Tanzaku

14 A Décima Terceira Noite


Notas iniciais
Boa leituuura! E a Kalhens não sabe escrever concubina... Amarulla manda beijos~

Há certas coisas na vida que não dispõem de explicação. Elas apenas são como são e não podem ser questionadas, justamente por não terem respostas concretas. Uma dessas coisas era a cena que se desenrolava ali, nos olhos do cozinheiro predileto da Ordem – predileção essa causada pela ausência de concorrência.

Jerry era uma pessoa de fé, desde criança. Ele tinha fé na Ordem, na paz, sabe? Na manutenção da vida, no equilíbrio. Por que, apesar do Bem ser necessário por causa do Mal, o Bem sempre vencerá. Ao menos, na cabeça dele. Só que, tudo pareceu que seria diferente hoje.

Ao acordar, por exemplo, notou com certo incômodo que seus trajes branquíssimos e limpos estavam curiosamente sujos. Todos. Jerry odiava passar a imagem de um Chefe desleixado, afinal, ele era vital para a Guerra Santa, mas hoje – só hoje – teve de sair com a roupa amarelada mesmo.

Os esfomeados não podiam esperar. Esfomeados tipo Allen Walker, que não precisava estar de saída em uma missão para comer mais do que o necessário. Pois bem!

A segunda estranhice veio ao chegar à cozinha: o estoque de sobá não fora reposto. Isso, em dias normais, já significava caos. Kanda comia APENAS sobá ou, ao menos, na grandíssima maioria das vezes e Kanda irritado era, afinal, Kanda irritado. Algo que se deve evitar... Jerry até pensou em fazer o sobá desde os ingredientes mais básicos, mas demoraria tempo demais em um único prato e os esfomeados tipo Allen Walker, como já fora dito, não podiam esperar.

De repente, bateu-lhe um desespero. Yuu Kanda e Allen Walker no mesmo raciocínio já era sinônimo de, no mínimo, briga. Briga aumentava a raiva deles, a raiva deles aumentava o poder que usavam para se aniquilar e aumentando esse poder, aumentava também os desastres nada-naturais.

Então, foi com certo suor frio que assistiu Allen chegar, impecável e sorridente, totalmente bem disposto – como era de se esperar. Ele emanava tranquilidade e brilhinhos, provavelmente por ter dormido muito bem e também, por não estar em missão. Na cabeça do albino, não-missão é igual a comida. Comida em excesso, comida demais, comida até o talo! Bom, já deu para entender.

A cada passo dado em direção a janelinha de Jerry, o cozinheiro sorria tão amarelo quanto suas roupas. Walker era sempre (sempre) o primeiro a chegar, mais por desespero do que por pontualidade, mas Yuu Kanda sempre (sempre) vinha atrás – mais por pontualidade do que por desespero.

E quando anotou mentalmente os numerosos pedidos do exorcista, começou a fazê-los com agilidade. Talvez, se Allen estivesse cheio quando o outro começasse a irradiar ódio, eles nem fossem brigar com tanta gana assim... Jerry se dedicou muito. Correu por todos os lados, distribuiu em potes, entregou, conferiu o ponto dos outros pratos, arrumou os já cozidos, distribuiu em potes... Era um loop louco, descontrolado devido ao esforço.

Assim, ele respirou fundo de puro alívio quando, finalmente, chegou no último pedido do querido exorcista. Dangos. TimCampy voava ao redor de Allen, brincando com as pilhas de vasilhas sujas. Seu dono, logo abaixo do amontoado de comida, se fartava da maneira que podia (mas não devia): o mais rápido possível.

E o tempo pareceu congelar.

Allen olhou na direção de Jerry, que emanava a aflição suficiente para ver tudo em slow motion. Ele aumentou o sorriso amarelo, desgostoso, apertando discretamente as vestes. Na ponta do salão de refeições, Kanda caminhava em seu silêncio característico e intimidador.

O prato, cheio de dangos dispostos em palitos, foi posto no balcão à espera do albino. Kanda, com a pose de sempre, murmurou palavras sóbrias e profundas – tão roucas quanto a própria voz. Para quem olhasse de fora, parecia algo muito mais sério do que um pedido.

– Sobá. — a única palavra que não podia ser proferida...

– Err.. K-kanda... Eu não queria te dizer isso, sei quais são suas preferências só pelo tempo do nosso convívio diário e tal, mas... — o espadachim esperou, questionando-se porque as pessoas tendiam a falar tanto quando estavam nervosas. Jerry era um homem de confiança, íntegro, não precisava desse discurso desnecessário. — Não tem sobá.

O salão mergulhou num transe. Silêncio se fez em um rompante tão forçado que foi como se alguém berrasse mandando-os se calar. Uma bola de feno passou, assobiando, livre. De repente, os Exorcistas e Finders estavam interessados demais na reação do anti-social de cabelo grande.

– Tsc. — estalou a língua, pegando o primeiro prato que viu disponível e se virou.

Os dangos de Allen Walker.

Lavi, ao fundo, arregalou os olhos verdes. Em um flashback, o pedido de Lenalee há meses atrás veio como um estalo, junto da peripécia dele de modificá-lo, incluindo a palavra “amor”. E foi com certa surpresa, misturada de animação, que o Coelho observou Kanda jogar os dangos – que inclusive, pularam de leve no prato – na mesa do Moyashi, puxar a cadeira do jeito rude que lhe era característico e sentar, fazendo pouco caso.

Os Finders e Exorcistas trocaram olhares duvidosos, sem compreender. Jerry abriu um sorriso luminoso. Lenalee, ao lado de Lavi, notou a ausência de reações típicas.

Ah, você sabe, reações tipo:

– Kanda reclamando.

– Allen reclamando do comportamento de Kanda.

– Kanda se irritando com Allen.

– Allen recebendo um golpe fatal de Kanda, revidando e começando a luta matinal.

– Kanda saindo, depois de tudo detonado, sem comer.

– Allen sentando estressado com uma fome descontrolada.

E principalmente, Allen comendo e comendo... Sozinho. Dividir refeição não era o forte dele, nem com damas. Só fazia por cortesia ou em missões, onde não se recomendava gastar recursos desnecessários. Agora, Allen dividindo comida com Kanda era algo muito estranho.

Tão não-usual que, naquele momento, os presentes souberam que hoje, ah, hoje seria um dia peculiar. O salão, aos poucos, retomou as conversações. O barulho das vozes se misturavam, em uma sintonia desarmoniosa. Os que tinham se levantado para saírem do recinto antes que a briga estourasse, se sentavam de volta.

Na mesa dos esquentadinhos, nada podia-se ouvir. Eles faziam o desjejum, ocupados demais para conversar. A calmaria os envolvia.

E fazia isso com uma soberania tão resplandecente que Lenalee se perguntou, por um momento, quem eram aqueles dois estranhos, comendo confortavelmente em silêncio, de frente um para o outro. Talvez depois devesse pegar a espada exorcista de Allen emprestada. Só pra dar um conferida.

Os encarava tão cheia de espanto que assustou-se quando um golem chamou-a interceptando a conhecia e lamuriosa voz do Nii-san. Komui chorava, desesperado, em plena manhã. O motivo? Fome, frio, abandono, sono e bagunça. Algo assim.

LENALEEEE~~! — ouviu o berro, seguido de reclamações sem sentido. Reever dizia ao fundo que devia deixar a garota acordar e comer em paz. Por falar em “acordar”, aliás, a palavra causou certo frenesi na equipe que tentava-mas-nem-tanto-assim se manter acordada.

Tap mesmo murmurava que, se pudesse dormir agora, não se importaria em virar a noite até o fim da vida. E Johnny ria, baixinho, confuso entre bocejar e concertar os óculos. Lenalee nem precisava estar lá para saber o que se passava na Divisão de Ciências.

– Hai, hai, nii-san! Vou montar a bandeja e já chego, sim? — sorriu pro golem, sabendo que estava sendo ouvida por todos do outro lado. Ouvida e admirada, como uma Deusa Do Café Inabalável que era. Só Lenalee para convencê-los de continuar na ardilosa guerra contra as necessidades humanas... A equipe comemorou, fraca, enquanto Reever dizia coisas sensatas.

O Encarregado era o único em sã consciência presente, contrastando tão bem com um certo irmão que concordava e chorava e se recusava a continuar naquele mar de papel e homem fedido e...

– A Divisão, como sempre, dramática! — Lavi, ao lado da moça, comentou com um riso fácil nos lábios.

– Ahh~ — Lenalee sorriu, entre suspiros e olhares carinhosos – você também não aguentaria passar uma semana sem dormir~ — o ruivo sorriu.

Realmente, não conseguiria. Lavi era do tipo que se encontra antes dormindo dependurado num beliche a virando a noite. Mas não era só esse fato que o fazia sorrir. Sentiu-se quente, de leve, nas bochechas. Miranda, de frente para ele, desmanchou-se em sorrisos amorosos. Ela parecia, de alguma forma, torcer pelo quase casal.

– Ah, mas se eu realmente precisasse ficar uma semana acordado você também levaria café para mim, né? — as moças riam com ele, Miranda brincando que poderia o fazer companhia, já que ficar sem dormir era sua especialidade.

– Bom – Lenalee começou, levantando e batendo nas coxas para se ajeitar – vou indo. Tenham um bom dia, Lavi, Miranda! — saiu do banco, pegou a bandeja vazia e caminhou em direção aos próprios afazeres. Lenalee conseguia ser uma mulher interessante, se você pensasse pela perspectiva de Lavi.

Se fosse pela de Kanda, porém, talvez a palavra “irritante” encaixasse melhor. Afinal, ela fizera questão de passar na mesa dos esquentadinhos para cumprimentá-los – e foi devidamente ignorada pelo apreciador de sobá.

Allen ainda teve que tomar o posto de irritante para si e vestir aquele tosco manual de cavalheirismo que vivia tentando passar pro moreno, implicando consigo, chamando-o de “Bakanda” e todo aquele papo.

Acabou que, no fim, Lenalee sentiu-se meio culpada por estragar o silêncio, que fora posto de lado com discussão sem fundamento algum que começara entre os dois, e saiu. Mas não pode deixar de sorrir a banalidade daquela discussão.

Nenhum deles parecia disposto a começar uma briga séria, permanecendo apenas nos insultos fracos e áurea assustadora.

“Yare, yare, esses dois...” pensou Lavi.

De alguma forma estranha e distorcida, o dia parecia bem mais normal e completo quando ouvia a voz grave de Kanda soltar um “Moyashi!” carregado por aí, do jeito que só ele sabia.

–--//---

Lenalee sorriu, pela tricentésima vez do dia.

Porém, dessa vez, não fora um sorriso meigo, bonitinho ou até realmente carinhoso. Estava mais para irritado. Cansado, estressado, até mesmo desanimado.

Uma carga de pensamentos e emoções invadiu a mente da chinesa, deixando-a desconfortável. Então, fingindo que iria conferir as listas que Komui pediu que desse uma olhada, saiu da sala. Deu pequenos passos, que mais se assemelhavam a corridinhas e mergulhou no imenso corredor da Ordem.

Suspirou, abaixando a prancheta até a barra da saia. Não sabia por que tantas coisas sem sentido começaram a perturbá-la... Talvez, só talvez, tivesse conexão com certo homem de sobrancelhas expressivas. Não, ele não apareceria por lá. Ela só... Só se pegou afundando nas memórias mais uma vez, ao ter que ouvir a conversa do irmão com ele pelo telefone.

Certo, estava segurando as pontas com uma força surreal. É, estava sim, mas não lhe faria mal meditar um pouco. Assim, só para relaxar e se concentrar melhor nos afazeres... Então ela caminhou, quase certa de si, em direção a sala de meditação.

Provavelmente encontraria Kanda lá e ele, provavelmente, jogaria na cara coisas que ninguém seria capaz de jogar – por pura falta de habilidade em lê-la. E assim, andando sem pressa, chegou ao lugar desejado. Ignorando a responsabilidade que Komui havia a dado, ignorando a vontade de sorrir quebrada e de fingir que estava tudo bem.

Porém, ao chegar perto, ela ouviu algo que só provava sobre este ser um dia, no mínimo, diferente.

– É nessa posição, Kanda? — a voz de Allen vinha abafada pela porta, a casualidade da pergunta não deixou de fazer se aproximar mais da porta.

– Sim – e o espadachim respondeu. Sem insultos, sem “Moyashis” ou escárnio. Na cabeça de Lenalee chegou a imaginar uma dose de boa vontade.

– Você disse que seria desse jeito... Mas, né, nunca vi outro – Allen devolveu, parecendo tranquilo. Lenalee podia ouvir o som... Aquele som, sabe? De gente se ajeitando. Talvez Allen só estivesse sentando de outro jeito numa almofada, oras. Oras.

– Existem várias posições.

– Tá doendo, está ruim de sentar.

– E eu com isso?

– Ué, foi você quem disse que assim doía menos... Acho que podia pelo menos assumir a responsabilidade...

– Tsc.

– Não sinto minhas pernas!

– Cala a boca Moyashi! Bota isso aqui e fica quieto.

– Como isso é diferente do que a gente estava fazendo antes?

– Só fica assim.

– Ei, ei, larga a minha perna. Ah, assim? É, realmente, mais confortável... Espera, e você está fazendo o que com seus dedos?

E o que se seguiu foi silêncio. Ela, a princípio, pensou se tratar de um silêncio grosso, pesado e provocativo, mas Allen não reclamou. Do outro lado da porta, a voz dele se resumiu a grunhidos fracos que não custaram a desaparecer.

Lenalee não notou, mas passou mais de vinte minutos lá com o ouvido colado na porta. Descarada mesmo, apreensiva e muito curiosa, além de vermelha, quase disposta a entrar e conferir a cena com os próprios olhos! Era... Diferente. Ela não sabia dizer como, só era.

Kanda foi curto, como de praxe, mas não fez nada, além disso. E Allen não parecia estar o irritando, a julgar pela atmosfera tranquila que sentia emanar do lugar. Parecia equilibrado, estável. Como se, daquela forma, fosse o correto para os dois. Ali, em silêncio, juntos.

Lenalee pensou, por um momento, que Lavi estava certo. Allen via Kanda como amigo, só não conseguia externar isso – em grande parte, por culpa do espadachim. Agora, naquele momento tão frágil e poderoso, parecia que eles sempre souberam da relação que tinham. Sempre souberam e nunca precisaram anunciar. Como num truque, a fim de manter em segredo algo por demais preciosos para ser externado em frases sem sentido.

Sentiu-se esquentar por dentro. Era como se seus pedidos fossem atendidos... Ela conseguia ver, no futuro, a possibilidade de todos seus amigos divertirem-se, em casa, na mais complexa e gorducha paz. Sabia se tratar de uma ilusão, visto que a Guerra Santa era mestre em espalhar bolhas de esperança só para ter o prazer de estourá-las depois, mas não pode deixar de sorrir. Ela não esperava que as brigas cessassem.

Allen e Kanda eram assim, contrários, mas se encaixavam bem demais. Sempre teria atrito, fagulhas. Resquícios. E Lenalee gostava de pensar assim, por que eles faziam parte da sua casa. Sua doce e importante casa.

Foi com esse tipo de distrações em mente que a Exorcista abriu a porta, devagar, com cuidado para evitar barulhos que entregassem a própria presença. Pôs a cabeça para dentro, toda cheia de dúvidas, encarando de uma vez o que diabos faziam.

E admirou a bela cena. Kanda, sentado no lado esquerdo, meditava de olhos fechados e expressão emburrada. Allen, do lado direito, parecia um pseudo-reflexo falho do espadachim, exceto pela ausência de irritação no rosto. Ela sorriu encantada.

– Que é? — Kanda soltou certeiro, atravessando-a. Lenalee sentiu-se congelar, pega no flagra.

– HEEEH? — engoliu em seco.

– É, Lenalee. Você precisa de alguma ajuda? Está atrás da porta por tanto tempo... — e ela enxergou, nos cristalinos recém-abertos, um sentimento acolhedor. Quente, confortável como uma xícara de chocolate no frio.

– A-arh... N-nada, não. Eu já vou! — se virou, correndo atrapalhada com a prancheta sendo posta com força contra o busto. Ficou envergonhada, martirizando-se mentalmente pela atitude intrometida.

Os passos diminuíram, pouco a pouco... Apoiou na parede, os olhos desfocados. Os cristalinos de Allen a intrigara. Haviam sentimentos ali, tão complexos e fortes que, por um momento, confundira as coisas. Por um momento, não os considerou amigos.

Por um só momento, viu algo estranho. Indefinido, meio confuso e deformado. Algo maior que amizade, mas ainda sem nome. Suspirou, balançando a cabeça.

Estava vendo coisas demais.

Notas finais
OS BASTIDORES DO CAPÍTULO: A: ''Sinônimo de amantes = concubinas'' K: Eu quero isso no capítulo. A: Você quer o que no capítulo? (Concubinas) A: A gente tá transformando a Lena de Provável Couple do Kanda a Fujoshi Yullen. K: Você está. Não fui eu que botei ela olhando pros dois sentados quietos e viu duas concubinas. A: Arranja umas notas. K: Acho que vou falar sobre Free! A: Não. K: :c (Ninguém me deixa falar de Free!) K:... Nós precisamos de mais capítulos. A: Concordo. (Mas como a Amarulla me proibiu de voltar pro fandom MelloNear enquanto não terminássemos Tanzaku, esse será o último, beijos) K: Achei essas notas. Elas já tem capítulo? *cinco minutos depois * Podia mudar a da mesa pra essa....Oi? Amarulla? Por favor, só me diz que esse seu sumiço repentino NÃO TEM A VER COM A TUA KATANA. A: Não tem a ver com a Katana. Fui tomar banho. (Kalhens precisou de 14 minutos sem resposta para entrar em pânico. Me diz pq diabos teria a ver com Katana.) A: Ah, faz um comentário sobre o retorno de DGM. K: ''Pra quem não viu, DGM volta esse mês''. FATOS ALEATÓRIOS DO DIA: 1- A Amarulla tem uma katana de Bleach com fio. Essa porra corta (Sode no Shirayuki. Grata). 2- A Kalhens não gosta muito da Lenalee (Kalhens, inclusive, nem sabe escrever Lenalee). 3- Valrave the Liberator teve o Character Design feito pela Katsura Hoshino. Procurem pelo L-Elf. 4- K e A são casadas e o convite de casamento tinha o Tim e o Golem do Kanda com gravatinhas borboleta.