Teatro De Fantoches
2 Ato 2: Uma carta boa dispensada
"Quem diria que a meu lado
Você iria ficar
Você veio pra ficar
Você que me faz feliz (...)"
Ato 2: Uma carta boa dispensada
Esther ouvira boatos que o Padre Nightroad fora mandado em uma missão, porém ninguém lhe podia dizer a que respeito esta dizia. Era frustrante, ficar presa com aquelas pessoas que lhe olhavam com certa desconfiança. Ela não queria aquele maldito título lhe dado por D’Annuzio, mas prometera para Shera que seria a ‘santa’ que salvaria o mundo de sua própria cegueira. Fechou os olhos e lembrou-se do sorriso de Padre Abel. Acabou mais irritada ainda e com o rosto em um tom inusitado de vermelho.
Estava um dia bonito, poucas nuvens no céu e com clima fresco, bom para passear nos jardins internos da Catedral de István. Fora-lhe solicitado que permanecesse dentro da propriedade até segunda ordem, ela olhou para os portões fortemente vigiados por membros da policia especial que estavam sob as ordens do Irmão Matteo. Duvidava que eles lhe permitissem passagem. Suspirou resignada, queria poder visitar mais vezes o túmulo da Irmã Vitez.
Ao longe um brilho dourado lhe chamara a atenção, eram os cabelos áureos da Cardeal Sforza que assim como ela parecia aproveitar o clima ameno para relaxar um pouco. Certamente que a Duquesa precisava mais deste tempo do que ela, mas alguma coisa espetava Esther para atentar que a Cardeal merecia ficar enfurnada em um escritório.
Recriminou-se no mesmo momento em que pensara aquilo, Caterina Sforza era uma mulher digna, inteligente e preocupada com o futuro. Uma mulher que estava sempre rodeada de pessoas como o Cardeal Borgia e Padre Tres. Respirou entre os dentes lembrando-se mais uma vez do Padre Abel.
- Ela certamente está passando por mais coisas do que eu.
+Trinity-Blood+
Ouvia somente parte do que o Cardeal Borgia lhe dizia e segurava-se para não rir dos passos pesados de Tres há alguns metros as suas costas. Antonio Borgia era um homem escorregadio, tinha a irritante mania de flertar com mulheres bonitas e odiava ser o alvo principal de tipos como ele. Olhou para baixo e encontrou a mão dele em sua cintura enquanto caminhavam para uma mesa posta em baixo de um dos velhos carvalhos. Ao contrário do que sentia quando Tres lhe tocava, Caterina apenas ansiava que Borgia tirasse logo as mãos de si e se afastasse com uma restrição semelhante à de Monica Argento. Suspirou.
Borgia entendera aquele suspiro como qualquer outra coisa e se aproximou deixando um beijo na pele de pêssego do rosto da Duquesa. O gesto causou um revirar no estomago de Caterina e uma leve onda de tosses fez o Padre Tres se aproximar, afastando Antonio Borgia e sustentando o peso do corpo dela contra o seu. Sforza o olhou e sorriu, seu estomago agora parecia ter inúmeras mariposas que batiam suas asas velozmente.
- Obrigada Tres.
- Informe...
- Estou bem... – levou seus dedos a sobrancelha de Tres. — ...agora.
Girou seus olhos e encontrou Borgia e Irmã Esther parados a olhar o desenrolar da cena. Ajeitando seus cabelos Caterina voltou sua caminhada para a mesa já próxima, ignorando os questionamentos de Esther e a tagarelice de Cardeal Borgia. Era por isto que preferia a companhia calada de Tres, o HC-IIIX não tinha a incomoda mania de falar da própria vida.
No meio daquela pequena cena, Antonio Borgia tinha convidado Esther para tomar chá com eles. Não a incomodava o fato da jovem estar presente, na verdade ela agradecia mentalmente a necessidade do Cardeal de querer mostrar-se para a maior quantidade de mulheres que lhe permitisse o momento e que naquele Esther era o seu alvo.
- E os campos de trigo tem o mesmo brilho ao sol que os cabelos de minha querida Caterina.
Sforza ignorou o sorriso reluzente do Cardeal e serviu sua própria xícara com chá de erva-doce. Respirou profundamente e fechou os olhos, já podia ouvir os passos de Tres quando perdeu o controle de suas mãos e derrubou a xícara sobre a mesa.
- CARDEAL! – ouviu o grito estridente de Esther e abriu os olhos irritados para a jovem.
A pequena sentou-se novamente, mas Borgia continuou de pé e tomou as mãos de Sforza dentro das suas e começou a retirar as luvas úmidas do chá derramado.
- Está bem minha querida?
- Deixe-me.
- Caterina, deixe-me ajudar...
- Negativo, as ordens da Duquesa de Milão foram claras, deixe-a. – Tres enfiou-se entre os dois Cardeais. – Relatório de danos...
- Apenas um ligeiro mal estar Tres não há necessidade de preocupações.
- Esther Blanchett e Padre Ics Tres, retirem-se imediatamente, preciso ter uma conversa particular com a Cardeal Sforza.
Esther afastou a cadeira e levantou-se para se retirar quando Tres estendeu sua mão para frente impedindo que Borgia se aproximasse mais de Caterina.
- Ordens referidas não computam. Analisando os níveis de estresse de Cardeal Borgia, níveis instáveis ativar para o modo defesa, procede Duquesa de Milão?
- Não. – a voz de Caterina fez Tres virar-se. – Deixe-me um pouco a sós com o Cardeal Borgia Tres.
- Minhas ordens são...
- Tres, afaste-se 30 metros de mim. – ela evitou olhar nos olhos do construto. – Dê-me cinco minutos com o Antonio...
O Gunslinger curvou-se em obediência para a Cardeal e tomando o braço de Esther em sua mão se afastou mecanicamente até o local ordenado, uma vez lá, ele cruzou seus braços e de olhos fechados permaneceu enquanto seu sistema contava o tempo.
- O que quer comigo Cardeal Borgia?
- Sente-se melhor meu coração? – ele sorriu e tomou a mão dela. – Estou realmente preocupado com sua saúde e...
- Seja direto, por favor. – pediu retirando sua mão das dele.
Borgia socou a mesa o que fez Caterina levantar levemente a sobrancelha, ela nunca o tinha visto irritado, mas ela mesma nunca se irritava perante aos outros, era a ética dos Cardeais, sempre humildes e mansos de coração.
- Qual o seu problema Caterina?
- Refere-se a minha saúde? — franziu o cenho. – Eu nunca escondi a minha condição de ninguém e...
- Ele é uma máquina! Um monte de lata! – Borgia segurou-a pelos ombros. – Não tem sangue correndo em suas veias, não tem nenhum sentimento para oferecer, ele faz o que se espera dele é somente um amontoado de programas.
Ela o olhava curiosa, o rosto dele expressava dor. Os olhos verdes fixos nos seus.
- És uma mulher bonita Caterina, os homens lutam entre si por um pingo de sua atenção. Nunca deu nenhuma chance a algum deles.
- Cardeal Borgia... Antonio, eu estou ocupada demais com meu trabalho...
- Está apaixonada por ele.
- E no que isto o incomoda?
- Não se dá nem o trabalho de desmentir. – acariciou-lhe a face. – Diga-me quando ele terá a iniciativa de tocar-lhe por própria vontade? É triste ver a mulher mais bela que se tem conhecimento definhar em um sentimento de única via. Não espere nada dele Caterina, máquinas não podem amar.
- Antonio...
Ele curvou-se sobre ela, aproximando seus lábios da orelha dela segurando entre os dedos o brinco de ouro, acariciou com a ponta de seu nariz o rosto dela e levemente beijou-lhe os lábios, foi segundos apenas e quando a olhou seu coração sangrou, ela tinha os olhos fechados e o belo rosto contorcido em algo como sendo asco.
- Pense um pouco Caterina, é triste saber que nunca conhecerá um homem de verdade. – ele se afastou. – Agora vá, volte para ele sei que está contando os segundos.
Caterina levantou-se e olhou ao seu redor, não havia ninguém nos arredores, ninguém que tivesse presenciado aquela cena. Melhor assim. Ser-lhe-ia de grande transtorno explicar o que Cardeal Borgia fazia consigo. Revirou os olhos e seguiu em direção ao HC-IIIX.
- Tres?
Ele abriu os olhos castanhos e a encarou, ela estava séria, como naquele dia 46,725 horas, cinco anos atrás quando o escolheu para ser sua propriedade. Seus lábios vermelhos tremeram. Vermelho. E sentiu a necessidade de tê-la entre os braços, mas ela passou a passos firmes por si, obrigando-o a segui-la. As palavras de Argento destacavam-se nos seus chips de memória. “Você tem que ser mais que um robozinho para conseguir alguma coisa meu caro Tres.” “Apenas arma...” “A raposa loira não se interessaria...”
Bloqueou a memória do riso agourento da Black Widow quando ouviu seu nome ser chamado na voz leve da Duquesa, ela já havia deixado o chapéu sobre a mesa e a capa vermelha sobre uma das cadeiras, estava olhando-o de perto e ele podia ouvir claramente as batidas do coração dela.
- Tres eu... – a voz de Borgia ainda ecoava em sua mente ‘um monte de lata... nenhum sentimento...’ Retirou o monóculo e apoiou sua cabeça no peito de três, sentindo o metal frio da cruz em sua testa.
- Algum dano sofrido Duquesa?
- O que eu sou para você Tres?
Olhou para baixo e viu os cabelos loiros, tão reluzentes como um dia ameno de verão. Exalavam um cheiro bom de flores e sândalo. Apoiou a mão sobre os fios dourados acariciando levemente. A pergunta feita na voz doce da Duquesa ainda pairava no ar, ela ergueu os olhos azuis, aquosos.
Caterina estava em um momento frágil, sua saúde estava mais debilitada, mesmo ela fingindo que estava bem. E aqueles sentimentos que Borgia expusera tão deliberadamente corroíam como ácido suas veias. Ela não podia mais brincar de atuar, perdera o dom de boa atriz perto de Tres. O olhou, segurava as lágrimas dentro de seus olhos. Ah, como desejava que Tres pudesse simplesmente ser um homem. Pedira-o uma vez para que vivesse como humano, mas ele negara-se era afinal apenas uma máquina.
- Vossa eminência é a mão que guia esta arma.
Afastou o rosto, não queria ouvir aquilo, tinha medo daquela sentença. Apertou os lábios, não podia chorar, desde menina prometera que seria forte para proteger seu irmão.
- Mas, sou também teu. – Caterina o olhou. – Todas as peças que compõem o meu ser pertencem a você Duquesa de Milão. És para mim, portanto, o que quiseres ser.
Mordeu o lábio e segundos depois sorriu o melhor que podia, tocando os cabelos da unidade HC-IIIX. O que ela esperava ouvir dele, estava sendo infantil querendo coisas que não podia ter.
+Trinity-Blood+
Fechou a porta e encontrou Tres parado a lhe esperar, soltou o ar dos pulmões e enquanto caminhava de volta para seu escritório ela dava ordens ao Gunslinger que contatasse a Irmã Esther.
- Ordene também que preparem minha bagagem voltarei para Roma ainda esta tarde.
A porta da Cardeal Sforza estava aberta, então Esther enfiou a cabeça enquanto dava leves batidas anunciando sua presença. A mulher virou-se e indicou um dos assentos e tomou também um para si.
- Vamos sem rodeios, Cardeal Médici pediu-me a autorização para enviar-lhe a Londinium onde haverá uma comemoração em homenagem a Rainha Brigitte II. A presença da Santa de István é de suma importância para... Bem este assunto não compete a senhorita. – Caterina cruzou seus dedos e apoiou seu queixo sobre ele. – Prepare-se, dentro de dois dias embarcará para Albion.
- Desculpe-me, mas e vossa eminência?
- Receio que a minha presença em Albion complique as coisas para o Vaticano.
- E vai ficar aqui sozinha? – Esther a olhou diretamente nos olhos. – Digo, estão todos em missões importantes e vossa eminência...
- Ics Tres continuará comigo até segunda ordem, estarei embarcando hoje de volta à Roma se tiver alguma pergunta gostaria que fizesse agora.
- Não senhora.
- Pois bem, dispensada Irmã Esther, Boa viagem e Boa sorte em Albion. – Levantou-se para que a irmã se curvasse perante a si. – Feche a porta para mim sim? E se encontrar Tres no caminho diga-o que preciso falar com ele.
Esther ainda lhe sorriu antes de fechar a porta deixando-a sozinha, desta vez realmente sozinha. Sentou-se novamente e afundou seus dedos nos cabelos loiros.
- Perdoe-me Abel, mas neste jogo eu tenho de descartar algumas das cartas que tenho em mãos.
Levou sua mão ao rosto e removeu o monóculo, curvando-se e o depositando sobre a mesa próxima. Jogou então seus cachos para trás, apoiando a cabeça no recosto da cadeira a encarar o teto. Fechou os olhos recriminando as medidas que era obrigada a tomar. Detestava ter que abdicar da vida de um semelhante, mas as coisas se complicavam a cada passo e estava tão perdida em seus próprios problemas que temia tomar decisões erradas.
+Trinity-Blood+
Respirou aliviada o ar ameno que circundava a cidade do Vaticano, permitiu Tres tomar sua mão para ajudá-la a descer do automóvel. Era bom retornar ao lugar ao qual pertencia. Ali ela tinha a influencia que preferia, que era melhor para tratar seus negócios. Agradeceu e sorriu todos os cumprimentos durante o caminho até seus aposentos. Precisava descansar tanto seu corpo quanto sua mente. O embate psicológico era eminente e se aproximava a absurda velocidade.
Ouvira de Kate o relatório sobre Abel, ele estava tão perto de pegar o culpado quanto ela própria.
- Diga-o para deixar as brincadeira de lado e se concentrar na missão, e acrescente que lhe foi cortada as verbas.
E era somente assim que Abel de fato trabalhava, no aperto, quando ela se irritava e lhe privava dos confortos que oferecia-o. E ao pensar nele seu coração afundou no peito. Havia permitido Esther enfiar-se em um covil e desta vez quando ele finalmente descobrisse não seria uma palavra de Tres que tiraria dele a desconfiança.
- Eu sou o pior tipo...
- Duquesa?
Virou-se rápido e encontrou Tres, parado a porta olhando com aqueles olhos examinadores e tristes. Se aproximou e sem nenhuma explicação a abraçou forte contra seu peito de aço.
- És a melhor Duquesa, jamais duvide disso.
Abaixou a cabeça e mordeu o lábio inferior, como poderia explicar para Tres o que passava em seus olhos, qual desculpa podia dar para seus leves tremores. Era uma boba diplomata, apaixonada por um brinquedo de aço.
“Sou mesmo a pior.”
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