Teddy & Andromeda

3 Qual o problema?


Notas iniciais
Obrigadaa Mari Alves pelo comentário!! Boa leitura! :)

31 de Novembro de 1964

A neve já começava a cair em Hogwarts, tornando toda a paisagem em um lindo cartão portal de inverno. Andrômeda tinha se tornado bem popular na sua turma graças ao seu sobrenome. Os Black tinham grande influencia, até mesmo nos mais novos.

Por mais que não tenha trocado uma única palavra com o menino, Andrômeda sempre observava Teddy Tonks de longe. Ela achava interessante o seu riso frouxo e seu modo desajeitado de andar. O menino, junto com seu melhor amigo Arthur Weasley, era a piada da turma do primeiro ano. Os dois estavam sempre sofrendo com pegadinhas dos mais velhos e piadas dos colegas, mas ainda assim, quando Andrômeda observava Teddy em meio aos amigos, ele parecia relaxado e feliz.

Ela não tinha feito muito amigos. Apenas conversava com pessoas e colegas, mas amigos realmente, não tinha nenhum.

Bellatriz fazia questão de incluir a irmã em toda reunião social entre os alunos da Sonserina, os puro-sangue, de família influente. Andrômeda sentia um tédio imenso em todas essas reuniões, mas se segurava para não revirar os olhos toda vez que alguém listava os mil e um motivos para odiar trouxas.

Naquele dia, em particular, Bella tinha dado uma liberada na irmã. Andrômeda estava sentada em um dos bancos do pátio, com as pernas cruzadas e cobertas pelo longo casaco, que a protegia do frio. A maioria das pessoas não costuma ficar ao ar livre enquanto neva, mas a menina amava ficar ali, vendo os flocos de neve caindo lentamente. Seu cabelo negro estava salpicado pela neve e o rosto levemente corado pelo frio.

Ela se sentia em paz ali, sozinha e longe de tudo. Tudo aquilo de sociedade, e reuniões, e conversas, sufocava a menina.

_ Bom dia Andy. – ela dá um pulo de susto ao ouvir a voz ao seu lado. Teddy estava sentado no banco lhe olhando com um sorriso simpático. – Porque está aqui fora? Não sente frio não? A maioria das pessoas está tremendo lá dentro e se entupindo com chocolate quente.

_ Eu gosto de ficar na neve, e porque está aqui? – a menina pergunta desconfiada. – Não podemos conversar, e do que me chamou?

_ Te chamei de Andy. É um apelido, sabe, seu nome é muito grande, apelidos facilitam. – ele explica levantando o rosto para o céu e esticando a língua para pegar algum floco.

_ Porque está aqui? – a menina repete a pergunta ríspida.

_ Estava indo para a cozinha, te vi aqui, resolvi conversar. – Teddy responde dando de ombros.

_ Bom, mas eu não posso e não quero conversar com você. – ela retruca virando o rosto e empinando o nariz.

_ Porque não? – ele indaga curioso. – Porque sou um sangue-ruim? – acrescenta arqueando as sobrancelhas. Andrômeda o olha surpresa, afinal não era normal os próprios sangues-ruins se chamarem assim.

_ Exato. – Andrômeda responde mais baixinho. Uma fina fumaça saiu da sua boca por conta do ar frio.

_ Sabe, eu não entendo... – Teddy diz em um tom frustrado, chamando a atenção da menina. – Arthur, meu amigo, também vem de uma família só de bruxos, e não vê problema em conversar comigo. Porque você vê então?

_ É diferente. – ela diz sentindo um incômodo no peito por ver a expressão confusa do menino. – Minha família é diferente da família dele. Os Weasley são pobretões, sem prestigio algum. Mas a minha linhagem, os Black, são uma família muito antiga, com um sangue imaculadamente puro, e isso é precioso. Nós não podemos nos misturar com gente de sangue sujo como você Tonks.

_ Então vocês são a realeza, e eu a ralé? – o menino reflete soltando um riso sem humor. — E as duas classes não se misturam.

_ Isso. – Andrômeda afirma cada vez mais incomodada. Ela não se sentia bem falando aquelas coisas, mas era o que seus pais lhe ensinaram, era como devia agir.

_ É uma pena. – Teddy diz suspirando e se levantando. Andrômeda lhe olha com uma expressão de interrogação. – Eu ia gostar de me misturar com você, sabe... ser seu amigo.

A menina não conseguiu entender o que sentiu depois disso, mas não foi algo bom. Se Teddy não fosse um sangue-ruim ela também ia gostar de ser sua amiga, ele parecia legal. Vendo ele ir embora claramente magoado fez ela questionar algumas coisas. Afinal, qual é a diferença de um puro sangue e um sangue-ruim? Os dois possuem magia...

Essa questão atormentou Andrômeda por muito tempo, ela sempre ouvia o “por que?” de Teddy na sua cabeça, e quanto mais pensava menos razão para toda aquela divisão ela via.

*

O Natal chegou rápido e logo Andrômeda e Bellatriz estavam em casa, para a felicidade de Narcisa que disse achar a casa muito vazia com a partida das irmãs.

Toda a família isso celebrar o feriado na casa dos tios paternos de Andrômeda, e isso foi o suficiente para animar a menina. Não que a casa dos tios fosse um lugar legal, afinal era escura, fria, e assustadora, mas lá morava seu primo favorito, Sirius Black.

O menino tinha cinco anos, mas era uma das pessoas com quem ela mais gostava de passar seu tempo. Ele tinha um espírito livre que dava nos nervos de Tia Walburga, e adorava ser o rebelde da família com tão pouca idade.

_ Isso se chama motocicleta. – Sirius disse pausadamente para a prima, mostrando uma miniatura do objeto. – Os trouxas usam elas com se fossem vassouras! Um dia eu vou ter uma, e vou voar com ela para todo lado.

_ Não acho que ela voe Six. – Andrômeda disse com cautela. – Está vendo isso aqui? São rodas. E coisas com rodas são feitas para andar no chão.

_ Mas a minha vai voar! – o menininho teimou fazendo bico e pegando o brinquedo da mão da prima. Sirius então subiu na cama e começou a fingir que a pequena motocicleta voava pelo quarto.

_ Como? – a menina pergunta divertida.

_ Magia, dã! – Sirius responde revirando os olhos e sorrindo banguela. Ele era tão animado e ao mesmo tempo tão inocente...

_ Sirius... – Andrômeda chama tendo uma ideia. – O que você pensa sobre os sangues-ruins?

Talvez ela estivesse sendo boba em perguntar isso para um menininho de cinco anos, mas ela sabia que ele tinha alguma ideia do que era aquilo. Aprender a desprezar trouxas e sangues sujos era prioridade na família. E ela desejava uma opinião, diferente da sua.

_ Gente que nasce com magia, mas o papai e a mamãe são trouxas? – Sirius indaga se sentando na cama e fazendo uma careta pensativa. – Eles são... normais, não é? Mamãe diz que eles são maus, como monstros! Mas acho que ela mente... Um dia eu vi um desses quando fui no Beco Diagonal, e eles eram normais. Iguais a gente!

_ Sim. – Andrômeda diz aérea. “Iguais a gente...” Sirius não sabia como essa frase podia ter impacto na sociedade bruxa.

_ E trouxas têm motocicletas! – Sirius completa voltando a pular na cama e a brincar com sua miniatura.

Andrômeda passou todo o jantar pensando. Pensava nas palavras de Teddy, nas palavras de Sirius, e eu tudo que aprendeu com sua família. A cada instante o fato de menosprezar mestiços, sangues-ruins e trouxas se tornava mais estranho para ela, parecia errado. Pelo menos, tratar Teddy daquela forma quando ele tentou fazer amizade foi errado, por mais que os conceitos da sua família falassem que era o certo.

A cabeça da menina doía com tanta confusão. Por anos ela acreditou que o conceito de sangue puro era o mais certo possível, e agora nada mais parecia direito.

*

O trem de volta a Hogwarts não estava tão cheio como na maioria das vezes. Mesmo assim Andrômeda teve problemas para achar uma cabine vazia. Ela não queria se sentar com o pessoal da sua casa, ela estava cansada daquilo. Queria só relaxar durante a viagem, sem ter que manter a postura, ou a etiqueta.

Quando a questão dos Sangues-ruins, ela decidiu esquecer isso. Não queria ficar naquela confusão de pensamentos, isso lhe fazia mal. O que tinha que seguir, é o que seguiu a vida toda.

_ Com licença, eu posso me sentar aqui? – uma menina ruiva perguntou timidamente abrindo a porta da cabine. Ela tinha cabelos crespos e sardas no rosto redondo. – Aqui é o único lugar onde a janela está vaga. – ela acrescenta apontando para o lugar vago em frente a Andrômeda.

_ Tudo bem. – a morena responde e a menina ruiva entra sorridente, se sentando a janela e olhando para a plataforma como se procurasse alguém, e era realmente o que fazia. Poucos segundos depois ela acenava para dois menininhos ruivos que pulavam na plataforma, rodeando um homem ruivo adulto. Os menininhos acenaram e gritaram animados até o trem começar a andar.

A ruiva suspirou e encostou-se ao banco com um sorriso leve.

_ São seus irmãos? – Andrômeda pergunta simpática e a ruiva abre um sorriso ainda maior.

_ Sim, são gêmeos como deve ter notado, Fabian e Gideon. – a ruiva responde sorrindo orgulhosa. – E eu sou Molly, é um prazer...

_ Andrômeda, Black. – ela diz apertando a mão da ruiva animada.

_ Oh sim, já ouvi sobre você. – Molly comenta pensativa.

_ Já? O que ouviu? – a morena pergunta curiosa.

_ Ah nada! – Molly desconversa rapidamente. – É bobagem, mas enfim... você é dá sonserina certo?

_ Sim, e você?

_ Grifinória. Espero que não seja um problema. – Molly diz cautelosa e Andrômeda sorri a tranquilizando. — Enfim... Você tem irmãos?

_ Tenho duas irmãs, mas nossa relação é bem diferente. – Andrômeda responde suspirando.

_ Minha relação com meus irmãos que é diferente de todo mundo. – Molly comenta. – Minha mãe morreu quando eles eram bebes, e meu pai sempre trabalhou muito, então eu que os criei e cuidei da casa. É quase um amor materno que eu tenho por eles.

_ Isso é lindo. – Andrômeda diz realmente impressionada. A ruiva tinha a mesma idade que ela, mas parecia ter uma mente muito mais madura e falava sobre a família com os olhos brilhando. – Lá em casa, minha mãe sequer nos criou... os elfos que faziam a maior parte, e ela entrava para nos ensinar como agir ou etiqueta...

_ Tenho certeza que ela ama vocês. – Molly afirma carinhosamente e arrancando outro sorriso da morena. As duas acabaram engatando em uma conversa animada sobre a escola, comentando sobre a comida, a diferença dos dormitórios e as aulas. Já estava quase anoitecendo quando a porta da cabine se abri e dois meninos entraram, entre eles Teddy, surpreendendo Andrômeda.

_ Como vai Molly? — o menino ruivo, Arthur Weasley, cumprimentou animado. – Te procurei pelo trem inteiro.

_ Acabei me distraindo com Andrômeda. Eu estou muito bem, e vocês meninos? – Molly responde educada. Teddy enquanto isso desviou os olhos da menina morena hesitante.

_ Ótimos. – Arthur diz eufórico. – Teddy me trouxe um monte de coisas, parafusos, ferramentas, tomadas! Fios! É incrível tudo aquilo!

Molly parecia se divertir com a narração de Arthur, mas Andrômeda entortava a cabeça estupefata. Como um bruxo podia ficar tão animado por conta de bugigangas trouxas? Era vergonhoso sua atitude...

_ ... e se você ligar um no outro eles produzem elebilidade! – Arthur continuou sorrindo de orelha em orelha.

_ Eletricidade, Arthur, eletricidade. – Teddy corrige rindo.

_ Isso, isso mesmo! É com isso que os trouxas fazem quase tudo! É incrivelmente incrível! – Andrômeda sentia cada vez mais vergonha alheia. O que seus pais diriam se ouvissem Arthur? Eles seriam capazes de lançar um feitiço só para fazer o menino parar de falar asneiras. E Bella, com todo aquele humor sombrio, se ouvisse isso... era melhor nem pensar tal coisa.

_ Não sabia que a nobreza estava se misturando. – Teddy diz de repente chamando a atenção da morena. Ela via que ele estava incomodado com a presença dela ali, e provavelmente a última conversa dos dois devia estar latejando na mente deles.

_ Me desculpe... – Andrômeda sussurra nervosa, abaixando o rosto. Se suas irmãs a vissem agora iriam ficar alarmada, mas ela sabia que devia pedir desculpas para Teddy.

_ O que disse? Eu não ouvi Black. – ele implica. O uso do sobrenome só piorou a situação.

_ Desculpe. – ela repete levantando o rosto muito corado. Andrômeda olhava para a porta como se a qualquer momento Bella pudesse aparecer ali e olha-la com desgosto.

_ Desculpe pelo o que? – Teddy indaga claramente se divertindo com a situação, irritando Andrômeda. Ela estava se dando ao trabalho de pedir desculpas e aquele sangue-ruim ainda queria humilha-la?

_ Por tudo que disse, por te chamar de ralé e sangue-sujo. – ela acrescenta levemente irritada. – Foi inapropriado e rude de minha parte.

Teddy sorriu levemente, estufando o peito magrelo e a encarando como se esperasse outra coisa.

_ O que foi? Quer que eu me ajoelhe também? Pois saiba que isso não vai acontecer! – a menina exclama nervosa e Teddy a olha por mais alguns segundos antes de sorrir abertamente e soltar uma gargalhada.

_ Não, não precisa se ajoelhar Andy. – Teddy diz ainda sorrindo e se senta mais confortavelmente no banco. Arthur e Molly olhavam curiosos e confusos para os outros dois, mas Andrômeda preferiu não explicar.

Era uma situação estranha ali. Os três grifinórios conversavam despreocupadamente, e não tinham problemas em incluir Andrômeda na conversa, e não de uma maneira roteirizada, fria e cheia de etiquetas, mas de uma maneira tão leve que a menina se permitiu relaxar. Afinal, qual era o problema?

Notas finais
Leitores?? Comentários??? Beeijos