Teddybear

2 I - Falling Down.....


O primeiro dia de aula passou rápido por que não teve muita coisa interessante: a cerimônia de abertura, as apresentações dos novatos, etc... Na terça-feira, quando eu cheguei da escola dei de cara com meu pai sentado na poltrona dele (Seu terno sempre impecável, o penteado idem, as rugas já bem protuberantes no rosto, um executivo modelo) e minha mãe sentada no sofá (Cabelo longo e negro, a pouca maquiagem que só realça a beleza natural da sua pele... As pessoas até se assustam quando uma aparente típica dona-de-casa apresenta o cartão de negócios da famosíssima Akai no Hito com o nome e a ocupação dela). A cena já me espantou por que essa não é a hora que meu pai chega em casa e quando ele disse um “sente-se” com o típico tom de voz severo dele, (severo, nunca agressivo) eu pensei na hora: “Não sei o que fiz, mas agora eu me ferrei”. E quando olhei para minha mãe e ela fechou os olhos e respirou fundo, só aumentou a minha certeza de que lá vinha problema...

– Sara, nós precisamos ter uma conversa muito séria com você.

Eu sentei no sofá e esperei ele continuar. O que eu não esperava era que poderia ser muito mais surpreendente...

– Eu e sua mãe conversamos muito e decidimos que devemos nos separar.

Meus olhos arregalaram e meu queixo caiu. Por uns dois minutos meu cérebro parou e eu não conseguia falar até que saiu um mísero “Por quê?” da boca e minha mãe falou:

– Você é jovem e por isso é difícil de explicar, mas quando uma relação chega a certo ponto, a separação é algo necessário senão as pessoas sairão machucadas.

Ao completo inverso da voz do meu pai, minha mãe tem uma voz tão serena que acalmaria até mesmo um prisioneiro sentenciado à morte. Talvez seja por causa do convívio no ambiente calmo da floricultura, não sei.

– E vocês estão nesse ponto?

– Acredito que já passamos desse ponto, não é, Katsuhiro?

Ele acenou com a cabeça que sim e eu não conseguia levantar a minha. Posso dizer que nunca esperaria uma coisa desse tipo porque eles pareciam ser o casal perfeito, um completa o outro e foi assim desde quando eu era criança! Deve ser o lado filha agindo, mas não consigo aceitar isso! Eu não SUPORTO aceitar isso!

– Quer dizer que agora cada um vai para um lado e deixa o outro para trás, é isso?

– Não é uma situação fácil, principalmente para nós dois, Sara. E não vamos abandonar ninguém, acalme-se.

– Acalmar... ACALMAR!!! É sério que estão me pedindo calma? Vocês acham que eu ia pular de alegria quando descobrisse que minha família está se partindo!? Eu quero uma explicação agora!

Minha voz ficou mais alta, minha garganta seca, as pernas estavam tremendo e as lágrimas escorreram. Não sabia se era de raiva ou medo, ou os dois. (É isso que chamam de crise nervosa?) Só consegui ouvir meu pai dizendo:

– Sara... O que eu sempre falo com você em relação aos estudos?

Desde pequena essa resposta já está gravada na minha mente: “Na escola não se ensinam somente fórmulas e textos, ela é uma preparação para o mundo adulto” Ele sempre diz isso para que eu não esqueça das minhas responsabilidades, mas....

– O que uma coisa tem a ver com a outra?

Enxugo as lágrimas com um lenço e vejo meu lápis de olho nele. Borrar a maquiagem é uma das coisas que as pessoas jamais deveriam permitir que uma mulher fizesse.

– Se os seus amigos te convidam para uma viagem em um fim-de-semana anterior ao das provas de fim de semestre o que você faz?

– Bem... Eu recuso porque as provas são mais importantes...

Não sou a primeira da turma, mas também não passo vergonha com as minhas notas! (Se eu for mal nas provas é adeus cartão de crédito também) Isso me faz lembrar outra frase do meu pai: “Não irei te privar de uma vida social, nem sequer tenho direito disso, mas se ela prejudicar seus estudos ou quem você é eu terei que interferir”.

– Eu ainda não entendi. O que é mais importante que o casamento?

– Nossa filha.

Foi aí que eu apertei o botão do “foda-se” e joguei tudo para o alto...

– AGORA A CULPA É MINHA? ENTÃO, ME DESCULPEM POR ESTRAGAR A VIDA DE VOCÊS! QUER SABER? ESSA CONVERSA ACABOU!

Levantei do sofá o mais rápido que pude para subir as escadas, chegar ao meu quarto e me trancar dentro dele. Meus pais vieram em seguida: Ouvia os soluços da minha mãe e as tentativas do meu pai de estabilizar a situação. Chamavam meu nome, batiam na porta... Eu não respondi nenhum deles. Depois de 10 minutos, eles desistiram. Agora eu posso chorar em paz.

Acho que perdi uns 5 litros chorando no meu travesseiro. Quanto mais o tempo passava, mais ficava perplexa com o que aconteceu e o pior de tudo isso é que nada vai passar como se fosse um pesadelo que você acorda ou como um dia ruim depois de um bom banho. Aliás, era de um banho que eu precisava. (Minha casa é no estilo ocidental então eu tenho um banheiro no quarto.) No caminho até ele, vejo na minha escrivaninha a foto da viagem a Paris que fizemos há 8 anos atrás no porta-retratos azul-piscina com detalhes em branco nas bordas que também foi comprado lá. Nela eu vejo um casal feliz, a Torre Eiffel ao fundo do canto direito e uma menina de cabelos negros com um sorriso enorme entre o casal. Quando eu olho o grande espelho na porta do meu armário, eu vejo uma garota com um uniforme colegial amarrotado, cabelos castanho-claros, olhos vermelhos e marcas negras vindas dos olhos e escorrendo pelo rosto. Isso aí não sou eu.

–Monstro...


Depois do banho, vesti meu pijama (quando uma garota faz isso às 16h20min significa que nada nesse mundo vai tirá-la do quarto) e deitei. Não tive sequer tempo de respirar fundo para tentar colocar a cabeça no lugar e a porta bate de novo.

– Sou eu, seu pai... Eu sei que é tudo muito novo e muito chocante, mas temos que conversar mais. Lembra que você pediu uma explicação? Estou disposto a te dar uma.

Sem reação. Eu não aguento mais isso! Se estou trancada no meu quarto significa que não quero mais conversar! Será que eles gostam tanto de falar com portas?

– ..... Entendo.... Não gostaria de te dizer isso dessa maneira, mas não terei outra oportunidade tão cedo... No sábado eu vou sair desta casa então quando estiver mais calma e quiser uma explicação é só ligar para o meu celular ou o número do hotel em que estarei hospedado. Vou passar o cartão por baixo da porta.

Outro soco na cara. Vi o pedaço de papel, mas não quis nem chegar perto dele. Naquele momento, eu procurava descobrir de quem é a culpa: se é do meu pai por causa do trabalho dele, se é da minha mãe por ser uma mulher submissa ou se ela é minha por não perceber que uma rachadura tão grande estava se abrindo em casa. Ano passado, houve boatos que uma garota do 3o ano tentou se matar porque o pai dela trocou a mãe por uma mulher que trabalhava na mesma empresa que ele. Eles até disputaram a guarda das filhas na justiça. Será que isso acontece na maioria dos casais recém-separados? Será que vai acontecer comigo? Será que eu chorei de novo? Sim, e até adormecer.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.