Team Reset
29 Duelo entre Irmãos: Shishi vs Hanako!
Ao tentar resolver um problema que julgaram ser somente delas, Miu e Narumi descobriram que o Governo Mundial estava manipulando muito mais pessoas... Uma delas era Shin, um amigo íntimo de Narumi. Antes disso, as duas haviam tentado protegê-lo de eventuais perigos, sem nem mesmo saber o que acontecia por trás dos panos. Buscaram ao máximo impedir que Shishi e J descobrissem seus planos. Elas acabaram encontrando Takasugi na mansão de seu amigo. Avistaram Kaya e Akayuri dentro da casa, o que as fez recuar. O vilão percebeu que elas estavam ali e encurralou Miu e Narumi, que terminaram por derrotá-lo ao unir seus poderes. Machucado e até um pouco surpreso, ele recuou e invocou uma de suas criaturas híbridas para poder atacá-las. Com a ajuda do Veterano, que chegou a tempo de poder derrotar a criatura, e também de revelar o que Takasugi estava fazendo com a amiga delas.
Após isso tudo, um grande holograma surgiu nos céus de todo o Japão. O vilão já havia se recuperado de seus ferimentos, o que surpreendeu bastante a todos. Mas o que de fato chocou a todos foi o discurso que ele fez. Praticamente, ele quis dizer que qualquer um que não se aliasse a ele, seria exterminado junto com Shishi. Em resumo, aquilo foi o anuncio de uma nova guerra, e o Veterano era o alvo principal. Era visível a raiva no olhar dele, tanto que ele acabou destruindo o tal holograma... E em seguida, algo caiu em suas mãos. Era uma carta o desafiando para um duelo, e quem o convidou para isso foi Hanako.
Três dias após o recebimento da carta, Shishi se trancou dentro do laboratório, nem mesmo chegou a ver as duas garotas para conversar com elas, e isso as preocupava bastante. Pensavam que a ideia dele duelar com a pessoa mais importante de sua vida pudesse estar pesando várias toneladas em sua mente. Mas, suas vidas agora estavam quase um caos, já que muitos de seus colegas de classe vinham perguntar o que elas sabiam sobre a identidade de Shishi, sobre o que estava acontecendo de verdade. E o pior de tudo, ouviam comentários de pessoas que estavam pensando em se aliar a Takasugi para que se mantivessem vivos, e também de pessoas que estavam decididas a se juntar ao veterano e impedir qualquer tentativa do vilão de acabar com as pessoas. A partir dali, o mundo estava dividido em Rebeldes – Aqueles que iam contra Takasugi e o Governo Mundial – E também em Aliados – Os que resolveram passar para o lado inimigo.
Cansadas daquelas conversas, Narumi e Miu decidiram ir até o laboratório e conversar com seu Senpai. Precisaram se desvencilhar de tantas outras perguntas e de pessoas que queriam saber a quem elas iriam se aliar. Claro, precisavam fingir que não tinham conhecimento de nada daquilo. Mas internamente, tinham a absoluta certeza de que ficariam do lado de Shishi e o ajudariam a superar todos os futuros obstáculos.
Então, após andar um pouco, mas se mostrando bem irritadas com aquele tanto de perguntas, as duas trancaram a porta da Diretoria e abriram a entrada secreta. Lá encontraram Shishi sentado em uma cadeira, olhando para alguns papéis que estavam postos sobre a mesa. A expressão dele demonstrava cansaço, como se ele tivesse analisado aquilo por três dias sem dormir. O rapaz se levantou, sua voz estava séria. – Finalmente chegaram... Eu preciso conversar com vocês.
Apontou para duas cadeiras que estavam vagas. Aparentemente J não estava por ali, o que indicava que ele deveria estar fazendo algo para Shishi. As garotas se sentaram e observaram os papéis. Neles continham fotos de todos os membros da Antiga Geração do Team Reset.
– Imagino que vocês devem saber o que está acontecendo depois daquilo que o Takasugi falou. – Tocava calmamente a mesa com a ponta de seus dedos enquanto aguardava pela resposta de suas alunas. Embora tivesse a certeza de que elas já teriam notado a confusão que estava o Japão estava após aquele discurso.
– Uhum... Muitos amigos nossos vieram perguntar se nós sabíamos que você era o Herói. E alguns deles queriam saber se nós iríamos nos juntar ao Takasugi. – Miu falou bem baixinho. A ideia de que muito de seus colegas de classe se tornassem seus inimigos não era muito boa. Parecia que seu corpo estava pesando uma tonelada. A partir do momento que seus amigos se juntassem a ele, seriam considerados inimigos. Narumi permanecia calada, ainda que ela tivesse o mesmo pensamento que a amiga. Não gostaria de ter que machucar algum rosto conhecido. Pela primeira vez, ambas sentiam realmente como Shishi estava se sentindo ao ter de lutar contra seus antigos amigos e também contra a única pessoa que tinha como família.
– É. Eu já esperava por essa reação. As pessoas costumam buscar os caminhos mais fáceis quando estão encurraladas. – Ele fez uma pausa, voltou o olhar para os papéis e então se levantou. – Enfim. Não chamei vocês para conversar disso. Serei direto... Primeiro, vou falar sobre cada um dos meus antigos companheiros e suas principais habilidades. Com certeza, eles serão nossos maiores inimigos por enquanto. – O rapaz começou a andar pela sala, olhou pela janela que dava para o pátio da escola e começou a falar.
– Primeiro... Hanabi Akayuri. Ela vem de uma família que segue rigidamente as tradições Japonesas. Ela é capaz de criar fogo de qualquer superfície desde que haja luz do sol nesse ambiente. O Segundo nível de sua habilidade faz com que os braços dela se tornem fogo puro, podendo ser liberado da maneira como ela bem entender. Para ela, acho que a Narumi-chan seria uma boa oponente. Tenha em mente que você pode utilizar suas trevas para bloquear qualquer tipo de luz natural e diminuir o poder das chamas dela. – Ele fez um movimento com as mãos e o relatório que continha Akayuri voltou para as mãos dele. Shishi o colocou em cima de outra mesa e prosseguiu com as explicações.
– A próxima é Akimoto Kaya. Os pais dela são donos de uma Multinacional Japonesa, provavelmente vocês já devem ter ouvido falar dela. Ela tem a capacidade de se camuflar em qualquer ambiente, e utiliza um chicote para prender ou atingir seus oponentes. Com o segundo nível das habilidades, ela é capaz de atirar golpes de ar comprimido que possuem grande potencial ofensivo. Acredito que ela seja uma oponente perfeita para a Miu-chan, já que ela pode usar sua névoa fria para congelar o ambiente e detectar qualquer tipo de movimento vindo dela.
– O próximo é Rokushiki Kai. Sabemos muito pouco sobre ele, já que ele nunca quis revelar muito sobre sua vida fora de Shirahoshi. Seu poder físico é muito mais forte que o de qualquer um de nós, e ele consegue se mover a velocidades impressionantes. Provavelmente, vocês duas conseguiriam derrotá-lo com um belo trabalho em dupla.
O rapaz voltou a andar pela sala, indo até perto das cadeiras em que elas estavam sentadas. Colocou a mão sobre um dos ombros dela. Havia uma aura meio sombria nele, como se ele nunca tivesse ficado tão decidido antes. – E quanto a Suzuko Miki, Suzuko Rin... E Akamatsu Hanako. – Puderam sentir a voz dele ficando diferente ao proferir o nome da irmã. Era quase como se uma mistura de sentimentos tivesse tomado conta dele, e isso ficava bem claro. Por fim, ele continuou com a “explicação”. – Essas três estão fora de questão pra vocês. Mesmo com um grande treinamento, não consigo ver nenhuma maneira de vocês derrotarem alguma delas. Eu as enfrentarei sozinho. Não questionem, não falem nada... E principalmente, não ousem atrapalhar. Não irei me responsabilizar pelos incidentes que podem ocorrer durante uma batalha. Fui claro? – A voz dela realmente indicava que não era brincadeira. A coisa podia ficar ruim caso elas se envolvessem no meio de uma dessas lutas. Shishi notou um pequeno gesto de concordância vindo delas. – E o ultimo aviso... Amanhã eu vou enfrentar a minha irmã no Duelo. Espero que vocês não me sigam.
Após dar o ultimo aviso ele se retirou da sala, batendo a porta de maneira bem sonora, para enfatizar ainda mais como ele ficaria caso suas ordens fossem questionadas. Elas se entreolharam, por conhecerem-se o suficiente para saber que desobedeceriam as ordens dele. Nunca deixariam que ele fosse enfrentar a própria irmã e ainda mais sozinho. Elas o seguiriam até o inferno se fosse preciso, e não o deixariam carregar um peso como aquele sozinho. Foi isso que lhes foi dito, e elas decidiram que aquilo era algo mútuo. Ele já deu a vida para salvá-las inúmeras vezes, não seria agora num momento de tamanha importância que elas pensariam em fugir com o rabo entre as pernas só por conta daquela ameaça. Até porque, ele nunca faria nada para machucá-las, a não ser em algum tipo de treinamento.
As horas foram se passando lentamente, Shishi precisou reler a carta algumas vezes para poder decifrar qualquer coisa que pudesse estar por trás dela. No fim das contas, o que sobrava era apenas o local da batalha: Alemanha. O mesmo local em que Hanako estava antes de ser seqüestrada pelo Governo Mundial. Aquilo tinha que ter algum significado, algo que ele não estivesse conseguindo enxergar. Qualquer tipo de brecha que pudesse ter na manipulação que Takasugi estava exercendo sobre seus amigos. Não encontrou nada. Começou a imaginar que a única solução era acabar com a vida de cada um deles. Pensou que não conseguiria dormir por conta de tantos pensamentos que assolavam sua mente, mas acabou dormindo assim que fechou os olhos.
O dia amanheceu. Estava na hora de se deslocar para a Alemanha, mais precisamente no estado da Bavária. O local ficava em uma floresta, bem próximo ao mais importante Castelo de lá. Shishi utilizou uma de suas magias de deslocação para chegar lá rapidamente. Achou melhor não fazer aquilo por meio de J, por imaginar que ele poderia ser persuadido a trazer as duas garotas até o local. Lá, estava um tempo bem incomum para a época do ano. De acordo com suas pesquisas, deveria estar ensolarado, mas havia pequenos resquícios de neve no ambiente. E, além disso, o céu estava nublado, indicando que ou iria chover ou terminaria por nevar mais uma vez. O rapaz encarou o céu, imaginando o que uma mudança repentina de clima pudesse significar. Chutou um pouco de neve nos pés e fechou os olhos para enviar pequenas correntes elétricas pelo chão. Dessa forma, conseguiria sentir qualquer tipo de presença desconhecida ou até mesmo conhecido pela área. Notou várias presenças estranhas vindo do leste. E já que não estavam muito próximo do ambiente, achou que seria melhor ir logo de uma vez até o Castelo e confrontar sua própria irmã.
Enquanto isso, Miu e Narumi acordaram há pouco tempo. A primeira coisa que fizeram juntas foi procurar pelo Veterano. Assim que chegaram à diretoria, perceberam que ele já havia ido embora há algum tempo. Procuravam qualquer tipo de pista que pudessem levar até o local que ele lutaria com Hanako. Vasculharam até mesmo pela Sala Secreta. Deveria ter qualquer informação sobre o lugar que aconteceria o confronto.
– Miu, procure pela estante. Veja se aquela carta pode estar em um dos livros. Eu vou procurar pelo laboratório. – A mais nova assentiu assim que decidiram como fazer. Logo foi na direção da estante e folheou alguns livros. Imaginou que Shishi poderia ter deixado o convite dentro de um deles. Após passar pelo menos dez minutos olhando página por página, não conseguiu encontrar nada.
Quando ela estava quase desistindo, encontrou algo entre alguns livros bem grandes. Era um envelope que continha “Para Akamatsu Shishi”. Ela abriu o envelope e leu o conteúdo da carta. Arregalou os olhos e imediatamente gritou para a amiga, já que ela estava dentro do laboratório.
– Narumi-chan! Eu encontrei! Venha cá! – Logo que Miu gritou, Narumi veio correndo para dar uma olhada no cartão. A mais velha segurou e também ficou espantada com o local do desafio. Caso não estivesse enganada, a Alemanha era o país onde Hanako havia ficado. Sua mente começou a trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo. Talvez os outros países que os membros da Antiga Geração fossem futuros pontos de batalha. Isso já ajudaria bastante, por poderem se preparar para usar o ambiente a seu favor.
– Hmm, fica na Bavária. Nós não vamos poder ir até lá por conta própria... Precisamos do J. – Comentou Narumi. Não demorou muito para que Miu concordasse. Além de não terem dinheiro para viajar de avião, seria uma alternativa muito demorada. Provavelmente ao chegarem à Alemanha a luta já teria terminado. A mais nova parecia olhar para o celular de um jeito bem pensativo. Sussurrava algo do tipo “Tenho certeza de que havia um jeito de chamar o J pelo celular que o Senpai nos deu.”
Narumi continuou observando até que a outra digitasse alguma coisa no celular e começasse a falar. Depois de pelo menos dois minutos de conversa J se materializou na frente do computador.
– Vocês têm certeza de que querem mesmo fazer isso? – Ele fez uma pausa e as encarou. Parecia ter algo em sua mente cheia de fios e circuitos indicando que as chances daquilo dar errado seriam bem grandes. – Eu também não posso me responsabilizar pelo que vai acontecer durante a luta.
De fato... Era difícil de pensar no que poderia ocorrer naquela luta. Sabiam que dificilmente os dois sairiam vivos dali. No melhor dos casos, Shishi poderia voltar com vida ou não muito machucada, tanto física quanto emocionalmente. E também, não sabiam como ele reagiria ao vê-las indo para o Campo de Batalha. Tinham certeza de que ele não as machucaria sob hipótese alguma, disse aquilo apenas para que elas se mantivessem afastadas do campo de batalha.
– Nós vamos assim mesmo. Não podemos ficar aqui paradas enquanto nosso Senpai corre perigo.
J emitiu algo que parecia ser um suspiro. Seus olhos analisavam as duas, como se estivesse pensando se as levaria até a Bavária ou não. No final das contas, ele havia decidido transportá-las até o tal Castelo Alemão. O robô iniciou o processo de teletransporte e as levou até lá.
Pousaram no que seria uma floresta de Coníferas ou alguma coisa parecida. As duas se limitaram a analisar o local para se certificar de que não havia nenhum inimigo para atacá-las, principalmente Hanako... E também para que Shishi não as encontrasse por enquanto. Era tarde demais ao notarem que uma rajada de vento incomum estava soprando por ali. Em apenas um segundo, elas foram envolvidas por um turbilhão que as tragou para dentro do castelo.
– Mas não é interessante? Temos duas filhotinhas e um robô. Acho que será uma troca interessante na hora de lutar contra ele. – Uma voz feminina ecoou pelo ambiente. Miu abriu os olhos e percebeu que estava dentro de uma jaula junto com os dois amigos. A jovem tinha cabelos castanhos longos e olhos cinza da cor de uma nuvem num dia de tempestade. Aquela coloração lembrava-lhe outra pessoa... Shishi. Então, aquela jovem só podia ser uma pessoa: Akamatsu Hanako. Pelo visto, o trio foi encontrado primeiro por ela. Hanako se aproximou da jaula e segurou uma das barras. Tinha um sorriso presunçoso no rosto, como se tivesse acabado de ganhar na loteria.
– O que será que devo fazer com vocês quando eu ganhar a luta? Hmm, talvez eu deva entregar os três ao Takasugi e ver o que ele vai fazer com vocês. – Deu uma tapinha na janela e se retirou, subindo algumas escadas que davam para o que parecia um trono. Sentou-se lá e manteve-se lá por algum tempo, deveria estar esperando por Shishi.
Há pelo menos dez quilômetros dali, Shishi estava agachado e com a palma da mão na terra da floresta. Liberou uma pequena quantidade de eletricidade pelo chão, para que ela pudesse ser conduzida até certa distância. Dessa forma conseguiria sentir qualquer tipo de presença através de pulsos elétricos, já que qualquer ser vivo que possua um sistema nervoso emitirá seus impulsos elétricos. Conseguiu sentir três tipos de pulsação, dois humanos e um bem diferente. Seu corpo ficou tenso, logo deduziu que aqueles deveriam ser suas alunas e J. A uma curta distância da presença deles, detectou mais uma. Pensou que aquela deveria ser Hanako, já que não havia mais ninguém que pudesse acompanhar o trio.
– Tsc... Elas vieram mesmo. Isso vai ser um problema. Mas eu tenho que me preocupar primeiro com ela. – Ele pronunciou algumas palavras em latim e um portal se abriu, ele o levaria para dentro do Castelo onde Hanako e suas alunas estariam. Em pelo menos dois minutos, Shishi já estava lá dentro. Logo olhou para a direita e viu a jaula que aprisionava seus companheiros. O rapaz correu para lá e segurou nas barras da pequena prisão. As duas garotas levantaram o rosto e o viram lá. Tinham certo cansaço na aparência, demonstrando que havia algo de errado com elas. Era como se suas energias estivessem sendo sugadas.
– Há quanto tempo, Shii-chan. – A voz de Hanako ecoou pelo ambiente. Ela havia se levantado do trono, estava com seu tridente levemente esverdeado na sua mão esquerda. Ela parecia a mesma de quando Shishi a viu pela ultima vez. Não havia nenhum tipo de mudança em sua aparência, exceto pelos cabelos que estavam um pouco mais compridos. O rapaz a encarou friamente, tentando não se deixar levar por nenhum tipo de sentimento. Mas era bem difícil quando a única pessoa que ele possuía um laço sanguíneo estava ali em sua frente, tendo aprisionado seus amigos e estaria prestes a travar uma batalha mortal com ele.
– É verdade. Mais de um ano, não? – Eles pareciam dialogar normalmente, como se realmente sentissem falta um do outro, mas não havia nenhuma emoção externada na voz deles dois. Havia certo tipo de tensão no ar, como se ambos fossem uma bomba que estivesse prestes a explodir. – Mas então. O que acha de me dizer o que pretende fazer com meus amigos presos numa jaula?
– Claro. Eu pensei num pequeno joguinho entre nós dois... Que tal? – O tom de voz dela começou a irritar Shishi. Estava claro que era tudo uma provocação dela. Apesar de estar sendo controlada por outra pessoa, ela sabia inconscientemente todos os pontos fracos dele, mas o que ela não sabia, era que no tempo em que pararam de se falar, o rapaz havia mudado bastante. – Essa jaula foi feita para sugar as forças de qualquer um que esteja lá dentro. Não vai demorar muito para que seus amigos acabem... Se sentindo mal por ficarem fracos. – Deu para notar que ela usou um eufemismo para “morrer”. Mas ainda assim, a situação não era nada boa.
– E suponho que você não irá soltá-las por bem, certo? – Shishi encarou a irmã. Havia uma entonação perigosa na voz do rapaz. Estava pronto para fazer o que fosse preciso para salvar as duas garotas e o robô.
– Não faria isso nem por um milhão de dólares. Mas e aí, o que vai fazer já que não quero soltá-las? – Ela bateu o tridente no chão e uma pequena brisa circulou pelo interior do castelo. A própria Hanako também estava pronta para combater o irmão mais novo caso fosse necessário.
– Então espero que esteja preparada para as consequências, Nee-san. – Ele movimentou o braço para frente como se estivesse socando o ar e uma rajada de eletricidade disparou na direção de Hanako. Ela girou o tridente e rebateu o ataque, fazendo com que o disparo atingisse o teto do Castelo e derrubasse um pouco de concreto.
Em seguida, ela saltou e movimentou a arma de cima para baixo liberando uma grande ventania que lançou Shishi para longe, criando uns pequenos arranhões na pele dele. O rapaz concluiu que em uma luta a distância, ele levaria a pior por conta das habilidades da irmã, então achou melhor utilizar sua eletricidade para tomar impulso e chegar mais rápido até perto dela. Desembainhou suas espadas e tentou fazer um corte horizontal em sua barriga. Hanako bateu o cabo do seu tridente esverdeado na arma do irmão para desviar o ataque dele. Em uma reação rápida, movimentou a perna esquerda na altura do peito dele e lhe deu um chute para afastá-lo de novo, o que fez o veterano cuspir um pouco de sangue, já que o ataque de sua irmã o acertou bem próximo da marca. Ele levou a mão ao peito, já podia sentir alguns dos efeitos daquela maldição.
– O que houve Shii-chan? Se sentindo cansado? – Provocou e bateu com o cabo do tridente no rosto dele, fazendo-lhe um belo corte que logo começou a sangrar. O rapaz rolou para o lado e desferiu uma rasteira em Hanako para derrubá-la. E assim que conseguiu, saltou para trás e disparou vários raios na direção dela, atingindo-a e a atirando na parede do castelo. Uma grande cortina de fumaça cobriu o ambiente assim que a poeira do impacto com a construção produziu uma dúzia de escombros. No instante seguinte, aquela camada de poeira se dissipou e Hanako estava em pé — com alguns ferimentos no corpo, mas ainda em ótimo estado. – Ela girava o tridente criando um pequeno furacão ao seu redor.
– Nada mal, irmãozinho! Mas eu estou só começando! – A jovem parou de girar a arma e liberou toda aquela ventania pelo lugar, atingindo tanto a Shishi quanto as garotas na jaula. Elas se chocaram com as barras da prisão, ficando com algumas marcas roxas e avermelhadas nas costas – No caso de Miu – E também uns poucos hematomas nos ombros – No caso de Narumi -.
O veterano olhou para as suas alunas sendo machucadas. Uma onda de fúria percorreu o seu corpo. Ele cerrou os punhos e movimentou as espadas verticalmente para atirar lâminas de energia nela, mas nenhum de seus golpes funcionava sem o elemento surpresa. Em um movimento mais rápido do que o olho de Shishi podia acompanhar, Hanako surgiu atrás dele e o derrubou com o tridente. Em seguida, pôs o pé em seu peito e colocou um pouco de força nele, apontando a arma para a cabeça dela.
Por um instante, o rapaz chegou a pensar que aquele seria seu fim. Várias lembranças surgiram por sua mente. As principais foram quando conheceu Hanako e no dia em que descobriu que ela era sua irmã.
– Naquele dia, Miki-san disse que queria nos apresentar a alguém. Ela disse que essa pessoa seria nossa nova companheira, e até mesmo um tipo de Mentora, já que pareciam ser amigas há tanto tempo. Foi uma apresentação relativamente normal, até nossa Diretora dizer que ela viria morar comigo. Eu me senti bem estranho, já que a Nee-san era uma mulher mais velha, e eu não tinha a mínima noção de que ela era minha irmã, mas eu também tinha a certeza de que seríamos bons amigos, e realmente fomos. Compartilhávamos alegrias, sonhos, tínhamos a mesma história... Até porque éramos parentes, e ela sabia muito bem disso. Depois que eu soube da verdade, me dei conta de como ela escolhia muito bem as palavras ao falar comigo sobre nós sermos quase uma família. A Nee-san sabia perfeitamente que se tivesse me dito a verdade logo de uma vez eu teria surtado e provavelmente não saberia o que fazer por um ano inteiro. E então... No dia em que a Organização fez uma armadilha para mim, ela se sacrificou para me salvar. De início, seria só um lamento por uma amiga ter feito um gesto nobre em nome da proteção da Terra, mas aí ela jogou a verdade na minha cara. Foi como se eu tivesse começado a carregar todo o peso do Universo nas costas. Não soube o que fazer, apenas vi seu corpo se tornando luz. A minha irmã havia sacrificado sua própria vida pra me salvar. E eu também não vi motivo para não fazer o mesmo. Logo depois que descobri aquela meia verdade, nosso Oponente mais forte mostrou seu rosto. Ela era a irmã gêmea da Diretoria... Seu nome era Rin. Ela me ofereceu uma chance de trazer de volta a Nee-san, contanto que eu fizesse o que ela pedisse. Não pensei duas vezes e cumpri o que foi necessário. Eu me aliei aos inimigos para que minha irmã pudesse ser revivida. Mesmo hoje, eu teria feito a mesma coisa, ela era uma pessoa que valeria a pena fazer esse tipo de coisa. Mas o que de fato me doía na época, era saber que um dia eu acabaria tendo que lutar contra ela. Por sorte, consegui evitar ao máximo que isso acontecesse. Eu jamais conseguiria encostar um só dedo nela, quanto mais tirar sua vida. Sim... Eu ainda não consigo fazer isso. Estou fazendo porque é minha obrigação e porque minhas alunas estão correndo perigo. Não... O que estou fazendo é errado. Não irei dar um fim nela. Eu sei que consigo salvá-la... Só preciso achar o jeito certo de fazer isso.
Quando Shishi saiu daquele transe, Hanako estava quase enfiando o tridente em sua cabeça. Seu reflexo foi mais rápido do que ele esperava, conseguiu segurar o cabo da arma quando uma das pontas estava bem próxima de seu nariz. Seu corpo começou a irradiar eletricidade e ele chutou a irmã na barriga para afastá-la. Ele apontou a espada para o céu e desenhou um circulo no ar, sua armadura cinza se montou ao corpo do rapaz. Ele olhou para a irmã com seriedade e movimentou discretamente a espada.
– Finalmente despertei. Venha... E vamos decidir qual irmão é o mais forte. – Ele balançou a espada horizontalmente e uma onda de energia invisível a afastou, lançando-a contra outra parede.
– Preciso achar o que está controlando ela. Não vai demorar muito para que isso aconteça. Eu preciso do momento certo... – Enquanto ele pensava, a jovem levantou-se dos escombros com um sorriso sádico no rosto. Bateu o cabo do tridente no chão e novamente uma ventania tomou conta do ambiente.
– Nada mal, irmãozinho! Vamos ver se você será capaz de me parar agora. – Ela levou a palma da mão direita ao rosto e um tipo de energia arroxeada começou a ser emitida. Imediatamente, uma das máscaras foi se formando no rosto dela... Era a mesma que as gêmeas e Akayuri tinham na primeira vez em que foram vistas. Shishi deduziu que aquela deveria ser a fonte do mal que parecia dominar. Entretanto, na empolgação da batalha, esqueceu-se de que havia aquela maldita marca em seu peito. Ajoelhou-se quando se deu conta do quanto estava exaurido. Ele praguejou em sua mente, suas energias estavam sendo drenadas por aquela marca. A dor no coração era tanta que quase sentia como se estivesse sendo esmagado. Começou a respirar pesadamente de tão fraco que estava. Se lutasse mais um pouco ele poderia perder sua vida, mas não tinha escolha. Levantou-se lentamente, não tendo agilidade suficiente para impedir o chute que sua irmã desferiu em seu rosto. Desabou no chão e sentiu vários golpes do tridente dela atingindo sua armadura e a quebrando. Em outra situação, aquilo seria uma brecha para ele lutar para valer, já que sua armadura limitava bastante seu poder e sua agilidade em alguns casos. Em certos momentos, as pontas da arma penetravam em sua carne criando vários ferimentos. O rapaz não emitiu nenhum som de dor mesmo quando os ataques eram penetrados com mais força em sua carne.
– O que foi garoto? Não tem mais forças pra lutar? – Ela riu. Girou o tridente e um turbilhão de poeira e escombro se reuniu ao redor deles. Pouco a pouco, ficava cada vez mais complicado de respirar, era quase como se o ar estivesse sendo sugado de seus pulmões. Shishi conseguia sentir muito bem a energia que ela emanava, e a pressão que aquilo exercia sobre seu corpo, o que piorava muito mais sua condição. Novamente... Uma lembrança ressoou em sua mente. Fora o dia em que ele havia recobrado a consciência no hospital, e ela estavam ao seu lado, com uma cara de que não dormia há dias. Sentia como se seu corpo tivesse sido atropelado por mil canhões e um Lyall transformado em MugenRyuu. Os olhos dele se abriram, sua visão demorou a se formar, devido ao choque entre a escuridão do coma em que se encontrava e a luz do ambiente. Precisou colocar a mão na frente dos olhos para poder enxergar pelo menos um pouco.
– Shii-chan! Você acordou! Aleluia! – O quase grito de sua irmã fez com que ele sorrisse discretamente. Tentou se ajeitar na cama, de modo que poderia ficar sentado na cama, mas seu corpo ainda doía bastante. Assim que sua visão ficou um pouco melhor, observou o próprio corpo envolto em ataduras e um pouco marcado com sangue.
– E então, como se sente? – Ela perguntou, enquanto sua mão se esgueirou para a do mais novo, apertando-a suavemente. Havia um pouco de preocupação em sua voz, mas isso não era nem necessário perguntar. Os dois já se conheciam muito bem para saber quando um estava angustiado por causa do outro.
– Não se preocupe Nee-san. Eu vou ficar bem. Além disso... Parece que você quer me contar algo. – Logo que o garoto falou, ela largou a mão do irmão e apoiou as costas na cadeira que estava sentada. Respirou fundo e então começou a falar.
– Você sabe que eu tenho um sonho, não é? – A jovem falou em um tom calmo, mas notoriamente sério. Shishi pareceu levemente pensativo, como se algumas memórias estivessem vindo a sua cabeça, mas que ele também estivesse fazendo bastante esforço, já que havia acabado de acordar.
– Claro que sim. Você queria trabalhar com mecânica, certo? – A jovem assentiu. Shishi percebeu um pouco de apreensão no olhar dela, como se também houvesse outra coisa que ela conseguiria conta. – Já sei. Você pretende ir a algum lugar?
– Sim. Pretendo ir para a Europa. – Ela voltou a encarar o irmão. Se o garoto olhasse direito, veria que ela estava até com o rosto vermelho em tocar naquele assunto.
– Europa? Olha só! Aposto que você se encontraria com os melhores Engenheiros! Vá em frente, Nee-san. – Shishi tinha um grande sorriso no rosto. Realmente se sentia bem feliz ao ver que sua irmã mais velha estava a fim de ir atrás de seu sonho.
– Mas e você... Quem vai cuidar de você, Shii-chan? – Ela levantou um bom questionamento. Com sorte, dali a pelo menos um mês ele poderia sair da cama, mas deveria se locomover apenas com cadeira de rodas, esse foi o prognóstico dos médicos. Sozinho, ele teria que contar com as gêmeas, já que seus amigos estavam ocupados cuidando de sua própria recuperação.
– Eu posso me virar sozinho, você sabe muito bem disso... Fiz isso por tanto tempo... – Então, ele percebeu que não deveria ter dito aquilo. Sempre que mencionava o fato de que ficou boa parte de sua vida sem alguém com ele, sua irmã ficava com uma expressão triste. – Desculpe Nee-san. Eu deveria ter ficado quieto.
– Não, você está certo. Eu já te deixei muito tempo sozinho. Vou ficar contigo até você conseguir. Mesmo que eu vá para a Europa e que você continue no Japão, ninguém vai nos separar. Isso é uma promessa. – Ela ergueu o dedo mindinho para o irmão, no clássico gesto de promessa. Shishi sorriu e apontou o dedo mindinho da mesma mão, para que pudessem selar aquele juramento.
Ao se lembrar daquele momento, o rapaz tirou forças e se levantou, quase como estivesse ignorando todos os ataques que recebia. O sangue praticamente pingava de seu corpo. Em um dos ataques da sua irmã, ele segurou o tridente por uma das pontas, causando um corte ainda maior em sua mão esquerda. Ele apertou a arma com tanta força que uma das hastes começou a trincar e se despedaçar. Shishi também se lembrou de outra promessa que havia feito, bem quando fez o trato com Rin para que sua irmã pudesse ser revivida. Jurou a si mesmo que nunca deixaria que ela se machucasse novamente, e para isso, vendeu sua própria alma ao mal para ser capaz de fazer isso. E aquela pessoa que estava na sua frente definitivamente não era sua irmã. Lentamente, uma energia escura começou a tomar lugar dos raios que ele emanava.
– Você deve se lembrar que uma vez eu vendi minha alma para poder te proteger, Nee-san. E VOCÊ NÃO É A MINHA IRMÃ! – Ele liberou uma grande quantidade daquela energia escura mesclada aos seus trovões, lançando a sua irmã para longe e a afastando.
Ele proferiu algumas palavras, totalmente diferentes do latim que ele costumava falar quando pretendia usar algumas de suas magias. O ambiente se escureceu, como se a luz estivesse sendo sugada. As íris dele tornaram-se escuras, exatamente como aconteceu dois anos antes. Ele gritou e o castelo tremeu, toda aquela energia que estava sendo emanada parecia ser guiada até o seu punho direito, formando uma pequena bola de energia em volta dele, de vez em quando, liberava até algumas pequenas cargas de eletricidade. Miu e Narumi observavam tudo de longe, sem saber o que fazer. Elas ouviam bem espantadas, as palavras do veterano, toda aquela história de se vender ao mal era muito estranha para elas, embora parecesse normal aos irmãos.
– Eu só tenho essa chance... Vou acabar essa luta com o golpe que você me ensinou. – Ele ergueu o punho e Hanako fez o mesmo, só que ao invés de eletricidade era praticamente um mini-furacão. Os dois correram para cima um do outro em uma velocidade absurda, tanto que os outros três viram apenas um traço de energia escura e uma ventania passando pela jaula. Em um piscar de olhos, eles estavam com as costas apoiadas um no outro e ambos de cabeça baixa. No instante seguinte, a máscara de Hanako se partiu e ela desabou no chão. Shishi a pegou para ficar com ela nos braços. Apanhou também sua espada e foi na direção da jaula. Cortou as barras dela para que suas alunas e J pudessem sair. Rapidamente, ele se aproximou do robô e entregou Hanako para ele. O rapaz levantou o rosto e abriu um sorriso, já não tinha muitas forças para se mover.
– Bem... Pelo menos eu cumpri parte da minha promessa. J, tome conta da Nee-san, por favor... E delas também. – Uma dor imensa percorreu seu corpo, principalmente pelo soco de sua irmã ter atingido bem na marca. Ele tossiu uma grande quantidade de sangue e também desmaiou. As duas garotas entraram em desespero ao ver daquele jeito, já que ele estava bem diferente do normal.
– Senpai! – A primeira a gritar fora Miu, já que notoriamente ela era a mais “apegada” a ele. Colocou o ouvido para checar sua respiração, e ela era quase nula. A mais nova sentiu um grande desespero assolar seu peito, já que Shishi estava muito ferido e bastante ensanguentado...
Então, o confronto entre os dois únicos membros da família Akamatsu chegou ao fim. A marca da morte foi “ativada” e teve seu efeito sobre Shishi. Além disso, apenas ele sabia os métodos que foram usados para quebrar a máscara de Hanako. No fim, será que os dois acabariam morrendo no final, e não sobraria mais ninguém para assumir o lugar de Shishi no lado dos “Rebeldes”? Apenas os ventos do amanhã poderiam trazer tal resposta.
Continua...
Fale com o autor