Tears of blood
41 Twilight

Seu corpo havia sido envolvido por rosas, vestido com o mais belo dos vestidos e perfumado, assim como ele havia pedido que o fizessem. Ele não havia dito a ninguém que finalmente se despediria, tinha optado por ser mais uma vez egoísta, guardando-a apenas para si. Sozinho, levou seu corpo para o meio da floresta e sozinho cavou sua cova. Colocou-a delicadamente na terra e antes que a cobrisse, se deitou ao seu lado, seus olhos fechados enquanto se despedia por uma última vez. Ele podia se sentir partir em pedaços ainda menores, podia se sentir desfazer em dor. Ele jamais tornaria a ver o seu rosto, ele jamais tornaria a senti-la, ele havia a perdido, não havia sido capaz de protegê-la e jamais se perdoaria. Antes de fechar seus olhos, olhou para ela em meio à escuridão e pode ver o brilho da corrente que agora repousava em seu pescoço. Uma fina corrente prateada com um enorme pingente de diamante no formato de uma grande lágrima, o mesmo que havia pertencido a sua mãe, a única que ele havia amado além dela. Aquela era peça que ele sempre desejou que a pertencesse,mas desde que ela havia se tornado vampira, seus planos haviam mudado e ele nunca tivera a oportunidade... E então a morte os separou.
Estava tão desatento a aquilo que o cercava que mal havia notado os ventos mudarem. Não sentiu a terra se remexer ou muito menos percebeu que até as árvores pareciam ter despertado. Permaneceu deitado em silêncio enquanto ela o observava mesmo que ele não pudesse a ver, como se ela pudesse sentir sua dor e ela se culpava por ter de o fazer passar por isso. Sentiu seu espírito em chamas e então foi puxada com força contra a terra. Se desesperou sem compreender o que acontecia e quando abriu os olhos, percebeu que não conseguia respirar. Demorou alguns segundos até que notasse que estava presa a uma caixa de vidro. Bateu freneticamente contra a tampa, mas suas mãos enfraquecidas não pareciam ser capazes de a libertar. Sentiu suas forças partirem novamente, não importava o quanto gritasse para que a tirassem dali, ninguém parecia estar por perto. O vidro se rompeu em milhares de pedaços não a cortando por pouco. Ela foi puxada com rapidez e em segundos estava sentada na superfície, envolvida por braços fortes que a apertavam cada vez mais.
A apertavam porque não conseguiam acreditar que ela estava ali, que ela havia retornado para ele. Suas mãos seguravam seu rosto com cuidado e os enormes olhos castanhos dela o observavam cheios de medo. Ela parecia atônita à realidade e se agarrava da maneira que podia ao seu peito. Não se conteve e a beijou. Ele podia ouvir as batidas de seu coração e aprofundou ainda mais o beijo quando sentiu seu calor humano, quando sentiu seu sangue correr quente por entre os seus lábios, adocicando ainda mais o seu sabor. Ele mal havia notado que a segurava ferozmente, apenas quando a soltou empurrando-a para longe pode perceber o quanto estava com sede. A dias ele não provava uma sequer gota de sangue e ali estava ela, segurando seus lábios ensanguentados entre os pequenos dedos, cada vez mais frágil. Ela não era mais uma vampira e seu sangue havia tornado novamente a ser como uma droga para ele, a mais atraente de todas as drogas, o tornando novamente perigoso para ela.
– Você está bem ? — ela perguntou confusa enquanto passava a língua no corte em seus lábios tentando conter o sangramento.
– Eu a machuquei e é você quem pergunta se estou bem — Ele riu ironicamente, claramente enfurecido consigo mesmo.
– Eu o machuquei primeiro — Ela disse em um sussurro. O arrependimento em seus olhos o tocava profundamente.
– Como isso pode ser possível...? — Ele a observava, tentando compreender o que acabou de acontecer. A observava com profunda admiração, como se ela fosse a coisa mais bela que ele já havia visto
– Eu não sei exatamente... — Ela parecia de fato perdida e assustada, como se mal conseguisse assimilar aonde estava. — Me lembro de morrer... — Sussurrou.
– Ssshhi... Não precisa se lembrar — ele tornou a se aproximar e a segurar seu rosto entre as suas mãos, desta vez com um cuidado maior. Ela sorriu para ele com os olhos cheios de lágrimas e colou seus lábios nos dele. Ela não fazia ideia do quanto seu beijo era doloroso para ele.
Ele a colocou em seus braços e a carregou até que enfim chegassem ao seu quarto. Preparou algumas roupas e esperou até que ela tomasse um banho retornasse para ele. Ele não fazia ideia de como controlaria sua sede por ela, ele não fazia ideia de como poderia ser cuidadoso quando tanto a desejava e ele não fazia ideia de como poderia viver quando um dia ela de fato tivesse que partir. A ideia de a assistir envelhecer o agoniava, mas ele não tornaria a castigá-la com aquela maldição, ele não a veria ter que machucar pessoas, não, Emma não suportaria uma eternidade machucando pessoas e ele não faria isso, mesmo que isso significasse que não possuíssem mais a eternidade para se amarem. Ele não podia continuar sendo egoísta, pelo menos não com ela, não quando havia experimentado a dor de a perder. Ele nunca mais a perderia novamente. Com os cabelos molhados e os olhos brilhando em um castanho quase dourado, ela se aproximou e se jogou sobre a cama. Mordeu os lábios contendo um gemido e então ele pode notar que ela estava com dor.
– O que foi ? Sente alguma coisa ? — perguntou preocupado.
– Minhas costas doem... — Ela abriu um meio sorriso — Nada que eu não possa suportar.
– Acho que alguém deveria dar uma olhada nisso... — Ele se lembrava do quão forte ele havia apertado o seu corpo, ele não desejava a ver sentir dor.
– Não se preocupe... — Ela revirou os olhos e se deitou em seu peito.
– Desculpe-me por...- Ele começou, mas ela conteve seus lábios com o dedo indicador.
– Eu sei que... Eu vi em seus olhos. — Seu coração se apertou, mesmo que ele não percebesse. Ela sentia falta de seu dom, sentia falta de se sentir cheia por ele, mas não reclamaria.
Naquela noite ela havia tentado aprofundar os beijos, acariciá-lo, mas ele havia a afastado todas as suas tentativas até que ela desistisse e adormecesse. Ele não se lembrava mais como se segurar junto a ela, não quando havia experimentado tudo dela. Ele não poderia a machucar e apenas um simples toque seu era o suficiente para despertar o mais adormecido de seus instintos. Ele não poderia perder o controle. Ela podia sentir que ele a rejeitava e isso a frustrava ainda mais, porém não a irritava tanto quanto a maneira que ele a tratava, como se ela fosse se partir em um milhão de pedaços, por isso adormeceu emburrada, de costas para ele enquanto o assistia se divertir de seus modos. Nem mesmo ela compreendia o porquê de estar agindo como uma criancinha mimada, ela só o queria... O queria demais para que pudesse se controlar. Ela havia adormecido, mas seu corpo estava tão inquieto que acordou ao meio da noite. Ela ainda estava deitada sobre ele, ele havia permanecido junto a ela na penumbra mesmo que não pudesse dormir. Ela acariciou seu peito que agora estava despido e pode o sentir suspirar. Traçou com a ponta de seus dedos o contorno de seus músculos definidos e pode sentir ele reagir ao seu toque. Ela levantou sua cabeça com um sorriso levado nos lábios e o beijou, de uma maneira que ele não poderia resistir. Suas mãos a apertaram contra si e em segundos tudo estava perdido, fazendo com que se entregassem à paixão que ambos sentiam e que parecia arder cada vez mais.
Na manhã seguinte ela sentia que havia sido amada por um anjo. Se lembrava perfeitamente de tudo o que havia acontecido e apenas por lembrar podia sentir seu corpo queimar novamente... Seu corpo... Sentia tanto desejo que doía. Dor, foi então que notou que realmente se sentia dolorida. Ela sabia que era humana, ficou claro assim que abriu seus olhos e não foi privilegiada com a visão aguçada, ela sabia que se machucaria de hoje em diante, mas não se importava, não quando tinha ele em seus braços. Esfregou os olhos, a muito ela não sabia o que era dormir, então era estranho. Olhou para frente e pode notar que ele a observava. Seus músculos e seus cabelos dourados refletidos pela luz do sol que vazava da janela como um verdadeiro deus nórdico, seus olhos vermelhos brilhando intensamente cheios de... Dor ? Foi então que ela pode ver o próprio corpo. Não lhe surpreendia que estivesse dolorido, afinal estava cheio de machucados. Não apenas hematomas, mas arranhões profundos que poderiam ter sido causados por faca. Tampou-se com o lençol preto de cetim e se encolheu sob seus olhos.
– Eu nunca mais a tocarei... — Sua voz saiu rouca e cheia de angústia. Ela se levantou ferozmente, protestando contra o que ele dizia.
– Estou viva — disse — Mal sinto dor — mentiu. Doía, mas a possibilidade de jamais ser tocada por ele novamente um dia, doía mais ainda.
– E eu pretendo me certificar que continue dessa maneira — Ele retrucou.
– Você jamais me machucaria.
– As marcas no seu corpo provam o contrário. — Ele deu as costas a ela e deixou o quarto. Ele já havia se decidido.
Ela bufou. O que ele pensava ? Que ela tinha a eternidade ? E foi quando lhe ocorreu. Ela não tinha mais a eternidade, ela envelheceria e morreria um dia... Ou até nem sequer chegaria a envelhecer. Ela era frágil agora e não poderia nem mais se proteger sozinha. Vestiu-se sentindo-se ainda mais pesada. Nem mais as roupas que antes lhe caíam tão bem pareciam aprovar seu corpo humano. Olhar-se no espelho e se sentir um patinho feio deslocado. Ela jamais pensou que isso aconteceria com ela. Jogou-se sobre a cama, ela nem sequer poderia deixar o quarto, eles sentiriam seu cheiro de sangue de longe, ela não era mais um deles e aquele não era o seu lugar. Só então pode perceber que algo pendia em seu pescoço. Puxou a corrente e observou com admiração o pingente que se parecia com uma lágrima. Ironicamente, parecia ter sido feito para ela. Ela sorriu sabendo que ele havia a presenteado e percebeu que ela era egoísta demais para o deixar. Não, ela não podia o deixar de novo, mas ele não a transformaria, não quando ele a preferia a ver morta do que como uma vampira, do que como alguém como ele.
Foi para o único lugar onde sabia que não seria expulsa agora que ele estava ocupado. Sem Aro e com Marcus prestes a deixar o clã, Caius estava tomando conta de tudo e não poderia a ver agora por mais que ele desejava, mas ele esperava que ela se mantivesse segura em seu quarto, o que ela não fez. Mesmo sabendo que poderia ser perigoso, se esgueirou pelos corredores até que encontrasse a "cozinha". Theo estava de costas, mas assim que ouviu seu coração bater, se virou rapidamente não acreditando no que via. Ele não a via desde o festival, ela não havia o procurado e ele não tinha permissão para chegar até ela, apenas ouviu os rumores de que ela havia morrido e sentiu profundamente por não poder ter se despedido. Mas ali estava ela, com o coração batendo e os olhos castanhos, desafiando as possibilidades, assim como ele imaginou que ela seria capaz de fazer. Ele a abraçou e foi invadido por seu perfume de rosas e o doce aroma de seu sangue que corria quente por suas veias.
– Eu não posso acreditar... Como... ? — Ele estava sem palavras, assim como qualquer um ficaria.
– Eu tive uma ajuda da sua deusa... — Ela revirou os olhos se recordando do que ele havia feito a ela. — Nunca tive a chance de perguntar o porquê...
– Ela apareceu para mim, dando-me a oportunidade de destruir Aro e eu não pude dizer não. Assistia o que ele fazia por séculos, não poderia permitir que continuasse. — Ele se desculpava.
– Como aquilo poderia ajudar a deusa ? — Perguntou, cruzando os braços.
– Quando meu sangue foi usado na noite da lua vermelha, meu poder se ampliou. Consegui o intimidar naquela noite e consegui levantar uma multidão de almas... — disse a deusa, se materializando atrás deles, sentada sobre o balcão. — Eu posso ser incrível, mas ainda não posso fazer tudo... — Ela suspirou.
– Senhora — Theo fez uma perfeita reverência que apenas inflou o ego da mãe dos vampiros.
– Bom filho... — Ela suspirou. — Como eu queria que os outros fossem como você... — Ela sorriu quando eles puderam ouvir grunhidos e gemidos como se estivessem cercados por animais. Theo passou a mão na cintura de Emma e a prendeu contra si, os tirando rapidamente dali. Quando alcançaram o salão principal, ela ofegava surpresa com sua velocidade e se prendia ainda mais a ele, sem compreender o que acontecia,
– Me esqueci por um segundo que você é humana... — Ele disse a olhando nos olhos, porém ela continuou confusa. — Aqueles vampiros não sentem o cheiro de sangue na veia a séculos, mais um segundo e... Você estaria em perigo.
– Obrigada. — Ela disse envergonhada. Ela sabia que já deveria esperar por isso. Balançou a cabeça e então se deu conta de onde se encontravam. Se separou de Theo e pode notar que Caius os observava, com os olhos presos em Theo como se pudessem o matar.
– Senhor — Fazendo novamente uma reverência, Theo os deixou e ela se viu sozinha diante a ele.
– Aparentemente eu estou prestes a virar a refeição... — Ela sorriu constrangida, odiando ter se tornado tão frágil. Ele se colocou de pé diante a ela, seus olhos em fúria, porém ela ignorou a sua ira e apenas o abraçou.
– Me transforme... — Ela sussurrou e seu silêncio deixou claro a sua resposta. Ela se colocou na ponta dos pés e colocou seus lábios nos dele, porém ele não a envolveu em seus braços e nem retribuiu o seu beijo. Ela se sentiu profundamente amargurada e machucada. Ela sorriu enquanto uma lágrima escorria por seu rosto e o deixou.
Ela não podia ficar ali, mesmo que voltasse depois, agora ela não podia estar ali. Caminhou pela floresta, sentindo suas pernas extremamente lentas e desajeitadas. Tudo nela parecia ter sido diminuído, tanto que ela já nem mais via graça em nada. Ela jamais pensou que fosse sentir falta de ser vampira, mas a liberdade e independência que aquilo representava, a faziam apreciar o tempo que ela passou como uma. A sede por sangue era uma infelicidade, mas a possibilidade de viver com quem se ama para sempre, correr tão rápido que quase se pode voar e literalmente voar... Superavam as consequências. Quando notou que as sombras que a cercavam se mexiam e pareciam vir em sua direção, ela se contraiu. Era noite de lua cheia e ela sabia o que a aguardava na penumbra. Por mais que não fosse mais uma vampira, ela ainda havia matado lobos e isso para seu povo era punível com a morte. Pode sentir as feras avançando, como se reconhecessem seu cheiro, vindo com sede ao seu encontro sem se importar se ela era vampira ou humana. Apertou a lágrima em seu pescoço com força e fechou os olhos, novamente aguardando por um ataque de lobos e desejou que tivesse dado a Caius muito mais do que um beijo regado a lagrimas.
Ela não esperava que tudo terminasse daquela maneira, ela não queria que tudo acabasse, não quando ela ainda não havia lutado o suficiente por ele. Apertou com força o pingente sentindo seus olhos se encherem, pela primeira vez temendo a morte que ela já havia experimentado. Pode os ouvir avançar para ela, suas patas amassando a terra, seus grunhidos e rosnados cortando o ar e o tempo parecendo desacelerar contra a sua pele. Uma lágrima deixou seus olhos e tocou o pingente. Uma leve neblina surgiu dentro da joia e aos poucos ele ganhou uma coloração avermelhada, como um rubi. Suas mãos tremeram e passaram a formigar, ela as apertou confusa mas isso apenas iniciou uma forte queimação que em breve tomou seus braços e se alastrou por todo o seu corpo. Seus olhos castanhos se abriram e as veias de seu pescoço saltaram em um grito de dor e então, aos poucos, sua humanidade foi consumida pelo veneno e seus olhos novamente se tornaram carmesim. Ela ainda segurava o pingente em mãos e uma explosão de força que parecia vir dela, lançou os lobos para longe e ela então pode sentir seu poder tornar a fluir em suas veias. Ela não tinha tempo para assimilar o que acontecia, para compreender o que aquilo significava, então apenas correu, sentindo-se novamente abençoada pela imortalidade.
"Apenas mais um presente" A deusa sussurrou dentro de sua cabeça e ela sorriu.
Ela cruzou a floresta em segundos e quando se viu diante a ele, cravou seus olhos nos dele. Pode ver dentro a insegurança se transformar em surpresa e o seu medo se tornar... Felicidade ? Pode ver tudo aquilo que sua frieza escondia, inclusive o ciúmes brutal que ele sentiu quando viu outro homem a tocar e ela então sorriu enquanto passava por ele e subia as escadas. Ela seria eternamente grata à deusa por poder se sentir completa novamente. Ele não pode acreditar quando encarou os olhos carmesim em seu rosto, ele não queria aquilo para ela, mas não podia negar o quanto aquilo o deixava feliz. Ele agora poderia a amar sem desejar o seu sangue, ele agora a teria por uma eternidade... Ele agora poderia tocá-la. Foi ao seu encontro e pode a encontrar de costas, com os olhos fechados, como se apreciasse todas as sensações que a cercavam. Ele se aproximou vagarosamente e correu uma de suas mãos por sua pele despida de seu ombro, depositou seus lábios em uma de suas orelhas e suspirou, sentindo o corpo dela reagir. Ele já não era mais tão frio, era quente e o seu toque, apenas a ponta de seus dedos a faziam queimar.
– O que você fez ? — Ele perguntou enquanto segurava o pingente em suas mãos, o mesmo que ele havia dado a ela e que agora possuía uma tonalidade vermelho sangue.
– Foi um presente... — Ela disse, sem detalhes, sabendo que ele poderia surtar com a ameaça de lobos.
– Nunca mais permita que outro homem a toque — Ele disse com a voz enrouquecida enquanto beijava delicadamente a pele despida de seu ombro.
– Nenhum homem jamais poderia me tocar como você. — Retrucou se virando e tomando a sua boca, sentindo seu instinto a dominar por completo.
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