Já estava prestes a amanhecer e eu ainda não conseguia dormir. Eu não deveria me assustar porque por muito tempo me acostumei a dormir só em dias de muita exaustão, sendo raro conseguir pregar os olhos diariamente. Mas, agora, o caso era outro, porque eu dormia mais frequentemente. Virei-me na cama a fim de mergulhar na inconsciência, só que minha mente ainda trabalhava relembrando todos os segundos do dia anterior. Como dormir quando o que está na sua mente é muito melhor? Era uma luta perdida.

Minha mente não só recapitulava imagens, mas também palavras, sensações, e analisava detalhadamente cada troca de olhar, cada gesto por mais desesperado que tenha sido, havia uma delicadeza e uma sutileza incompreensível.

Na realidade, eu estava me perguntando em que momento sua companhia e seu sorriso haviam se tornado tão importante. Talvez a culpa tenha sido minha que me deixei levar como um garoto desavisado das causas que sentimentos nos trazem. Ou, o pior, mesmo que eu tenha sido cauteloso, ela foi muito mais esperta e jogou algum tipo de feitiço propositalmente. Ou, o mais provável, involuntariamente me fez voltar a ficar bem e enxergar alguma graça no mundo, sem querer, e a culpa não seja sua em me fazer um reboliço na minha vida.

Talvez eu devesse dizer isso a ela rapidamente, porque guardar ou esconder essas coisas não parece a melhor coisa a se fazer. Mas, se eu contar, com certeza irá assustá-la. Não posso arriscar a sua amizade, eu conseguiria me controlar quando ela estivesse por perto. Eu conseguiria. É claro que eu conseguiria. O que eu sou, um pré-adolescente na puberdade?

É, talvez eu seja isso mesmo, porque eu não conseguiria.

Virei-me mais uma vez na minha cama, ocupando agora o lado em que Antônia dormiu quando esteve aqui. Incrivelmente, seu cheiro ainda exalava no travesseiro. Talvez estando naquela parte, com a suave fragrância invadindo meu subconsciente, eu conseguisse dormir. Os raios solares invadiram meu quarto e eu entendi que eu deveria levantar para me arrumar e ir à escola, eu dormiria depois.

Antônia

Acordei graças aos gritos da minha mãe insistindo que eu acordasse.

— Mãe, eu estava sonhando. — Murmurei ao me sentar na cama, com o intuito de fazê-la se remoer por dentro por ter acabado com os momentos bons que ainda estavam presentes em minha cabeça.

—E agora me viu, seus sonhos tornando-se realidade, tem coisa melhor? — Debochou deixando o meu quarto, demonstrando sua falta de sensibilidade diante dos sonhos de sua pobre filha. Apenas revirei os olhos.

Sem dúvidas, não era ela quem estava nos meus sonhos. E sim um garoto de olhos incrivelmente verdes.

Encostei meus pés no chão gelado, por impulso desencostei-os por não aguentar a temperatura. Eu iria congelar. Tudo o que eu queria é deitar na cama, dormir e retornar aos meus sonhos. Perguntei-me em que momento meus sonhos tinham trocado de figura, deixando inconscientemente os olhos castanhos de Bruno de lado. Sacudi a cabeça ao notar quão ridícula e imatura estava sendo, ao notar que algum dos dois sentisse algo especial por mim, talvez o Eduardo tenha feito aquilo por conta da minha aparência ser parecida com a da Maggie. E o Bruno, bom, dele eu não sabia o que pensar. Tomei coragem e me arrumei para ir à escola, feliz porque as férias de julho estavam a cada dia se aproximando. Imagina que maravilha: Sem provas, sem professores, sem Jéssica e seu bando, sem acordar cedo, sem deveres e trabalhos... O paraíso existe! Pena que é temporário.

Quando cheguei ao colégio, minha primeira visão foi dos alunos entrando pelo portão grandioso que nos livrava e nos trancafiava na terrível prisão. Sentei-me no primeiro banco que vi e, totalmente cansada por ter dormido bem pouco, abaixei a cabeça escorando-a na minha mochila. Meus cabelos estavam jogados na minha cara, impossibilitando minha visão, e tudo o que eu fiz para ajudar a escuridão se preencher foi fechar os olhos.

Senti alguém aproximar-se calmamente e beijar meu ombro, afastando meu cabelo um pouco da cara e continuando a beijar meu rosto. Quis me matar por sorrir ao imaginar quem seria. O que estava acontecendo comigo, afinal? Estranhei o toque, não me era familiar e não causou nenhuma espécie de arrepio em mim. Abri meus olhos lentamente e vi o rosto que jamais imaginaria ver nessa situação: O rosto de Bruno Andrade!

— O que você está fazendo? — Indaguei assustada, quase pulando do banco. De repente, meu corpo reagiu de maneira totalmente inusitada, era como se não fosse seus toques que meu corpo precisasse.

— Desculpa, é que pretendia te acordar de maneira... Gentil. Enfim, está tudo bem, Tônia? — Opa, quando eu havia permitido que me chamasse assim? Ele sorriu à minha frente, vi de longe Jéssica me encarar com sua típica cara de ''O que é isso?'' E dessa vez nem eu mesma sabia.

Por que eu estava assim? Por que eu não pulava de felicidade como eu normalmente faria e demonstrava estar totalmente a favor dessa sua ação inesperada? Ainda bem que o sinal me salvou ao tocar, apenas assenti com a cabeça e sem me despedir dei passos apressados e incansáveis até à minha sala. Estava totalmente confusa, sentindo-me enganada, não querendo que a ficha caísse. Eu não queria enxergar o óbvio, porque iria doer muito mais em mim. Eu não queria me apaixonar por uma pessoa inalcançável, que não se deixa levar por sentimentos e talvez tenha até se esquecido como é gostar de alguém. Porque se ele sentisse alguma coisa, era por aquela garota que morreu mais que, de certa forma, o levou com ela.

Não que eu não achasse que Eduardo não gostava de mim, mas eu sabia que o sentimento que eu estava ambicionando era outro. E isso era errado, muito errado! Muito mais errado, de repente, desejei continuar a gostar do Bruno, mesmo que fosse um sentimento ilusório. Desejei que eu tivesse gostado de seu pequeno ato, desejei dar pulinhos, desejei sentir vontade de correr até Bianca e contar a ela o que havia acontecido com a maior alegre do mundo.

(...)

— De um jeito torto, eu sabia que você ia cair na sua própria armadilha. — Bianca confessou depois de me ouvir contar tudo o que se passava comigo e das minhas confusões.

— E o que eu faço? — Perguntei pedindo com os olhos que ela soubesse. Eu estava de mãos atadas.

— Não minta mais. — Suspirou, depois de um longo tempo. — Você começou isso de maneira muito errada, Antônia. Eu entendo que isso não estava nos seus planos, e entendo que você não fez por mal. Porque eu te conheço, até porque a gente não manda no que sente. O problema é que você foi se meter numa história complicada, porque tanto o Eduardo quanto o Bruno ainda possuem cicatrizes de uma amizade e um romance mal resolvido. Sinceramente? Você não tem mais o que fazer! — Ela me olhou com compaixão ao pegar minha mão. — O máximo que você pode fazer, é tentar não piorar as coisas, é tentar não se afundar mais nessa história, se é que tem como. E não mentir mais para nenhum dos dois e, principalmente, não mentir para você mesma. — Foi então que eu percebi o que estava óbvio: O jogo havia virado, e que em momento algum deveria ter me aproveitado de Eduardo. Estava temendo pela minha própria sanidade.

— Obrigada por estar aqui. — Agradeci, abraçando-a.

— Sempre estou aqui, não é? Mesmo quando é pra aturar você com esses seus planos malucos que nunca dão certo. — Revirou os olhos, franzi o cenho.

— Às vezes dão certo, ok? — Intervi.

— Me dê um exemplo. — Desafiou-me ao arquear uma sobrancelha. Não respondi de imediato, tentando me lembrar de algum plano ou experiência que pudesse comprovar, mas não achei. Nunca nada dava totalmente certo, e era difícil confessar isso. Talvez eu devesse desistir de seguir a carreira de cientista, talvez. Mesmo que a sociedade se entristecesse por perder uma cientista tão dedicada como eu. Afinal foi bem difícil perceber que minha calça preferida não cabia mais em mim, levei semanas de esforço para nada, até hoje não descobri como ela desapareceu do meu guarda-roupa. Bufei ao ver Bianca estender seu sorrisinho de vitória pelo rosto.

Quando levantei, vi de relance Eduardo passar pelo corredor acompanhado de uma menina de cabelos ruivos, logo supus que seria a atirada da Lisandra. Isso só comprovou para que o óbvio vencesse uma pequena esperança de que talvez ele gostasse só um pouquinho de mim. Mas infelizmente, como eu havia imaginado, ele era totalmente inalcançável. Totalmente impenetrável.

O intervalo acabou e decidi ir até o banheiro, repetir quantas vezes fosse preciso ao espelho para que eu voltasse ao meu estado normal. Foi quando vi Eduardo mais uma vez, e dessa vez sozinho. Estava sentado, parecia estar viajando, totalmente absorto em seus pensamentos. Aproximei-me dele, ficando à sua frente e sorri, tocando seu ombro gentilmente para que me notasse.

— Está tudo bem? — Perguntei, notando mais a fundo seu rosto, vendo olheiras tampando um pouco o brilho de seus olhos e sua cara de cansado. — Está com cara de quem não dormiu bem. Aconteceu algo? — Estremeci ao lembrar-me que eu já havia feito essa pergunta a ele uma vez, e sua resposta foi totalmente inesperada.

— Nada, não precisa se preocupar. Só o sono que não veio. — Sorriu, tentando me tranquilizar. Sorri, tentando transparecer minha alegria por vê-lo. Sentei-me ao seu lado, e inesperadamente, seus braços esmagaram meu corpo, e me encontrei protegida e aquecida por seu corpo. Ele me abraçou como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Tem certeza que pode fazer isso? Talvez a Lisandra veja isso e não goste. — Não consegui segurar a língua dentro da minha boca, como sempre, eu falando algo que não é da minha conta. Eduardo me olhou curioso, parecendo se divertir com minha cara.

— Ela como sempre estava me enchendo o saco, normal. Ela não tem o que gostar, Antônia. Eu faço o que eu quiser. E neste momento, eu quero te abraçar. — Sussurrou com um sorriso no rosto, bem perto do meu ouvido, arrepiando-me. — A não ser que você não queira. — Ameacei se desvencilhar, eu impedi.

— Eu quero. — Afirmei com um desespero impressionante, ansiando que seus braços permanecessem à minha volta. Senti um alívio incomum ao continuar sentindo sua pele quente contra a minha.

— Se você quer, então, não há nada que me faça mudar de ideia. — Sorrimos.

— Vai lá em casa hoje? Podemos jogar vídeo-game, ou qualquer outra coisa. Com certeza sua mãe vai estar trabalhando e talvez prefira ter a companhia de alguém a ficar sozinha. — Ele concordou, garantindo que me levaria até à porta da minha casa dessa vez. Eu não descordei, porque dessa vez não tinha problema. E eu queria a sua companhia. Cada um foi para a sua sala e na última aula fiz uma atividade em dupla com Bianca para nota. Gabriel fez com um outro garoto. Antes que eu saísse da sala, avistei Eduardo me esperando no corredor, quando me viu, veio ao meu encontro. Fomos juntos até a minha casa, que como eu esperava, estava vazia.

Sem jeito, ele sentou-se no sofá para conferir os jogos e os DVDs que eu joguei em cima dele. Aproveitei para ir fazer uma pipoca, já que era a única coisa que eu sabia fazer na cozinha, além do brigadeiro de panela. Quando voltei à sala parecendo uma legítima malabarista, com duas vasilhas de pipoca grandes, uma garrafa de 2 litros de coca-cola com dois copos escorados na vasilha, o encontrei colocando um filme qualquer. Coloquei tudo sobre a mesinha que ficava de frente ao sofá, abri-o para ficarmos mais à vontade e peguei meu notebook guardando-o em qualquer outro lugar.

Conhecia aquele filme, e odiava. Era do meu pai, e não me lembro de ter jogado ele em cima do Edu. Sentei-me no sofá ao seu lado e, totalmente cansada, escorei minha cabeça em seu ombro. Senti-o fazer a mesma coisa que na escola comigo, me abraçando da mesma forma, e me aconcheguei mais em seus braços.

— Por que não colocou um romance? Não gosto de filmes violentos assim. — Fingi estar prestando atenção no filme para não olhá-lo.

— Não gosto de romances. — Respondeu.

— Deveria gostar, são lindos.

— Nos filmes e nos livros devem ser, mas na vida real não são. — Senti a amargura em sua voz. Fiquei acanhada ao ouvi-lo dizer isso, por mais que eu soubesse que isso era verdade, sentia-me mal ao constatar esse fato trágico. Ele encostou a mão no meu queixo, suspendendo a minha cabeça para olhá-lo, Eduardo me olhou dentro dos meus olhos, como se mais uma vez quisesse ver a minha alma. Eu pensei que ele ia me beijar porque sua boca estava tão próxima a minha, que era impossível voltar a respirar. — Sua pipoca é boa?

— Deve ser, mas... — Tentei lutar contra a vontade que crescia dentro de mim de cometer outra loucura. — Edu, o que foi aquilo que você fez ontem? Vamos conversar sobre aquilo? Porque eu não sei o que pensar... — Ele me interrompeu abruptamente.

— Foi isso. Pelo que eu bem entendi, você não é muito fã de palavras. — Disse por fim antes de deslizar seu dedo sobre meus lábios e me beijar. Eu estava com a cabeça baixa, por isso era um pouco difícil beijá-lo como eu queria, porém me contentei ao sentir sua boca deslizar sobre a minha com leveza. Levantei meu braço, contornando seu pescoço para puxá-lo mais pra mim, só que, inesperadamente, Eduardo levantou a cabeça afastando nossas bocas para me olhar e quase o amaldiçoei por isso. Percebendo minha situação, Eduardo abaixou a cabeça novamente e dessa vez não teve nada de leveza. Pelo contrário, desvencilhei-me da minha posição inicial a fim de grudar nele sem que nossos lábios se separassem, quando vi, estava em seu colo e com os braços contornando-o furiosamente. Sua língua adentrou minha boca mais uma vez sem pedir licença e tudo o que pude fazer foi deixá-la totalmente à vontade, para que explorasse e descobrisse o que conseguisse.

Pressionei meu corpo contra o dele, e o senti suspirar contra meus lábios. Sorri com isso, de olhos fechados.

Lembrei-me do que uma vez minha mãe me disse: Há duas coisas na vida, há aquilo que você queira, e aquilo que você precisa. Agarre o que você precisa.

E era exatamente o que eu estava fazendo, literalmente, agarrando. Sem querer, caímos no chão levando a vasilha de pipoca junto. As pipocas espalharam-se por todo o tapete limpo da minha mãe e rimos ao ver o pequeno desastre.

— Onde foi que paramos? — Perguntou com um sorriso malicioso no rosto, apertando-me em seus braços por eu ter caído em cima de si.

— Aqui. — Sorri de forma mais maliciosa ainda, voltando meus lábios aos dele. Que mais uma vez se encaixaram com perfeição. Inesperadamente, a tarde se passou. Vi isso quando consegui prestar atenção no relógio da sala enquanto seus lábios exploravam meu pescoço, foi um pouco difícil fazê-lo me soltar, e vencer a vontade de ceder aos seus olhos e a sua boca e... Finalmente, consegui me soltar de uma vez. — Eu... Eu... — Ainda estava tonta por causa dos beijos e da situação. — Eu vou tomar banho no meu quarto. Você pode ficar aqui na sala mesmo e terminar de assistir o filme, ou se preferir, mexer no meu computador que está ali em cima da mesa. — Ele assentiu encarando-me firme. Mas eu não me mexi. Pelo contrário, seus braços contornaram-me mais uma vez me puxando e permiti que sua boca tomasse a minha. Eu não sabia o que estava acontecendo, eu continuava fraca e impotente quando ele estava perto, e quando se tratava de seu toque.

(...)

— Pronto, Eduardo! Acabei meu banho. — Avisei enquanto descia às escadas, procurando-o com os olhos por todo lugar. Não o encontrei. Quando cheguei ao último degrau, ele apareceu pela corredor e senti um calafrio ao notar sua feição mudada. — Eduardo, aconteceu alguma coisa? — Estranhei.

— Aconteceu, Antônia. Eu... Eu não sei o que dizer. — Ele abaixou a cabeça, fechando o punho com força. Normalmente fazia isso quando estava com raiva, eu o conhecia. De repente, ele deu um soco no ar como se descontasse nele algum ódio. Que acabou me assustando. — Não esperava isso de você. Você não tem o direito de brincar com as pessoas dessa forma, Antônia. Você não tem! — Gritou, aparentemente alterado. Chegou à minha frente e pegou em meus braços, fazendo-me olhar em seus olhos. O pior é que eu não sabia o que estava acontecendo, eu não sabia.

— O que eu fiz, Edu? Por que está agindo assim? Me diz! — Gritei, sentindo uma enorme ânsia de choro me invadir. Como se eu já não estivesse totalmente fraca, meu coração se espremeu tão forte que deu uma pontada totalmente forte, eu poderia cair ali a qualquer momento.

Notas finais
Desculpem-me a demora, eu ia postar no fim de semana mais minhas primas chegaram de viagem e não aguentei, tive que grudar nelas como se não existisse mais nada no mundo, isso que dá ficar 9 anos sem vê-las. kkk Uma leitora me pediu para postar fotos que mostrem como eu imagino os personagens, então, embora eu prefira que imaginem do jeitinho de vcs, vou satisfazer o pedido dela e trazer esses gifs para vcs: Tônia: http://media.tumblr.com/tumblr_m6pkmsvtmF1rp62eq.gif Edu: http://media.tumblr.com/tumblr_m8etnp8BdH1r6hxuw.gif A Bia: http://lh4.ggpht.com/-6mnh55464Mk/Ti5JqslHYFI/AAAAAAAAA1s/bO-yLljLziQ/tumblr_lovql46uGW1qf7erdo1_500.gif E o Bruno: http://38.media.tumblr.com/tumblr_m1pznsdgVU1r4azhvo1_500.gif Ai estão huas Até o próximo cap (: beijões ♥