Valeria narrando:


Tick. Tick. Tick. Fui passando todos os canais da TV do Paulo, que diga-se de passagem tinha quase 500 canais e alguns deles eram em inglês e eu não entedia nada. Suspirei e deixei em um canal de culinária irlandesa.


–Coloca no canal 348, tem um programa de animais legal. -Disse uma voz atrás de mim.


–Se você diz, eu... -Eu ia dizendo, mas parei assim que vi que ele estava apenas de toalha, e de repente me deu uma vontade imensa de olhar para as minhas unhas, sabe?


–Vamos ver um filme?


–Você não vai se vestir antes?- Eu não olhava para o rosto dele, mas tinha certeza que ele estava sorrindo.


–Pra quê?


–Serio Paulo?Vai.Se.Vestir!- Disse eu pausadamente.


–E se eu não quiser?


–Eu te arrasto pelas orelhas até aquele closet que mais parece um quarto!


Por um momento ele pareceu ficar com medo, mas depois sorriu de modo divertido e perguntou:

–E quando chegarmos lá você vai me vestir?


Joguei uma almofada do sofá bem no meio da sua cara.


–Você não é uma criança e eu não sou sua babá!- Esbravejei, mas no fundo achando tudo aquilo cômico.


Ele, como o garoto culto que era, saiu da sala resmungando em francês e como eu não entendia uma vírgula do idioma me concentrei na televisão.


Cinco minutos depois ele voltou à sala usando uma bermuda jeans branca. E uma blusa?Ele vai mesmo deixar tudo isso à mostra?Que custa vestir uma camiseta?!


Decidi por não falar nada, vai que ele acha que eu estou tentada à pular em seus braços?Mas que tipo de pensamentos são esses meu Deus?!


–Então minha abelha rainha?Podemos ver um filme agora?-Disse se jogando ao meu lado, e reclamei pedindo espaço por quase cair da poltrona em que estava sentada.


–Abelha rainha?Que apelido retardado é esse?-Perguntei criticando e ele fez bico.


–Ah qual é, combina com você, gosta de mandar em mim, parece minha mãe e gosta de zumbir no meu ouvido. -Disse revirando os olhos. Desferi um tapa no seu ombro insultada com o comentário.


–Paulo!


–Já disse que você fica linda com raiva?


–Pauulo!


–Quando está me batendo fica linda também.


–Paulo!


–Meu nome fica mais lindo quando você fala ele.


–Cale a boca!


Coloquei minha mão esquerda sobre sua boca com o intuito de fazê-lo ficar calado. Tive vontade de matá-lo quando ele mordeu de leve um dos meus dedos.


–Ai Pauuulo!-Protestei, batendo de leve nele, de novo.


–Valeria, desculpe, mas você é chata as vezes.


Dessa vez bati com toda a força possível em seu outro ombro, mas parecia não fazer efeito algum nele.


–Isso não faz nem cócegas. -Riu-se e apertou minhas bochechas.


–Está com fome?-Perguntei, tentando mudar de assunto.


–Você cozinha?Porque eu sou um desastre. -Disse fazendo uma careta.


–Claro que cozinho, e muito bem. — Me gabei torcendo o nariz pra ele.


–Que bom, por que se não iriamos morrer de fome. Vamos, ajudo você, vou ser seu assistente, senhorita “cozinho muito bem”. — Fez aspas com os dedos no final, e eu admito que fiquei meio receosa quando ele disse que ia me ajudar na cozinha, será que conseguimos fazer um prato de comida sem que o prédio inteiro pegue fogo?


–Tudo bem, mas só faça o que eu mandar. -Ordenei me levantando de perto dele. E nem ao menos toquei meus pés ao chão e ele já tinha me pegado pela cintura me jogando em seu ombro como se eu fosse um saco de batatas.


–Pode deixar que eu vou obedecer senhorita mandona. -Ria enquanto eu batia violentamente em suas costas.


–Me coloca no chão Paulo!-Gritei histericamente e o chamei das piores coisas possíveis.


–Agora todos do prédio vão achar que sou louca, muito obrigado Paulo, você é o melhor amigo do mundo. -Resmunguei parando de gritar e de socá-lo.


Quando adentramos a cozinha ele pousou no chão delicadamente. Isso é uma cozinha de apartamento ou de um restaurante francês?!De onde ele tira tanto dinheiro se ele nem trabalha?!


–Que tal mudarmos nossa amizade para uma amizade colorida?Sabe, é legal tentar coisas novas. -Disse sorrindo marotamente para mim.


– Paulo, eu não sabia que você gostava tanta assim de apanhar. -Retruquei fazendo uma careta. Ele apenas revirou os olhos, ainda sorrindo.


Comecei a escolher os ingredientes. Tinha muita coisa ali, eu não tinha a menor ideia do que cozinhar primeiro. Era noite então deveria ser um jantar, mas como Paulo parece um adolescente do ensino médio, me pediu para fazer algo mais, na minha opinião, infantil.


–Tipo o quê?Batata frita?- Ironizei.


–Seja legal comigo uma vez no dia por favor Valerinha?


Desisto, não vou conseguir discutir com ele enquanto ele faz essa cara fofa e me chama de Valerinha.


–Ok, o que você quer?-Ele sorriu, provavelmente pelo fato de eu me render ao seu charme, mais uma vez.


–Vou querer pretzels, são biscoitos alemães que minha mãe fazia pra mim quando eu era criança, a receita está naquela gaveta. Não como eles desde o ano passando quando a vi pela última vez. Eu não sei fazer e ninguém sabe fazer como ela. -Disse esperançoso e com os olhos infantis brilhando em minha direção.


–Ok, vou ver o que posso fazer.


–Obrigada Valeria. -Disse se aproximando... SE APROXIMANDO DEMAIS! -Ninguém nunca fez algo tão legal pra mim.


–Que isso Paulo, são só biscoitos!E você nem sabe se ficarão bons. — Eu disse modesta.


–Vindo de você tudo é perfeito. — Ele falou algo que eu realmente NÃO esperava.


Ele não me deu tempo para pensar, porque no momento estava perto, muito perto. valeria, se afastava. Se afaste. Agora. Rápido!Ele está mais perto. Vamos!Dê um passo pra trás e...Meu último pensamento foi cortado quando ele colou meus lábios aos dele.