Tecedoras

1 Quatro fitas


Bruna olhou para as fitas em volta de seu pulso, contando pela quinquagésima vez as quatro únicas que ainda lhe sobravam. Não era muito e só uma delas a faria poder ir para o futuro outra vez, mas não tinha tempo nem dinheiro para sequer começar a pensar em tentar conseguir mais alguma.

Teria que dar um jeito de se virar com o que tinha.

A sensação de ser puxada na direção certa parecia cada vez menor e, se ela desaparecesse por completo, não poderia mais continuar a jornada que a tinha levado até ali para começo de conversa. Tecedores já eram difíceis de achar quando não estavam tentando se esconder, então, quando tentavam, a situação se tornava ainda mais complicada.

— Ela ainda não sumiu, você tem tempo. — Veio a voz de seu companheiro de viagem, o Elo que voava próximo a sua cabeça em sua forma de pequeno dragão.

Bruna abaixou o braço, puxando a manga do moletom cinza para cobrir o pulso antes de enfiar as mãos nos bolsos. Era uma sorte que o Elo não havia resolvido ficar visível de repente, considerando o quão imprevisível costumava ser. Duvidava que conseguiria passar despercebida com um dragão em plena França do século vinte e um.

— Hoje é um dia fixo, não é? — perguntou Bruna, mais para ter o que falar do que por estar mesmo com alguma dúvida.

— Hm, parece que sim. — O dragão deu uma pirueta no ar, parando no ombro de Bruna e se transformando em uma cobra que se enrolou no pescoço da garota. — Treze de novembro de dois mil e quinze, o primeiro ataque vai começar em quatorze minutos. Me pergunto porque ela está seguindo os pontos fixos, vocês já vieram na França?

— Não, na verdade ela dizia odiar passar por esses dias — forçou a resposta para fora com uma careta, começando a andar por uma praça que não sabia dizer o nome, não gostava de pensar que a tinha entendido errado desde o começo.

Talvez devessem ter ido à França pelo menos uma vez antes, era sempre ruim conhecer um lugar em um dia triste como aquele. Pontos fixos dificilmente eram felizes.

O puxão repentino em seu tornozelo fez Bruna virar o rosto, e o corpo, na direção contrária da qual estava caminhando. Mal teve tempo de assimilar os cabelos castanhos conhecidos a poucos metros de distância antes que ela desaparecesse novamente, puxando uma fita verde que desapareceu no mesmo instante em que saiu de seu pulso.

— Nunca vi alguém fugir tanto — comentou o Elo, se apertando ainda mais ao redor de Bruna, enquanto ela puxava a manga do moletom e começava a desfazer o nó de uma de suas fitas vermelhas.

A Tecedora preferiu não dizer que, se Alice estivesse mesmo não querendo ser vista, não teria conseguido segui-la com tanta facilidade até o momento. Talvez uma parte dela quisesse que Bruna não a perdesse, mesmo tendo sido ela a que havia decidido cortar a linha vermelha que as ligava. Se negava a acreditar que estava indo de encontro a uma armadilha.

A fita desapareceu entre seus dedos, assim como todas as outras, e Bruna se viu parada na areia de uma praia no meio da noite. Não precisava de muito para notar onde estava, o cheiro forte do mar e o fato de que o Elo se desenrolava de seus ombros para cair ao seu lado em forma de um potro já dizia muita coisa.

— Indonésia, dois mil e quatro — anunciou ele, apoiando o focinho no ombro de Bruna, que levou a mão para fazer-lhe um carinho. — Um dia antes do dia fixo.

A mão de Bruna parou por um instante, até o momento sempre haviam parado no dia exato, algumas horas ou minutos antes ou depois.

— Tem certeza? — perguntou, franzindo as sobrancelhas, o olhar passando pela praia vazia.

— Datas não são algo em que eu me equivoco, Bruna. — o Elo empurrou com o focinho o rosto da garota como reprimenda. Uma de suas patas cutucou o tornozelo de Bruna. — A linha parou de piscar.

— Isso é uma coisa boa? — Bruna abaixou a cabeça para olhar para o próprio tornozelo, mas, como era de se esperar, ela não conseguia ver a linha amarrada nele.

Se pudesse vê-la não precisaria da ajuda do Elo para começar.

— Não sei o que você define como coisa boa, mas por enquanto você não corre perigo de perdê-la por completo. Poderia descansar um pouco se quisesse.

Descanso era uma coisa que ela não tinha se dado ao luxo de ter desde que havia sentido a linha se partir, saindo em busca de Alice no mesmo instante e não parando até então. Mas, por mais que quisesse encontrá-la o mais rápido possível e pedir por respostas, sabia que teria as mesmas chances de fazê-lo caminhando pela cidade ou se sentando na areia da praia.

— Consegue se sentar? — perguntou para o Elo com um leve sorriso, sentando-se na areia com as pernas esticadas e os braços apoiados atrás do corpo para se segurar.

Recebeu como resposta uma bufada do potro ao seu lado e a imagem de vê-lo se transformando em uma cabra pequena, a qual se deitou ao lado de Bruna com movimentos preguiçosos.

O som das ondas do mar, ainda pequenas, se quebrando na areia era a única coisa que se podia ouvir entre os dois únicos seres presentes por algum tempo. Bruna tinha a impressão de que o Elo estava dormindo, mas não sabia se eles precisavam de coisas simples como um descanso, apesar dele saber o que a palavra significava.

Porém, para um Tecedor, as coisas nunca permaneciam calmas por muito tempo.

A Silente apareceu a sua frente sem qualquer aviso ou ruído, chamando a atenção de Bruna com o esvoaçar de suas fitas a sua frente. Seu primeiro pensamento, como sempre, era de que estava vendo uma fada digna de contos de fada. Mas sabia que o ser, pouco maior que sua mão e flutuando à sua frente sem a ajuda de asas, não era uma delas e não parecia nada satisfeita de ver Bruna naquele local.

Ela não falou, afinal Silentes não falavam, mas usou das várias fitas amarradas em seus tornozelos, pulsos e cabelos, para formar uma única pergunta a sua frente:

“O que faz aqui?”

— Buscando por alguém — respondeu Bruna em voz baixa, puxando a manga da blusa para esconder seus pulsos e suas próprias fitas da Silente por puro impulso.

“Ninguém deveria estar aqui.” Avisou a Silente, cruzando os braços. Suas fitas se moveram mais uma vez antes que Bruna pudesse dizer que essa não era sua intenção. Tinha que colocar toda sua atenção nas palavras que eram formadas para não se perder. “Você deveria conhecer as regras, esse será nosso primeiro e último aviso.”

Bruna nem ao menos tentou falar mais alguma coisa antes que a Silente desaparecesse sem som ou aviso algum, tão natural quanto piscar.

— Sempre me perguntei porque elas são tão preocupadas — comentou o Elo após um suspiro cansado de Bruna, que agora estava abraçada às próprias pernas. — Se não querem que mexam com o tempo não deveriam vender suas fitas.

— Aprendi que elas precisam de nós tanto quanto precisamos delas. Sem os tecedores para controlar os que tentam mudar o próprio tempo o mundo estaria uma bagunça, mas é uma faca de dois gumes que também nos dá o poder de causar essa mesma bagunça — resmungou a garota, recitando o que havia aprendido no colégio em uma de suas primeiras aulas, quando ainda não tinha recebido sua primeira fita. — Não as culpo por serem preocupadas, mas poderiam nos ouvir mais vezes.

— São seres que vivem no silêncio, Bruna. Suas palavras não são nada além de ruído desnecessário para elas. — Quis muito ir contra aquelas palavras, mas ele tinha razão.

Aquela perseguição já estava arrancando as forças de Bruna pouco a pouco e, agora, com o aviso de uma Silente, era difícil ignorar que Alice estava realmente armando alguma coisa nada boa. Afundou a cabeça nos braços cruzados sobre os joelhos, sabendo que não desistiria tão cedo, mas mesmo assim não deixando de pensar que talvez fosse uma opção mais sensata.

Os minutos se passaram sem que se desse conta, o Elo silencioso ao seu lado parecendo outra vez estar adormecido. Talvez ela mesma estivesse começando a adormecer com o barulho do mar e o cheiro de maresia, porque no instante em que sentiu o leve puxão em seu tornozelo outra vez quase gritou de susto.

— Ah, voltou a ficar instável — avisou o macaquinho que se encontrava agora ao seu lado, subindo pelo braço de Bruna para se pendurar em suas costas. Obviamente ignorando como ela se levantava em desespero e começava a correr para fora da praia.

Quando a viu novamente, estava também correndo entre os becos entre as casas, parecendo tão apressada para sair dali quanto Bruna estava para alcançá-la. Alice diminuiu o passo apenas um pouco para tirar o casaco que vestia e Bruna viu aquilo como uma oportunidade.

— Alice! — gritou como última forma de chamar sua atenção, sabia que não conseguiria chegar até ela antes que sumisse novamente.

Alice se virou, largando o casaco no chão ao mesmo tempo que arregalava os olhos na direção de Bruna. O olhar surpreso dela foi a última coisa que Bruna viu antes que ela levasse o pulso até a boca e puxasse mais uma fita verde, desaparecendo junto a ela.

Bruna não pensou em tirar o próprio casaco antes de puxar a própria fita vermelha do braço para segui-la, mas talvez devesse ter feito isso, ou pelo menos pensado no porque Alice ter feito tal coisa.

O problema era que nada daquela perseguição estava saindo como o programado e nem ao menos havia sido planejado, então parar em um dos dias mais quentes da Espanha não deveria ter sido uma surpresa. O que não impediu Bruna de entrar em desespero ao sentir tanto calor de repente e, no desespero de tirar o moletom, acabar jogando o Elo para longe.

— Antigamente tratavam os espíritos da lua com mais delicadeza — resmungou ele.

O resmungo não passou despercebido para Bruna, mas estava preocupada demais em buscar ar em todo aquele abafamento para notar que agora ele era um pequeno galo mal encarado aos seus pés. Provavelmente tendo mudado pelo susto.

— Eu acho que vou morrer — reclamou entre arfadas, as mãos apoiadas nos joelhos como se tivesse corrido uma maratona. — Esse não é um ponto fixo… é?

Virou-se para o galo, sentindo o suor começar a pregar seus cabelos soltos por seu rosto ao escorrer por ele. Nunca tinha passado por um calor tão repentino quanto aquele, e o fato de estar mais seco do que o normal só fazia respirar ser ainda mais complicado. O choque térmico também não estava ajudando em muita coisa.

— Não, é só um dia muito ruim de se estar. A onda de calor de dois mil e três foi a pior em muitos séculos, mas pelo menos ela não voltou para a França — respondeu o Elo, batendo suas asas que não o fariam voar tão cedo.

— Você parece um livro de história ambulante. — O calor devia estar mexendo com seus neurônios para soltar coisas do tipo de repente, sabia como eles eram cuidadosos com suas datas. — Desculpa.

— Não se preocupe — tranquilizou-a, cortando qualquer outro tipo de desculpas.

— Ela ter vindo pra esse dia não faz sentido nenhum. — Aproveitou para mudar de assunto, ajeitando o corpo com as mãos na cintura e olhando ao redor. — Quando viemos para a Espanha da última vez era outono e… oh! — Arregalou os olhos de repente.

— O que foi? — perguntou o galo, dando pequenos saltos para tentar chamar a atenção de Bruna, que agora estava paralisada olhando para o nada.

— Ela quer me atrasar.

— Te atrasar te levando para um dia quente? — O fato de um galo ter tombado a cabeça para o lado em confusão seria engraçado se a garota não estivesse com a mente longe. Seus olhos passavam por toda a extensão da porta do sol com pressa.

— Eu não consigo correr no calor, minha asma ataca sempre que tento fazer isso. Ela está começando a perder distância e precisava de alguma vantagem — respondeu, passando as mãos pelos cabelos em um gesto desesperado. — Droga, Alice!

Girou o corpo em um movimento brusco ao sentir um puxão quase inexistente em seu tornozelo, franzindo o cenho ao tentar ver melhor a silhueta de Alice não muito longe.

Quando se deu conta já tinha começado a correr, o Elo agora em forma de um cachorro vira-lata, que só não a passava na correria porque não queria fazê-lo. Alice já a tinha visto e também começava a correr para longe, mas por algum motivo não estava em sua velocidade normal. Aquilo teria deixado Bruna preocupada se não estivesse tão agoniada com seus pulmões não a querendo ajudar naquele instante.

Acabou se forçando mais do que queria e ainda não estava nem perto de Alice quanto gostaria, sendo obrigada a parar, com as mãos nos joelhos, para recuperar o fôlego que parecia vir aos montes e não vir ao mesmo tempo.

— Oh, parou. — falou o Elo com o que um cachorro podia demonstrar de surpresa, o que fez Bruna levantar a cabeça.

Alice se encontrava parada mais à frente, de costas para Bruna e abraçando o próprio corpo. Aparentava estar tão cansada quanto Bruna se sentia.

Por um longo instante Bruna achou que Alice apenas tiraria mais uma de suas fitas desapareceria dali outra vez, mas, para sua surpresa, a outra garota deu meia volta para olhá-la com seus olhos negros. Bruna franziu as sobrancelhas de leve. Alice tinha olhos castanhos, disso tinha certeza, afinal eram iguais aos seus.

— Al… — tentou chamá-la, buscando o ar que ainda faltava, mas foi obrigada a parar pela voz de Alice.

— Você precisa parar de me seguir — falou, seus dentes afiados demais aparecendo levemente para acompanhar algumas palavras.

Bruna teria notado mais o desespero claro em sua face se não estivesse paralisada ao notar o que estava acontecendo com Alice, ajeitando o corpo e sentindo perder o pouco de ar que tinha conseguido controlar até então.

— Alice! — chamou, dessa vez com mais força e dando um passo para frente, o que só fez Alice dar um para trás. — O que… como… ahn? — balbuciou sem sentido algum, começando a hiperventilar por um motivo completamente diferente.

— Você sabe o que dizem sobre gêmeos, um deles sempre tem que ser o do mal. — Alice deu de ombros ao falar, o movimento fazendo Bruna olhar para seu pulso e ver todo seu braço cheio de fitas. — Nós duas sabíamos que não podia ser você, ninguém queria que fosse você. Tentariam te salvar e só causariam problemas maiores.

Ainda perdida no que estava acontecendo, Bruna voltou o olhar para o rosto que lhe era conhecido e abriu a boca para falar algo. Queria dizer que nada daquilo fazia sentido, que essa coisa de gêmeo do mal era uma ideia muito ridícula e não tinha nada a ver com a realidade, mas assim que as últimas palavras de Alice foram absorvidas tudo terminou de virar de cabeça para baixo.

De repente estava tão nervosa que aparentava estar calma quando abriu a boca para falar.

— Você foi atrás da sua linha do tempo. — Não era uma pergunta e Alice não parecia se sentir culpada pelo fato. — Por que você fez isso? Você sabe que é uma das únicas proibições que fazem sentido! Ver seu próprio futuro nunca tem um final feliz! — Deu mais um passo para frente enquanto aumentava o tom de voz, o Elo virando um pequeno porquinho e se afastando de ambas.

— Eu não fui atrás do meu futuro, Bruna! Eu fui atrás do seu futuro, é só uma pena que ele esteja tão ligado ao meu. — Suas palavras fizeram Bruna parar de andar, os olhos arregalados. Alice soltou um suspiro, rodando os ombros. — Você estava mudando, todo mundo sabe que essas coisas pegam aleatoriamente sua próxima vítima e eu precisava saber se era mesmo verdade.

— O que isso tem a ver com você cortar nossa linha? Nada disso ia impedir que eu virasse uma sombra por mais que você quisesse!

Estava tendo muita dificuldade de abaixar o volume de sua voz, ignorando as pessoas que passavam por perto olhando a situação das duas de forma estranha. Antes que pudesse gritar mais alguma coisa ou que Alice pudesse responder, o Elo arfou, chamando a atenção de ambas.

— Ela fez um acordo! — exclamou o porquinho, correndo na direção de Bruna novamente, se transformando em um ratinho para escalar as pernas da garota e parar em seu ombro. — Ela trocou sua mudança pela dela.

— Na verdade eles não acharam isso o suficiente — soltou Alice, levando sua mão até uma das fitas, pronta para puxá-la.

Bruna disparou adiante sem pensar duas vezes, quase jogando o Elo de volta ao chão em sua pressa. Nenhuma das duas tinha notado que estavam tão próximas até o momento que Bruna tinha a mão direita segurando o pulso de Alice.

— Não, você não vai fugir outra vez! Não importa em que diabos você se transforme e se precisa comer espíritos para viver, nada disso justifica querer separar seu destino do meu!

— Bruna… — chamou o Elo, mas a garota o ignorou, assim como ignorou o olhar estranho e calmo de Alice a sua frente. As pessoas deviam ficar mais assustadas quando eram ameaçadas desse jeito.

— E essa ideia toda de me fazer pisar em pontos fixos, era seu plano maravilhoso de me fazer ser vista por uma das Silentes? Como se elas fossem me parar de ir atrás de você. Onde diabos você conseguiu essa quantidade de fitas?! — continuou, o tom de voz alto e nervoso, sem tirar o olhar dos olhos negros de Alice, por mais que isso a desse um sentimento horrível.

— Bruna. — o Elo voltou a chamar e Bruna continuou o ignorando, assim como Alice.

— Sabe o que acontece quando a linha vermelha do destino de alguém é cortada? — perguntou Alice, sua voz calma contrastando com a raiva de Bruna enquanto usava a mão livre para tirar uma fita verde de dentro do bolso da calça. — As memórias vão junto. — continuou, passando a fita com um movimento rápido ao redor do pulso solto de Bruna, amarrando-a nele. — Só não se esqueça tanto assim de mim.

— Bruna! — gritou o Elo.

O viu pular de seu ombro em direção ao chão no mesmo instante em que se transformava em um touro, com força suficiente para jogar as duas garotas para longe em sentidos opostos. Bruna estava tão em choque com o que acabava de ouvir que só notou que aquilo tinha sido feito para que Alice pudesse sumir outra vez quando ela já não estava mais ali.

Nunca em sua vida pensou que um dia se levantaria do chão toda machucada para encarar um touro no meio da Porta do Sol na Espanha, mas lá estava ela.

— Por que você fez isso? Droga! — reclamou, indo para puxar uma de suas fitas e ir atrás de Alice outra vez.

— A linha sumiu. — As palavras do Elo a fizeram parar em seco. — Não tem como você segui-la mais.

— O quê?!

— Eu te ajudaria enquanto ainda tivesse alguma possibilidade, Bruna. Agora está na hora de voltar para casa — falou com tranquilidade, bufando uma vez.

— Não! Eu não vou voltar pra casa sem ela. — franziu o cenho ao falar a segunda frase, diminuindo a voz ao chegar na última palavra.

Olhou para as fitas em seu pulso, sabia que deveria puxar uma delas e ir a algum lugar, afinal estava com uma das mãos bem próxima delas. Que droga, aquele calor ainda acabaria com sua sanidade. Passou uma das mãos pelos olhos e respirou fundo, fazendo uma careta ao sentir o ar abafado entrando por seu nariz. Deveriam ter começado a cuidar do efeito estufa antes que começasse a ficar desse jeito, tinha certeza que muita gente havia morrido durante essa onda de calor.

— Argh, de quem foi a ideia de vir pra Espanha nessa época? — reclamou para si mesma, levando um susto ao ver um tigre sentado bem à sua frente ao tirar as mãos dos olhos.

— Acho que foi sua — respondeu o tigre que reconheceu como sendo um Elo, para sua surpresa.

Como estava Tecendo com um Elo ao seu lado era uma ótima pergunta para outra hora, já que agora tinha muitas outras em mente, como por exemplo o motivo de estar assando na Europa quando podia voltar logo para casa.

— Eu devo é ter errado o lugar, mas não fico aqui nenhum segundo mais.

Quando foi para puxar sua fita para o futuro, com um destino certo em mente dessa vez, parou por um instante para franzir as sobrancelhas para a fita verde que tinha amarrada no pulso que deveria estar vazio. Bizarro, jurava que a tinha visto em algum lugar, porém estava com muito calor para começar a questionar coisas bizarras.

— Você vem? — perguntou ao Elo, que após lamber uma de suas patas se aproximou de Bruna. — Vou tomar isso como um sim. — deu de ombros, puxando sua fita e sumindo da Espanha.

(...)

— Ah! Já voltou de sua aventura com a Tecedora? — perguntou o velho sentado embaixo de uma árvore grande em um campo aberto.

— Sim — respondeu o Elo, se aconchegando ao lado do velho em sua forma de coelho.

— E como foi? — perguntou, começando a acariciar sua pelagem.

— Uma delas se transformou em sombra, o que foi uma surpresa, e a outra perdeu as memórias, como o esperado. — Moveu as orelhas de coelho pedindo mais carinho.

O velho soltou uma risada, movendo a mão até entre as orelhas do coelho para fazer uma carícia por ali. O Elo não era assim tão melancólico, principalmente quando chegava de viagens fora do mundo onde os espíritos da Lua moravam, então a pergunta que se seguiu não deveria ter sido uma surpresa para ele.

— Preferia que eu não tivesse aceitado o pedido de Alice? — questionou o velho, os olhos saindo do coelho para olhar a imensidão aberta que tinha a frente, esperando uma resposta que demorou algum tempo a vir.

— Me pergunto o que te fez aceitar.

— Hm. — O velho pensou por um instante, levando uma mão até o queixo. — Não me lembro.

Já esperava a reação do Elo, por isso não se assustou quando ele se transformou em um pequeno dragão em um instante e voou até ficar na altura de seu rosto. O viu abrir a boca para reclamar, mas levantou uma mão para impedir que o fizesse.

— Nem sempre preciso de um motivo para ajudar, pequeno Elo. A história delas já tinha um final antes mesmo de eu interferir — explicou, levantando o braço para que o Elo pudesse pousar nele. — Ou você acha que sou o único que pode cortar linhas?

O Elo continuava com uma expressão estranha em seu pequeno rosto de dragão, ao que o velho soltou uma risada e ofereceu para dar-lhe uma das frutas de sua grande árvore como pedido de desculpas.

Apesar de já ter vivido vários séculos, o Elo ainda não havia aprendido que o mundo tinha destinos demais para que todos pudessem ter um final feliz.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!