Te desafio

1 Te desafio


Notas iniciais
Resolvi fazer essa fic após ver tantas pessoas desperdiçando a vida com relacionamentos fracassados. Todo relacionamento é um ciclo, e quando acaba, só nos leva para baixo. Ame e lute apenas por quem te ama e luta por você, e é uma luta constante, uma guerra que jamais terá fim.

Emma entrou no salão, não sabia onde esperar, foi obrigada a estar alí, sendo a companhia de seu esposo. Estava se sentindo uma boba dentro de sua fantasia de fada azul — a única que tinha e servia nela na loja de aluguel de fantasias — O que era um milagre ainda estar aberta devido ao horário. Foi chamada no último momento, o convite veio por um telefone uma hora antes.

Olhou ao redor e não viu nenhum rosto conhecido, mentalmente se xingou — era um baile de máscaras, a intenção é o anonimato. — Sentou em uma cadeira no canto do salão e pediu por dose dupla de whisky, sem gelo e sem água. Virou o copo em dois goles, a máscara de baile atrapalhando um pouco.

— Isso é novidade, jamais imaginei que uma fada virasse um copo como um caminhoneiro. — Uma voz feminina, um pouco rouca, falou atrás de Emma.

A fada falsa respirou fundo e ignorou a intromissão, que não bastava falar asneira, ousou sentar ao seu lado.

— Duvido que você beba uma de whisky e uma de rum juntas de uma vez? — A voz desafiou.

Emma encarou a mulher que estava fantasiada de cowboy do velho oeste, o chapéu um pouco abaixado lhe dava um ar de mistério, sua máscara de baile era vermelho sangue, avivando os olhos chocolates.

— Você vai pagar? — A fada quis brincar um pouco.

— Se eu puder beber também? — perguntou, sorrindo de lado, o batom carmim lhe caia muito bem.

— Você sabe que aqui não é uma festa gay, certo? — Emma levantou uma sobrancelha, queria saber até onde aquela morena iria.

— Não estou te pedindo em casamento, nem tudo se resume a romance. Estou te desafiando a entornar duas bebidas diferentes... De uma vez. Apenas isso, está com medo, fadinha?

— Você disse que pagaria se pudesse beber comigo? — Emma estava confusa, não estava sendo cantada?

— Eu não pedi pra beber com você, pedi apenas para beber. É isso que fazemos em uma festa, Emma. — a morena levantou a mão, chamando por um garçom. — Dois whisky com Run... Duplo.

O garçom trouxe os copos, sorrindo a cowboy entregou o de Emma e levantou o próprio. — Desafiada?

Emma sorriu e virou seu copo, fechou os olhos ao sentir o amargo e ácido em sua boca. O líquido queimando sua garganta. Sentiu uma leve tontura momentanea. Olhou a cowboy ao seu lado, copo vazio, sorriso no rosto.

Emma se sentiu bem. Sempre agia quando era desafiada, as cicatrizes de joelhos ralados na infância, mostram o quanto ela jamais desistiu após um desafio. Enquanto algumas mulheres eram "Maria vai com as outras", Emma era Maria vai com ninguém. JAMAIS fugia de um desafio. E amava dar aquele sorriso triunfante.

— Você não é fraca, menina. — Cowboy elogiou.

— E também não sou ingênua pra ser embebedada.

— Seria uma escolha sua, querida. — sorriu de lado. — Sou apenas uma oportunidade que você tem de sair da rotina.

Emma rodou a aliança em seu dedo, por algum motivo, aquele adorno ficou pesado e incômodo de repente. — Não tenho problemas com rotina. — levantou a mão e refez o pedido da morena. — Agora sou eu que te desafio.

— Jamais fujo de um desafio também. — pegou o copo oferecido pelo garçom, brindando.

Emma novamente virou o copo, dessa vez sua garganta não queimou, mas sua visão ficou um pouco turva por alguns segundos. Sorriu e abriu os olhos. A sensação em seu corpo era maravilhosa, sentia-se livre. As amarras de um casamento falido não incomodava mais. Esfregou um pé no outro, o calcanhar incomodando.

— Deseja tirar esses sapatos? Tenho a impressão que você não é acostumada com saltos. — a morena perguntou.

Emma escondeu os pés atrás da cadeira e olhou ao redor apreensiva. Seu pé doía, mas ela sabia que não poderia fazer isso. Seu marido jamais permitiria um desleixe na imagem.

— Relaxa fada, aqui ninguém irá te reconhecer, nem mesmo seu marido. Você ao menos sabe aonde ele está?

Emma olhou ao redor. Sua ideia era beber um pouco e procurar Killian.
Killian Jones, o homem que um dia ela amou e agora nem reconhecia mais.

— Você merece mais que isso. — a cowboy bebeu de um copo que Emma nem havia percebido antes.

— Da onde veio esse copo?

— Eu estava com ele quando cheguei aqui. Você não repara muito nas pessoas ao seu redor. — foi uma afirmação. Uma afirmação feita com um sorriso de desprezo.

Emma queria dizer que não podia reparar nas pessoas, seu marido era muito ciumento, mas se calou, não deveria dizer tudo a uma estranha. Mesmo querendo tanto. Às vezes tudo que ela queria era falar sobre o vazio e peso dentro de si. As cores que não saiam dos tons cinzas, os programas de comédia que não eram capazes de tirar uma risada. As lágrimas que ela deixava cair no chuveiro e os gritos abafados pelo travesseiro. Ela só queria se abrir.

Refez o pedido ao garçom.

— Resolveu ficar bêbada, querida? — A morena pegou o copo oferecido.

— Estou sozinha no momento, posso me dar a esse luxo. — Sua voz soou ácida, era assim que ela se sentia durante todo o dia.

— Estou aqui, minha presença não conta?

— Você é apenas uma estranha vestida de cowboy... O que é ridículo por sinal.

A morena retirou o chapéu e passou a mão nos cabelos. Emma acompanhou todos os movimentos, aquela mulher era tão elegante. — Não preciso ser estranha, se você não quiser. — Retirou a máscara.

— Você trabalhou pro meu marido. — Emma reconheceu a mulher.

— Não. Seu marido trabalhou pra mim. E você não passa de uma simples secretaria pra ele, ao menos foi isso que escutei.

Emma colocou as mãos no colo, envergonhada por ter se rebaixado tanto. Enquanto seu marido desfilava de carro sport e rolex, ela reciclava seu próprio guarda roupa. Ninguém reparava nela, era como um quadro na sala de espera, estava ali, mas todos estavam ocupados demais aguardando algo para reparar seus detalhes.
Olhou assustada para a morena, lembrou como ela falou seu nome no começo da conversa, logo quando sentou na mesa.
Aquela morena, entre tantas, reparou nela.

— Você merece coisa melhor que ele, querida. — Não olhava para Emma, os olhos castanhos estavam perdidos em algum lugar distante.

— Não precisa ficar me chamando de "querida", sei que você sabe meu nome.

— Sei apenas aquele que você me deu no dia que contratei o trabalho do desprezível do seu marido. — Emma arregalou os olhos pelo "desprezível". A morena respirou fundo, sentiu que precisava explicar. — Quem não honra um contrato, não honra seu cônjuge, ou melhor, não honra nada. Você merece mais que isso.

— Você não o conhece, você não sabe se eu mereço ele ou não. — Emma tentou argumentar.

— Merecemos o que lutamos pra ter. Você quer lutar por ele? Aquele pirata não merece seu tempo. — a morena apontou três homens fantasiados de piratas bebendo em um canto. De longe, parecia que eles cantavam uma mulher. — Sabe, em uma festa a fantasia escolhemos o que queríamos ser. Ele escolheu ser um pirata, sabe o que um pirata é?

— Alguém com uma perna de pau e mão de gancho. — Emma deu de ombros, não sabia que o marido iria àquela festa até o momento que ele exigiu sua presença.

— Um pirata é aquele que consegue tudo do jeito mais fácil. Por ser egoísta, coisas materiais sempre são atrativas para eles. Coisas como ouro, carros importados, mulheres bonitas... Não importa, eles sempre querem um troféu pra chamar de seu. Sempre querem ser proprietários de algo. — seu olhar era afiado havia raiva alí? — Só os problemas deles importam, os seus ficam em segundo plano.

Emma sentiu uma experiência por trás daquelas palavras. Pediu mais um copo, dessa vez, apenas com whisky, um anestésico líquido.

— E você veio de fada, Emma. Fadas são a versão humana das borboletas.

— Foi a única coisa que tinha na loja. — a loira deu de ombros.

— Não acredito que em uma loja que trabalha com fantasias, teria apenas uma para alugar.

— E você? Por que cowboy? Quer atirar em alguém? — Emma atacou, odiava ser lida com tanta facilidade.

— Quero salvar alguém. — respirou fundo, olhando ao redor – É isso que você quer para o resto da sua vida? Receber apenas migalhas? Ele já nos viu aqui, mas prefere estar lá, sorrindo e brincando com outros. Ele nem questionou porque exigi sua presença.

— Eu o machuquei muito, e mesmo assim ele lutou por mim.

— E agora não luta mais... E é você quem está sendo machucada.

— Tenho um pouco de medo do que ele pode fazer. Ele pode tirar meu filho de mim. Ele ama aquele garoto tanto.

A morena sorriu de lado. — Não precisa ter medo disso, eu garanto sua segurança se você se permitir ser feliz. E tenho amigos que podem ajudar ele continuar vendo seu filho, sem precisar que você esteja em cativeiro na sua própria casa.

— Não posso encara-lo e dizer que acabou. — Foi libertador assumir pela primeira vez que acabou. Foi como correr com uma mochila pesada por longos quilômetros e tirar ela, sentido o ar fresco secando o suor e os ombros ficando mais leves.

— Existe whatsapp e email. Faça sua escolha e não se dê desculpas. — Regina drenou o copo.

Emma pegou o celular, retirando a máscara.

— Digite no carro querida, enquanto buscamos seu filho e sua liberdade.

— Confesso que meu coração está disparado. Mas... E a festa? — olhou o salão lotado.

— É minha, não tenho paciência para aguentar bajulações. A morena levantou, estendo a mão para Emma. — Te desafio a ser feliz, Emma Swan.

Emma pegou a mão oferecida. — Lembrei de você. Regina Mills, a única pessoa que reparou em mim naquela sala bege e me ofereceu outra oportunidade de emprego.

— A proposta ainda está de pé, você é forte e apenas precisa de alguém que te desafie, que não permita que você seja "Maria vai com as outras."

Entraram no carro e Emma digitou sua mensagem:

"Quando você estiver lendo essa mensagem, estarei distante. Sorry, algumas coisas não conseguimos dizer olhando nos olhos.

Aprendi muito com você, aprendi a me doar sem esperar receber nada em troca; Aprendi a me individar em segredo para suprir qualquer capricho seu; Aprendi a não respirar alto em casa para não te incomodar... Mas sabe o que faltou aprender?

Aprender que quando você entrega seu amor inteiro a uma pessoa, essa entrega é vista como submissão, e você se torna um abajur da casa: está sempre ali, visto apenas pelo canto dos olhos, sem receber importância até que alguém precise de luz.

Minha doação não impõe mais desafio, não exige a reconciliação, me tornei mercadoria barata. Fiquei soterrada por minha própria generosidade. Te tanto dar, banalizei meu valor.

Expus tudo que sou e tudo que sinto, fui demais, sou intensa demais. Mas o alimento é a isca do veneno e fui fisgada por meus próprios atos.

Você jamais entenderá o preço dos meus sacrifícios, pois não os demonstrei. Sofri, agindo como se fosse natural. Te mimei, escondendo a fadiga e todo o trabalho por trás. Apresentei uma felicidade que não existia. Agora, se eu colocasse nesse papel tudo que fiz por você, seria inútil. Você dirá que estou jogando na cara tudo que ofereci de graça, que nunca pediu nada e não posso cobrar juros de minha bondade. E quer saber, você tem razão. Fui eu que me doei.
Você lutou por mim, mas desistiu quando teve minha devoção. Aprendi que amor é sempre se reinventar, é circular, por isso precisa de esforço para estar sempre girando, a luta nunca termina.

Estou levando comigo apenas o que é meu: minhas roupas, minha intensidade e orgulho ferido... E o mais importante, estou levando meu amor, esse, não importa o quanto eu entregue, sempre sobrará mais e mais.

Em uma relação não há estorno, os dois precisam doar, ou tudo, não será nada. Desculpa por te deixado assim, sem um último beijo de adeus, mas fui desafiada a ser feliz, e você me conhece, jamais deixo de cumprir um desafio.
Emma Swan."

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