Te amar não estava nos meus planos
28 Frenesi.
Meu estado de inconsciência não durou tempo, e eu abri os meus olhos, e de repente não estava mais embaixo d'água. Não havia desespero, e nem nada do tipo. Eu estava em um colégio diferente do meu, sentada à mesa junto com pessoas até então desconhecidas. Mas que, incrivelmente, me conheciam a ponto de me bajularem em alguns momentos.
Mas eu também demonstrei conhecê-las ao me comunicar com elas, e eu sabia o nome da garota de minissaia que perguntava como estava o meu relacionamento com Eduardo.
Menti, dizendo que estava tudo ótimo. Rindo por dentro de ser capaz de permanecer em dois relacionamentos ao mesmo tempo.
Corri os olhos por todo o refeitório a procura de Bianca e Gabriel, mas não os encontrei. Não havia nenhum vestígio deles. Eu estava rodeada por garotas da minha idade, aquelas típicas meninas populares que estão sempre bem vestidas e enfeitadas. Que nunca repararam em mim, garotas como Jéssica, Lisandra e Patrícia. Porém, agora, não só reparavam como estavam usando brincos exatamente como os meus, entre outros acessórios também.
Meu cabelo estava diferente também, um pouco mais curto, e minha franja tampava minha testa. Eu estava maquiada na escola, maquiada! Como era possível? Eu não tinha nem coragem de pentear o cabelo para ir à escola. Meus lábios estavam encharcados de batom, minhas bochechas rosadas como se eu tivesse passado um pouco mais de blush e meus olhos esfumaçados como se eu tivesse passado algum lápis preto ou coisa do tipo. Meus cílios estavam maiores por causa do rímel. E lentes de contato pretas escondiam meus olhos castanhos claros. Quando pus minhas mãos na mesa, o esmalte vinho presente nas minhas unhas grandes chamou minha atenção.
Era eu, eu tinha certeza, mas ao mesmo tempo não parecia comigo.
Eduardo se aproximou e me deu um simples selinho, e depois caminhou para se sentar em algum espaço vago, o que era difícil de encontrar. Eu não queria que ele ficasse longe de mim, queria que se sentasse ao meu lado, mas não tinha lugar. Olhei para a garota de minissaia que se divertia com os altos papos sobre alguma bolsa na moda com a garota loira que também estava à mesa, só que em minha frente, olhei-a sem expressão e totalmente impaciente. Mas fingi um sorriso que não parecia nada gentil e amistoso.
— Tem como você deixar meu namorado se sentar ai, querida? — Falei mais ordenando do que pedindo a ela. Esta se levantou um pouco a contra gosto e se sentou no único espaço vago, que ficava um pouco distante. Eduardo balançou a cabeça meio contrariado, mas depois de muito esforço, consegui fazê-lo se sentar ao meu lado. Enquanto Eduardo comia e acariciava carinhosamente o meu ombro, eu conversava animadamente com Dani, sobre alguma coisa relacionada a alguma competição que eu havia ganhado há pouco tempo e, estranhamente, sobre uma garota chamada Olivia. No meu interior, percebi o sentimento de rejeição e repudiação que eu sentia pela garota. Como se ela fosse uma verdadeira piada.
Uma aluna de estatura média e que deixava os cabelos partidos ao meio, cheia de sardas e aparentemente desconfortável por passar ao lado da mesa que eu estava, se aproximou trazendo consigo uma sacola pequena de salgado, provavelmente uma coxinha. E, olhei-a furtivamente acompanhando seus passos, e ri quando Fernando colocou o pé à frente da garota estranha e a mesma caiu com tudo no chão. Espatifando-se de uma maneira desengonçada e hilária.
— Relaxa, Olivia, do chão você não passa! A não ser que você o ultrapasse, o que eu não duvido que consiga! — Dani zoou, arrancando mais risadas minhas e do pessoal.
Ri um pouco mais, assim como todos à minha volta. Com exceção de algumas pessoas que se encontravam no refeitório, principalmente o Eduardo. Parei de sentir os dedos dele sobre meu ombro e dei de ombros, não me importando com tal atitude. Voltei a conversar animadamente com Dani e reparei os olhares de Bruno em mim, e gesticulei com os lábios, sem usar minha voz, que me encontrasse no horário e lugar de sempre. Bruno apenas sorriu maliciosamente, e voltou a conversar com Eduardo e outros garotos presentes ali.
Quando o intervalo terminou, levantei-me a fim de ir à sala de aula. Mas, quando dei o primeiro passo, Eduardo puxou-me pelo braço fazendo-me virar e encontrar seu olhar severo sobre mim. Como se fosse o meu pai. Apenas soltei um sorriso e entrelacei seu pescoço com meus braços, tentando beijá-lo, mas ele desviou sua boca. Franzi a testa, totalmente confusa. Ficamos em silêncio, até toda a galera se retirar. Por fim, ele soltou meu braço.
— Eu não quero que você continue tratando a Olivia assim, está me ouvindo, Margareth? — Avisou, estava tão sério que quase acreditei que não estava brincando.
— Ora, amorzinho! — Ri, ainda achando graça do que havia dito, soltando-me um pouco dele. — Adoro suas piadinhas!
— Não estou brincando, é sério. Não gosto que você trate ninguém dessa maneira. Tenho certeza que não gostaria de estar no lugar dela. — Advertiu-me, mostrando estar realmente falando sério. Fiquei indignada com seu argumento, não havia sentido naquilo.
— Amor, se liga: Eu jamais estaria no lugar dela. Eu jamais, jamais iria permitir que minha boca encostasse naquele... Naquele troço encharcado de gordura e em hipótese alguma iria deixar meu cabelo partido ao meio daquele jeito. Por que você sempre tem que dar uma de defensor dos fracos e oprimidos, Eduardo? Sempre contra mim! Ai, isso cansa, me deixa! — Falei impaciente, afastando-me completamente dele, e, sem me despedir, dei passos em direção ao banheiro como se eu fosse realmente pra lá, mas quando vi que ele foi embora para a sua sala, adentrei o outro corredor que me levava a uma espécie de depósito da escola que ninguém ia, onde ficavam várias coisas insignificantes, como a tal Olivia.
Quando cheguei, Bruno já estava a minha espera. Tudo o que eu fiz, com um sorriso totalmente malicioso estampado no rosto, foi me aproximar dele e beijá-lo. Deixando-me ser guiada até a parede, onde fui prensada por ele. Suas mãos percorreram por todo o meu corpo, subindo em direção as minhas coxas por baixo da minha saia.
— Fica comigo. Abandona logo o idiota e sonso do Eduardo e fica só comigo. Prometo que vou te fazer feliz, — deu uma pausa, puxando minha perna com tudo e entrelaçando-a em sua cintura. — e saciada.
— Tudo ao seu tempo, amorzinho. — Digo, mentindo a ele. Inexplicavelmente, eu sentia que minha intenção não era deixar o Eduardo, e muito menos deixar de me divertir com Bruno. Minha intenção era simplesmente poder tê-los quando eu quisesse, à minha disposição, e não tinha coisa melhor que isso!
Afinal, o caminho para a morte era esse? Passar cenas no seu subconsciente de você não sendo exatamente o que você é? Como se mergulhasse numa imensidão sem fim e descobrisse o pior de você, um pior totalmente incompatível à realidade. Mas não fazia sentido, porque de uma coisa eu tinha certeza: Eduardo era o melhor de mim. Então, porque carambolas, ele estaria presente nessa encenação?
Estar num esfera de demência e delírio tão desatino e inescrupuloso fez o desespero me consumir e me fez suplicar para que isso não fosse verdade. Graças ao excesso de energia que possivelmente estaria sendo gasto graças a essa situação, não duvidaria se meu corpo estivesse suando tanto a ponto de um ar condicionado não dar conta. E muito menos um congelador.
Eu não queria ser assim. Eu não poderia ser isso. Eu merecia viver, porque eu não chegava a ser tão horrível a esse ponto. Eu... Eu queria voltar! Eu queria viver, à princípio, porque eu enxergava uma vida ao lado de Eduardo. E eu queria desesperadamente vivê-la.
(...)
Eduardo
Terminei de pagar o algodão doce que comprei e procurei Antônia por toda parte, mas não a encontrei. Vi uma aglomeração de pessoas encostadas no pequeno corrimão que mantinha as pessoas afastadas da borda do píer, e automaticamente associei aquele lugar ao que Antônia prometeu me esperar.
Sem saber o que imaginar e totalmente preocupado, segui com passos longos em direção as pessoas, perguntando-as o que acontecem. Só que tudo o que diziam era que, de um jeito inexplicável, uma menina havia caído ali. Mesmo com aquela proteção, que deveria servir de alguma coisa.
Rapidamente, encontrei um par de olhos conhecidos em meio à multidão. Supliquei que Lauren me dissesse o que estava acontecendo. Ela apenas abaixou a cabeça, aparentemente triste.
— O que aconteceu, Lauren? Me diz! Pelo amor de Deus, cadê a Tônia? Cadê a minha namorada? — A bombardeei de perguntas, sem me preocupar em demonstrar o exagero de aflição e de medo que inundavam não só a minha voz, mas o meu interior também.
— Ela estava agora há pouco, Eduardo. Mas, de repente, jogou-se no mar. Acho que queria apenas se divertir, não sei. Até agora ela não apareceu. Já chamaram ajuda, deve estar vindo. É só esperar e torcer pra que tudo acabe bem. — Disse, vindo ao meu encontro e me abraçando.
Fiquei estático, sem reação. Não acreditando naquilo, Antônia não era tonta a ponto de se jogar. Algo estava errado, muito errado. Mas eu não tinha cabeça para supor nada, apenas sabia que eu não poderia perdê-la. Eu não poderia. A única coisa que conseguia concluir, constatar, era que a garota que eu estava completamente apaixonado afundava naquela imensidão. Por conta da minha reação, não consegui retribuir e nem me afastar do abraço de Lauren.
Eu tinha que me mexer, tirar forças não de sabe onde e fazer algo que a traga de volta. E viva. Porque, se algo acontecesse com ela, se eu a perdesse de vez, estaria condenado à morte também. Parecia exagero, entretanto, era a pura verdade.
Sem pensar duas vezes, tirei meu tênis e minha camiseta e joguei-me no mar à sua procura, mergulhei tentando encontrá-la, desesperando-me a cada segundo que se passava e ela não estava em meus braços salva, e também pela dificuldade de manter minha respiração presa.
Nada dela, nenhum sinal, nenhum vestígio.
Meus pulmões já reclamavam por conta da falta de ar, mas eu não iria desistir até que a encontrasse. Nem que eu me perdesse nesta imensidão, uma hora eu teria que encontrar seu corpo, mesmo que fosse tarde demais.
Finalmente a vi, meu instinto foi nadar até ela e levá-la o mais rápido possível para a superfície. Estava desacordada. Quando cheguei, aliviado por permitir que meus pulmões se saciassem novamente com o ar puro, tendo Antônia em meus braços, minha reação foi fechar os olhos e insistir que ficasse bem e viva. Que sentisse meus dedos em seu rosto e em seu cabelo, e pudesse se nutrir através do excesso de amor e ternura que meus olhos poderiam passar a ela.
Graças à ajuda que tive, consegui colocá-la no píer. Ver Antônia tão pálida em minha frente, como se estivesse morta, fez um medo irracional se expandir dentro de mim e meus olhos não aguentaram e se inundaram de lágrimas. Nunca havia me sentido tão dependente, tão necessitado e incapaz como agora.
Nem quando Maggie havia morrido.
E sentir isso doía tanto que ser capaz de segurar as lágrimas era uma tarefa completamente impossível. Mesmo cansado por ter nadado tanto e feito um esforço duplicado graças ao desespero, arrastei-me em direção ao corpo de Tônia e tive a impressão que sua boca moveu-se fracamente formando um sorriso mal feito, que era um dos mais lindos que eu poderia ver na vida.
Tentei fazer respiração boca a boca nela, mesmo nunca tendo feito antes. Eu só queria salvá-la, para me salvar. Isso era uma maneira meio egoísta de salvar alguém, mas nada eu poderia fazer. Antônia tossiu, de seu nariz e de sua boca saíram espumas, e ela era incapaz de abrir os olhos. Naquele mesmo instante, tentaram me tirar de perto dela. Não vi os rostos dos caras, pareciam ser paramédicos, pois estavam vestidos a caráter.
Minhas lágrimas desciam com mais intensidade, enchendo meu coração de agonia, fazendo-o diminuir, se apertar tanto a ponto de doer fortemente. Um grito de dor passou pela minha garganta, e minha cabeça afundou no abdômen de Tônia, lutando contra os meus medos, querendo ganhar com o argumento que ela ficaria bem, que jamais me deixaria sozinho. Peguei em sua mão, tive a leve impressão que ela apertou meus dedos fracamente, de maneira tão frágil que pareceu ser apenas um roçar inventado pelo meu subconsciente.
Colocaram uma máscara de ar nela, e isso me desesperou ainda mais. Não se tratava de um simples afogamento, ela não havia despertado.
— Eu te amo, Antônia. Não me deixe, por favor. Eu te imploro, eu imploro. Não me deixe sozinho! Pelo amor de Deus, não me deixe! — Pedi insistentemente sendo vencido pelo cansado e permitindo que me afastassem dela. Jogado em qualquer canto, acompanhei examinarem ela. Colocaram-na numa ambulância, e com a ajuda de Lauren, levantei-me do chão e quando vi Alicia correndo em minha direção, com a expressão triste e preocupada, peguei-a no colo afagando seus cabelos e dizendo que tudo ficaria bem. E tentando me convencer disso também.
Um pouco melhor, por possivelmente acreditar em minhas palavras, Alicia saiu do meu colo antes de limpar uma lágrima do meu rosto e encostar sua testa na minha.
— Ela prometeu que brincaria comigo hoje à noite, então ela não vai ficar dodói por muito tempo. — Alicia tentou me tranquilizar, percebendo como eu estava. Sorri diante de sua inocência.
Finalmente, pude acompanhar Antônia até o hospital. Não deixando de estar um segundo sequer ao seu lado. Segurando em sua mão com a intenção de mostrar que eu permaneceria ali, ao seu lado. Não importasse quantos obstáculos e impedimentos eu encontrasse à minha frente. Era uma promessa minha para ela. E mesmo que eu nunca conseguisse cumprir todos os meus juramentos feitos ao vento, esse eu faria questão de cumprir. Porque eu havia prometia a ela, e a mais ninguém.
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