Levantei-me, tentando inutilmente caminhar de volta para casa. Mas não consegui, minhas pernas enfraqueceram e meus pés pareciam dormentes, como se a chuva tivesse os congelado. Os pingos de água caíram sobre minha pele, sobre meu cabelo, ajudando que as mechas grudassem em meu rosto e em minhas costas. Embora eu devesse ir para casa o mais rápido possível, estava tão confusa e com o coração tão apertado que havia desaprendido o caminho de casa.

De longe eu vi alguém olhando pra mim, levantei a cabeça e vi o rosto de Jéssica em minha direção. Ela vestia uma calça jeans e uma blusa de frio, usando um guarda-chuva preto. A mesma não veio até mim, apenas sorriu como se me cumprimentasse e me deu às costas, trilhando seu caminho.

Meu celular guardado no meu bolso começou a vibrar e tocar uma música que eu havia separado para uma pessoa em especial. Porque só ele tinha esse toque, ninguém mais. Todos os outros compartilhavam a mesma melodia, embora eu gostasse também, a dele era a minha predileta.

Só que dessa vez eu não consegui saborear a música, não consegui nem apertar o botão de atender. Apenas encarei o celular à minha frente, totalmente inexpressiva, deixando que as lágrimas corressem junto com a chuva, vendo a foto salva como contato de Eduardo: Nós dois juntos, lado a lado, ele rindo para mim e eu tampando a sua boca, mas acompanhando sua risada.

Naquele momento, desabei ainda mais. Perdendo o pouco de esperança que eu tinha, sentindo as novas memórias acabarem ainda mais comigo.

'' Estava à frente de uma casa simples, pequena e nem um pouco convidativa. As paredes tinham tons escuros, chegando perto de um marrom morto, e as janelasajudavam a manter uma certa escuridão, por contado insulfilm nos vidros. À minha volta via árvores grandes e uma pequena horta de uma casa vizinha, a qual parecia abandonada.

Eu sabia que fazendo isso colocaria em risco a minha vida também, mas eu só queria acabar com a vida da... coisa que estava em minha barriga. Poderia soar falta de sensibilidade da minha parte, mas quem em plena juventude quer algo que só atrapalhará sua vida? Essa coisa que ainda nem pode ser chamada de criança, não ajudaria em nada. Não só atrapalharia, como não era bem-vinda. Principalmente, porque era do Bruno.

Ele queriaa criança, e disse que me ajudaria a criá-la. Mas eu não quero criar um pestinha que só chora e suja montanhas de fraldas. E, aliás, se meu pai descobrisse, eu estaria ferrada. Ter essa criança seriaconcretizar uma vida medíocre, monótona, chata e insuportável. Todavia, mesmo se meu pai me apoiasse em ter a criança, é claro que eu a entregaria pra primeira pessoa que visse em minha frente. Nem que fosse um mendigo, eu faria.

Com muita força de vontade, pus meus pés no primeiro degrau da pequena escadinha, subindo os outros dois também. Girei a maçaneta,percebendo o estado da madeira da porta, eles deveriam imediatamente investir numa reforma da clínica clandestina, por conta dos cupins presentes ali. Porque vou te contar, pelo que minha prima me informou, irei pagar o olho da cara. Deparei-me com uma mulher sentada em frente a um computador e uma mesa, com alguns papéis dentro de uma caixa de papelão, deixando à mostra a lista alfabética que ajudava a organização das fichas das clientes. Como eu.

Embora a casa não fosse nada apresentável, eles tinham uma eficiência impressionante. Depois da mulher de cabelos escuros, rosto angelical me olhar com cara de dó, estranhando minha aparência tranquila como se não estivesse a ponto de abortar,esperei alguns minutos para ser atendida. Nem ousei me sentar naquelas cadeiras imundas. Vi uma garota de cabelos ruivos entrar pela mesma porta que eu, totalmente desolada. Como se estivesse fazendo a pior coisa do mundo. Vou te contar, tudo isso por causa de uma criança que nem sequer viu ou pegou no colo?

Entrei no quartinho destinado à pequena operação que faria, e uma mulher grisalha, vestida com roupas brancas e de olhos caídos, escondidos num óculos fundo de garrafa, me fez deitar numa espécie de maca improvisada. Explicou-me como seria a operação, o passo a passo, e estranhou meu sorriso alegre quando confirmou que, a partir daquela tarde, todos os meus problemas seriam resolvidos.

— Ótimo! Estou ansiosa para dizer ao pai desse monstrinho que, infelizmente, eu perdi o nosso querido e esperado bebê. — Fingi uma cara de tristeza, como se eu realmente sentisse muito. Quando eu contasse a ele, eu estaria omitindo alguns detalhes importantes, porém, não estaria de fatomentindo. Afinal, o bebê foi perdido. ''

Pus imediatamente as mãos na barriga, apertando-a tanto que meus órgãos poderiam ser esmagados instantaneamente. Gritei alto pelo meu filho, suplicando que ele me perdoasse. Sentindo-me tão desolada e perdida que, se eu pudesse descrever tudo isso com uma frase só, descreveria ''Doeria menos se eu morresse.'' Abaixei a cabeça, finalmente, vomitando. Passei a mão na minha testa, que apesar do tempo frio, suava. E além do suor, a quentura fez com que meus dedos rapidamente saltassem daquela região. A febre era o menor dos meus problemas.

Mesmo que eu tentasse fazer as memórias se dissiparem, eu não conseguia. Eu queria apagá-las de novo.

Mas ao rever uma nova cena, entreabri a boca totalmente surpresa, e me assustando com o que via: Um carro atrás do que eu dirigia, mas apesar de ter o percebido, não levei muito em conta. Mesmo as ruas daquela região sendo desertas. Pus o pé no acelerador à caminho de casa. Era noite, eu tinha acabado de tomar coragem para pegar o carro e voltar para casa, porque as dores da pequena operação eram eloquentes. O que me confortava era que eu havia feito o que tinha que ser feito. No caminho, o mesmo carro que seguia atrás de mim, ultrapassou-me e se pôs à minha frente, fazendo-me parar no mesmo instante, para que um acidente não acontecesse. É claro que eu sai do carro transtornada e, apesar de não ter voz para gritar, dei meu máximo para xingar o louco que dirigia o outro carro. Quando o tal saltou do banco, deparei-me com Bruno. Totalmente surpresa e não compreendendo o que ele fazia ali, deixei que ele me levasse até um lugar abandonado. E ali, senti toda a sua raiva e ódio por ter me seguido e descoberto que eu havia matado o nosso filho. De seus olhos transbordavam fúria e ira, como se estivesse enlouquecido. Com medo de sua reação, menti dizendo que Eduardo havia me mandado não ter a criança para poder ficar com ele. O que não adiantou muito, senti sua violência contra meu corpo, e me rendi a inconsciência depois do ar ficar por muito tempo rarefeito, chegando a sua ausência. As últimas coisas que consegui ouvir ou sentir, foi ele sentar-se ao meu lado pensando que eu estava morta e me pedir desculpas, como se estivesse retomando a consciência, aparentemente tarde demais.

Cheguei em casa algum tempo depois, ainda desnorteada pelas descobertas e pelo choque que isso tudo causou em mim. Como se tivesse me traumatizado, como se eu estivesse perdida em um turbilhão de sensações ruins e de machucados não mais carnais, mas sim da alma.

Bruno havia tentado me matar, se não fosse o meu pai ter me encontrado, eu estaria de fato morta, assim como o feto que destruí.

Talvez fosse justo, talvez meu pai não devesse ter me encontrado. Talvez eu não merecesse uma segunda chance. São tantos talvez que chega ser difícil encontrar alguma certeza. Além da que eu não posso mais esconder de mim mesma: Eu sou a Maggie.

Pedi encarecidamente que meus pais me deixassem chegar ao meu quarto em paz, que quando eu melhorasse, iria procurá-los e explicar o meu súbito transtorno. Mesmo totalmente preocupados, eles permitiram que eu abrisse a minha porta e caísse na minha cama, abraçando o travesseiro com todo ardor que consegui.

Infelizmente, eu tinha deixado o computador ligado, e imediatamente a chamada de Eduardo no Skype apareceu na tela. Sem forças, arrastei-me até o notebook e aceitei. Quando eu vi seus olhos, mesmo que por uma tela, uma súbita esperança surgiu dentro de mim. Como se nem tudo estivesse perdido. E vê-lo fez a culpa crescer ainda mais, tornando-se um gigante e monstruoso sentimento.

—Você está bem? — Perguntou assim que viu meu rosto inchado por conta do choro e minhas roupas imundas e molhadas por causa da chuva. Assenti, sabendo que eu não teria voz para responder. — Você não está bem, Antônia.

Senti um calafrio na espinha ao ouvi-lo me chamar assim. Ele esperou por alguns minutos alguma resposta minha, mas vendo que eu não ia responder, optou por preencher o silêncio mais uma vez.

— Quer me dizer o que está acontecendo, Tônia? Você pode compartilhar comigo, apesar de eu estar longe e não poder te ajudar como eu deveria. Você sabe, te abraçando, te mantendo protegida em meus braços. Posso, no mínimo, te apoiar e ouvir o que está te incomodando. — Disse carinhosamente. Continuei encarando a pequena câmera, alheia à qualquer movimento ou barulho externo, até os carros que são sempre ensurdecedores com suas buzinas. Vendo que não demoraria muito para que minha fachada desmoronasse, render-me ao fato de estar totalmente perdida, sem saída.

Peguei o travesseiro e escondi meu rosto, impedindo que ele me visse completamente. O que só o fez se desesperar, mesmo estando sentado na cadeira, o vi se agitar com o meu estado.

— Não podemos mais ficar juntos, talvez você devesse encontrar alguém... — Dei uma pausa, soluçando logo em seguida, pensando numa palavra adequada. Tentando manter meu tom de voz tranquilo, calmo, como se eu estivesse falando sobre a previsão do tempo. — Que mereça você. Alguém que não tenha cometido tantos erros como eu. Alguém que não causou tanto sofrimento a você, como tantas outras pessoas. — Como um surto espalhafatoso, joguei o travesseiro para longe e o fitei, sentindo uma lágrima silenciosa deslizar sobre minhas bochechas. — Eu não vou permitir que eu te prejudique de novo de forma nenhuma, eu não vou. Porque eu amo você demais pra isso. — Essa última frase, acabei sussurrando, por ter soado voraz demais. — Porque descobrir a verdade dói sim, mas saber que você está sujeito ao que ela causa, aonde ela atinge, é a pior das dores que posso carregar. E eu não quero carregá-la, porque, acredite, eu não suportaria.

— O que você está falando, Antônia? Não esconda de mim, por favor! — Eduardo levantou-se da cadeira tão abruptamente que ela caiu com tudo no chão causando um tremendo baque, que pareceu não chegar aos nossos ouvidos. — Me diz, meu amor, por favor! — Gritou com o coração na mão, com os olhos cheios de água, como se estivesse sem rumo. — Se for essa distância temporária, não tem problema. Eu dou um jeito de ir ai, ou te trazer. Eu dou o meu jeito, eu... — o interrompi, desesperada para que ele parasse de ver os problemas nele. Querendo fazê-lo perceber que o problema era comigo, com o meu passado.

Que não era um passado qualquer, pra ser sincera.

Eu só queria que as coisas fossem mais fáceis. Principalmente para ele.

Eu só queria que as coisas fossem justas. Juro que, apesar de algumas atitudes egoístas minhas, como querer sua atenção toda pra mim em alguns momentos, os ciúmes quando ele abraça alguma garota, tiro a Lauren, que geralmente me causam desconforto, eu nunca desejei regar nosso relacionamento conturbado com coisas ruins. Por menor que fosse, sempre procurei deixar meus medos para longe de mim.

Então eu fechei os olhos, saboreando momentos nossos, os quais talvez preencheriam alguns dos meus segundos futuros com alguma sensação de paz e amor.

''— Só deixe esse cabelo para trás. — Narrou ao se aproximar, aproximou também seu polegar no meu rosto e, mesmo que eu devesse, não recuei, tocou seu dedo em minha pele causando-me um certo arrepio e pegou a pequena mecha de cabelo que estava na minha cara e colocou atrás da minha orelha. Quando finalizou, encarou-me mais uma vez.

— Está ficando melhor? — Sussurrei timidamente.

— Excelente. Está... mais linda. — Sorriu, inesperadamente, eu sorri de volta.''

(...)

''Nunca havia recebido flores, e por mais que fosse nada demais se tratando dele, uma pequena alegria havia surgido dentro de mim. Acabei encontrando o que eu tanto procurava. Era simples e as letras eram delicadas. Provavelmente ele mesmo escreveu. Só que, por mais delicada que fosse a letra, numa possível tentativa de ser amistoso, estava claro que estava masculina demais pra ser de alguma mulher.

Garota da blusa manchada,

Venho por este cartão pedir suas desculpas pelo modo que a tratei naquele dia. Normalmente não pediria, normalmente não me importaria, mas estou aqui pedindo que apague o meu erro e, de alguma maneira, possa compreender meus motivos.

Eduardo. ''

E eu entendi agora. E mesmo entendendo da pior maneira possível, eu não só entendia como sentia. O que, realmente, é mil vezes pior. Principalmente, se tratando de algo que você causou, de algo que você planejou e se divertiu como se estivesse brincando com fantoches sem vidas.

E isso, da mesma forma que o maltratou um dia, me maltrata agora.

— Eu descobri a verdade, Eduardo. Descobri quem eu sou, e mesmo que eu não consiga me identificar sendo... — Parei de falar, imaginando uma palavra que pudesse me descrever perfeitamente. Mas não encontrei. — Sendo alguém quase inescrupuloso, não há nada que possa ser feito para mudar isso. Nada. Há algum tempo, eu havia sido encontrada quase morta pelos meus pais. Eles me trouxeram pra cá, e a partir daquele dia, vivi usando uma personalidade falsa. Você sabe o que é isso? — Perguntei tentando fazê-lo entender o meu lado, e saber que é não é fácil acordar de uma hora para outra e perceber que não é capaz de amar ninguém.

— Antônia, pelo amor de Deus, chegue logo ao motivo que te levou a querer acabar com o que temos. Me faça te entender, eu preciso te entender. — Edu praticamente implorou, desesperado por uma explicação, uma resposta para o término do nosso relacionamento que parecia tão sólido, tão bem construído que aparentemente nada poderia o abalar. Aparentemente.

— Eu descobri que, na verdade, a sua querida e amada Maggie não morreu. — Seus olhos saltaram como se fosse irreal demais para ser verdade. Eu tinha que continuar, porque a explicação não terminava ai. E meu coração se apertou quando abri a boca para proferir o que, provavelmente, seria um xeque-mate. — Ela está aqui, à sua frente. Margareth sou eu. Eu sou ela, tanto faz.

Calamos-nos, sentindo o silêncio se expandir mais uma vez.

— Você deu uma chance para a pessoa errada, para a mulher que só te trouxe dor, machucados. Alguém que te usou, que... Que, como eu disse, não é capaz de merecer nada além da culpa que carrega. Porque isso é a única coisa que restou, além das suas cicatrizes. Infelizmente, essa sou eu. Juro que te amo, juro que o meu sentimento até aqui, desde o dia que te conheci na rua, foi real. Mas, parece errado. A verdade dói, sim. Mas ela não vai deixar de ser verdade, e por isso, não há nada mais a ser feito.

Antes de ouvir sua resposta, sabendo que não aguentaria ver seu estado depois dessa revelação quase bombástica, fechei o notebook, desligando-o.

Pensando que, felizmente, a vida não foi tão cruel. Pois, pelo menos, ele está longe de mim. E isso torna as coisas mais fáceis para ele me esquecer, talvez Lauren possa ajudá-lo.

Fechei os olhos, fingindo estar bem. Isso sempre me ajudou a superar alguns momentos conturbados, mas dessa vez não funcionou. Porque até não vendo nada, tendo a escuridão como paisagem, me fez perceber que, quando eu abrisse os olhos, eu continuaria sendo a garota que por tanto tempo odiei.

Notas finais
Esse capítulo não foi algo fácil de construir, pq odeio ver o meu Edu sofrendo D: Então vou comer agora. '-' mas, felizmente, talvez os próximos capítulos agradem vcs, só que n posso informar o porquê huahusas Então, até lá bjsss (: