrar no quarto de Thalia, descobriu que Annabeth estava lá, jogada entre as cobertas, cheirando e chorando. Uma cena decadente. Os olhos estavam inchados, e seu rosto todo estava avermelhado. Ao avistar Bianca, porém, seu corpo ficou todo rígido e seu olhar penetrante e cruel.
Bianca se lembrou de quando Annabeth havia tentado lhe bater, em meio ao corredor da escola.
— O que você tá fazendo aqui? – Annie cuspiu. Se levantou, ficando de pé ao lado da cama. Bianca conseguia ver o quanto ela estava mal pela partida de Luke. — Fez merda na sua vida e descobriu que eu e Thalia somos suas amigas? Esqueceu que eu sou a vadia que traia seu irmão, e que Thalia é outra vadia por estar com ele agora? Sai daqui! Sai daqui agora sua puta hipócrita! E eu pensando que havia se afastado de nós porque é lésbica e que não suportava ficar perto da gente — a última frase foi repleta de veneno e sarcasmo, e apesar de Bianca duvidar da veracidade delas, foi como um tapa na cara.
— Annie, se acalma – interveio Thalia, indo até sua amiga e segurando ambos os braços. — Ela tá grávida, esqueceu? Relaxa ai que ela parece estar sofrendo o suficiente.
Bianca abraçou seus próprios braços, soluçando baixo.
— Me desculpem por tudo. Eu só precisava me desculpar por todas as minhas palavras, por tudo que falei. Annie, você sempre me acolheu e quando você começou a namorar meu irmão eu me senti trocada, me desculpe — Bianca não gostava de desabafar, ainda mais quando sentia o peso do mundo em seu coração, e todas as suas lágrimas querendo sair pelos seus olhos de uma só vez. — Eu só queria o proteger... Da minha maneira, mas o proteger. E depois Thalia... você namorava um traficante perigoso. Acha que eu consegui dormir a noite pensando na possibilidade de Luke querer matar meu irmão? Vocês sempre foram as únicas pessoas que eu tinha no mundo, vocês e Nico. E eu desapontei vocês, eu fodi com todo mundo e eu sinto muito por isso.
Thalia e Annabeth trocaram um olhar exasperados e piedosos, sem saber como agir diante daquela delicada situação.
— Lembram-se quando estávamos no refeitório na escola e os veteranos começaram a me empurrar na fila. Você saiu da fila, Thalia, era uma das primeiras, e foi até a mim, e despejou o prato de macarrão na cabeça daquela garota — o quarto foi preenchido de risadinhas nervosas e embargadas. Thalia se lembrava bem daquele dia. Calipso havia ficado bem brava. — Eu sei que nossa amizade nunca foi a mesma depois que Nico chegou, e eu sei que a culpa é toda minha. Só me desculpem.
Ela se virou e correu para a saída. A última coisa que precisava era de ouvir qualquer ofensa das duas. Bianca já estava convicta de que não iria ser recebida de braços abertos; só estava ali para tirar aquele peso que existia entre as três. Não poderia falar por Thalia e Annabeth, mas ela se sentia bem melhor agora.
Ouviu Thalia gritando seu nome, e o barulho de pessoas descendo as escadas correndo. Bianca fechou rápido a porta e começou a correr pela rua. Ao olhar para trás, viu Thalia e Annabeth paradas no batente da porta.
***
O vento balançava seus cabelos e arrepiava sua pele. Estava escuro, e a única coisa que iluminava aquele ponto da cidade eram os faróis dos carros e caminhões que passavam a toda velocidade na rodovia.
Cada passo que Bianca dava era difícil e arrastado. Ela abraçava seu corpo e continuava a andar. Em sua mente, muitas coisas aconteciam. Planos, hipóteses, memórias. Um mais incerto que o outro. A vida nunca foi tão difícil. Viver nunca foi tão sufocante. Era seu ápice, seu limite.
— BIANCA! – ela ouviu seu nome em uma voz masculina que ela reconheceria em qualquer lugar.
Bianca se virou, vendo seu irmão correndo pelo acostamento, indo na direção dela. Ela enxugou as lágrimas, parando de andar, mal conseguindo olhar para Nico.
Ele a alcançou facilmente e parou de frente para ela, a encarando como se não soubesse bem o que fazer.
— Como me encontrou? – ela perguntou, olhando para o chão.
— Sorte. Estávamos te procurando por todos os lugares.
— Quem?
— Todo mundo.
Bianca deu de ombros. Ela não fazia ideia do que Nico não estava fazendo ali. Ele não ajudaria em nada, e nada que ele dissesse a faria voltar para a casa.
— Ei – ele disse, a abraçando forte. — Eu estou nessa com você.
Esse foi o gatilho para Bianca começar a chorar. Ela apertou seu irmão, encostando a cabeça no ombro dele e permitiu mostrar sua vulnerabilidade.
— Eu errei com você – ele continuou — Mas agora vamos ficar unidos. E vamos passar por isso. Nossa mãe vai entender.
— Não, ela não vai, Nico. Você sabe disso.
Ela nunca estivera tão sozinha na sua vida. Sem amigos, sem a família. Sem ninguém além de um fardo em seu ventre. Nico não estava falando sério, ela sabia que não podia contar com ele, não mais.
Ela se desfez do aperto dele, abaixou a cabeça e fechou os olhos. Doía tanto nela que aquilo já não cabia mais em seu corpo.
— Isso não é culpa sua, Nico. Lembre-se. A culpa é minha, eu sinto muito – ela olhou por cima dos ombros de seu irmão.
Aquele era o momento.
Ela olhou para seu irmão e tentou sorrir. Então ela correu para o meio da rodovia.
Um farol alto a cegou por um momento, depois pareceu que todos os seus ossos estavam sendo estilhaçados. Escuridão.
E, enfim, paz.
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