Tatuagem
1 Luz dos olhos
Notas iniciais
\"Ponho os meus olhos em você
Se você está
Um dia pra esses olhos sem te ver
É como chão no mar
Pois meus olhos vidram ao te ver
São dois fãs, um par
Luz dos olhos para anoitecer
É só você se afastar
Diga que você me quer
Porque eu te quero também!\"
Estranho seria se eu não me apaixonasse por você
Já percebeu o quão injusto é o mundo? Não falo apenas de questões sociais, como o fato de minha tribo existir com — no máximo — cinco dólares por dia, mas de amorosas. Na verdade, não diria “amorosas” porque as relações interpessoais que temos são, infelizmente, tão descartáveis quanto nossos produtos fúteis e de bens de consumo não-duráveis. São laços frouxos, desatados, incompletos e desvalorizados. De certa forma, o homem tornou-se matéria por completo em sua ideologia simplista e urbanizada. Eu ainda não acredito em como incorporei essas idéias funestas dos capitalistas londrinos — e de outras partes do globo. Pensei que meus sentimentos seriam eternos, como deveriam ser, mas a corrupção de minha alma, que aconteceria no exato momento da aceitação do Contrato Social — segundo meu Contratualista favorito —, foi inevitável. Lógico, tínhamos regras e estávamos integrados ao país mais poderoso do mundo, porém, a tribo era uma comunidade quase orgânica ainda. Papai até tentou convencer-me de ficar, o que seria ótimo para os meus sentimentos puros e imutáveis — até dado momento —, só que o entusiasmo venceu. As possibilidades de uma vida melhor foram muito maiores que os medos e incertezas de uma jovem índia de quatorze anos, tola demais para não perceber as artimanhas do Cara-Pálida devorador. Porque é verdade, ele consome tudo; terras, riquezas, pessoas, dinheiro, almas e o amor. O meu amor.
— Passe o suco, Tiger? — pediu a voz feminina por trás do jornal do dia, totalmente encoberta por suas letras comerciais e números inflacionários. Por vezes, soltava exclamações de preocupação pelas ações de seu pai ou de algum conhecido. A pele alva da mão condizia com seu estado de quase nobreza, assim como as mexas de seus cabelos que, algumas vezes, apareciam quando ela mudava a página. Eram castanhos e ondulados, sempre presos para trás com uma tiara, aliviando os pobres meninos que ansiavam ver seu rosto angelical.
— Sara, não acredito que você vai continuar com isso. — irritou-se o rapaz ao lado da jovem que lia. Esta apenas soltou um muxoxo, dobrando o jornal e deixando-o em seu colo. Virou-se para o interlocutor, fitando-o de forma ameaçadora, embora suas mãos suadas denunciassem a normal aflição de brigar com ele. Ou de como não conseguia ter o autocontrole quando estava tão próxima ao ponto de poder observar seus traços másculos do rosto, a boca pequena e virada de lado em uma careta cômica, o cenho franzido que ressaltavam a escuridão das íris ou a grossura das sobrancelhas.
— O que foi, Tramp? — suspirou —Pensei que estivesse ocupado demais discutindo com Nala sobre um time de futebol para me dar atenção. — deu-lhe as contas, voltando-se para uma morena sentada ao seu lado. Observou por alguns segundos, assistindo-a escrever compulsivamente num caderno de capa dura em letra miúda e arredondada. Seus cabelos negros e lisos impediam-na de ver o rosto de tom marrom-avermelhado e características indígenas. Sentiu uma mão sobre seu ombro.
— Pare com isso, Lady. — a menina revirou os olhos de tom chocolate; era tão injusto chamá-la pelo apelido. Aquilo amoleceria qualquer coração — Você sabe que eu não suporto Nala, quanto mais perder meu tempo de almoço com essa... — lançou um olhar depreciativo para o que seria Nala, se essa não oculta por cabelos ruivos — leoa. — disse por fim, abraçando Sara por trás e colocando sua cabeça sobre o ombro dela — Lady... Não fica bravinha! Lembre-se: latir não faz bem às suas cordas vocais. — deu um beijo delicado na bochecha direita da menina.
— Eu não sou cachorra para latir, Tramp! — a indignação passou despercebida graças às maçãs coradas de seu rosto. Virou-se totalmente para o rapaz, apertando-lhe o nariz como de praxe — Connor, querido, eu vou matar você. Vou mesmo! — deixou que ele respirasse, cruzando os braços frente ao peito — Você sabe que odeio futebol! — o menino gargalhou.
— Jedi não é um time de futebol, Lady! — abraçou-lhe mais forte — Não acredito que realmente acha que é! — deu-lhe outro beijo — Pare de falar bobagens. — sem mais argumentos, cedeu às carícias do namorado.
— Pelo amor de Deus, eu não terminei de comer! — reclamou Nala, já liberta dos beijos do próprio namorado. Seus cabelos negros e curtos caíam sobre seus olhos pincelados de nojo e castanho — Cenas de horror agora?! — riu, remexendo seu prato com o garfo — Olha, Simba! Uma ervilha! — o ruivo, que outrora a beijava, pegou o próprio garfo e espetou a ervilha, comendo-a em seguida — Lave a boca ou coma um chocolate antes de me agarrar de novo. — franziu o nariz, recebendo cócegas de Simba como resposta.
— Deixa de ser fresca, Nala! — dizia ele, rindo do escândalo da namorada — E não grite, mulher! Que coisa! — seus olhos cor de âmbar eram profundos e Nala não conseguia não se perder ali — Dá um beijo!
— Sai fora, Simba! PÁRA! — brincavam, empurrando o outro casal que dividia com eles o espaço direito da mesa.
— Vocês dois podiam se comportar, pelo amor de Deus! — pediu a menina de pele tão alva quanto Sara, cabelo dourado tingido de brilho rubro ao natural, e olhos de turquesa. A voz doce e determinada dessa pareceu despertar a encurvada índia que escrevia. As duas trocaram olhares rápidos, o castanho-escuro disputando com o anil até o primeiro passar para o verde, pertencente ao rapaz ruivo ao lado esquerdo. Esse sentia a tensão crescendo no silêncio entre as duas meninas.
— Wendy, — o menino chamou a loura, tomando-lhe pelos ombros — não é o seu irmão? — apontou para trás da mesa, fazendo o grupo de amigos se voltarem para encarar a pessoa. Wendy continuou absorta na morena à sua frente.
— Ele está na sua sala de História, certo, Tiger? — perguntou Sara.
Eu não queria olhar. De forma alguma. Preferia morrer a fazê-lo. Mas Lady estragou tudo, forçando-me a respondê-la. Eu podia sentir o azul de Wendy sobre mim, esperando alguma tolice química de meu corpo. Suor, rubor, desconforto, indiferença. Qualquer indício de loucura temporária, a qual comumente dava as caras quando aquele... Branco surgia do nada. Aquele branco sardento e de cabelos escuros, óculos redondos e sorriso engraçado. Como eu poderia evitar?
— Sim, está. — respondeu a indígena após uma breve espiada por cima do ombro. Sua pele escura ficou ainda mais nítida. Ela baixou os olhos, voltando para o caderno.
— John também faz Geografia, Línguas, Literatura Inglesa, Galesa, Alemã e Russa. — informou Wendy sem esconder o orgulho — Ele é tão inteligente! O melhor da sala, certo, Tiger Lily? — as duas se encararam mais uma vez, uma ansiosa e a outra sem resposta.
— Como ela saberia, Wendy? — riu Nala, dando outra ervilha para Simba comer — Tiger não costuma conversar com ninguém.
— Mas é da sala de John em todas essas matérias. — justificou-se Wendy, fechando o cenho para Nala enquanto era abraçada pelo ruivo ao seu lado — Certo, Peter? — buscou apoio do namorado, ou quase isso.
— Eu não sei os horários de Lily. Ela parou de falar comigo. — lançou um olhar de falsa mágoa para a morena, mas foi em vão; ela escrevia sem descanso.
— Oh, seria ótimo trazer John para perto de Tiger! — exclamou Sara — Ela anda tão solitária pelos corredores. Não posso acompanhá-la sempre porque nossos horários são muito diferentes. Queria ter certeza de que Tiger tivesse alguém com quem conversar. — o sorriso da menina era dúbio. Nala, pelo menos, não se deixou enganar pela boa intenção de Sara. Havia algo implícito, fácil de ser subentendido.
— Lady, não... — começou a contradizer, mas Wendy não permitiu.
— Verdade, Sara! — o sorriso dela era o espelho do de Brown — Seria ótimo ver John socializando, para variar. Ele é meio tímido. — Tiger Lily levantou-se da cadeira, olhando de Wendy para Sara, desta para Nala e da última para o resto do grupo.
O que diabos eles queriam?! Matar-me?! Eu não podia ver John Darling, tampouco falar com ele!! Mas, claro, eu sabia que qualquer recusa seria ignorada, então terminei meu almoço como uma adolescente normal que caminhava para a forca. Eu não conseguia ver o objetivo daquilo tudo, especialmente por parte de Wendy. Ela, sem dúvidas, me odiava e, não vou mentir, era recíproco. Quanto a Sara... Bom, essa vivia num mundo colorido, repleto de flores, perfumes e roupas caras, onde os romances eram o centro e a única razão de ser. Logo, eu estava perdida.
— Acho melhor você conversar com John, Tiger. — ameaçava Sara enquanto caminhava rumo à sala 704 daquele mesmo piso. Seus passos eram apressados, mas suas madeixas e batom continuavam intactos, conforme arrumara depois de Tramp se despedir. A morena, que corria ao seu lado e tentava desvencilhar-se dos vários alunos, não queria dizer que o batom, na verdade, tinha manchado o canto direito da boca de leve.
— E eu acho o contrário. — contrapunha, pela milionésima, Nala. Estava à frente das outras duas, empurrando todos os que não abriam caminho — embora fossem poucos esses que não obedeciam às suas ordens de “dá um espaço .” Ninguém ousava protestar à sul-africana, exceto Jennny Queen, claro. Mas como esta estava viajando e King não era rei, Nala aproveitava para mostrar que a selva a pertencia.
— Você deve ficar calada, Nals! Não percebe o quão importante é Tiger interagir?! Ela só conversa conosco! Como será ano que vem, quando sairmos? — Sara estava mesmo exasperada, mas não pelas razões apresentas cada vez que Trimble desafiava sua autoridade sobre Tiger Lily.
— Oh, Lady, pelo amor de Deus! A menina conversa com Fauna! E com Mei Ling. E... Qual o nome daquela esquisitinha? Aquela que parece vir de uma terceira dimensão?
— Silver Mist. — respondeu Tiger, segurando seu livro grosso com força excessiva — E ela não é desse jeito. Tanto Fauna quanto Mist são boníssimas, além de ótimas companhias.
— Claro, para uma viagem espacial! — bufou Nala, transparecendo seu ciúme animalesco. Ela detestava dividir sua carne. Tiger Lily era sua.
— Oh, céus, Nals! Você é implicante! — disse Sara, parando frente ao seu armário, ordenando a combinação correta e pegando seus livros.
— Sou. — a outra fez o mesmo, enquanto Tiger Lily admirava o movimento. A discussão não terminaria tão cedo entre as duas amigas, então não se importava de esperar. Porém, alguém surgiu no seu campo de visão.
—... Não fale assim! — gritava Sara para uma Nala resmungona e ocupada em gastar seus palavrões. Nenhuma delas notara a reação da morena; cabeça baixa, olhar fixo ao chão, vermelhidão instantânea e, numa tentativa frustrada de se esconder, o livro aberto a cobrir-lhe a face. Sua mente captava o fervor das palavras ao lado de maneira vaga, surreal, enquanto os passos dos demais adolescentes ecoavam em seus ouvidos. Perguntava-se se poderia escutá-lo nitidamente se prestasse atenção. Mas Brown percebeu a presença dele primeiro.
— JOHN! — foi o berro que nenhuma das duas — Sara e Nala — conseguiu conter. Tiger Lily podia ouvir seu coração, o bombear ensurdecedor em suas orelhas, mas insistia em prosseguir com a leitura do vazio.
Era muita ação ao mesmo tempo para meu cérebro captar, muita informação crucial para me focar. Olho para a rua. Da minha janela vejo um bom pedaço de rua, terminando nuns prédios altos com um morro atrás, uma rua não muito movimentada mas também não totalmente morta, e hoje, que é sábado, mais movimentada que nas outras noites. Era a leitura o meu porto seguro enquanto Sara Brown, que se dizia uma das minhas melhores amigas, pedia a companhia de John Darling por mim. E para mim. Seria loucura demais acertá-la com o livro? Ou mandar uma voadora nela? Porque se ela gostava tanto de falar, poderia conviver com a dor de suas palavras, certo? Eu não tinha forças para fazer tal coisa, claro, menos coragem. Seria pedir demais uma salvadora? Ou, para melhorar não só o meu dia, John poderia ser incrivelmente rude e rejeitar? Parece-me que a segunda solução não se realizou, afinal, além de muito gentil, acrescentou que eu não atrapalharia em nada. Bom, era mesmo criar muitas expectativas de odiá-lo algum dia. Mas, falando sério, eu merecia tudo o que Sara tagarelava? Céus, ninguém tinha piedade da minha pobre alma?
— Aquela não é Fauna? — quis saber Trimble, apontando discretamente para uma menina uma cabeça mais baixa, cabelos negros lisos e rosto simpático. Ela lia uma tabela de horários, como se estivesse perdida apenas dos anos passados na instituição. Atrás dela, um cachorro a cheirava esperançoso.
— Sim. — arfou Tiger Lily, seus olhos brilhando de adoração; a sua salvadora chegara.
— Ótimo! — Nala, aproximando-se de Sara e John — Prazer, Darling segundo! Sou Nalahamed Trimble, tudo bem? Perfeito! Então, eu ouvi você conversando com minha amiga Brown... Você precisa passar na reitoria antes de ir para aula porque precisa de uma dispensa para Educação Física, certo? Ah, então não se preocupe, querido, eu já resolvi o problema de Tiger. Ela vai para aula de Literatura com Fauna. HEY, FAUNA! CHEGA MAIS, LINDINHA! — Nala falava rápido demais, não possibilitando negativas de nenhuma das partes. Fauna aproximou-se dos três, dando um rápido “olá” com as mãos para Tiger.
— Posso ajudar? — prestativa, passava a mão pela cabeça do cachorro que ainda a seguia. Nala encarou o animal.
— Não é permitido cães dentro da escola. — olhou a menina — Eu tenho certeza disso, pois fui do comitê de estudantes contra essa ridícula lei.
— Oh, eu também fui! — exclamou com doçura — Afinal, o prédio foi construindo no habitat deles! Quero dizer, nós é que invadimos. Josh é um protesto direto. — deu de ombros, ainda acariciando o cão.
— Fascinante... — Nala pretendia prolongar aquele assunto não fosse uma cotovelada de Tiger Lily, que se aproximara — Enfim, eu gostaria que você acompanhasse minha indiazinha para a aula. Vocês são da mesma turma de...
— Literatura Global. — completou Tiger Lily, mostrando o livro. A amiga olhou espantada.
— Quantas aulas de Literatura você tem, Tiger?!
— Algumas. Nesse colégio temos a vantagem de escolher quais matérias queremos cursar, objetivando nossas aspirações para a faculdade. — todas as quatro encararam John, que acertava os óculos sobre a ponte do nariz a fôlego que tomava.
— Enfim... — retomou Nala, olhando para o relógio de pulso — Eu tenho aula de Ingestão de Empresas e Grandes Negócios, seguido de Física, Contábeis e Matemática. No horário vago entre Matemática e Sociologia eu vejo se consigo escapar para falar contigo no banheiro feminino do segundo andar, Tiger. Boa aula, garotas! — Nala sorriu, afastando-se com Sara aos seus calcanhares. Via-se que a última estava contrariada, berrando o nível de estupidez de Trimble aos quatro ventos.
— Vamos, pequena Lily? — chamou Fauna, tomando Tiger Lily pela mão. Essa encarou Darling por algum tempo.
Eu queria dizer alguma coisa inteligente, engraçada ou educada. Poderia ser um “ah”, “é”, “huh”, “hum”. Se minha voz saísse, mesmo que gutural, eu estaria feliz. Mas os seus olhos castanhos, tão instigantes e dóceis por trás das lentes, paralisaram todas as tentativas ensaiadas com o espelho ou os improvisos mais fáceis. Nada saía. Então, arrisquei um sorriso desajeitado e fui para a sala. É, eu consigo ser pior que infantil, consigo ser um bebê.
Em seus Paraísos artificiais Baudelaire faz uma grande apologia do vinho e seus poderes, inclusive dizendo de seu poder sociabilizante. Já no conto “Um criminoso” a vodca parece “fortalecer” um desejo de isolamento no narrador, isolamento que o leva a criar um paraíso — um tanto sombrio — artificial. Que paraíso é esse? Discuta com elementos do conto.
Se eu pudesse voltar, teria preferido minha tribo. Nos Estados Unidos eu tinha Peter, dependendo da época do ano que seu pai resolvia aparecer nas empresas. E era apenas Peter Pan e Tinker, quando podia. Ele era o meu amor e eu não sentia constrangimento algum, tampouco via necessidade de mostrar meus sentimentos. Foi só vir para esta terra, longe de todas as minhas tradições, que perdi Peter. Bem, não nessa seqüência, porque Wendy já se transformara musa de Pan, mantendo-o distante de Tinker e de mim. Mas Tinker conheceu Dust. E eu fui presa fácil da insanidade, da carência. A única coisa para tirar o rosto de Darling de minha mente é voltar para casa. Afinal, se pude abandonar meu amor por Peter, por que não por John?
— Leia sua resposta, senhorita Tł\'é\'na\'áí-Yidiits\'e. — pediu o professor, sentado sobre a mesa da estudante mais próxima. Ele era tão elétrico quando dava aula que em qualquer lugar aquietava-se por três minutos.
— O paraíso criado pelo narrador-personagem possui uma clara demarcação temporal, — levantou-se a morena ruborizada, sua voz tremia de vergonha e insegurança quanto ao conteúdo elaborado em meio sua tempestade mental e sentimental — isto é, o sábado à noite, e espacial, o bairro de Copacabana, mais especificamente as limitações do sexto andar de seu prédio (espaço da expiação, quer dizer, de sofrer conseqüências de um mundo marcado por um interminável inventário de perdas). Tudo isso, nos permite ver o diagnóstico da artificialidade da vida contemporânea. Os personagens são seres isolados... — três batidas na porta interromperam a leitura. O professor permitiu a entrada da pequena secretária do diretor Disney. Tiger Lily sentou-se, Fauna tomando-lhe a mão e sorrindo admirada, como se dissesse “grande resposta”.
— A senhorita Tiger Lily Tł\'é\'na\'áí-Yidiits\'e poderia me acompanhar, professor? — todos voltaram os rostos para a menina — É uma ligação urgente. — justificou a secretária enquanto a aluna se erguia e a acompanhava.
Claro, é verdade que eu ansiava por ouvir a voz de papai. Também não vou negar que ansiava por notícias de probabilidades de voltar à aldeia por um tempo. Porém, não esperava o vômito de frases incompreensíveis que seria aquela ligação. Talvez por causa do choque, não pude retornar aos minutos restantes de aula e fiquei chorando no corredor, do lado de fora da sala. Ouvi a porta abrir, mas não ergui os olhos. Nem quando reconheci o tênis azul da pessoa. O tênis...
Estranho é gostar tanto do seu All Star azul
Seu All Star azul combina com o meu, preto, de cano alto
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