Teach Me How To Love You
20 Capítulo 20
Notas iniciais
“Eu queria ser o seu motivo. De quê? Ah, de qualquer coisa. O motivo da sua fuga, da sua volta, do seu desespero, das suas dúvidas, dos seus calafrios e arrepios, dos suspiros fundos de olhos fechados, dos dias em silêncio perdendo para a saudade, do ódio repentino, do querer desenfreado. Qualquer coisa, meu bem, mas que me fizesse morar em alguma parte tua.”
— Camila Costa.
Não sei ao certo quanto tempo nossas bocas perduraram sobre a outra, a única coisa que me lembro é de só pararmos porque precisávamos de ar. Nos afastamos, mas nossos rostos ainda ficaram próximos por permanecermos com as testas juntas.
— Agora acho que você estava certa sobre estarmos no paraíso. — Emma falou ainda ofegante, após alguns segundos, me fazendo abrir os olhos e rir dos seus olhos sapecas que me fitavam por trás dos óculos enquanto ela sorria.
— Você tem que lembrar que eu sempre estou certa. — Disse com um sorrisinho vitorioso de lado ao vê-la revirar os olhos ainda sorrindo.
Ela não disse mais nada, permaneceu me olhando com os braços envoltos em minha cintura enquanto eu a observava com os meus envoltos em seu pescoço. Não importava se não disséssemos nada, suas bochechas altas pelo sorriso que as mantinha e seus olhos verdes cintilantes já falavam por si só, aquele momento falava por si só. De alguma forma, era como se a cada instante uma célula do meu corpo ficasse mais alegre do que nunca.
— Para de fazer isso. — Reclamei.
— E o que foi que eu fiz? — Emma perguntou confusa, afastando o rosto para me observar melhor.
— Você fica ai me abraçando pela cintura depois de termos nos beijado, fica sorrindo e me olhando.
— Ainda não percebi o que há de errado nisso. — Emma replicou juntando as sobrancelhas. — Você quer que eu me afaste, se arrependeu de...? — Ela perguntou soltando os braços de minha cintura.
— Você não ouse tirar as mãos de mim. — Ameacei rapidamente levando minhas mãos para as suas nas minha laterais e impedindo que as tirasse dali.
— Como é? — A loira riu do meu movimento súbito. — Eu não te entendo nem um pouquinho, sabia?
— Só pare de ser tão linda. — Disse passeando minhas mãos por seu braços e depositando um selinho em sua boca.
Não tinha a menor ideia do porquê estava agindo como se fizéssemos aquilo o tempo todo, aqueles toques, beijos e olhares. Eu estava com tanto medo de que aqueles sentimentos estragassem algo, entretanto, após o beijo tudo fluiu com tanta naturalidade e Emma em momento algum parecia se incomodar, então decidir deixar que as coisas somente acontecessem. Decidi, pela primeira vez, deixar minha parte racional de lado e aquilo, por incrível que pareça, não me assustou pois estava fazendo por Emma e nada que eu fazia parecia racional quando eu estava ao seu lado.
— Você não me tira da cabeça uma citação da Iolanda Valentim. — Falei, um pouco depois, colocando uma das mechas de seu cabelo, que sairá de seu fiel rabo de cavalo, atrás de sua orelha e voltando a fixar meu olhos nas esmeraldas a minha frente.
— E posso saber qual seria?
— "É que eu nunca vi um sorriso igual ao seu. Não é um sorriso comum. Você não é uma pessoa comum. É um ser diabólico enviado para me deixar uma pessoa mais idiota que repara em sorrisos. Você sorri com os olhos e com o corpo e seu sorriso é mais caloroso que qualquer abraço. Você sorri com simplicidade e cumplicidade, é sorriso de gente que apronta, de criança levada, com os olhos brilhantes. Não é só um sorriso. É o meu sorriso preferido. Da minha pessoa preferida." — Terminei a citação com uma sensação estranha em meu peito, juro que senti como se ele se aquecesse ao ver a reação da loira que levou suas mãos ao meu rosto o puxando de encontro ao dela e deslizando seus lábios contra os meus novamente.
— Se você não parar com isso vamos acabar sem fazer nada do planejado porque vou te beijar o dia inteiro. — Emma suspirou pesadamente se afastando e deslizando as mãos de meu rosto.
— Não seria uma má ideia, mas temos que ir. — Falei soltando minhas mãos de sua nuca.
— Nossa, foi bem fácil escolher entre os beijos e o passeio. — A loira debochou.
— Não é isso sua tonta, é que eu não quero que você tenha tido tanto esforço para não aproveitarmos. — Respondi pegando sua mão e a puxando enquanto perguntava nosso próximo destino.
Diferentemente da escola, os outros lugares da cidade ficam bem próximos, então andamos até a feira ao ar livre. Passamos por diversas barracas com souvenires e coisas que remetiam a cultura local. Apesar, de viver tantos anos ali eu praticamente só conhecia museus e cada centímetro da Universidade de tantos passeios escolares até lá. Foi muito mais divertido ver aquela cidade por aquele ângulo, ainda mais um ângulo em que uma certa loira dos olhos verdes preenchida qualquer coisa com brincadeiras, até vê-la na barraca de música era encantador. Sua leveza com tudo, o modo como conversava com as pessoas e como sempre seu sorriso que faltava me deixar babando de tão lindo que ficava a cada minuto.
Em dado momento, começamos a ficar com fome e compramos algumas besteiras, eu estava quase explodindo quando Emma quase me arrastou para uma barraca que fazia waffles com sorvete.
— Eu não aguento mais nada, tenha piedade do meu estômago. — Reclamei com uma mão sobre a barriga enquanto ela me puxava pela outra.
— Eu peço só um e se quiser divido com você. — Ela disse pegando um cardápio e olhando as opções.
— Tenho a sensação que estou em fase de engorda para você comer depois. — Falei sem me dar conta da ambiguidade até a loira levantar os olhos com um sorriso sapeca sendo contido.
— Essa frase não tinha como ser mais mal interpretada. — Debochou e arregalei os olhos ao me dar conta, levei as mãos ao meu rosto para tampa-lo.
— Oh, eu não quis dizer...
— Eu sei, mas não deixa de ter graça ainda mais por seu rosto estar vermelho de tanta vergonha. — Emma gargalhou enquanto eu tentava inutilmente disfarçar meu constrangimento.
— Eu odeio você. — Resmunguei cruzando os braços e fechando a cara.
— Se me odeia tanto quanto na biblioteca, por mim está tudo bem. — Ela disse depositando um beijo em minha bochecha e voltando a olha o cardápio.
Sorri contrariada por não me conter com o ato dela e esperamos até que recebesse seu pedido. Nos sentamos em um dos bancos dali e conversamos até que ela terminasse para depois irmos até a margem do rio Cam e pagarmos para um passeio na gondola. Era impossível pensar em um aniversário melhor que aquele, estava ensolarado e as árvores cheias de flores, Emma por vezes me provocava, mas sua presença era indispensável para aquela data ser ainda melhor.
Descemos no parque municipal Backs e andamos um pouco pela pista que havia entre as árvores enquanto conversávamos até que cansamos e nos sentamos na grama, debaixo de uma árvore perto do rio, e nos recostamos nela.
Ficamos em silêncio por um tempo observando as pessoas na pista e as gondolas no rio e mais uma vez comecei a pensar sobre aquele dia inteiro, pois minha parte racional nunca deixaria que toda aquele desenvolvimento entre a loira e eu acontecesse assim, sem questionamentos ou ladainhas que me afligiam.
Estava distraída e perdida nos meus pensamentos quando Emma entrelaçou minha mão que estava apoiada na grama com a dela. Olhei rapidamente para nossas mãos e sorri de lado levantando o olhar para ela e suspirando pesadamente.
"Não sabia direito se devia, se era certo. Mas em nenhuma biografia romântica é possível premeditar acertos ou equívocos, não existem registros ou algo para comparar na mesma existência. A gente faz e vê depois. Não existe pessoa certa ou vida errada. Simplesmente nos impulsionamos em direção ao primeiro sinal de amor compartilhado, alguma fagulha ou sensação que utopicamente nos distancie da morte, rejuvenesça, preste algum significado ao ato natural de trocar o ar dos pulmões."
— Gabito Nunes
— Emma, o que exatamente estamos fazendo? — Perguntei e ela suspirou da mesma forma.
— Como assim?
— O que estamos fazendo? Isso de nos beijarmos e o modo carinhoso do dia todo, vai durar ou é só hoje? Eu sei que pode ser cedo para determinarmos algo, mas você sabe que não consigo lidar com coisas indefinidas e porque eu não sei se quero que ajamos assim agora para depois voltar aquela amizade. Não, que eu não goste da sua amizade, mas... — A loira interrompeu, enquanto eu falava de forma inquieta e rápida, segurando em meu queixo com a mão livre e me dando um beijo calmo e carinhoso. — Eu gosto muito de você. — Sussurrei quando nos afastamos um pouco.
— Posso te contar um segredo? — Emma perguntou com um tom baixo e os olhos fixos nos meus ainda segurando meu rosto e acariciando minhas bochechas.
— Quantos você quiser. — Respondi da mesma maneira e ela sorriu de canto antes de dizer.
— Eu gosto de você desde que entrou no quarto gritando comigo. — Fechei os olhos brevemente enrugando o nariz em desaprovação enquanto sorria ao me lembrar da primeira vez que a vi.
— Odeio quando você me faz sorrir e estou tentando resolver algo sério. Por favor, só me diz o que vamos fazer.
— Podemos somente aproveitar o resto do seu dia e resolvermos isso depois? — Emma perguntou meneando a cabeça em minha direção. — Porque você sabe que tem regras na escola e muito o que conversarmos, mas prometo a você que não quero que isso acabe aqui. — Concluiu.
Respirei fundo olhando para nossas mãos ainda entrelaçadas e levantei a outra mão em punho: — Promessa de dedinho?
— Você aprende rápido. — Ela disse abrindo um sorriso e enlaçando nossos mindinhos.
— Eu aprendo com a melhor! — Afirmei sorrindo de volta.
Emma riu e me beijou rapidamente antes de se virar, deitar em meu colo e começar a falar coisas aleatórias.
Conversamos e fizemos brincadeiras por um tempo até que Emma disse: — Agora, Mills, me conte sobre você.
— Eu não sabia que seria entrevistada. Não estou pronta, Swan. — Falei enquanto passava meus dedos por seus cabelos que soltei do rabo de cavalo.
— Isso não é um teste, só tem que falar sobre você. Tirando a parte louca, neurótica e compulsiva por livros porque essa eu já conheço. — Abri a boca fingindo indignação e lhe dei um tapa no braço. — Ai! Você tem a mão pesada. — Ela reclamou esfregando o local machucado.
— Zelena que o diga. — Falei rindo de sua careta de dor. — E isso foi por ser chata. Voltando a pergunta, eu estudo naquela escola desde os 6 anos a parte mais conturbada do que aconteceu você já sabe, não tenho muito o que contar. — Respondi dando de ombros.
— Ok, mas e seus pais? Você nasceu aqui ou algo assim?
— Ah... meus pais são pessoas que se casaram porque a senhora Cora Mills engravidou da Zelena e depois que nasci, como minha mãe se preocupa tanto com sua carreira bem sucedida como advogada, fomos mandadas para uma escola que a amiga dela recomendou. E o senhor Henry Mills, quase nunca vemos porque está sempre viajando por fazer auditoria contábil em diversas empresas que por incrível que pareça nunca tem a sede em nosso país. — Falei olhando para os cachos com os quais brincava em meus dedos.
— Desculpe por perguntar.
— Oh, não. — Dei de ombros e neguei com a cabeça ainda sem fita-la. — Está tudo bem e respondendo a outra pergunta: não, eu não sou daqui, sou do Brasil.
— Você está brincando? — Emma arregalou os olhos e se sentou depressa se virando para me olhar.
— Por que estaria? — Perguntei confusa.
— É que eu também sou do Brasil. Quero dizer, eu não nasci lá, mas morei lá dos três aos onze anos, então tenho dupla nacionalidade.
— Seus pais eram brasileiros? — Questionei incrédula, qual a probabilidade de sua colega de quarto em um colégio na Europa também ser brasileira?
— É um pouco complicado. Meu pai não, mas minha mãe sim. Bem, os adotivos pelo menos. Os biológicos moram ou moravam em Chicago, mas não sei se são de lá. — Emma falou olhando para a grama ao seu lado e deu de ombros como eu.
— Você é...? — Perguntei sem conseguir conter a curiosidade.
— Sim, eu sou adotada. — Ela respondeu levantando os olhos até meu rosto. — Não precisa ter receio de me perguntar sobre isso, está tudo bem. — Acrescentou colocando a mão sobre a minha novamente para me incentivar.
— Você nunca quis ir atrás dos seu pais biológicos?
— Você tem uma habilidade para tocar em assuntos delicados, não é? — Emma perguntou com um sorriso de lado, mas pude ver que não estava muito confortável com aquilo.
— Se não quiser não precisa responder, eu só...
— Ficou curiosa. É, eu sei, eu também tinha essa curiosidade, — A loira entortou a boca mostrando que aquele não era seu assunto preferido. — mas se importa de falarmos sobre isso outro dia? Não quero que seu aniversário deixe de ser alegre por coisas relacionadas a mim.
— Não se preocupe e nem se sinta pressionada a falar sobre o que não quer, está tudo bem. Ainda mais alguém que agiu tão pacientemente com os meus assuntos delicados. — Falei esboçando um sorriso para confirmar que estava tudo bem e ela confirmou com a cabeça. Deitei-me em seu ombro para me aconchegar nela passando os braços em seu entorno e ela fez o mesmo em mim.
Voltamos a ficar em caladas, observando o movimento, mas não era um silêncio ruim, era bom e reconfortante, pois mesmo a nossa mudez se entendia e se encaixava de forma gostosa.
Começou a escurecer quando levantei o rosto e falei para Emma que era melhor irmos.
— Ainda temos um último lugar para ir, senhorita.
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