Teach Me How To Love You
12 Capítulo 12
Notas iniciais
"Me diga que está triste, eu consolo. Me diga que nunca foi tão feliz, eu concordo. Me ame ou me odeie. Me mande pra puta-que-o-pariu ou me convide pra ir com você. Exploda na minha cara ou se derreta na minha mão. Deixa eu te ver morrendo de tanto rir ou com vergonha das olheiras de tanto chorar. Só não me esconda o rosto. Me abrace, me esmurre, me lamba ou me empurre. Só não me balance os ombros. Não me perturba assistir tua dor nem acompanhar teu gás. Te ver mais ou menos realmente me incomoda. Mais ou menos não rende papo, não faz inverno nem verão, não exige uma longa explicação. É melhor estar alegre ou estar triste, mais ou menos é a pior coisa que existe"
— Gabito Nunes
Encontrava-me sentada no fundo da classe na aula de francês com as pernas cruzadas e um pé mexendo incessantemente enquanto eu mordia a tampa da caneta tentando me concentrar na última questão do teste surpresa. Não tão surpresa já que o professor o aplicava periodicamente, então sempre sabíamos quando iria ser mesmo sem aviso prévio.
Após terminar de preencher o gabarito e revisar, peguei minhas coisas, fui até a mesa do professor deixando as folhas completas e sai da sala já quase vazia. Uma boa parte dos alunos gostavam desse método de ter o restante do tempo, destinado a aula, livre quando se termina algum teste ou prova pois somos liberados, mas nunca vi muita vantagem porque sempre releio várias vezes cada questão para ter certeza de que é aquela, então acabo saindo quase na troca de horários.
No entanto, o sinal bateria para o almoço, então fui para um dos bancos perto do refeitório depois de passar em meu armário, deixar meu estojo e pegar o livro no qual vinha tentando me concentrar.
Normalmente, quando estou concentrada em uma leitura, sou alheia a quase qualquer coisa que aconteça a minha volta o que sempre me favoreceu no hábito de se ler em público. Porém, pela primeira vez em cinco dias ouvi a risada nada discreta de Emma passando por meus ouvidos. Meus olhos subitamente se levantaram e a encontrei sentada, em um banco do lado oposto e a poucos metros do meu, rindo e gesticulando enquanto conversava toda espalhafatosa com Eric, um garoto alto, de porte atlético, cabelos escuros, pele clara e olhos azuis, que acompanhava suas risadas enquanto a observava conversar.
Dois dias haviam se passado desde o ocorrido na piscina e nem conversamos mais pois no outro dia tinha um bilhete em minha escrivaninha, escrito por Emma, que informava qual parte ela faria do trabalho e pedia que eu fizesse a outra, junto tinha seu endereço de e-mail para passar uma para outra o que estava feito. Senti como se ela quisesse descartar totalmente minha presença. Mal a via no quarto e quando ela chegava e eu ainda estava acordada acabava por fazer várias coisas aleatórias como se não me notasse.
Uma bolha de ar ficou presa em minha garganta ao pensar nisso enquanto ainda a fitava descaradamente com o livro em meu colo. A sensação era estranha de ser rejeitada ou o que quer que aquilo fosse. Eu posso ter me afastado de muitos amigos, mas nunca nenhum deles me rejeitou ou ficou chateado comigo a esse ponto. Na época estranharam minha mudança de comportamento e nos afastamos, porém não é como se minha presença fosse descartável para eles.
Nesses dias, realmente considerei conversar com ela para de alguma forma acabar com aquilo, entretanto nunca soube como começar uma conversa que entre vários aspectos acabaria abordando o emocional. Na verdade eu talvez saberia, mas não sentia que aquela conversa poderia ser propicia em algum momento se parecia que para ela eu nem existia. Antes eu precisava chamar a atenção dela de modo que ela percebesse que eu estaria disposta a não ser sei lá.... eu ou a pior versão de mim mesma que vinha se manifestando.
De fato, aquele interesse todo até parecia por não ter atenção dela, todavia eu sabia que não era somente por aquilo. A loira não era só um desafio. Por mais que fosse difícil admitir, suas implicâncias, seu modo de agir e até conversar me faziam falta. Não que tenhamos tido um diálogo logo durante o período em que convivemos, mas foram os mais divertidos que tive em tempos.
— Bom dia, estranha. — Zelena falou se sentando ao meu lado e colocando a mão em meu ombro. Fazendo-me dar um pulo de susto e colocar minha mão direita sobre meu peito enquanto virava para olhá-la.
— Você quer me matar de susto? — Perguntei com a voz baixa, ainda afetada.
— Calma, só vim te chamar para almoçar. Estava indo para o refeitório e te vi sentada olhando para Emma. Aconteceu alguma coisa? — No momento em que a ruiva mencionou senti minhas bochechas arderem e olhei para o banco novamente, mas eles não estavam mais ali.
Estava tão absorta em pensamentos que mal havia notado o sinal tocando e nem ao menos notei a crescente concentração de pessoas em volta.
— Quem é que sabe? — Perguntei me desviando do assunto e dando de ombros ao voltar meu rosto para os olhos azuis que rolavam em enfado — Vamos indo, as meninas e seu chiclete devem estar nos esperando. — Falei novamente, me levantando.
— Ele não é um chiclete.
— Não sou eu quem fico mandando trocentas mensagens mesmo tendo te visto cinco minutos antes.
— Ha ha ha, engraçadinha. Vamos logo. — Ela retruca se levantando e empurrando de leve meu braço para irmos.
Entramos no refeitório e nos sentamos na mesa de costume onde Graham, Lacey e Abigail já estavam nos esperando. Nós normalmente ficávamos conversando enquanto a fila diminuía, pois odiávamos ficar em filas enormes. Sentei-me de frente para Zelena e para o resto do local.
— Quantos livros você lê por semana? — Lacey perguntou assim que coloquei meu livro sobre a mesa — Todos os dias te vejo com um, às vezes, você parece com a minha irmã.
— Depende bastante do livro. No entanto, seria realmente maravilhoso me parecer com Belle. Ela devora livros e os vive de forma intensa. — Respondi puxando minha cadeira para mais perto da mesa e me referindo a irmã gêmea de Lacey.
As duas de iguais só tem a aparência, cabelos castanhos, olhos tão azuis que nem se é possível imaginar que existam dois pares idênticos, magras, baixas e pele clara. Já o estilo, a forma de falar e os gostos são totalmente opostos. Uma gosta de estudar e se dedicar a causas importantes enquanto a outra vive de festa, agito e diversão.
Lacey fez uma careta como se minha resposta não fosse de seu agrado, somente dei de ombros e olhei para frente me deparando com uma cena piegas de Graham e minha irmã se olhando com uma das mãos dadas como se fossem as únicas pessoas ali. Eu sabia que não iriam se beijar por toda aquela regra de namoros que tem na escola, mas só aquela cena já me causava diabetes. Rolei os olhos e me levantei para pegar algo para comer e as meninas me seguiram.
Depois de um tempo estávamos conversando quando olhei mais adiante e vi Emma em uma mesa bem mais a frente rodeada da pessoas, ela novamente estava sendo aquela pessoa vivida e não a pessoa apática que se torna quando me vê. Porém, logo desviei o olhar voltando ao assunto de antes e bebendo um gole do meu suco.
O primeiro sinal bateu, fazendo com que todos nos levantássemos, deixássemos as bandejas no local certo e fossemos para o prédio de aulas. Só estranhei que a ruiva decidiu ir para lá comigo, ao invés de acompanhar o namorado, até que no meio do corredor ela começou a falar cutucando meu braço com seu cotovelo.
— Pode ir me contando.
— Contar o que? — Preguntei virando meu rosto para ela.
— O que rolou entre você e a loira. — Abri a boca para retrucar mas ela segurou meu braço para pararmos e levantou o dedo indicador sinalizando para que eu não falasse o que estava pensando — Nem venha com essa de que não aconteceu nada porque eu vi como seu sorriso morreu quando a viu na cantina.
— Duvido, você estava ocupada demais babando por seu queridinho.
— Viu?! Você não negou que isso aconteceu e não adianta tentar mudar o rumo da discussão. Eu te conheço melhor do que imagina.
— E isso agora é uma discussão? — Perguntei cruzando os braços fazendo o livro, que estava em minha mão, ficar preso em meu peito.
— Regina, para. — Zelena bufou brava.
— Ok. — Disse suspirando — Não foi nada é que... — Prolonguei-me ao olhar para baixo — Você sabe o quanto posso ser evasiva.
— Agora me conte uma novidade. — A ruiva zombou erguendo as sobrancelhas e me fazendo revirar os olhos e voltar a fita-la.
— Enfim, isso acabou causando um desentendimento entre nós duas e eu normalmente não ligo para isso e você sabe, mas, não sei se porque é a Emma, estou incomodada com a forma fria com que ela vem me tratando. — Admiti dando de ombros e entortando a boca.
— Oh, alguém está provando do próprio veneno e parece que não é tão saboroso quando é com você, não é?! — Ela perguntou colocando o dedo indicado no próprio queixo como se pensasse em algo.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que você age com as pessoas exatamente da mesma forma que ela está agindo com você e isso te incomoda porque é como se você não tivesse, pela primeira vez, o controle da situação.
Minhas sobrancelhas se juntaram em desacordo com o que eu ouvira, não tinha relação alguma.
— Isso não é verdade. Eu não trato as pessoas com indiferença, se elas quiserem podem vir conversar comigo e irie ser o mais educada possível, você sabe disso. — Falei me defendendo.
— Não é esse o ponto. Estou querendo dizer é que a anos você simplesmente parou de se esforçar para se relacionar com nossos amigos. É como se eles fossem atrás você que acaba por trata-los bem, mas não como antes e se eles não forem por você tanto faz. Não é assim que se sente agora? Como se para a Emma você fosse um "tanto faz"?
Zelena falava naturalmente, mas eu me esforçava para não transparecer o quão fundo aquelas palavras haviam me atingido. Ela tinha razão, eu era incapaz de negar qualquer afirmação dela, o que me fez sentir mal comigo mesma.
— Por que não pede desculpas a ela?
— Eu já pedi, não vai adiantar dessa vez. Acabei extrapolando. — Falei abaixando os olhos novamente.
— Então você precisa conversar com ela se quiser que esse gelo pare. — Zelena falava de forma carinhosa.
— Eu sei, mas você sabe que não sou boa com conversas desse tipo.
Assim que falei o segundo sinal tocou e todos a nossa volta foram em direção as salas.
— Eu preciso ir, você sabe o quão chato o Sr. Gold é com atrasos na aula dele. — Minha irmã disse apoiando uma mão no meu braço esquerdo e depositando um beijo em minha bochecha.
— Espera, mas o que eu faço? — Preguntei aflita segurando em seu cotovelo para faze-la parar.
— Você lê bastante porque não tenta escrever o que quer dizer a ela.
— Mas como?
Ela pensa por um momento antes de dizer: — Você é inteligente. Vai descobrir uma forma, tenho certeza. — E sai andando apressada em direção ao seu armário me fazendo soltar um longo e frustrado suspiro.
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