Teddy Bear

7 Afastamento


Notas iniciais
→ Olhem só quem está de férias e vai poder atualizar isso aqui hehe → Me desculpem mesmo a demora, amores da minha vida 3 → Eu quero agradecer a todos vocês que estão favoritando/comentando/indicando e tudo mais. Vocês me motivam muito, e vou responder todos vocês, pois eu realmente sou grata por vocês estarem acompanhando minha história. Quando eu fui postar o primeiro capítulo, juro que não imaginei que ganharia leitores sem ter divulgado a história, mas já que estão aqui, não quero decepcioná-los. → Espero que gostem desse capítulo, vejo vocês nos comentários, e até o próximo :3

♦ Capítulo VII: Afastamento

Shuu caminhava em meio alguns destroços do local abandonado e deserto. Nocturne op. 9 no.1, de Chopin, tocava melancolicamente em seus fones de ouvido no último volume. A música clássica era talvez o único lado sensível e humano que conseguia ver em si mesmo, era a combinação de emoções das quais ele desconhecia e se agarrava mesmo que por meros instantes a cada nota efetuada no piano em sua composição. Sensações floresciam em sua pele como flores na primavera. O acalmava tanto, que seu corpo se acostumou com o descanso e a calmaria, o silêncio e apreciação das melodias... Por essas e outras, gostava tanto de ficar em seu canto, ter seu próprio espaço e uma barreira entre as outras pessoas, diferente de boa parte de seus irmãos.

Irmãos... Deveria chamar aquelas pessoas assim? Não tinha exatamente uma relação familiar com eles. Provavelmente nunca teria, e nem tinha interesse, mas pensava em como os humanos criavam laços uns com os outros, coisa que ele era incapaz de fazer. Será que esses mesmos laços, eram capazes de apagar qualquer coisa? Quando se tem um irmão como Kanato, mesmo o mais bondoso homem, não teria empatia alguma. E Shuu realmente não tinha. Kanato tinha diversos conflitos internos, e realmente deveria procurar ajuda de tão descontrolada que sua saúde mental era. O que não entendia, era como Aoi tinha sobrevivido tanto tempo com ele.

Invadindo a única barraca do circo abandonado que não estava completamente desmontada, teve a visão de Aoi sentada no banco em meio ao cenário, como se fosse a atração principal. Estava com roupas diferentes; um vestido curto e rosa quadriculado em branco, com um grande laço na cintura, sapatos brancos com um perfeito laço feito e meias de renda da mesma cor. Estava vestida e até mesmo maquiada, como uma boneca. E estava tão imóvel e com o olhar perdido, que se fosse julgar pela aparência, e também ignorando o fato de poder sentir o aroma agridoce de seu sangue, ela seria mesmo uma perfeita boneca de porcelana sem alma. Kanato não demorou a aparecer, por trás dela envolveu-a em um abraço. Abraço que durou pouco, ele se virou e colocou Teddy desajeitado no colo da garota. Os olhos dele continham um brilho estranho, parecia uma felicidade, um orgulho... Uma luxúria. Algo enigmático que nem mesmo o mais velho dos irmãos poderia prever.

— Kanato — Shuu chamou, fazendo-o se virar com aquele mesmo brilho no olhar que viu antes, que desapareceu minutos depois que se deu conta que Shuu estava ali para atrapalhar sua diversão. — Não vou perguntar o que fez com a garota, mas pretendo levá-la de volta.

Ele fechou a cara imediatamente.

— O que você quer Shuu? Ninguém te chamou aqui! Por que nos seguiu?

— Não segui — corrigiu tranquilamente, fechando seus olhos, como sempre, mais focado na música do que na conversa tediosa que era obrigado a ter. Seria bem mais fácil se comunicar por bilhetes com as pessoas. Não gostava de falar, de ouvir vozes irritantes que atrapalhavam seu bom som. — Reiji pediu pra eu dar uma olhada em você, e no que estava fazendo com a garota. — disse encarando-a. Ela, diferente do normal, em momento algum chegou a encará-lo de volta com seu ar de curiosidade tão costumeiro e irrelevante. — Foi fácil seguir os rastros de vocês dois. Mas não achei que você fosse voltar para esse lugar. Foi aqui que aconteceu aquele massacre, não foi? Pra mim, esse lugar só atrai coisa ruim. Inclusive você.

— Não quero você aqui atrapalhando nosso encontro, Shuu.

— Encontro? — sua voz transbordava escárnio. — Não é o melhor local para levar uma dama ao primeiro encontro, Kanato. Achei que Laito já tinha te dado algumas dicas — ironizou andando calmamente até ela, retirando o urso de seus braços e jogando-o no chão.

— TEDDY! — Kanato rapidamente se jogou no chão indo conferir se seu amigo estava bem, sorrindo nervosamente quando ele o respondeu, abraçando-o com toda sua força. Olhou nada satisfeito para o outro Sakamaki, seu desejo era, se possível, abrir sua garganta com suas próprias unhas. Mas o bem estar de Teddy era o mais importante naquele momento do que sua vingança ao Shuu, que com certeza seria pensada depois. — ISSO NÃO VAI FICAR ASSIM, SHUU. VOCÊ NÃO TEM IDÉIA DO QUÃO LONGE VOCÊ CHEGOU COM ISSO. — suas unhas apertavam fortemente os braços de Teddy em nervosismo. Machucá-lo era um privilégio apenas de Kanato, tal como Aoi.

— O sangue dela parece maravilhoso. — passou a ponta de seu nariz pelo pescoço da jovem, que estava adormecendo de tão exausta e dolorida que se sentia. — Esse cheiro... Parece tão agradável... E irresistível. Você tem sorte por prová-lo tantas vezes. — provocou, fazendo Kanato ranger os dentes e se levantar partindo pra cima dele, que desviou por bem pouco. Não que fosse causar uma lesão tão grande para ele, que não morria mesmo. Infelizmente. — Me diz, o que fez com a garota? Ela não parecia nada consciente.

— Ela não compreendia meu amor... Não compreendida as coisas que eu poderia mostrá-la. — fechou o punho. — Eu precisava... Fazê-la ver o outro lado da vida. A bela ressonância da morte... O fim do frágil corpo mortal. — controlava o riso, fazendo com que sua voz começasse a falhar, quase como se estivesse prestes a chorar. — Aoi me trata tão mal! Ela precisa entender o que sinto. Ela precisa entender o que é estar morta... O que é ter seu corpo controlado sem escapatória. Fiz isso por ela... Fiz tudo isso por ela.

— Kanato, você é muito imaturo. — afirmou com toda sua calmaria, fazendo com que uma onda de raiva se apoderasse do corpo do mais novo. — Você sabe que estamos com poucas bolsas de sangue, não é? Ayato disse que iria roubar mais, porém, até agora não o vi em ação. Eu não estaria aqui se não fosse por isso. Não tenho nenhum interesse com seus passatempos estranhos, mas a garota não é sua propriedade. Esse corpo é uma mera reserva de sangue para nós, precisamos dela agora, até resolvermos se ela ficará conosco, ou não — disse pegando-a no colo. Odiava ter que se esforçar tanto, e não estava nem um pouco preocupado se estava sendo apático ou não.

— Onde você vai levá-la, Shuu? O QUE VOCÊS VÃO FAZER COM AOI?

— Mantê-la longe de você, até segunda ordem. — virou-se, prestes a sair da barraca.

— VOCÊ NÃO PODE! Você... Não pode... Shuu. Não a tire de mim — seus olhos estavam estalados como nunca, com um misto de ódio e tristeza envolvidos nas orbes lilases. — Ela quer ficar comigo! Eu sei que quer... Tudo o que eu fiz por ela. Óbvio que ela quer ficar. Comigo! Você não tem o direito de tocar o que me pertence...

— Não se trata tanto do que ela quer, embora, tenho certeza que pra ela será um agrado ficar longe de você. Não queria dizer isso, mas você assusta as pessoas às vezes. — deu de ombros, já cansado daquela conversa. — Já está decidido. Laito e Ayato concordaram em ficar de olho em você nos próximos dias. Mas acho que meu dever agora seria levá-la ao médico, ou algo assim — encarou o rosto pálido e adormecente da garota. Kanato deveria ter feito uma longa tortura psicológica para ela ter ficado daquele jeito, mas era melhor levá-la ao médico, não era a primeira “amante” dele que ele torturava e cobria com roupas como aquelas e maquiagem, ela poderia estar gravemente ferida e ele nem percebera ainda.

Enquanto saía do local, só conseguia se manter em estado de alerta, caso Kanato com toda sua fúria resolvesse o atacar. Mas ele não o fez, por alguma razão. O mesmo garoto, estava deitado no chão tremendo nervosamente. Abriu sua boca prestes a gritar, e não conseguindo encontrar a palavra certa para escapar de sua garganta, mordeu sua mão fortemente como se fosse rasgar sua pele, rosnando como um animal enquanto suas presas o perfuraram. Ainda tremendo, começou a sorrir para Teddy enquanto seus olhos não paravam de lacrimejar. A dor, a pequena dor que sentia ao morder sua mão, seguidamente o seu braço, o fazia lembrar-se de sua dominação por Aoi. Ela iria voltar, mais cedo ou mais tarde iria. Começou a rir, rir ao ponto de fazer as lágrimas acumuladas em seus olhos finalmente transbordarem por seu rosto. Lágrimas quentes que entravam em contato com sua pele tão fria. Sua risada aumentava, mas nenhum som ecoava. Aquele circo já fazia tanto barulho, a platéia estava completamente eufórica e todo aquele barulho estava o ensurdecendo. E continuou a rir. Levantou-se, pegando Teddy, rindo. Abraçou o urso e em passos falsos saindo do local, rindo. E continuou a rir por todo o percurso que tomou até sua casa...

DUAS SEMANAS DEPOIS

Um cigarro aceso estava entre seus dedos; com os braços apoiados no encosto da janela aberta, olhando para o céu tão obscuro que naquela noite nenhuma estrela poderia ser vista sob aquelas nuvens grossas. Aoi estava cansada. Era o intervalo naquela escola noturna, estava fumando escondido — sabendo que se Reiji visse, iria reclamar — e já estava cansada de ir para médicos, repor seu sangue, e toda a rotina arrastada que estava tendo. Sua única sorte era que, realmente, haviam afastado Kanato temporariamente dela, e podia dormir em paz sabendo que não iria acordar sentindo as presas dele em seu pescoço. Ele, entretanto, não estava comparecendo nas aulas, e nem nos jantares em geral na mansão. Isolou-se completamente, e ela se recusava a se perguntar o porquê, não queria se preocupar. Não com ele.

— Se Reiji ver você fumando aqui, terá problemas... — Hideki comentou sarcasticamente, embora o que tivesse dito não fosse uma completa mentira, era o óbvio e o que todos a repetiam quando a viam naquela situação. Ela fitou seus olhos esverdeados, sorrindo levemente. — E então? Quer mais um cigarro? — parou ao seu lado perto daquela janela, oferecendo outro cigarro de seu maço.

Ele fumava bastante, e nas primeiras vezes que testemunhou, ela chegou a alertá-lo sobre os riscos de saúde. Mas cá estava ela, cometendo os mesmos erros, de novo. E nem se importava. Do que adiantaria cuidar de sua saúde para continuar vivendo naquelas circunstâncias? Era o menor de seus problemas. E cada vez que liberava a fumaça por sua boca, sentia seus pensamentos se alinhando, afastando parte de sua preocupação com todos os ocorridos. Fumar a relaxava muito, tinha até se esquecido daquela prática.

Mas balançando negativamente a cabeça, negou o cigarro que lhe fora oferecido. — Não, obrigada — apagou o que tinha em mãos, jogando o tabaco no lixo e encostando-se na parede gélida ao lado da janela.

— Aoi, não somos próximos nem nada, mas... Não é difícil ver que você está cada dia mais acabada.

— Muito obrigada pelo elogio. — ironizou, fazendo-o rir.

— Aoi... — aproximou-se, sorrindo com suavidade. Pousou a mão em seu ombro, tentando passar conforto. — Se algo está te incomodando, não só pode dizer, como deve.

Hideki... Ele parecia um homem justo, mesmo não escondendo sua implicância relacionada aos Sakamaki's. Nos últimos dias, ele foi de grande conforto, e a ajudou nas aulas práticas também. Contudo, uma coisa era admitir que via nele uma ponta de segurança, e outra, permitir uma aproximação com ele fazendo-o correr riscos. Ele, provavelmente, não tinha nem a remota chance de saber a verdade por trás da mansão Sakamaki. O silêncio, era o melhor que poderia o dar naquele momento. Mas sobre sua aparência sofrida... Teria que fazer algo. Se ele já reparou, seria questão de tempo, até as outras pessoas comentarem. Será possível que ninguém percebia que ela precisava de ajuda? Onde seu pai foi parar? Onde os cidadãos de bem estavam quando ela precisava? Aquela cidade era podre, agora não havia dúvidas.

— Tudo bem, parece que você não está a fim de conversar — ele suspirou. — Mas insisto que, se precisar, pode falar comigo. E estou falando sério, Aoi. Pode não parecer, mas há um lugar esperando por você. Na hora certa, você se livrará disso. Aguente firme até lá.

Era estranho ele parecer saber exatamente o que ela estava passando, aquelas eram as palavras de conforto ideais, palavras que Aoi estava precisando ouvir, e que ditas por si mesma, não teriam o mesmo efeito. Hideki se afastou, saindo da sala e encostando a porta. Ficou olhando para a mesma porta por um tempo, tentando processar melhor as coisas. Lembrava-se de poucas coisas desde que acordou em seu quarto na mansão, ficou repetindo as mesmas dúvidas mentalmente sobre como saiu daquele circo, e também tentando se lembrar de qualquer reação que Kanato mostrou quando ela falou todas aquelas coisas pra ele. Não era alguém que gostava de se sentir frágil e aceitar a submissão, mas a intensidade das coisas não a agradava. Seja amor ou o que for que Kanato dizia sentir por ela, era completamente tóxico para uma humana. E mais uma vez, se deparava pensando naquele problemático.

— Por que você insiste em falar com ele? Logo ele? — Laito perguntou, aparecendo no cômodo por trás da cortina que o vento tanto balançava. Ele não era o tipo de pessoa que falava sério, mas diferente de sua malicia e suas brincadeirinhas ofensivas de sempre, ele parecia pensativo ao falar aquilo. Afinal, qual a verdadeira ligação que ele e seus irmãos tinham com Hideki? Na escola não reclamavam tanto de sua aproximação com ele, pois chamava atenção dos outros. Mas em casa especialmente, a alertavam sobre ele, mas nunca entrando em detalhes explícitos, que era exatamente o que ela precisava. — Você é uma garota estranha — sorriu levemente, mexendo em seu chapéu. — Mas devo admitir... Seu cheiro parece cada dia mais chamativo. Eu mal consigo me controlar, você sabe, sou um cara que age por instinto... — pegou sua mão, beijando-a. Sua língua deslizou pela pequena mão, parando na ponta de seu dedo indicador, depositando uma pequena mordida ardente que tirou pouquíssimo de seu sangue, mas que era o suficiente para excitá-lo, como se seu corpo frio finalmente entrasse em chamas chamativas. — Seu sabor é tão viciante, cadelinha.

Como odiava aquele jeito invasor de Laito, principalmente quando ele a chamava por aquele apelido ridículo. Não importava quantas vezes o corrigisse, ele continuava a chamá-la assim. Já tinha se acostumado com a dor que sentia quando eles faziam aquilo... Porém, as atitudes deles, ela não era obrigada a aguentar calada. Não demorando pra ele perceber sua raiva, Laito segurou uma risada presa na garganta.

— Me esqueci que você não gosta de ser chamada assim... — ele respirou fundo, com ar decepcionado. — Que pena. Eu sempre me refiro com tanto carinho... — segurou seu queixo, erguendo seu rosto, mas ela bateu rudemente em sua mão, o afastando. Se fosse outro de seus irmãos, ficaria muito irritado com a audácia dela, mas ele era bem mais relaxado que os outros. — Você é muito inquieta... Adoro isso.

— Laito, o que vocês têm contra Hideki?

Ele pareceu um pouco surpreso com sua pergunta, desviando o olhar.

— Não se preocupe. Isso não é importante agora. Não é a hora e nem o lugar para falarmos disso, minha amada Aoi... — se aproximou, mas ele insistia em recuar de suas caricias. Que cadelinha mais teimosa. — Sabe... Olhando para você agora, entendo porque Kanato sente tanta falta de você. — comentara com um breve fechar das pálpebras.

— Do que está falando?

— Você não viu como ele anda ultimamente? — não sabia se Laito falava sério ou não, mas negou com a cabeça, respondendo-o com o gesto. — Se ele já é descontrolado com você... Sem você, eu diria que ele parece completamente lunático.

— Eu realmente não sei do que está falando. — fingiu não dar à mínima.

— Deveria ir ver como ele está... Eu poderia levá-la agora mesmo.

— No horário de aula? Mas Reiji irá...

— Não se importe com o que Reiji fará — sussurrou próximo de seu rosto. — Seu medo já passou. Não há nada a temer.

Por que Laito... Logo Laito, tentava acalmá-la? E por que estava se permitindo acalmar com a aproximação dele? De todos os irmãos, ele era o que ela menos gostava. Depois de Ayato, que era com quem ela mais chegava a discutir e levar punição.

Era estranho Kanato que foi quem mais a afetou, não estar em primeiro lugar nessa dita lista... Mas isso não tirava a raiva que sentia dele quando pensava em tudo que fez.

— Por que está me ajudando?

— Por que não ajudaria? Você não é uma de nós agora? Uma família trabalha em conjunto... Sempre disposto a ajudar uns aos outros.

— Está sendo legal demais, Laito. — ergueu as sobrancelhas levemente, desconfiada. Ele soltou sua típica risada sem emoção, sem deixar de encará-la.

— Talvez qualquer hora eu cobre esse favor que estou lhe fazendo...

É. Aquilo fazia bem mais sentido vindo dele.

— Você... Acha que há algo errado com o Kanato? Fala sério mesmo quando diz que ele está... Estranho?

— Falo mais do que sério, querida.

Kanato poderia ter diversos problemas psicológicos... Se não fosse checar isso pessoalmente, uma culpa iria dominá-la por um longo tempo. Tudo bem que não tinha obrigação de fazer isso. Ele a fez mal, era normal querer o afastamento, e também desprezá-lo em muitos sentidos. Mas se ele possui alguma doença, e não segue tratamento algum — tratamento que dificilmente imaginaria que ele cederia —, talvez... Só talvez, ela conseguisse ajudá-lo com isso. Não importa qual doença a pessoa sofra, ela sempre se agarrará a algo. Kanato se agarra a Teddy, mas parece que já se foi o tempo em que seu ursinho era a única coisa de valor em sua vida.

— Me leve até ele, Laito.

Conseguiu voltar até a mansão escondida, matando aula, com a descarada ajuda de Laito. Já imaginava as broncas e os castigos que Reiji iria reservá-la, mas não estava mais preocupada, mais cedo ou mais tarde teve que aprender a conter sua dor e fazer com que ela fosse sua força para continuar sobrevivendo naquele lugar. Essa era uma regra aplicada tanto quando se vivia com humanos, quanto com vampiros.

Laito não a acompanhou até o quarto de Kanato, ficou parado no corredor encarando seus passos lentos até o quarto de seu irmão, e não disse mais nada desde então. Não sabia se o sorriso sutil que ele tinha em seu rosto era por esperar algo acontecer, ou por estar se divertindo com a reação dela em meio tudo aquilo. Mas ficar sozinha com Laito sem ele tentar forçá-la a ficar com ele, já era um avanço. Um estranho avanço, já que na verdade, era a obrigação dele tratá-la com respeito. Apesar de que aquele comportamento solidário dele, possivelmente, era cheio de segundas intenções.

— Kanato... — o chamou, batendo na porta depois de alguns minutos pensando e repensando em sua atitude imatura. Sabia dos riscos, por que se deixava levar tanto? Logo por ele. Logo por Kanato.

Não tinha obtido nenhuma resposta, pensando que ele sequer estava em seu quarto, já que ele nunca parava em um único lugar. Se virou, pronta pra sair dali e se esquecer que cometeu a loucura de procurá-lo de pois de todas as reviravoltas que tiveram juntos. Quando estava pronta para correr pelo corredor, a porta rapidamente foi aberta, mas não completamente, uma pequena brecha dela foi exposta e o rosto de Kanato a encarava por ela com um sorriso vazio e uma expressão cansada e completamente perdida.

— Aoi... Você veio me ver. Deixou-me muito tempo esperando É sim... Esperei muito... Esperei sim... Continuei esperando... Por você. A noite está tão linda hoje. Não acha? Você... Não acha? Aoi...

Por que ele estava falando daquele jeito?

— Kanato... Você está b-be...

Ele não permitiu que ela terminasse de falar, puxando-a abruptamente para dentro do quarto e o trancando instantaneamente. Estava esperando algum ataque ou algo assim dele, mas ele só ficou a encarando com aquele jeito histérico e agoniado. Com a respiração presa, olhou em volta, percebendo que o quarto dele foi terrivelmente modificado. As paredes estavam pretas, todaselas. Os lençóis na cama eram azuis marinhos no tom mais escuro possível, e a luz que vinha da rua e batia na janela de seu quarto era a pouquíssima iluminação que ele permitiu adentrar em seu recinto. Sua garganta parecia ter travado quando viu que ele desenhava algo com giz branco em uma das paredes, desenhos pequenos que ocupavam boa parte dela, e o espaço que sobrou parecia que logo seria ocupado dando continuidade na possível história que ele tentava contar naqueles traços tão infantis e mal feitos. Eram os desenhos mais estranhos que já vira; os olhos de cada boneco eram tão grandes, e seus corpos magros exageradamente, completamente desproporcionais. Mas nas primeiras linhas, parecia contar a história de um garoto e uma mulher, que poderia muito bem julgar ser sua mãe. Só que não sabia em que contexto aquilo se encaixava... A mesma mulher, parecia fazer coisas cada vez mais horríveis com o garoto em cada sequência da arte feita por Kanato.

— São bonitos, não são? Aoi... — ele sussurrou, bem perto de seu corpo, quase como se a qualquer momento fosse abraçá-la por trás. — Fui... Eu que fiz... Teddy me ajudou também.

Sem entender, ela se virou para ele.

— Kanato, o que isso...?

Ele voltou a interrompê-la, colocando seu dedo na parte inferior de seus lábios, impedindo-a de terminar a frase.

— Aoi... — seu jeito perdido mudou um pouco quando ele sorriu aflito pra ela. — Shuu te tirou de mim... Reiji... Todos eles tiraram... Mas você conseguiu voltar... — Kanato tremia muito, nunca o viu se controlando tanto para não feri-la... — Você me ama, não ama? — ele riu orgulhoso de si mesmo.

— Kanato...

— Não diga nada! Eu sei o que está sentindo... Eu sinto também... Não vê? Nós iremos nos vingar sobre o que cada um deles nos fez... Iremos sim. Não se preocupe... Você é meu brinquedo preferido, embora eu tenha vontade de te destruir... Eu não acabaria com você tão rápido... Porque você é meu brinquedo... Meu... Meu brinquedo preferido. — repetia, falhando a voz inúmeras vezes. Ele falava até meio robótico.

Laito não exagerou quando disse que ele estava lunático. Será que quando ele não tinha ninguém pra descontar seus conflitos internos, ele ficava daquele jeito...? Bem peculiar. Não era nenhuma especialista para dizer, era só uma mera humana cheia de conflitos, assim como ele. Mas sabia, que naquele momento, ele estava agarrando-se a ela para não surtar consigo mesmo. Por aquela noite... Apenas naquela noite... Ela seria capaz de cedê-lo isso.

— Kanato... — colocou a mão em seu cabelo, acariciando levemente. Ele tinha estranhado e feito uma careta estranha quando ela tentou aproximação, mas logo segurou sua mão, fazendo-a continuar. — Está tudo bem...

Naquele momento conseguia se lembrar de quando acalmava sua irmã. Kanato era completamente diferente dela, e cheio de impurezas em seu coração. Mas para acalmá-lo... Assim como uma criança de colo, bastava fazê-lo se sentir seguro, como se fosse afirmá-lo que não há nenhum monstro debaixo de sua cama.

— Aoi... — agarrou-se a roupa da garota, afundando seu rosto em seu pescoço e se permitindo abrir um sorriso alegre ao sentir seu cheiro tão doce que ele amava. — Eu jurei que Teddy seria a única coisa importante pra mim... Parece que ele já não é mais o... Único. — acolheu seu rosto de lado no peito da garota, ouvindo as batidas de seu coração, tão acelerados por ele estar perto de si. — Você... Quer saber mais sobre mim, não quer? — perguntou com um sorriso mais provocativo que antes.

— Eu... Quero sim, Kanato.

Aquela calma dele iria embora mais cedo ou mais tarde, ela sabia. Mas se ao saber mais sobre ele, fosse capaz de entender e tentar aceitar o que ele era, estava disposta a tentar... Com a falsa esperança de mudá-lo positivamente.

Um pecado ou outro pra quem já estava condenado, não era nada.