Te amar não estava nos meus planos
13 Olhe pela janela.
— Desde quando o pessoal desta escola é fonte confiável? — Retrucou minha pergunta, aparentemente vencendo. Tirei suas mãos no meu braço para me afastar, ele deu um sorriso de ''vitória'' por eu não ter mais argumento. Não teria nem se eu quisesse, ainda estava estranhando o que me deu. Quando me recuperei, virei-me para encará-lo da mesma forma que me encarou. Puxei-o pelo braço, e por não ser tão forte quanto ele, não consegui empurrá-lo até à parede. Mas o suficiente eu fiz, que foi fazê-lo me olhar atentamente novamente.
— Então... — Sussurrei. Bem próxima à ele, como se pedisse que me escutasse atentamente. — Então seja o que for, não haja comigo dessa forma. Não estou incluída nesse ''motivo'', então não precisa se esconder de mim. Eu sempre estive nem aí para as suposições que os outros faziam a respeito do motivo que levou você e Bruno se odiarem, e vou continuar estar enquanto não houver provas. — Ele me escutou e depois de um tempo, sorriu de lado. Deixando seu rosto mais calmo, seus dentes totalmente brancos pareciam brilhar junto com seus olhos, minha nossa, não tinha coisa mais fascinante que observá-lo tão perto.
— A única prova que teriam está morta. Morta. — Sussurrou parecendo entristecer novamente.
Eu não havia entendido o que ele tinha dito, mas estava visível que isso o machucava, ele olhou pro lado como se quisesse segurar uma enorme vontade de chorar e eu nunca tinha visto algo assim. Eu não sabia como agir, a única reação que tive foi me aproximar e abraçá-lo. Eu queria confortá-lo, mesmo que eu não soubesse o porquê dele de repente estar assim. Morta. É uma palavra forte, então, pra minha felicidade, não haveria provas que me fizessem desistir desse plano. Mas, pra ser sincera, nesse momento eu não estava com cabeça nisso.
De começo ele não retribuiu o abraço, estava assustado com a minha atitude, mas também não me afastou. Depois de um tempo seu coração acalmou-se, eu pude sentir. Seus braços quentes circularam-me e houve retribuição, eu suspirei ao sentir seu dedo mexer no meu cabelo e seu olhar fitando-me. Ainda bem que eu não estava com a cabeça virada pra ele, assim eu não o veria.
Deitei minha cabeça lentamente em seu ombro, me aconchegando e o abracei com mais força, de certa forma, estar assim era bom. Bom demais pro meu gosto. E arriscado. Só que eu não me importei. Eu acho que ficamos muitos minutos ali, tanto que eu nem reparei o sinal bater. Quando bateu, assustei-me, afastando-me dele de repente. Eduardo percebeu como isso havia sido estranho e preferiu não falar nada. Eu também não disse, era melhor assim.
Fomos até nossas respectivas salas, eu segui de cabeça baixa. Envergonhada. Quando cheguei à sala vi que Bianca encarava-me como se perguntasse como foi. Eu sorri de lado, sentei-me a sua frente, sem virar. Não queria que meus pensamentos viajassem, por isso, tirei meu material da mochila e o coloquei sobre a mesa. Ela futucou minhas costas para eu olhá-la.
— Então? — Instigou cheia de expectativa.
— Deu tudo certo, eu o desculpei e acho que estou a um passo de conseguir o que quero. Um passo longo, mas ainda sim apenas um passo. — Alertei.
— Você tem certeza mesmo que é isso o que você quer? Que é dessa maneira que você quer chamar a atenção do Bruno? Não seria mais fácil você ir até ele e tal? Tomar coragem. — Indagou. Ela tinha ainda muito receio por mim, dava pra notar.
— Eu não te contei. E nem pra ninguém. Mas um tempo atrás eu criei coragem não sei de onde e consegui ir até ele. E pode não acreditar, falar com ele. — Abaixei minha cabeça.
— Por que não me disse? — Bianca entreabriu a boca, chocada com a notícia.
Eu nunca havia contado pra ninguém, porque a sensação que tive foi a pior possível, me senti envergonhada, atordoada e um pouco humilhada.
— Porque eu me senti tão mal a ponto de não querer que ninguém soubesse. E se você soubesse, do jeito que é esquentada, ia dar um jeito de fazê-lo se arrepender. — Entortei a cabeça, olhando o nada.
— Me conta, Antônia. Agora. — Falou séria.
— Como eu disse eu fui até ele, mas parecia que ele não queria falar comigo. E nem me olhar. Todas vezes que virava o rosto pra mim, desviava. Ele nunca fez isso com outra garota, pelo contrário. Ele parecia querer se afastar rápido, porque eu estava próxima dele. Eu não sei explicar. O modo como ele me olhou me fez criar suposições na minha cabeça, me abatendo. Porque havia uma certa mágoa e raiva quando soltava as palavras curtas pra mim, você entende? Parecia expressar uma raiva ou algo assim por mim, o que eu não entendi, porque não há motivos pra isso. Não que eu saiba. — Ela me olhou confusa.
— Você deve ter imaginado coisas. Não existe motivos pra ele ter agido assim. Até em cima de mim ele já deu, mesmo sem nem saber o meu nome, imagina você que sempre pareceu tão interessada, normalmente garotas assim são as que ele mais se aproveita. E pode ter certeza, você é linda. Falta de beleza não é motivo. — Estranhou. Arqueei uma sobrancelha. — Desculpa Tônia, mas você sabe que é a verdade. — É. Não tinha como enfeitar essa verdade. — Você deveria esquecer essa louca paixão platônica por ele que eu nunca entendi o porquê, e se jogar em algo mais sádio, num amor mais real. — Tocou meu rosto com a mão, olhando-me de forma carinhosa, eu sorri de lado e fechei os olhos deixando uma lágrima escapar. Sentia-me mais sensível.
— Eu sei que gosto dele. — Expressei-me enquanto abria os olhos lentamente.
— Eu tenho quase certeza que isso é algo que você colocou na sua cabeça, e que no máximo pode ser um encantamento.
— É amor. — Sussurrei persistente.
— Faça isso. — Suspirou. — Continue com esse plano maluco. Talvez no fim dele estejam todas as respostas. — Afirmou agora decidida, e eu tremi, ao saber que talvez ela tinha razão. — Só toma cuidado para não se machucar se não for o que você espera. — Aconselhou-me atentamente, como se suplicasse. Eu sorri tentando confortá-la.
— Não há nada para se preocupar. — Murmurei.
As aulas seguiram no seu ritmo habitual e o intervalo de hoje havia sido normal. Quando cheguei em casa, já cansada, corri pro meu quarto e tomei um banho, tirando todo peso do corpo, ou parte dele. Vesti-me com um pijama qualquer e deitei em cima da cama, entrei no facebook e cheguei ao perfil do Bruno.
Vi suas fotos, sorri ao ver como seu sorriso era lindo. Assim como ele inteiro. Foi aí então que percebi que valia a pena continuar com isso, eu ainda não tinha pensado nos últimos ajustes, pois ainda era cedo. Por um segundo me senti culpada por envolver Eduardo nisso, sendo que ele parecia de certa forma tão machucado. Mas eu não tinha o propósito de machucá-lo, isso não aconteceria, o sentimento de amizade era real por minha parte, por mais que nessas circunstâncias.
Lembrei-me de Eduardo, de sua expressão, do modo como agia e relacionei isso com o que eu já senti: Amor não correspondido. O problema é que não tinha como ser por esse motivo, ele era lindo, perfeito, pra não dizer o contrário, eu sabia que por trás daquele garoto fechado havia um Eduardo melhor. Poderia ter a ver com a discórdia entre ele e Bruno. Entretanto também parecia ser muito cedo pra fazer suposições, e por mais que eu desejasse que o Bruno fosse o certo da história, eu tinha quase certeza, aqui dentro, que teria mais uma decepção com aquele que eu insistia em amar mesmo dessa forma.
Foi quando escutei um barulho. Meus pais não estavam em casa, por conta do trabalho. Eu estava sozinha, e isso causava-me um certo medo. Nunca fui valente como a Bianca aparentava ser. Muito pelo contrário. Peguei meu celular já preparando-me para ligar para o meu pai ou minha mãe, ou até para a polícia se fosse o caso.
Abaixei a cabeça e vi uma pedrinha pequena no chão, aquele objeto não estava ali segundos atrás. Levantei a cabeça lentamente e fitei a janela aberta, me aproximei dela e vi quem eu menos esperava ali embaixo. Ia tacar outra pedrinha para chamar minha atenção, mas quando me viu, jogou-a longe.
— O que está fazendo aqui? — Perguntei ainda chocada. Jamais imaginaria ver aquela cena, parecia fantasiosa. Mas não era, e eu sabia o porquê: Na minha imaginação fértil, quem estaria ali embaixo não seria ele. E sim outra pessoa. Mas saber disso não impediu que um sorriso se formasse em meu rosto.
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