Teach Me How To Love You
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Bom, eu disse que começaria a postar quando terminasse a outra, mas decidi adiantar.
Essa história será postada uma vez por semana e, como eu ando com problemas relacionados ao tempo, os capítulos serão postados com uma média de 1500 palavras.
Espero que compreendam e que gostem.
Boa leitura!!
Não precisa chorar para estar triste.
—
Meu Pé de Laranja Lima.
Sentia como se cada gota de ânimo se esvaísse do meu corpo a cada segundo que olhava para aquele corpo, agora sem vida, na minha frente. Mas sentia como se a minha vida fosse perder o sentido assim que me afastasse do caixão para que pudesse ser fechado e finalmente enterrado.
Mesmo que não conseguisse demonstrar a dor que estava sentindo, diante daquele cadáver sem cor, eu me sentia tão mal que queria somente arrancar meu coração do peito para que aquela dor descomunal parrasse de vez. Não conseguia chorar perto das pessoas, fui ensinada que demonstrar seus sentimentos é demonstrar uma fraqueza e, sendo quem sou, eu não posso ser fraca. Não importa o quanto doa eu não posso ser vulnerável. Minha mãe nunca permitiria isso.
Uma mão massageou meu ombro. Olhei para trás de mim e vi Zelena me avisando, de forma silenciosa, que já era hora de deixá-la partir.
Zelena é minha irmã. É um ano mais velha e se não fosse ela, eu não sei como me adaptaria à escola. Nós duas tínhamos suspeitas de que não éramos filhas do mesmo pai porque, enquanto eu tenho cabelos lisos e castanhos, assim como meus olhos, ela tem cabelos ruivos, cacheados e olhos azuis, além de sua pele ser bem mais clara que a de todos da nossa família.
Apesar de sermos em alguns aspectos diferentes, não só fisicamente como também comportamental, nós tentamos ao máximo ajudar uma a outra, pois para nós duas somos a única família que temos. Desde que nasci não me recordo de momento algum em que eu tenha sido feliz que não a incluísse.
Meus pais esperaram que eu completasse seis anos e nos mandaram do Brasil, no mesmo período, para um internato britânico renomado, o Instituto Morrison Academy. Onde não permitem um deslize de disciplina. O dia é cronometrado, cada aula, intervalo, ida ao banheiro, tem seu horário. Eu só posso sair de lá para ver minha família uma semana no ano, mas por incrível que pareça me sinto mais confortável naquele lugar onde parece que até meu oxigênio é controlado do que na minha casa de fato. E mesmo que seja dito como rigoroso isso praticamente é só na teoria porque depois do horário de aulas você pode fazer o que quiser desde que esteja dentro das regras, e os alunos sempre arranjam um jeito de fazer aquilo que nos é proibido, sempre burlando e quebrando regras tomando cuidado para que não sejam pegos.
Dei um passo para trás me juntando a minha irmã e os demais alunos que vieram. Ela pegou minha mão com cuidado e a apertou tentando me passar calma. Ela sempre foi mais forte que eu. Acredito que por ser a mais velha se sentia na obrigação de parecer intacta e me passar segurança o tempo todo. Mesmo que não expressasse ela sempre soube o quanto sou frágil, mas como não me sentiria mal com a minha única amiga sendo enterrada após ter de sofrer por alguns meses de embolia pulmonar?
O nome dela era Elizabeth, mas a chamávamos de Liz. Ela era uma francesa de cabelos escuros e olhos da mesma cor, que contrastavam com sua pele pálida. Conhecíamos-nos desde os nove anos quando seus pais a puseram na escola. Ela era minha colega de quarto e foi quem fez eu me apaixonar por literatura. A nossa única desavença era que ela me achava muito idealizadora por amar, escrever e procurar compreender textos e poemas Simbolistas — simbolismo é um movimento literário que eu particularmente venero, acho encantadora a forma que os escritores tentam passar o que sentem através de metáforas, e tenho que descobrir o que eles realmente querem dizer com aquilo — enquanto eu a achava meio seca e indiferente demais por se identificar com o Parnasianismo — que por sua vez é um movimento literário no qual os autores presavam pela estética da obra e não pelo seu conteúdo — Liz acreditava que Olavo Bilac (seu escritor predileto) era de alguma forma um gênio por conseguir rimas perfeitas e uma forma impecável em seus poemas. Mas para mim a literatura é diferente. A literatura é uma forma de se expressar o que sente e o que quer que os leitores sintam.
— Regina, é melhor nós irmos.
Já havia terminado e outras pessoas já estavam se afastando em direção aos seus carros e os garotos em direção aos ônibus para voltar à escola.
Fitei por alguns segundos a terra que agora cobria o caixão e olhei em volta pousando meus olhos na mãe de Liz, que vinha em minha direção. Ela estava péssima, o rosto inchado, vermelho e encharcado pelas lágrimas que tentavam ser contidas por um lenço. Ela me abraçou forte e disse que iriamos superar aquela perda. Parecia que ela estava tentando me reconfortar, o que era um tanto irônico levando em consideração que era ela que se debulhava em lágrimas enquanto eu mantinha minha compostura.
Logo depois estava com o braço da minha irmã em meu ombro enquanto íamos até o ônibus. No caminho de volta me sentei do lado da janela, permaneci em silêncio pensando e observando a estrada coberta pela neblina.
É tão estranho saber que não vou mais vê-la, não vou ouvi-la reclamar de algum garoto que não ligou para ela, não vou mais sentir aquele perfume francês que me fazia espirrar toda manhã, não vamos estudar para as provas juntas ou simplesmente ficar no jardim durante o fim de semana lendo. É tão estranho pensar que alguém tão cheia de vida e com um grande potencial tenha simplesmente se transformado em nada, algo sem vida e inútil.
“Era como ela se encontrava. Vazia, sem nenhum tipo de emoção descritível. Ela se encontrava com o coração vazio, com as mãos inquietas e com os pensamentos em algum lugar que já fez ela ser feliz. ”
—
Juliana Aquino.
Lembro-me desse trecho. Eu tenho essa coisa desde os doze anos. Sempre me lembro de um trecho de um livro ou uma citação de um autor que li em algum lugar e que descrevem o que sinto naquele exato momento. É um tanto curioso, até mesmo para mim. Mas me faz perceber que alguém já se sentiu daquela forma antes, que eu não sou a primeira a me sentir assim, e tenho a certeza de que não serei a última.
Quando chegamos à escola alguns dos alunos vieram até mim, me abraçaram e deram “apoio” da forma que podiam. Mas eu não queria aquilo, não queria a auto piedade deles. Aquelas pessoas mal conversavam comigo e agora agiam como se achassem que eu precisava daquilo. E aí é que estavam enganados, eu não precisava do suporte emocional de ninguém, eu precisava voltar ao meu quarto, me deitar e dormir. Precisava ficar sozinha para não ter mais que fingir a eles que estou bem, não ter mais que forçar um meio sorriso ou ficar repetindo “obrigada” a cada cinco minutos pelas suas supostas palavras de conforto (que não me confortavam em nada).
Aproveitei que mais ninguém veio em minha direção, ainda na entrada para os dormitórios das garotas, e me despedi de minha irmã que permanecia ao meu lado mesmo que não conversássemos sobre nada.
— Você não quer que eu fique com você? Podemos ler um livro deitadas na cama. — Ela propôs com uma expressão preocupada, que não saia de seu rosto desde quarta quando os aparelhos de Elizabeth pararam de apitar para um único zunido continuo enquanto ela dormia.
— Não se preocupe, Zel. Eu vou ficar bem. – Falei tentando realmente, pela primeira vez no dia, esboçar um sorriso verdadeiro.
Ela assentiu e fui até meu quarto, tirei o casaco pendurando-o atrás da porta. Sentei-me na cama tirando as botas e finalmente me joguei para trás sentindo o colchão em minhas costas. Arrastei-me um pouco para cima para que minhas pernas também chegassem à cama, coloquei minhas mãos entrelaçadas sobre minha barriga e fiquei olhando para cima, em um silêncio que não tinha a semanas por causa dos aparelhos.
Em questão de segundos estava chorando tanto que já soluçava. Puxei meu travesseiro acima de minha cabeça e o abracei, apertando o máximo que conseguia. Eu me sentia novamente a garotinha de seis anos que acabará de se mudar para uma escola, em um país onde se falava uma língua que só havia sido estudada, quase sem pratica, com ninguém além de minha irmã. A diferença é que pelo menos agora falo inglês com fluência, mas me sinto tão frágil, pequena e sozinha quanto naquela época.
Depois de muito tempo consegui controlar minhas lágrimas, me levantei para puxar o cobertor e me enfiei debaixo, estava exausta. Mal consegui dormir desde que seu coração parou de bater, mas vê-la sendo velada foi como se minha ficha finalmente tivesse caído e eu tivesse percebido que ela realmente se foi. Ela não vai voltar. Preciso lidar com isso.
Lembro-me que Liz disse que quando morresse se eu ficasse me lamentando ou chorando o tempo todo, ela daria um jeito de sua alma voltar, pegar todos os meus livros preferidos e joga-los na fonte do pátio principal. Ao me lembrar disso sinto uma pontinha de alegria no meio da minha morbidez naquela tarde de sábado deitada na cama no quarto totalmente escuro. Fechei os olhos e me permitir ser levada pelo sono que amenizaria minha dor.
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