Tarja Preta

35 Carta de um Suicida.


Edgar estava sentindo uma dor aguda no braço, ou o que deveria ser seu braço antes de ser exageradamente enfaixado por uma enfermeira gostosa. Ele ainda não conseguia tirar da cabeça o modo como encontrou o amigo na noite passada e nem o motivo pelo qual se sentia tão mal por pensar o que aquele motorista bêbado e maluco quase os matou.

— Espero que queime no inferno, seu grande filho da puta! – ele gritou para o homem barrigudo e com cara de cachaceiro que estava do lado de sua maca. Ele suspeitava que aquela cara de fuinha foi o responsável e só desistiu de mata-lo asfixiado com o travesseiro porque não tinha certeza.

— Me perdoe... – murmurou o homem gordo arrependido.

— Vai para o inferno, seu monte de banhas assassina! – respirando e lutando para ignorar o porco bêbado que guinchava, Edgar resolveu abrir a carta que tinha achado junto à borda da piscina. Queria saber exatamente o que aconteceu na cabeça do amigo para tentar se matar novamente.

A quem importar.

Quero que saibam que tudo isso não foi um impulso bárbaro, sem sentido e demasiadamente louco, afinal eu sempre soube que iria morrer. Saibam que pensei em desistir de tudo por vocês, mas há muito tempo venho sentindo esse demônio dentro de minha alma, sugando todas as gotas de felicidade e me mostrando que eu deveria ter morrido há alguns anos.

Por todo o tempo que convivi com vocês, meus caminhos foram escuros e as estradas sombrias, mas mesmo nas sombras em que meu coração sempre viveu, eu conheci a felicidade ao lado te todos vocês. Por isso tentei demasiadamente tirar essa ideia da cabeça e do coração, mas não fui suficientemente forte para segurar essa barra, nem mesmo pelas pessoas que amava.

Sinto muito se os feri, nunca foi minha intenção e de certo modo não espero que entendam de imediato, sei que a morte é dolorosa, cruel e insensível, mas dizem que o tempo cura todas as feridas. Espero que consigam superar a minha ausência e que possam ser felizes, custe o que custar, porque todos vocês merecem uma vida cheia de amor, felicidade e companheirismo.

Peço desculpas a você, mãe. Me perdoe por nunca ter sido o filho que você mereceu, juro que não foi por falta de tentativa. Deveria ter sido eu naquele dia! Talvez assim você ainda pudesse cantar enquanto toma banho, inventar histórias e sorrir. Desculpe-me, de verdade. Papai, você sempre estará em meu coração. Talvez possa ficar feliz por mim, pois de todos nós, serei eu o primeiro a tirar o peso que o destino colocou em nossas almas. E talvez quando as feridas cicatrizarem e a culpa não mais existir, você e a mamãe possam ter outros filhos capazes de serem felizes. E não pense no motivo pelo qual errou... O erro foi meu, todo meu.

Edgar, espero que seja feliz no caminho que escolheu. Sei que você e a Aninha não possuem muito em comum, mas dizem as piores línguas que os opostos se atraem. Continuem se atraindo e cuide dela, assim como sei que ela cuidará de você! Espero não ter estragado o clima do casório, e quero que saibam que eu torço mais que qualquer um pela felicidade de vocês! Espero que cuide do Tripé por mim.

Quanto ao meu corpo, espero que não o torturem com choro, rezas ou velas... Amo vocês, amo mais do que achei ser possível amar qualquer coisa. Estou indo porque não fui capaz de viver. Prefiro morrer a viver com a morte dentro de mim. Sinto muito.

Edgar começou a chorar, mesmo sem saber o motivo para o suicídio, nunca imaginou que o menino se sentisse tão sozinho e triste. Perceber isso somente agora era como uma faca entrando no coração do rapaz. Não pôde ver a carência e o desespero nos olhos do amigo, não pôde sentir a dor que seu sorriso tentava enganar, ou as lagrimas que sempre chegavam em seus olhos durante a noite. Nunca ouviu nenhum grito desesperado, nunca sentiu o peso que armazenava no coração.

— Droga... – disse quando uma outra folha caiu do envelope, estava endereçado a Gabriela.

Quando Jéssica leu a carta em voz alta no corredor do hospital, onde todos passaram a noite desesperados por noticia, as lagrimas jorraram e com os corações pesados, todos tentavam entender o que aconteceu.

— Olá. – disse o médico se aproximando. – São os parentes do Daniel Vasconcelos?

— Sim, como ele está?! – perguntou Sérgio desesperado. As mãos dele tremiam, suavam e ele estava muito branco.

— Ele não está bem. – disse o médico – É um milagre que ainda esteja vivo. Overdose, afogamento e traumatismo crânio-encefálico, seu quadro clinico requer inúmeros cuidados e não posso garantir que ele sairá dessa. Conseguimos desobstruir suas vias respiratórias e lavar o organismo, mas ele perdeu uma quantidade razoável de massa encefálica e agora está em coma... Sinto muito.

— Em coma? – choramingou Sérgio. — Ele pode acordar?

— Vai depender apenas dele. A cirurgia foi delicada, por enquanto seu quadro é estável, mas pode se agravar. Sinto muito, realmente.

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Gabriela recebeu sua carta muito antes de voltar para casa, mas não teve coragem de ler. Ali, deitada em sua cama, resolveu abrir o envelope. Era muito mais fácil fingir que poderia ser tudo diferente se ela fosse capaz de perceber as coisas, ela falhou como amiga, falhou como pessoa e falhou em sua promessa de que sempre estaria ao lado dele.

Para minha garota favorita.

Olhar o titulo fez com que seu coração acelerasse e que seus pensamentos perdessem o foco. Quase conseguiu ouvir aquela voz doce falando, podia sentir até mesmo sua presença naquele quarto escuro e triste. Sempre odiou a letra do rapaz, mas dessa vez ela parecia tão nítida quanto o sentimento que moveu o menino a deixar aquela carta.

Pensei que a despedida seria mais fácil no papel e mesmo depois de tanto tempo guardando meus pensamentos para mim mesmo, eu posso sentir as malditas borboletas batendo assas dentro de meu estomago.

Mesmo sabendo que as palavras refletem os sentimentos, expressam nossos pensamentos mais íntimos e transformam as coisas ao nosso redor, nada, absolutamente nada, tocou tanto minha alma e meu coração quanto a sua presença, seu sorriso e seu afeto.

Provavelmente a palavra amar é muito fraca para descrever o que sinto quanto a vejo desfilando por aí como se o mundo fosse apenas seu e de mais ninguém. Quando percebi que estava se afastando de mim, o mundo deixou de ter resquícios de cores e por vezes achei que nunca mais conseguiria respirar.

Peço desculpas por ter te magoado quando se declarou para mim. Sei que agi de uma forma completamente estúpida, mas eu precisava me afastar. Deixei você ir e não me importei em te ferir, perdão. Eu nunca poderia estar ao seu lado, eu não poderia te completar, pois eu mesmo não estava inteiro.

Sempre estive morto, nunca consegui ser eu mesmo, nunca consegui te mostrar como realmente sou e mesmo assim, você conseguiu me enxergar no meu escudo. Eu precisava morrer... E assim foi feito, espero que não chore.

Não desperdice suas lagrimas comigo, eu não valho tanto assim, guarde-as para alguém especial, alguém que consiga te amar, que consiga te enxergar e que consiga fazer de você bem mais do que um porto seguro.

Não te desejo nada, nem mesmo boa sorte, pois sei que ficará bem, já que é uma guerreira, forte e destemida. Estive observando você por tanto tempo que acredito que já a conheço mais do que a mim mesmo. Eu te amo.

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Sérgio observava o corpo inerte do seu filho com uma certa obsessão. Ele estava muito machucado e conectado a diversos tubos e máquinas, e parecia sentir muita dor. Ele cantou, leu, falou de como Tripé estava triste e de como estava cuidando dos bichos do filho, e falou diversas vezes como o amava acima de tudo.

Paola estava lá também, chegara há poucas horas e parecia ter emagrecido muito desde que recebera a noticia. Ela chorava e arrastava a maldita carta de despedida por todos os cantos do hospital, e ver seu filho daquela maneira mostrava a ela o quanto foi injusta com aquele rapaz.

— Eu fui uma péssima mãe. – murmurou ela quando Sérgio a abraçou.

— Passamos por momentos difíceis... – respondeu ele.

— Não! Eu deveria ser uma mãe melhor, deveria conforta-lo, deveria ajuda-lo a superar... – a mulher olhou nos olhos do ex marido. — Eu estraguei tudo... O culpei por meus erros, o culpei pela morte do Diego!