Tanzaku

17 A Décima Sexta Noite


Notas iniciais
Boa leituuura~

– Oh, o Moyashi está me desafiando? Sabe que não tem como ganhar de mim na espada.

– Quer apostar?

Kanda se colocou em posição no momento em que via um outro saquinho de areia voando na sua direção.

A areia explodiu em azul quando acertou a bolinha com a espada, tampando sua visão por tempo suficiente para que Allen aparecesse atrás de si, pronto para lhe acertar um chute na dobra de seu joelho.

Kanda teria ido ao chão, não fossem seus estranhos instintos de besta que pareciam funcionar particularmente quando o Walker estava envolvido.

A lâmina de madeira desceu certeira seguindo um volteio do corpo, pronta para se enfiar pelo tronco daquele projeto de feijão, mas acertando uma terceira bolinha — a areia amarela entrando nos olhos do espadachim.

O que Kanda tinha de instintos e de experiência de batalha, Allen compensava na agilidade e nas dobras de corpo que afiara no circo. Não demorou muito para que as espadas fossem deixadas de lado e a coisa virasse uma pancadaria de beco, com socos, puxões de cabelo, chutes no estomâgo. Essas coisas.

Se alguém passasse por ali não ia nem estranhar. Eles eram assim mesmo, pareciam dois bichos, eternamente se estranhando e disparando faíscas à toa um contra o outro.

Agora, se uma pessoa de passagem resolvesse esperar para ver o fim do ''treino'' — coisa que podia tomar várias e várias horas já que aqueles imbecis nunca cediam – teria uma estranha surpresa: Não só um Kanda multi-colorido e um Allen semi-colorido por causa contato físico não intencional e inevitável, mas um Kanda deitado na areia. E um Allen deitado do lado.

Os dois em silêncio, tentanto retomar o fôlego.

– Hum... Kanda?

Sem resposta. De certo modo, o silêncio era um bom sinal.

– Eu queria pedir desculpas por hoje mais cedo. Aquilo foi... Desnecessário. Quer dizer, você tem todo o direito de não querer falar do seu passado e.. É.

Ainda sem resposta. Em parte, ainda um bom sinal, tendo em vista que Kanda ainda estava ali, mas Allen estava começando a ligar progressivamente menos para o fato.

– Você escutou o que eu disse? Ei, Kanda?

– Eu escutei, agora cala a boca.

– Você podia pelo menos dizer algo como ''aceito seu pedido de desculpas'', sei lá. Não ia te matar, sabe?

– Pra quê?

– Educação básica? Cortesia?

Kanda se sentou, deixando mais do que claro sua opinião sobre aquele tipo de coisa.

Allen suspirou. Havia desistido oficialmente.

– Ah, me sinto um estorvo.

– Vai embora então.

– Incapaz do jeito que é até para aceitar um pedido de desculpa, já vi que não vamos conseguir nada por aqui!

O moreno encarou-o, carente de expressão. A fala de Allen não fizera sentido algum em sua mente.

– Eu preciso? — perguntou, por fim. O tom sério, mas ao mesmo tempo, quase tranquilo.

– Hã? — Allen encarou-o, questionando-se da demência alheia.

– Eu preciso conseguir algo aqui Moyashi? — Kanda soltou, meio rápido. Talvez estivesse começando a se irritar com aquela conversa sem sentido, talvez só quisesse encostar a cabeça na pilastra atrás de si

– ... Onde você quer chegar? — encarou-o novamente, notando-o confortável sentado no chão. Kanda de olhos fechados dava aos perolados a oportunidade perfeita para analisá-lo sem gerar brigas. Claro, por que Allen prosseguia tentando encontrar algum sinal de demência refletida na expressão do outro. A sobrancelha arqueada só reafirmava sua tese.

– Só quero ficar aqui sem conversinhas idiotas. — o moreno respondeu de qualquer jeito, como se estivesse dando de ombros para os questionamentos intermináveis do branquelo.

– Como assim? Ora, o incrível espadachim temido pela Ordem só está seguindo os próprios instintos e abrindo a guarda perto de mim? — e Allen vestiu o lado negro, sentindo-o despertar em meio ao sarcasmo e as alfinetadas.

– É.

– Está se complicando Kanda. Quer dizer que se sente confortável perto de mim? — um sorriso de poker até traçaria os lábios do Walker, se ele não estivesse preocupado em disfarçar o próprio jogo.

– Por aí. Não força a barra Moyashi. — mais uma vez, a sinceridade do moreno veio, simples e direta, para derrubar qualquer trapaça. Se Kanda não fazia questão de esconder ou negar, então não tinha sentido destilar frases de múltiplas leituras. Ahh, chato.

– Por quê? — Allen, repentinamente frustrado, só perguntou. Sem a menor pretenção de querer de fato saber ou, sei lá, algum motivo forte por trás. Apenas saiu. Estava desarmado frente a transparência alheia.

Poker é brincadeira de mentirosos, afinal.

– Mas que merda feijão! Isso importa? — a veia pulsou, irritada. É, sincero demais...

– Claro que importa! Que droga, por quê você fica dando brecha a interpretações... Complicadas? — Kanda se remexeu, a cara fechada num pedido mudo para que o falatório acabasse.

Aproximou-se do albino, meio rude, tascando-lhe um beijo de língua. Assim, do nada, calando-o no maior estilo. Segurou a nuca dele, prosseguindo com o ato. Não o deixaria escapar até ter certeza de que aquele idiota não desatasse a falar.

Sentiu as barreiras de Allen se desmanchando, escorregando pelo interesse no ósculo. As mãos dele encontraram o pescoço de Kanda, envolvendo-o, puxando para si num gesto óbvio de aceitação.

Kanda apreciou a simplicidade presente na cena, tão rara em Allen. Não havia máscaras, doutrinas e ideologias, nada complicado ou farsante. Suas mãos desceram pelo corpo do albino, enterrando-se no quadril só para fingir que iria se comportar.

Allen, porém, interrompe seus planos ao afastar-se um pouco.

– Por que você sempre me interrompe com um beijo? — a respiração um pouco falhada bateu no rosto do moreno. Os olhos negros analisaram as bochechas róseas pela surpresa do feito.

– É um saco ouvir tanta ladainha. — e soltou, pensando em largá-lo. Estavam de frente um para o outro, sentados. Próximos.

– Então se eu falar muito você me interrompe mais? — Allen retrucou, fingindo parecer pensar. Sua expressão era de quem descobrira a cura dos akumas.

–... Moyashi oferecido. Tsc.

– Não entenda errado bakanda! Descobri uma forma de você não me beijar mais. — ele corrigiu o mal entendido, realmente disposto a por em prática!

Era o fim dos seus problemas, afinal. Sem beijo, sem Kanda fazendo-o sentir calor, sem sensações difíceis de domar e sem... Gemidos.

É uma ótima ideia.

O moreno ficou em silêncio, esperando que Allen completasse.

– É só eu não falar! — e Kanda mordeu a língua, virando o rosto pro lado numa expressão descrente. A verdade é que ficar num ambiente fechado com um silencioso Allen só dava margem para... Mais beijos.

Bom, deixa ele se iludir um pouquinho.

E a ausência de barulho permaneceu. Kanda olhou para o albino de esguelha com uma sobrancelha arqueada, Allen devolveu e ele, em resposta, deu de ombros. Dane-se.

– ... — suspiro — Kanda, não, sé- e o beijo recomeça, afoito.

Allen só queria dizer “Não, sério, pode ir embora!”. Não se sabe se foi inocência do branquelo ou uma forma não comprometedora de conseguir o que queria.

Lembrem-se quem era bom com blefes ali.

Kanda só seguiu os instintos, totalmente determinado a impedir qualquer tentativa alheia de fala. Ainda mantendo o beijo, aprofundou-o, ouvindo um resmungo indeciso do outro. As mãos viajaram pelo corpo a sua frente num questionamento mudo. Ele trazia Allen para seu colo ou o deitava no chão? E enquanto raciocinava em ritmo de tartaruga, o albino ajudou a encontrar a resposta.

Partiu o beijo, um sorriso malicioso despontando dos lábios. Subiu no colo de Kanda, ferino, pondo cada perna de um lado. As coxas chamaram a atenção do espadachim, que logo as apalpou. Allen, acima dele, olhava-o de baixo com os braços apoiados sem compromisso nos ombros do mesmo.

– Nee, Kanda... Você está todo manchado...

– E daí? Você também está, depois do que fizemos.

– Essas tintas foram feitas pelo Jhonny, lembra? — um brilho de entendimento perpassou pela cabeça do espadachim. Sorrindo malicioso, apenas concordou com um manejo discreto.

Girou-os e deitou Allen, deixando-se guiar pela movimentação natural dos corpos. A blusa cheia de rasgos do albino, aos fiapos, exibia pedaços de carne coloridas. Coloridas e cheirosas.

Apetitosas, diria. Cada uma com um sabor diferente, criado artificialmente para atrair um certo maníaco robô viciado em cozinha e coisas estranhas.

Aproximou-se do pescoço albino, respirando próximo. Os pêlos eriçaram, conforme sentia as mãos sujas de vermelho subindo-lhe a camisa maltrapilha. Uma mancha discreta, azulada, despontava do pescoço em direção a clavícula de Allen.

– Sabe o gosto da azul? — Kanda o encarou, erguendo um pouco o rosto. A expressão levemente perdida do albino o atiçando.

– Não... Nem vejo sentido terem sabores.

E Kanda concordou, a língua logo encontrando a pele arrepiada num chupão deliciosamente provocante. Allen suspirou, as mãos segurando com força cada braço do espadachim. O cabelo esbanquiçado enterrou na areia fofa, bagunçando-a, junto da sensação úmida que o preenchia e... Excitava.

Kanda despertava coisas terríveis em si quando queria. Era uma baita desvantagem.

Engoliu em seco, mordendo o interior da bochecha. Discreto, tentava inserir grandes poções de oxigênio nos pulmões, assim, como se não estivesse com dificuldade para manter a respiração intacta. Mas estava, sim.

Principalmente com aqueles lábios cruéis contornando sua clavícula.

– Blueberry. — o moreno soltou, fazendo pouco caso.

Allen riu, a mão descendo do braço alheio só para erguer a própria blusa. O dorso nu, exposto, repleto de marcas confusas chamou a atenção dos negros.

– Talvez tenha mais sorte da próxima vez Kanda... — sim, era perigoso ensinuar-se daquele jeito ali. Se tivessem azar, Komui estaria assistindo a cena toda pelas câmeras que tinham em cada sala de treinamento. Se tivessem ainda mais azar, a areia já havia chego em lugares obscuros também.

Se fossem dois amaldiçoados, porém, até Lavi poderia surgir com Anny nos ombros só para enfernizá-los.

Só que, convenhamos: Há situações que merecem o risco.

Kanda lambeu a pele por cima das costelas, pouco importando-se em ser flagrado. Logo abaixo do mamilo, tiras amarelas pintavam o pálido tecido. Os espasmos de Allen aumentaram, graciosos, conforme prosseguia na luta interna entre disfarçar as consequências que tais ações resultavam em si.

E apesar de esconder os gemidos, enterrava as mãos nos longos cabelos negros empurrando-o para o próprio corpo. Apesar de conter um pouco a vermelhidão nas bochechas, o membro dava sinais vergonhosos de atividade.

Eram sensações baixas. Voluptuosas, carregadas de coisas sujas...

Kanda pôs-se entre as pernas separadas, sentindo o próprio membro pulsar entre as atitudes imprudentes de Allen. Suspirou, tentando manter o mínimo auto-controle.

Abandonou o dorso avermelhado e arfante do albino, pecaminoso, seguindo para o ouvido do mesmo. Mordiscou, com certa violência, despejando a voz arrastada e baixa como um gemido.

– Limão.

Com aquela voz, mesmo que ele dissesse “preciso de soba” arrepiaria Allen. Insanamente.

O albino puxou-lhe pela nuca, enfiando-se sem cuidado na boca de Kanda. O beijo começou intenso, os corpos roçando-se com óbvia malícia e indiscrição. Um filhete de saliva escorreu, discreto, fugindo da velocidade daquele contato bruto.

Um gemido tórrido explodiu na garganta de Allen, ainda dentro do beijo. A mão de Kanda, audaciosa, perdida entre as calças folgadas dele.

Allen partiu o beijo, ambos ofegando. A mão no rosto dele foi puxada para frente, em direção aos lábios albinos.

– Algo me diz que a vermelha é doce. — completou, mordendo os dedos do moreno. A expressão igualmente perversa, a atmosfera transformando aquela atitude numa provocação irresistível.

Quando Kanda se aproximou, mais uma vez hipnotizado pela baixaria alheia, os lábios estavam sujos do mesmo vermelho que pintava seus cabelos. E uma voz, nem tão distante, despontava próxima demais da entrada da sala.

Rompendo a enorme porta com um sorriso travesso nos lábios, estava o Bookman Jr. Berrando, cheio de bolinhas coloridas em mãos, extremamente tentado a acertá-los em cheio.

– OH-HOOO~ VAMOS BRINCAR, YUU NO PATSU! ESPERE POR MIM MOYASHI!

Uma veia estourou na testa de Allen.

– NÃO É MOYASHI, BAKA-LAVI!

– Oe, Usagi...

E então, o ruivo pode notar como a situaçõa estava complicada entre os dois Exorcistas.

Aqueles ali, deitados na areia, com as roupas tortas manchados pelas três cores. Kanda segurava um pé do Allen, próximo ao rosto, enquanto sentia a mão albina enrolada no cabelo longo. Os dedos livres do espadachim pressionavam o pescoço agora vermelho, ao mesmo tempo que Walker parecia se debater e xiar.

Completamente sujos, embolados e descompassados. Lavi via arranhões para todos os lados, mistura de cores, marcas roxas de socos e pontapés...

Uma gota desceu, pesada, pela cabeça ruiva. Engoliu em seco, pensando mentalmente como eles podiam ser tão cruéis juntos.

– Oe oe, vocês dois...?! — se aproximou, as mãos rendidas. As bolinhas no chão em protesto pela paz.

– Tsc. — Kanda soltou, tirando as mãos alheias de si. Estava em cima de Allen, mas aparentemente, Lavi não absorvera esse detalhe.

O albino o empurrou, num sorrisinho tosco enquanto dizia que estava o ajudando a sair de perto. Quase voltaram a discutir, se não fosse pelo ruivo intrometido.

– Cara, sério: como conseguem levar tão a sério o treinamento dos Finders?! Argh, meu...

Allen reclamou, Kanda se levantou e pegou a Mugen apoiada em algum canto. Por um milésimo de segundo, trocaram um olhar de entendimento: Lavi não percebera nada.

Com um suspiro aliviado, o albino disfarçou o volume alto nas calças acertando o ruivo de amarelo. Correu, se esquivou e recomeçou a brincadeira, dessa vez sem malícia alguma.

Ou, ao menos, não até acertar na nuca de um Kanda que saia quase tranquilamente pela porta. Azul.

– MOYASHI!

E lá vamos nós.

Notas finais
Dessa vez não temos notas finais, mas um aviso: a fic está próxima do fim. E quando dizemos próxima, é próxima mesmo~ Até! :3