Teach Me How To Love

1 Capítulo 1: Condenado


[capítulo 1: condenado]

Décadas atrás, Aeris entrou em guerra com Aquária. Um pergaminho de Aquária teria sido roubado por um guerreiro de Aeris, deixando a sacerdotisa Stela Trümper enfurecida. A guerra foi declarada sem antes apurarem os fatos, isso também enfureceu a sacerdotisa de Aeris, Engel Röscher. As duas nações irmãs brigaram entre si por meses, dando espaço para o sacerdote de Nimbus, Thor Molchevik capturar a besta sagrada de Aquária.

As bestas sagradas eram o símbolo supremo de poder de cada nação. São figuras lendárias e designadas para a proteção de cada cidade-reino. Diz a lenda de que nossos antepassados capturaram essas bestas para ajudarem nas disputas territoriais entre as nações e, após a guerra, as bestas teriam sumido misteriosamente. Somente as sacerdotisas e os sacerdotes de cada nação sabem mais sobre cada besta.

Após roubar a relíquia que continha informações secretas sobre a besta de Aqua, protetora de Aquária, Thor tentou fugir para Nimbus. Os guerreiros de Aquária o perceberam fugindo e tentaram detê-lo. Enquanto seus guerreiros lutavam com o poderoso sacerdote, Stela tentava entender o que estava acontecendo. Para isso, mandou alguns mensageiros perguntarem a Engel se Thor era seu aliado.

Engel negou a afirmação e perguntou o que o sacerdote de Nimbus tinha a ver com a guerra. Depois de explicarem a situação de Aquária à Engel, a sacerdotisa estranhou ainda mais, pois Nimbus era nação irmã à Aquária e até agora não tinha interferido na guerra com Aeris.

Engel e Stela decidiram parar a guerra para resolver o roubo da besta sagrada. Enquanto as relações diplomáticas entre Aeris e Aquária aconteciam, Thor conseguira escapar dos guerreiros de Stela e se refugiou numa caverna. Completamente emboscado, o sacerdote de Nimbus iniciou um ritual de invocação, libertando e dominando Aqua.

Com a libertação da besta, uma grande quantidade de energia proveniente de Aqua envolveu o local. Essa energia foi sentida em Aeris e Aquária. As duas sacerdotisas tiveram maus pressentimentos, principalmente Engel.

Com o domínio de Aqua, Thor iniciou sua vingança a Aeris. Desde o início, planejou a guerra entre as duas nações para distrair Stela e poder roubar Aqua. Fora ele quem roubara o pergaminho vestido de guerreiro de Aeris. Seu plano malvado tinha por finalidade destruir Aeris usando-se de Aqua. O motivo dessa vingança vinha de anos atrás, da época dos antepassados. Aeris era uma província de Nimbus, mas após conseguir Aery, uma das bestas, conseguiu sua independência. Com isso, Thor se sentiu traído por Engel e passou anos planejando vingança.

Os guerreiros de Aeris perceberam a aproximação de Aqua. Engel discutia as estratégias de combate com seus Soldiers, guerreiros chefes. As estratégias foram postas em prática, paralelamente com os pedidos de ajuda à Aquária. Stela dirigiu-se a Aeris junto a seus guerreiros e Soldiers. A batalha continuava acirrada. A besta de Aquária era muito forte para os guerreiros. Engel então planejou um ritual de aprisionamento, que falhou. Nada deteve Aqua, nem mesmo Stela, sua legítima soberana. Thor havia dominado completamente a besta e atrapalhava o sucesso dos rituais de Engel.Foi então que Engel e Stela resolveram entrar em campo de guerra contra Thor.

Eu era jovem, tinha meus quatorze anos de idade na época. Apesar da idade, eu entendia de rituais, entendia de guerra e entendia sobre as bestas sagradas. Eu era ninguém menos que o filho da sacerdotisa de Aeris. Meu nome é Hero Holzbach.

A situação da minha nação estava degradando, Engel, minha mãe teve que partir para o campo de guerra. Eu queria ajudá-la, queria poder fazer alguma coisa, ser útil... Mas ninguém me dava este mérito. E foi por isso que cometi o pior erro de minha imprestável vida.

Quando Engel saiu do palácio principal de Aeris, eu fui para a biblioteca. Já era de meu conhecimento a passagem que levava as câmaras secretas de Aeris por aquela biblioteca, embora Engel nunca dissesse nada a respeito. Aquilo era segredo meu.

Chegando à câmara principal, encontrei o que procurava: a relíquia da besta de Aeris. Uma estatueta com o formato dela cheio de códigos. Aquilo era a maior incógnita que eu encontrara nas câmaras. Apesar de ainda não ter conseguido resolvê-la e interpretar o ritual que a relíquia informava aquilo era a minha única chance de salvar minha mãe e Aeris.

Eu estava concentrado ao extremo naquilo, precisava com urgência de Aery. Foi quando uma voz estranha me alcançou a mente. Pude sentir a energia da besta envolvendo a relíquia. Ela me dizia os mesmos códigos inscritos na estatueta. Olhei para as paredes da câmara, que era cheio de códigos também. Aery parecia estar me ajudando. De súbito, as coisas começaram a fazer sentido.

As escrituras nas paredes indicavam um círculo de transmutação desenhado em vermelho.O problema era a cor, que eu não tinha, afinal, só trouxera um giz branco, pensando que o ritual poderia ser feito como outro qualquer, desenhado a giz. A voz de Aery se intensificou em uma palavra do código. Seria vermelho? Eu não sabia dizer, não aprendera muita coisa da linguagem dos antepassados, apenas a reconhecia.

Andei angustiado de um lado a outro da câmara, observando os desenhos. O problema era esse, os escritos das paredes vinham acompanhados de figuras, enquanto os da estatueta não. Isso dificultava a compreensão do ritual. Rodei a câmara mais desesperado, até tropeçar. Sem querer me ralei no chão irregular. Meu sangue começou a jorrar e logo depois ouvi a voz falando apenas aquela palavra.

Tudo fez sentido. O vermelho era sangue! Eu precisava de sangue para desenhar o círculo do ritual. Peguei uma pedra que estava jogada pelo chão do lugar e cortei meu braço, começando a rabiscar o círculo imediatamente.

Com o círculo pronto, corri ao centro com a relíquia na mão. Agora a segunda parte do problema: o cântico de invocação! O que dizer? A voz de Aery pronunciou-se feroz e rapidamente. Os símbolos da estatueta brilharam. Ela estava lendo, pensei. Sua voz sumiu depois de falar três vezes uma mesma coisa. Comecei a gelar, o tom da besta me metia medo e eu quis sair dali às pressas. Pensei em Engel e logo recobrei a coragem. Aery repetiu mais três vezes, agitando o ar a minha volta e depois sumiu de novo. Arrepie-me.Olhei para a estatueta, os símbolos não estavam mais brilhando do mesmo jeito que pararam de brilhar na primeira vez que Aery se calou. Tive uma ideia: eu iria repetir o que a besta pronunciava para servir de cântico.

Aery começou a pronunciar de novo, eu tentei acompanhá-la, mas por fim, nada aconteceu. Conferi visualmente o desenho do círculo, estava certo. Pensei no que tinha falado, me parecia igual ao que a besta falara, diferindo somente a entonação. Respirei fundo e fechei meus olhos, Aery começou a pronunciar mais uma vez, os símbolos brilharam, emitindo um pouco de calor, e se apagaram quando ela terminou. Abri os olhos abruptamente. Esperei Aery repetir paciente e, quando ela fez, pronunciei como ela, de um jeito feroz, rápido e poderoso.

O círculo brilhou junto com a relíquia, o ar começou a girar e condensar formando uma espessa neblina na câmara. Mais uma vez senti vontade de recuar. E o medo cresceu com o surgimento de uma sombra sem forma rodeando o círculo. A sombra era rápida e não me parecia amigável. Pensei em minha mãe e minha querida nação, buscando forças.

O vulto finalmente parou a minha frente. Eu controlava minha respiração, obrigando-me a ficar calmo. De repente aquela sombra pula sobre mim, ficando a menos de um metro do meu rosto. Olhos vermelhos surgiram daquela coisa. Eram de Aery. Mas porque ela não tomara forma ainda, pensei. A besta disse mais umas coisas no mesmo tom de antes, mas não era algo que estivesse na estatueta, pois ela não estava brilhando, era algo que estava em uma das paredes, mais precisamente, a que estava na minha frente.

Repeti o que ela havia dito. Os olhos sumiram e a névoa se dissipou aos poucos. Meu coração pulsava com violência. Aery sumiu.Olhei ao redor da câmara e não vi a sombra e a estatueta havia sumido de minhas mãos. Do nada, o círculo brilhou de novo e os escritos na parede ficaram vermelhos. As palavras foram se soltando da parede e se acumulado acima de mim. Logo o sangue do círculo foi puxado para cima, juntando-se ao bolo vermelho de escritos. Aquele troço emanava energia. Ficou suspenso no ar por algum tempo e depois me acertou rapidamente. Eu caí no chão.

Quando levantei, dei de cara com um dragão preto azulado dos olhos vermelhos. O bicho era como a estatueta, só que muito maior e estava me cercando com seu enorme corpo. Encarei Aery por um tempo. Ela logo se pronunciou:

-Por que me invocou? – sua voz era ameaçadora tanto quanto seu olhar.

-Aeris está sobre ataque de Aqua – falei temendo a besta.

-Aqua? – interrogou pensativa.

-A protetora de Aquária.

-Aquária e Aeris estão em guerra?

-Não exatamente. O sacerdote de Nimbus armou uma guerra entre as duas nações para distrair Stela e roubar Aqua.

-Thor?

-Sim.

-Continue...

-Ele roubou Aqua para destruir Aeris.

-E quanto à sacerdotisa de Aquária?

-Stela? Ela está ajudando a sacerdotisa de Aeris agora.

O enorme dragão se aproximou do meu rosto.

-E pretende me colocar contra Aqua?

-Foi a única coisa que consegui pensar. Aqua é poderosa demais para os guerreiros e enquanto Thor estiver a comandando, não será possível aprisioná-la.

-Certo garoto. Mas para isso você só precisava ter me invocado.

-E foi o que fiz – falei confuso.

-Não, você não me invocou apenas.

-Não – comecei a suar frio.

-Você fez um pacto comigo, garoto. – Aery disse o que iria marcar minha vida para sempre, mal sabia eu o que aquilo significava.

-Pacto?

-É, mas não temos tempo para explicações, suba em mim. Irei impedir Aqua. – Aery ordenou.

E foi assim que selei meu destino. Aery perfurou a parede da câmara e saiu voando para os portões da cidade, onde Aqua estava atacando. Foi um combate histórico, depois de tantos anos, verem as antigas bestas brigando assustou os moradores de Aeris.

Quando Engel me viu, não sei ao certo o que suas feições diziam: medo, surpresa, alívio... Ou uma mistura de tudo. Thor fora pego de surpresa, não só por ver Aery, mas também por me ver junto à besta.

Em algum momento da luta, eu perdi a consciência. Thor apelou para golpes baixos, usando Aqua para ferir Engel. Só me lembro que meu sangue começou a ferver de raiva antes de apagar.

Quando acordei, estava eu estava acorrentado no sofá do palácio principal. Ouvi minha mãe falando com Stela e uns Soldiers. Aquele foi o pior momento da minha vida. Um dos Soldiers recomendou que Engel me prendesse na sela de segurança máxima de Aeris. E pior do que ouvir aquilo foi ouvi-la aceitar a proposta. Eu me tornara um ícone de perigo social. Mas eu só queria salvar Aeris, pensei irritado. Eu não conseguia falar nada, pois minha boca fora costurada.

Engel percebeu que eu me agitava no sofá. Ela se aproximou de mim e segurou meu rosto:

-É para o seu bem, meu anjo – disse com lágrima nos olhos. Tudo mentira!

Ela se afastou, vendou meus olhos com um pano, e deixou que o Soldier me levasse. Eu me debatia inutilmente. Tentei invocar Aery para me salvar e senti uma dor descomunal. A partir daquele momento eu soube duas coisas: a primeira é que eu ficaria preso por segurança nacional numa prisão de segurança máxima, localizada numa montanha um pouco afastada do centro de Aeris. E a segunda é que eu fora selado para não poder invocar Aery.

[fim do capítulo 1]

Notas finais
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