Notas iniciais
As lembranças estão em itálico. Boa leitura!

Dois

Karina se trancou no quarto com o rosto coberto de lágrimas. Naquele momento ela sentia como se alguém a tivesse apunhalado pelas costas. Duas vezes.

O que doía mais? A traição da irmã ou do namorado? Talvez ela nunca soubesse responder essa pergunta.

A verdade é que as dores eram diferentes e imensuráveis.

–Como eu pude ser tão estúpida? Eu devia imaginar que tinha algo errado nessa história. Não é como se um guitarrista que canta mal pra caralho fosse se apaixonar por mim do nada. -Ela chorou abraçada ao flux. -Eles devem ter rido tanto da trouxa aqui…

A esquentadinha já engasgava com as lágrimas quando encarou o bichinho de pelúcia. Aquele presente, que antes carregava tantas lembranças boas, havia se tornado a representação da sua estupidez.

–Bando de filhos da puta do caralho! -Ela disse se referindo ao ex e a irmã.

Num rompante, Karina jogou o macaco de pelúcia contra a parede, colocando toda a raiva que sentia pra fora. Em seguida, alguns porta retratos foram quebrados — aqueles que guardavam fotos com Bianca e Pedro, especificamente. Logo a mesinha de canto foi chutada, levando para o chão o abajur, alguns perfumes e enfeites.

–QUE MERDA! -Ela gritava, cegada pelo ódio.

Depois de derrubar quase todas as suas coisas, ela decidiu passar pro outro lado do quarto. Perfumes, maquiagens, cremes e acessórios: tudo foi jogado no chão sem a menor cerimônia.

–A princesinha vai ficar puta, mas eu não me importo. -Ela riu, se sentando na penteadeira. -Aposto que ela ficou aqui, penteando o cabelo e pensando “paguei dois mil reais pro Pedro, eu sou uma ótima irmã”. Vadia!

Ignorando as superstições, ela socou o espelho, despedaçando-o. O sangue não demorou a aparecer, mas ela não se importou.

A dor que ela sentia por dentro era muito maior do que qualquer dor física.

Da cozinha, Bianca escutou os gritos e a destruição, mas não deu um passo pra impedir. Ela picou a cebola e o champignon, desfiou o frango e cozinhou o arroz, dando toda a atenção possível para o jantar.

Talvez se você ignorasse o fato de não passar das cinco da tarde, e ignorasse, também, o choro constante da cozinheira, tudo pareceria estar em ordem. Talvez ela fosse uma boa atriz, afinal.

Quando Gael chegou, acompanhado do lutador favorito, a filha mais velha estava lavando o escorredor pela terceira vez.

–Que cheiro bom! -O mestre comentou. -Está um pouco cedo pro jantar, você não acha, filha?

–Eu estou com fome. -Ela respondeu, ainda focada no escorredor.

–Ótimo, eu estou faminto. Você janta com a gente, Duca? -Gael perguntou, sem entender a apatia da filha.

Nem a presença do namorado fez com que a atriz deixasse a louça de lado.

–Claro, mestre. -O lutador respondeu. -Bi, eu te liguei, mas caiu na caixa postal.

–Meu celular descarregou. -Ela respondeu, dando os ombros.

–Então, hoje eu não vou pra faculdade, daí eu pensei que nós podíamos ir ao cinema, que tal? Depois do jantar, é claro. -Ele sugeriu, estranhando o comportamento da namorada.

Antes que a atriz pudesse responder, uma risada histérica ecoou pela casa.

–Bianca, aconteceu alguma coisa? Está tudo bem? -O pai perguntou preocupado.

A garota fechou a torneira, enxugou as mãos e se virou para o mestre, tentando exibir o seu melhor sorriso, ignorando as lágrimas que manchavam o seu rosto.

–Está tudo bem, pai. -Ela disse.

–O que está acontecendo nessa casa? -Gael perguntou irritado. -Por que você está chorando, Bianca? Cadê a sua irmã?

–Está tudo bem, pai. -Ela repetiu.

Mais uma risada histérica ecoou pela casa, seguida do barulho de vidro quebrando. O mestre não pensou duas vezes e foi para o quarto das filhas, para dar de cara com um dos piores cenários possíveis.

O cômodo estava completamente revirado: dois espelhos quebrados, cacos de vidro espalhados por todo o chão e Karina sentada na cama com as mãos sangrando.

–Meu Deus. -Foi tudo o que Gael conseguiu dizer.

Ele caminhou até a caçula e se ajoelhou na frente dela observando as mãos machucadas.

–O que você fez, Karina? -O mestre perguntou arrasado. -O que está acontecendo aqui?

–Não tem nada acontecendo, paizinho. -Ela respondeu, imitando o jeito de falar da irmã, num claro deboche.

Gael se levantou irritado.

–BIANCA! Vem aqui agora! -Ele ordenou.

A filha mais velha apareceu no quarto, seguida pelo namorado.

–Qual de vocês duas vai me explicar o que está acontecendo? -O pai perguntou rispidamente.

Bianca encarou o chão, sendo observada por Karina. A raiva da esquentadinha era tamanha, que ela não conseguia disfarçar.

–Por que você não conta, Bi? -A irmã sugeriu docemente. -Acho que você, melhor do que ninguém, vai ser capaz de explicar pro papai o que aconteceu.

Todos os olhos se voltaram para a atriz. Relutantemente ela levantou o olhar para Karina.

–Eu sinto muito. -Foi o que ela disse, derramando mais algumas lágrimas.

–Eu também sinto muito. -Karina disse com um olhar assassino. -Eu sinto muito por ser sua irmã, sua vadia egoísta!

Foi por pouco que o punho sangrento da lutadora não acertou Bianca em cheio. Gael foi mais rápido e segurou o braço da filha, impedindo a agressão.

–Karina, não fala assim com a sua irmã! -O pai ordenou. -O que você pensa que está fazendo?

–Eu falo do jeito que eu quiser. -A loira disse, ainda avançando contra a atriz, mas sendo contida pelo aperto do pai. -Eu merecia uma irmã melhor do que você.

–Karina! -Gael gritou.

–Por que você não conta pro pai o que você fez, Bi? -A garota insistiu no falso tom de doçura. -Ele vai ficar muito decepcionado com a princesinha, né?! Quem diria que a perfeita Bianca desceria tão baixo?!

–Do que você está falando? -Gael perguntou para a filha, ainda segurando-a. -Bianca, do que a sua irmã está falando?

–Vai, Bi! Conta pro pai. -Karina incentivou, vendo que a irmã não diria nada. -Conta pra ele como você pagou dois mil reais pra quele guitarrista de merda namorar comigo! Conta pra ele como você armou tudo isso!

–Você fez o quê, Bianca? -Gael perguntou chocado, soltando a filha mais nova.

Karina já não estava mais interessada em bater na irmã. Ela tinha encontrado uma forma bem mais dolorosa de agredi-la.

–Ela comprou um namorado pra mim. Um ótimo presente, não é?!

–Eu não acredito que você fez isso, Bianca. -O pai se pronunciou. -Como você pôde?

–Eu estou me perguntando a mesma coisa. -Karina acrescentou. -Vadia egoísta.

A filha mais velha não disse nada. Ela sabia que nada do que ela dissesse faria com que o pai, ou a irmã, entendesse que ela nunca machucaria Karina deliberadamente. Bianca sabia que estava errada e, por isso, não tentou se justificar.

Diante do silêncio da filha, Gael conseguiu a sua resposta.

–Não, isso só pode ser uma brincadeira de péssimo gosto. -O mestre disse se sentando. -Você não fez isso.

Bianca se encolheu, vendo a decepção que estampava o olhar do pai.

–Eu estou mentindo, Bianca? Olha nos olhos do pai e diz que eu estou mentindo! -Karina desafiou.

–É verdade. -A irmã mais velha respondeu num suspiro, sem conseguir sustentar o olhar do pai e se voltando pra irmã -K, eu já pedi desculpas uma vez e repito: eu estou muito arrependida do que eu fiz, mas não posso voltar atrás. Eu sinto muito.

Alguma coisa no tom de voz da atriz — ou talvez apenas a voz da atriz — reacendeu o ódio em Karina. Mais uma vez ela avançou contra Bianca com um olhar assassino.

–Eu vou acabar com você! -A lutadora esbravejou, mas foi impedida por Duca, que se colocou na frente da namorada.

–K, por favor. -O lutador pediu, finalmente se pronunciando.

–Você sabia disso, não sabia? -A esquentadinha perguntou sentindo as lágrimas escorrendo pelo rosto. -Vocês dois se merecem.

–Duca, tira a Bianca daqui. -Gael ordenou, sem conseguir olhar pra filha mais velha. -Karina, me deixa ver as suas mãos.

Todos continuaram na mesma posição, surpresos com o tom de voz calmo do mestre.

–Pai…? -A atriz começou a dizer, mas foi interrompida.

–Não piora a situação, Bianca. O estrago que você fez já foi o suficiente por hoje. -Gael disse. -Eu vou cuidar da sua irmã agora.

Bianca dormiu fora de casa durante toda a semana. O pai não se importava se ela estava na casa do namorado, da amiga ou de quem quer fosse. Na verdade, Gael mal conseguia conversar com a filha. A atriz estava arrasada com o desprezo da irmã e do pai, mas não reclamou. Ela sabia que merecia tudo o que estava acontecendo.

Dandara disse a ela que o tempo resolveria tudo. A madrasta não concordava com o que a enteada havia feito, mas também não se sentia no direito de julgar. Ela sabia que Bianca amava a irmã mais do que tudo.

Depois de quinze dias, a atriz decidiu que já havia passado tempo demais na casa dos outros. Ela procurou o pai para uma conversa franca, onde ambos choraram muito, mas se entenderam. Talvez Gael nunca mais conseguisse ver a filha mais velha como a princesa que sempre fora, mas ele entendeu que quem precisava perdoar era Karina, e não ele. O mestre tinha o direito de estar bravo, como pai, e por isso deu um grande sermão na filha, mas percebeu que tomar as dores de Karina não era a coisa certa.

–Eu posso voltar pra casa? -Bianca perguntou emocionada.

–Filha, essa casa sempre foi, e sempre será, sua. -Gael assegurou.

–Mas nas últimas semanas… Eu pensei que já não fosse mais bem-vinda.

–A Karina precisava de espaço, e eu admito que precisava também, mas você sempre será bem-vinda.

–Obrigada pai. -A atriz disse dando um longo abraço no mestre. -E a K?

–Dê um tempo pra sua irmã. A Karina está muito magoada, mas vai passar.

Por outro lado, para Pedro, o perdão parecia impossível. A esquentadinha sequer olhava pra ele. Ela passou a ignorar a existência dele, assim como tudo que vinha dela. Até o contato com Tomtom ela preferiu evitar, o que deixou a criança muito chateada.

Para dificultar ainda mais a situação, Gael havia proibido a entrada do guitarrista na academia. Se ele ousasse se aproximar de Karina, os lutadores o expulsariam. Ainda mais agora que ela tinha um novo guarda costas.

Para a infelicidade de Pedro, Ricardo Cobreloa havia aceitado o convite do mestre e agora era mais um lutador de Gael.

(...)

Notas finais
Só pra esclarecer algumas coisas: Duca e Bianca se reconciliaram aqui - não entrei em detalhes sobre como aconteceu porque esse não é o meu foco, o importante é que eu precisava deles juntos para acertar alguns detalhes da história. Só pra deixar claro, eu não vou desenvolver relacionamentos amorosos aqui, então o máximo de Cobra e Karina que vai rolar é amizade, assim como eu também não vou focar em Perina. Bom, acho que é só isso. Se vocês tiverem alguma dúvida sobre algo que eu não tenha deixado claro, é só perguntar. Peço desculpas pela demora, mas é realmente difícil entrar no clima de "Tatame". Precisei ouvir a versão acústica de Chandelier muitas vezes, hahaha. Ah, creio que as lembranças tenham chegado ao fim. Eu sei que o término do capítulo foi bem abrupto, mas é porque no próximo eu já começo voltando pro aniversário da K, que é quando tudo vai acontecer. E por fim, eu fiquei MUITO feliz com os comentários do capítulo anterior, de verdade. Obrigada por isso, por acompanharem e por favoritarem