Te amar não estava nos meus planos
8 Começando a jogar.
(...)
— Eu ainda acho que você está totalmente precipitada. Não vejo sentido nessa loucura. — Bianca continuou tentando me fazer mudar de ideia. Expondo alguns pontos negativos. Mas eu tinha que tentar, e felizmente, eu não batia lá muito bem das ideias. Isso com certeza influenciou a minha insistência na loucura que tinha em mente. Eu tinha que ao menos tentar e se não conseguisse, não ficaria me torturando com o que poderia ter acontecido caso eu não tivesse tentado.
— Já percebeu que não adianta tentar colocar um pouco de juízo na cabeça dessa ai? — Gabriel olhou pra ela e eu somente revirei os olhos por sua insensibilidade.
— Bianca, pela primeira vez eu tenho que concordar com o Gabriel. Eu já estou decidida e não há nada que me faça mudar de ideia. — Mostrei-me segura do que falava. Caminhávamos juntos até a escola, estávamos perto já. Olhei pra frente e vi o tal novato mais próximo do portão. Era a minha chance. — Já volto. — Avisei sem ouvir a resposta deles. Com passos apressados segui até o garoto de expressão indefinível. Felizmente eu não tinha reações precipitadas e ridículas com outras pessoas a não ser o Bruno. Mas por enquanto já havia me conformado. Aproximei-me dele e ao notar minha presença, o novato me olhou de lado. Eu sorri tentando ser simpática.
— Oi? — Ele murmurou assim que me viu sorrir pra ele.
— Oi. Desculpa me aproximar assim, é que eu lembro que não te agradeci por aquele dia. E, aliás, sua blusa está lá em casa. Esqueci de trazer. — Eu não havia esquecido de jeito nenhum. Eu sabia que em algum momento aquela blusa poderia me ajudar. Sabia que de certa forma era errado fazer isso, mas ninguém se machucaria. Se tudo desse certo quem sabe uma amizade poderia acontecer e todos iam sair ganhando dessa história. Assim seria, se tudo ocorresse bem. E ocorreria porque as chances de algo sair errado eram menores. A única coisa que vinha a minha mente que poderia acontecer contra minha vontade é não conseguir nada, mas isso não me assustava. Não agora.
— Não se preocupe. O que eu fiz por você, faria por qualquer pessoa. — Falou um pouco frio. Eu me arrepiei com o tom de sua voz, sentindo-me um pouco rejeitada. Pelo jeito o que diziam era verdade, ele estava mesmo com a intenção de afastar as pessoas dele. Era visível. O que eu não entendia, era que aparentemente ele não tinha motivos pra fazer isso. Não sendo tão bonito, e de vez em quando — Ou nunca — demonstrando ser educado e, de certa forma, prestativo. Afinal foi uma bela forma de demonstrar quando me ajudou.
— Ah, ok. — Dei um sorriso torto. — Espero que você não esteja precisando da blusa ainda, porque ainda vou colocá-la pra lavar. — Fiz minha expressão de tristeza. Eu era ótima nisso, sempre fui. Principalmente quando queria matar alguma aula alegando estar passando mal.
— Não precisava. — Contestou.
— Que isso! — Fingi estar indignada.— Você me ajudou e o mínimo que posso fazer é lavá-la. Quando chegar em casa a primeira coisa que vou fazer é colocá-la na máquina. — Disse decidida. Ele deu um meio sorriso desistindo de me contrariar. Foi quando chegamos a minha sala. — Ah, é aqui que nos despedimos, novato. Até mais. — Despedi-me dando-lhe as costas e caminhando até a porta da minha sala.
Estava decepcionada comigo, não havia movido nem uma palha com essa conversa com ele. Pelo contrário, era mais difícil do que imaginei me aproximar. Parecia que ele colocava um escudo a sua frente impedindo que as pessoas o visse assim como eu o vi quando me ajudou na rua. Me deixava intrigada. Eu ainda sentia alguém me fitando por trás, e imaginava que seria ele, por isso não virei-me. Quando encostei a mão na maçaneta o novato me gritou. Paralisei e logo em seguida dei um sorriso esperançoso sem que ele visse.
— Sim? — Virei-me agindo normal.
— Novato não, me chame de... Eduardo. — Pediu por fim com um sorriso torto estampado nos lábios. Assenti com um sorriso no rosto.
— Pode deixar, Eduardo. — Logo em seguida adentrei a sala. Acabei chegando um pouco atrasada, mas nada que me prejudicasse. Sentei-me a mesa e joguei minha mochila perto da cadeira. Primeiro passo dado: Comunicação. E até era um avanço, agora eu sabia o seu nome. Seria mais agradável do que o chamar de novato, sinceramente.
— Então? — Bianca futucou-me querendo saber, toda curiosa. Ri, porque a segundos atrás ela estava odiando isso tudo. — Você não foi com muita sede ao pote não, né? — Ela sussurrou para que o professor não nos ouvisse. Não me virei pois o professor estava de olho, fingi estar escrevendo alguma coisa no caderno.
— Claro que não, essa é a chance da minha vida. Não posso meter os pés pelas mãos.— Franzi o cenho ainda sussurrando. — E bom... O Eduardo é um pouco fechado, mas nada que a Antônia aqui não consiga ultrapassar. — Sorri de orelha a orelha. — Ou não me chamo Antônia Carvalho. — Garanti totalmente decidida.
— Eduardo... Já sabe o nome dele. Bom, é um belo avanço pra quem não sabia nada. — Notou dando de ombros e ajeitando-se na cadeira. Não conversamos mais, não podíamos arriscar. Esse professor era severo a ponto de nos marcar e ficar nos enchendo até o final do ano. Fiz minhas atividades até a hora do intervalo e aproveitei pra comprar meu lanche e o de Bianca, era o meu dia hoje. Amanhã seria a vez dela enfrentar a fila. Depois que comprei, entreguei o troco e o lanche dela e o Gabriel como não é nada folgado aproveitou para beliscar o hambúrguer dela. Eu ri com os dois, ficariam lindos juntos caso um percebesse e tomasse uma atitude. Algumas vezes me dava raiva da Bianca é que ela não percebia coisas que estavam debaixo de seu nariz, como o gostar dele por ela. Aproveitamos pra jogar conversa fora e esquecemos totalmente de tudo. Nosso papo era leve, gostoso. Sentia-me bem. Quando faltava cinco minutos para o fim do intervalo, aproveitei para deixar os dois sozinhos um pouco e caminhei até o gramado que era um pouco mais afastado.
No canto havia uma árvore perdida entre algumas plantas pequenas e simples. Porém bonitas. Sentei-me embaixo dela e abri o livro que estava lendo há pouco menos de uma semana. Puxei meu cabelo prendendo-o em um coque e deixei que a franja ficasse livre, ficasse do jeito que ela quisesse ficar. Mesmo se sua escolha fosse tampar quase toda minha visão.
Quando cansei de ler elevei a cabeça, e no meu campo de visão pude observar Bruno. Como sempre, rodeado de garotas. Até bonitinhas, infelizmente. Isso me entristecia um pouco, porque mesmo que fosse um sentimento estranho e sem sentido, eu sentia uma espécie de amor platônico irreparável. Mas como não se apaixonar pelo sorriso que dava todas as vezes que achava algo engraçado? Até da maneira como bagunçava o cabelo deixando-o quase irresistível. Não sei se as outras garotas estavam ali porque também percebiam esses detalhes e se encantavam, mas se fosse o caso, eu estaria próxima a ele só pra dizer como fica charmoso desse jeito.
Foi quando eu desviei o olhar e percebi Eduardo no outro lado do pátio. Ao contrário de Bruno, em sua volta não havia vida. Não havia nenhum sinal de alguém e senti-me mal um pouco percebendo que ele estava solitário. Mas de qualquer forma a escolha era dele. Ele queria isso, e nada poderia ser feito. Ele não queria chamar atenção, todavia chamava, por mais que tentasse demonstrar ser invisível. Por mais que fosse visto poucas vezes sorrindo, dava pra notar seu sorriso diferente. Um sorriso até único, as vezes eu enxergava além e via um pouco de tristeza no seu olhar. E o modo como andava e como transpirava perigo e confiança? Poderia deixar qualquer uma de quatro para ele. Não eu. Talvez nem a Bianca. Tirando essas exceções, todas estavam em suas mãos. Elas o circulavam e o olhavam mesmo de longe, e por incrível que pareça, ele não ligava e não dava a mínima. Nem se aproveitava.
E tudo isso estava me intrigando cada vez mais. Confesso. Fechei meu livro e me levantei, senti-me sendo observada mais uma vez. Disfarçadamente, olhei por cima do ombro e vi Eduardo e seu olhar estava distante. Um olhar que estranhamente parecia estar em minha direlçao. Sem querer minhas bochechas avermelharam-se. Era um pouco ridículo, mas não me contive. Fui até o bebedeiro ainda sentindo-me ser vigiada e depois dele perceber que eu havia notado, não se importou e continuou a me encarar. O que fez com que eu tomasse coragem, contei até três e fui até ele com passos curtos e sem pressa. Com esperança de chegar até ele sem tropeçar, estava sendo a minha única meta de agora.
— Qual é o seu jogo? — indaguei de repente me aproximando dele. Eduardo franziu o cenho não me entendendo. O sinal bateu, ele ameaçou se levantar, mas puxei seu braço fazendo-o sentar novamente.
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