Teddy Bear
1 Tudo era tão doce, até que você tentou me matar
— Cara, esse urso é tão feio.
— Não fala assim do meu ursinho! Só porque a gente achou no lixo... — estendo o urso para Thalia, que se retrai. Reviro os olhos e continuo a costurar o pescoço do ursinho.
— Ele ainda fede — diz ela, entre um gole e outro de suco de manga.
— Cala boca, garota! Claro que não. Eu o coloquei na máquina de lavar. Passou quase duas horas lá. E usei Vanish. Confie no rosa; esqueça a manchas.
— E as bactérias! — gritou minha irmã, que montava um quebra-cabeça, na mesa de jantar.
— Ai, ai. Se fosse a minha mãe, ela não deixaria eu trazer lixo para dentro de casa.
— O que é isso, garota? Não é lixo não. Você fala isso porque não se lembra de quando era pequena, e levava pra casa tudo o que era brilhante.
Dando o último ponto na garganta do ursinho, vejo de soslaio que a vaca da Thalia revira os olhos.
— O que foi? — pergunto com desdém.
— Pelo menos nunca levei um urso degolado pra casa.
...
— Lurdinha, por que seu urso tem olhos de tachinha? — Cecília me pergunta, acho que pela milésima vez.
— Porque aqui em casa não tinha botões. Qual o problema? — ligo a central de ar, apago a luz e corro para debaixo das cobertas.
— Sei não... eles brilham. Isso não está certo.
Do outro lado do quarto, Cecília se enrola e dá as costas para mim, ficando de cara com a parede. Seria melhor para ela se algum dia perdesse todo esse medo pelas coisas. Está ficando meio chato, todas as noites ela chora com medo do Teddy. Logo ele que não faz nada a ninguém. Acho que as pessoas deveriam aprender a valorizar as coisas velhas ao invés de apenas jogá-las no lixo.
...
— Maria de Lurdes! — ouço minha mãe gritar — Posso saber o motivo das facas da minha cozinha terem ido parar embaixo das suas cobertas? Eu já não lhe disse que eu não quero você mexendo com essas coisas, menina? Ora, se eu te pegar cortando esse seu braço, que eu demorei nove meses pra fazer, juro que jogo vinagre bem em cima das suas feridas!
Permaneço com os olhos fixos na minha tarefa escolar. Não sou doida de me e levar uma chinelada nas canelas. Mas eu sei que há algo pior a temer; não é a primeira vez que coisas estranhas acontecem aqui. Na segunda-feira encontrei meu álbum de fotos da oitava série todo recortado.
— Lurdinha, me dá licença pra eu montar meu quebra-cabeça novo? — Cecília me tira do transe, esparramando as pecinhas pela mesa.
Levanto-me um tanto assustada. Será que minha própria conspira contra mim? Eu sinto medo, muito medo de dizer à minha mãe que temos uma potencial psicopata sob o mesmo teto. E o que eu poderia fazer? E a voz de madrugada dizendo o que faria comigo. Bem, a voz era masculina; não poderia ter sido a Cecília. A menos que ela tenha sido possuída.
Guardo meus materiais e corro para o quarto.
Puta merda, eu estou surtando! Minha irmã só tem sete anos, não faria uma coisa dessas.
Eu deveria me assustar?
Recolho as fotos em pedaços e, as jogo para debaixo da cama.
...
— Ah, Lurdinha. Pra quê jogar ele fora? O coitado não fez nadinha pra gente.
Cecília vem atrás de mim, correndo pelo quintal. Ela não entende. Nem eu mesma entenderia, se eu não tivesse visto o que vi.
No meio da noite, tomei coragem e decidi finalmente encarar o problema. Mas para a minha surpresa, Cecília dormia feito um coala. A voz não vinha da sua boca. Foi então que o ouvi, dizendo as coisas absurdas que faria com o meu cadáver. A voz vinha do canto do quarto, ao lado do guarda roupa e a parede. Ele, com seus olhos de metal frios, me encarava, perfurando a alma. Eu tremi. Juro que não tinha tremido tanto na vida. Nunca havia chamado por Jesus, mas o seu nome foi o primeiro que me veio à boca, quando no rosto do urso apareceu um sorriso pilantra.
Bastou apenas isso para eu trancá-lo no banheiro e correr para cama da minha irmã, morrendo de medo.
Olho para Cecília, aliviada por ela não ter presenciado. Teria feito um escândalo e acordado o condomínio inteiro.
— Não, é porque a Thalia tava certa. — tento me explicar, enquanto tranco a porta da frente — Não consegui tirar o cheiro de lixo.
...
— Lurdes, juro que se você me fizer assistir Insurgente mais uma vez, eu jogo esse balde de pipoca na tua cabeça! — Thalia me ameaça, enquanto se acomoda entre Cecília e eu, no sofá da sala.
— Não, sua tonta. Acho que a gente vai assistir Avangers, o que você acha? — coloco o DVD para rodar.
— Pra variar, né gata. Não acredito que pedi pra minha pra dormir aqui, e você me em com esse filme pela quin...
Thalia fica em silêncio, olhando para a janela, ao lado da televisão. Fico com medo de olhar também, então me contento apenas em encará-la enquanto a cor do seu roto vai embora. Ela não fala, e Cecília começa a perceber toda a apreensão. Toco no braço de Thalia, chamando sua atenção. Com os olhos arregalados, ela me encara um tanto ofegante.
Aperto o Play do controle remoto e deixo o filme rolar. Não quero deixar Cecília com medo, porque se caso ela começar a gritar as coisas podem ficar piores.
Minha melhor amiga se aproxima e sussurra no meu ouvido, para que Cecília não ouça: — Aquele seu urso está bem ali atrás da cortina. É melhor a gente se esconder, não?
Tento me manter calma. Mas primeiro é preciso conferir a questão. Olho para longa cortina cor de lavanda e vejo os pés do maldito urso. Tenho uma ideia, não é das melhores, mas é o que temos para hoje.
— Ei, que tal a gente fazer suco de goiaba? — pergunto, já me levantando do sofá.
— Eca! Suco com pipoca não combina. — minha irmã protesta.
Não posso me impedir de revirar os olhos. Como ela pode ser tão teimosa logo agora?
— Então vamos procurar o leite condensado pra jogar na pipoca.
— Eca! — dessa vez é Thalia quem diz.
Por que droga todo mundo reclama?
— Vai sim! — puxo o braço de Cecília, tentando ao máximo deixar a sala.
Mas não deu para ir muito longe. Logo um tiro foi disparado e todas congelamos.
— Aonde pensam que vão, mocinhas? — pergunta uma voz áspera. Em um silêncio cadavérico, nós três giramos devagar. Cecília apertava minha mão com força. Empurro-a com o braço para que permaneça atrás de mim. Thalia também agarrava meu braço. Tento me mover mais um pouco, mas não dá, estou paralisada. Nem em meus piores pesadelos poderia imaginar um negócio desses.
— Eita porra! —Thalia murmura.
O urso se aproximava de nós, com os braços estendidos para frente, segurando uma pistola. A cada passo ele mantém o sorriso trapaceiro. As duas tachinhas brilham de um jeito sobrenatural. Mas nada é mais assustador do que perceber que ele tem um polegar para apertar o gatilho. Cecília treme atrás de mim. Sei que ela está chorando. Preciso fazer alguma coisa, pois Thalia também está paralisada de medo.
— Te-teddy, meu querido ursinho. — começo a falar — você era tão quietinho e confortante, né?
Ele não responde, apenas conserva o sorriso demoníaco e se aproxima ainda mais. Está sendo bem pior do que hoje de manhã, quando eu atendi o telefone e não ouvi nada além da respiração profunda de alguém. E agora eu também não sei mais o que dizer. Estou tão despreparada.
Merda! Estou assustada pra caralho.
— Teddy, amor. Quando foi que você ficou tão violento? Você era meu ursinho.
Ele levanta a arma e mira na nossa direção. Empurro, Thalia para o lado e Cecília se esconde. Então vêm os disparos.
Há dor e gritos para todo lado, e a única coisa que consigo pensar é em como tudo estava tão doce e amável até ele tentar me matar.
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